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O Maior Problema das Escrituras









O dicionário Webster define a palavra “dilema” como uma “situação envolvendo uma escolha entre alternativas igualmente insatisfatórias” ou “um problema aparentemente incapaz de ser satisfatoriamente solucionado”. Tudo o que eu quero fazer é lançar um dilema, uma pergunta a ser respondida no próximo capítulo. Nossa questão está no livro de Provérbios, no qual encontramos o maior problema filosófico e teológico da Escritura, de modo que você poderia dizer que a Bíblia inteira é sobre isso – ou seja, se você não compreende esse ponto, você não entende a Palavra e não entende o próprio evangelho.

O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro. (Pv 17.15)

“Abominação” é provavelmente a palavra mais forte que temos em toda a Escritura. Não há nada mais horrível diante de Deus do que uma abominação – ao pé da letra, algo odiável. O que é odiável e abominável a Deus, segundo esse texto? Justificar o perverso e condenar o justo – ambas as atitudes são odiáveis a Deus.

Porém, o que diz o versículo 24 de nosso texto principal? “Sendo justificados”. Deus nos justificou, mesmo sendo nós um povo injusto, como vimos no primeiro capítulo. Qual é o problema aqui? Qualquer um que justifica um homem perverso é uma abominação a Deus, mas nós estávamos, há pouco, nos regozijando no fato de Deus nos justificar, mesmo sendo nós homens perversos! Se Deus disse que qualquer um que justifica o perverso é uma abominação diante Dele, então como Deus pode justificar você, que é perverso, sem se tornar Ele mesmo uma abominação?

Ora, se Deus não pudesse perdoar o iníquo, todos nós pereceríamos, porque a Escritura declara que “todos pecaram” (Rm 3.23), que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23) e que “a alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4). Mas Deus nos justifica, e já vimos isso! Como Deus permanece justo? Esse é o maior problema em toda a Escritura e é esse todo o assunto que permeia o evangelho de Jesus. O maior dilema em toda a Bíblia é este: Se Deus é justo, Ele não pode perdoar você. Deus não pode tratar ímpios e justos do mesmo modo. “Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25).

Alguém poderia perguntar por que Deus não pode simplesmente perdoar o pecado do   homem e estar bem com ele. Ora, se a Escritura nos ordena a perdoar livremente, então por que seria errado para Deus fazer o mesmo? Existem três respostas a essa pergunta.

Em primeiro lugar, Deus é um ser de valor infinito. Mesmo a menor forma de rebelião é um crime grotesco contra a Sua pessoa, um crime de alta traição, um ataque contra a própria ordem da criação. É digno da pior censura. Não é possível ignorar o ocorrido apenas com um tapinha nas costas.

Ao defender a justiça de um inferno eterno, John Piper nos lembra de que:

“a gravidade do pecado origina-se do que ele diz acerca de Deus. Deus é infinitamente digno de ser honrado. Mas o pecado diz o oposto. O pecado diz que existem coisas mais desejáveis e mais dignas. Até que ponto isso é grave? A gravidade de um crime é determinada, em parte, pela dignidade da pessoa e do cargo que está sendo desrespeitado. Se a pessoa for infinitamente digna, infinitamente ilustre, infinitamente querida e ocupar um cargo de infinita dignidade e autoridade, rejeitá-la é um crime infinitamente ultrajante. Portanto, merece um castigo infinito. A intensidade das palavras de Jesus acerca do inferno não é uma reação exagerada a pequenas ofensas. As palavras de Jesus são um testemunho ao infinito valor de Deus e à desonra ultrajante do pecado humano”[1].

Jonathan Edwards também desenvolve essa ideia:

“O crime de alguém em desprezar e lançar desonra sobre outro é mais ou menos infame na proporção da maior ou menor obrigação desse alguém em obedecer ao desonrado. Consequentemente, se houver algum ser que temos obrigação infinita de amar, honrar e obedecer, o contrário concernente a ele deve ser  infinitamente censurável. Nossa obrigação de amar, honrar e obedecer algum ser está em proporção com sua amabilidade, honradez e autoridade. [...] Mas Deus é um ser infinitamente amoroso, porque ele tem excelência e beleza infinitas. [...] Portanto, o pecado contra Deus, sendo uma violação de obrigações infinitas, deve ser um crime infinitamente infame e, assim, merece punição infinita. [...] A eternidade do castigo de homens incrédulos torna-a infinita... e, logo, faz com que não seja mais do que proporcional à infâmia daquilo de que são culpados”[2].

Um ato de injustiça tão grande sendo cometido contra um Ser tão santo não pode simplesmente ser varrido para debaixo do tapete. Em segundo lugar, Deus é justo, e o Seu amor é um amor justo. Deus não pode amar injustamente, assim  como Ele não pode amar a injustiça. Não há contradição no caráter de Deus. Ele deve ser ao mesmo tempo justo e amoroso, e não pode ser um à custa do outro. Às vezes, eu ouço evangelistas dizerem coisas como: “Deus poderia ser justo com você, mas, ao invés de ser justo, Ele foi amável”. Você sabe o que isso significa? Que o amor de Deus é injusto. Você percebe isso? As pessoas dizem muitas coisas estúpidas: “O grande amor de Deus por você O fez ignorar Sua própria justiça e pecar para salvar você”.

Esse é justamente o problema: como Deus pode ser justo e, ao mesmo tempo, o Justificador de homens pecadores? Imagine o seguinte: estamos 500 anos atrás, e eu sou um escravo na Espanha. Naquela época, a punição para escravos que roubassem era a morte. Essa era a lei. Isso é o que a lei dizia. Se você rouba, você precisa morrer. Eu sou um escravo ladrão que havia fugido, e sou finalmente capturado pelo meu amo, meu mestre. Existe uma nuvem de testemunhas do meu crime e é inegável a minha culpa. Então, sabendo do meu destino, eu caio sobre meus joelhos e clamo: “Seja propício a mim. Seja misericordioso!” O que você diria acerca disso? “Bem, agora eu acho que o mestre deve fazer uma escolha pela vida do escravo”. No entanto, nós temos um problema. A lei cobra minha morte. A justiça pede que eu morra. O que está acontecendo é que eu estou pedindo a meu mestre que desobedeça a lei, feche os olhos para a justiça e me deixe seguir com meu pecado. Ora, se vivemos em uma sociedade que não consegue sequer suportar essa tensão no reino dos homens, como entenderemos completamente como esse mesmo ponto se relaciona com o Reino dos céus, no qual a justiça de Deus cobra a nossa morte?

Olhe para a nossa cultura. Ela não é atualmente baseada na justiça, concorda? Nós sequer lemos os livros antigos sobre as leis! Eu duvido seriamente que qualquer candidato à presidência esteja lendo a Lex, Rex de Rutherford[3]. Veja, nós somos um povo de lábios impuros. Bebemos iniquidade como se fosse água. Como o povo de Nínive, nós não sabemos sequer diferenciar a nossa mão esquerda da direita. E mais, ainda existe algo  muito importante a ser considerado: Deus deve ser justo não porque existe alguma lei acima Dele, à qual Ele deve conformar-Se, como algum tipo de lei universal de justiça que Deus não pode quebrar. Não é isso que a Bíblia ensina. Deus deve ser justo porque Ele é justo. Deus deve ser consistente com quem Ele é. Ele é um Deus justo. Ele não pode cometer injustiça nem mesmo em nome do amor. O amor de Deus é santo, o amor de Deus é justo. Então a pergunta continua a ser: como Deus pode ser justo e justificar o pecador?

Em terceiro lugar, Deus é o juiz de toda a terra. É o seu dever garantir que a justiça seja feita e que o mal seja punido. Não seria adequado para o Juiz celestial perdoar o ímpio mais do que seria para um juiz terreno perdoar o criminoso que está diante dele em um tribunal de justiça. Não é nossa queixa frequente que nosso sistema de justiça é corrupto? Não ficamos irados quando criminosos culpados são libertos? Será que devemos esperar menos justiça de Deus do que exigimos de nossos juízes?

Deixe-me dar um exemplo. Você deixa sua família em casa para trabalhar e, quando retorna à noite, descobre que eles foram assassinados violentamente. Você entra pela porta e o homem que os matou ainda está lá, com sangue em suas mãos, e está terminando de estrangular a sua última criança. Com a força de um touro, você corre pelo quarto, carrega aquele homem, o agarra e o lança ao chão. Tudo o que você quer é matá-lo, mas, por ser salvo em Cristo, você resiste e chama a polícia. Você entrega esse violento assassino, que acabou com toda a sua vida, despedaçando tudo pelo que você já viveu, nas mãos das autoridades. A polícia o leva ao juiz, e, na presença de todas as pessoas da cidade naquele tribunal, o juiz olha para baixo, para o homem que assassinou sua família inteira, e diz: “Eu sei que você é um assassino cruel e violento, mas eu sou um juiz muito amável e eu nunca fico irritado com ninguém. Você está livre para ir, eu te perdoo”.

O que você faria? Existe alguém naquela corte que vai se juntar a você, dar as mãos e cantar o “Tchutchuê”? Eu vou dizer-lhe exatamente o que aconteceria: você pularia imediatamente do seu lugar e gritaria: “Eu exijo justiça!”. Você escreveria para a Câmara dos Deputados, para o Senado, para o Presidente e para a ONU; colocaria nos jornais e iria à televisão, dizendo: “Existe um juiz sentado naquela Corte que é mais perverso do que o homem que massacrou minha família, porque um juiz deve fazer o que é certo, ele deve fazer justiça, ele não pode justificar o perverso”. Você vê o problema? Você exigiria justiça de seus próprios juízes, mas você fica nervoso quando alguém diz que Deus é justo. Se Deus é justo – e Ele certamente é –, Ele não pode perdoar você sem se tornar perverso.

Essa é a questão de toda a Escritura e é isso o que quero dizer quando digo que as pessoas  não compreendem o evangelho atualmente. Quando foi a última vez que você ouviu isso? Nós temos ignorado a profundidade do evangelho e ainda nos perguntamos por que nossas pregações possuem tão pouco poder. Como perdemos o evangelho, acabamos precisando apelar carnalmente para todas aquelas técnicas de crescimento de igreja. O motivo pelo qual não alcançamos as gerações X, Y ou Z, ou qualquer outra, não é por causa de irrelevância cultural, mas por falta da mensagem do evangelho. Temos uma versão reduzida e sem profundidade, mas não o evangelho que é poderoso e mortal, que é vigoroso e escandaloso – e é nele que reside o poder para a salvação.

Eu percebo como esquecemos o verdadeiro evangelho quando faço perguntas sobre a Escritura para alguns estudantes que encontro nas minhas viagens, especialmente pela Europa.

“Por que Jesus morreu?”
 Eles dizem: “Bem, por causa do nosso pecado”.
“Ok, por que Jesus morreu?”
“Já dissemos, por causa de nosso pecado.”
“Não, vocês não estão respondendo à pergunta. Vocês têm que ir mais profundo do que isso. Por que o pecado é um problema?”

“Bem, porque o pecado é errado.”

Não! Não é esse o problema. O problema é este: Deus é um Deus justo e Ele é o Juiz de toda a terra, de modo que Ele deve fazer o que é correto, Ele deve ser consistente com o Seu próprio caráter. Se Ele olhar para o pecado e libertar o pecador, Ele é tão perverso quanto aquele juiz que acabei de descrever. Portanto, o maior problema em toda a Bíblia, o dilema Divino de todas as Escrituras inspiradas, é este: se Deus é Justo, Ele não pode perdoar você. Então, a questão é: como pode Deus justificar um homem perverso e continuar sendo justo?







[1] PIPER, John. O que Jesus espera de seus seguidores: mandamentos de Deus para o mundo. São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 107.
[2] EDWARDS, Jonathan. The justice of God in damnation of sinners. In: The works of Jonathan Edwards. v. 1. Edinburg: The Banner of Truth Trust, 1974, p. 669.
[3] Lex, Rex é um livro escrito pelo ministro presbiteriano escocês Samuel Rutherford, publicado em 1644 com o subtítulo “A Lei é Rei”, pretendendo ser uma defesa do ideal presbiteriano e escocês de política.



** Extraído do livro "O Verdadeiro Evangelho" - Paul Washer - Publicado pela Editora Fiel


Deus Odeia o Pecado e o Pecador











Infelizmente, nós somos muito influenciados pelos pregadores de televisão. Várias vezes eu tenho ouvido esses “evangelistas” se levantarem no púlpito, dizendo: “A primeira coisa de que todos vocês precisam saber é que Deus não é um Deus irado”. Todos devem conhecer aquela famosa frase, “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Eu sei que isto será bastante ofensivo para muitos de vocês, mas eu quero dizer que tudo isso não é outra coisa, senão o mais completo absurdo. Vamos olhar para alguns textos que nos mostram o ódio de Deus sendo manifesto contra as obras más dos homens – e também contra aqueles que cometem tais obras.

Está escrito: “Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias” (Sl 7.11). Em outra tradução, Ele é descrito como “um Deus que está irado todos os dias”. Entenda: Deus não precisa de marketing ou de relações públicas para fazê-Lo politicamente correto, ou para que as pessoas gostem Dele. A Bíblia diz que Deus é um Deus irado, e você tem que se prostrar de joelhos e louvá-Lo pelo que Ele é. E Ele não é apenas um Deus irado, mas também um Deus que odeia.  Então, alguém diz: “Sim, irmão Paul, você esta certíssimo; Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Bem, de fato, essa frase parece boa estampada em uma camisa cristã, mas ela não é bíblica. A Bíblia não diz que Deus odeia o pecado e ama o pecador; a Bíblia diz que Deus odeia o pecado e o pecador. Sim, é verdade que a ira de Deus se revela contra toda a impiedade (Rm 1.18), mas não só contra ela. Basta olhar para o Salmo 5 por um momento e você verá isso de modo claro: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade” (v. 5). Em outra tradução, “Tu odeias todos os que praticam o mal”. Está escrito aqui que Deus odeia o pecado ou que Deus odeia o pecador? Você pode dizer: “Irmão Paul, mas e quanto à passagem em João 3.16? Lá, está escrito que Deus amou o mundo”. Sim, isso é bíblico; mas o Salmo 5 também o é.

Deus é um Deus misericordioso e amoroso! Contudo, nós precisamos entender “todo o conselho de Deus” (At 20.27), e não apenas os pontos de que mais gostamos. Deus de fato é amor, mas esse Deus amoroso também odeia. Deus é misericordioso, mas Ele está irado. Nós não podemos considerar somente um lado da moeda ou apenas uma parte da história – e esse é o problema dos nossos dias. Certa noite, eu preguei um sermão inteiro sobre a santidade de Deus. Após o culto, três homens vieram a mim, dizendo: “Nós temos um problema com você, porque você pregou um sermão inteiro sobre a santidade de Deus e não mencionou o amor de Deus sequer uma vez”. Então, eu lhes respondi: “Bem, senhores, na noite passada eu preguei um sermão inteiro sobre o amor de  Deus, e sequer mencionei a santidade de Deus. Contudo, nenhum de vocês teve algum problema com isso”. Você vê a questão? Estamos sempre considerando apenas um lado da história, quando as Escrituras nos dizem que nós precisamos do pleno conselho de Deus.

Eu falarei sobre o amor de Deus, e é possível que eu o faça de uma maneira pouco usual. Porém, para que você aprecie o amor de Deus, você precisa entender algo: o amor de Deus é exaltado da mesma maneira como as estrelas são exaltadas pela escuridão do céu. Se você estiver lendo este livro antes do anoitecer, responda-me uma pergunta: para onde foram as estrelas? Por acaso alguém as colocou num cesto e as levou embora? Por que, quando você olha para cima, você não as pode ver? É porque há muita luz! Você não pode desfrutar da sua beleza, você não pode nem ao menos vê-las, tão somente porque o dia está iluminado demais. Da mesma maneira, você não pode ver as “estrelas” da graça de Deus e do Seu amor quando você está com muita luz.

As Escrituras testificam que, se crermos que somos um pouco pecadores, pouco amaremos a Deus; se percebermos, porém, que nosso pecado é imenso, nosso amor será cada vez maior (Lc 7.47). Quando esses pregadores dizem-lhe que os homens são bons, inocentes ou “não tão maus assim”, eles estão impedindo-o de ver ao Senhor. A única maneira de realmente apreciar o amor de Deus e a graça de Deus é vendo a profunda escuridão do homem. E, quando você vê a profunda escuridão do seu próprio coração, então você se dá conta de que Deus se moveu por amor a você, e isso o faz cair de joelhos, com imensa admiração, e você O adora! Eu tenho um objetivo em toda essa “loucura” de falar sobre a ira de Deus: eu quero cavar um buraco e enterrar você no fundo. Eu preciso mostrar-lhe quão escura é a sua noite e quão sem esperança é a sua situação, para que, quando eu começar a falar de Jesus, você fique cheio de admiração. Saiba que o único motivo pelo qual você não ama a Deus como Ele merece é por que você não entendeu quanto perdão foi derramado sobre você. Do mesmo modo, você não percebe o quanto foi perdoado porque ainda não teve coragem de perceber quão profunda é a cova na qual todos nós estamos enterrados. Quanto mais vemos o nosso pecado, mais nós vemos o quanto Deus merece ser amado.

Às vezes, eu pego um molho de chaves e o chacoalho perante uma congregação, dizendo: “O som dessas chaves lhes traz alguma alegria?”. Todos dizem: “Não!”. E eu lhes respondo: “É claro que não, porque vocês não estão trancafiados em uma masmorra. Se vocês estivessem presos em uma masmorra, o som das chaves lhes traria muita alegria; seu coração pularia de esperança”. Pregadores que evitam falar sobre o pecado são tão éticos e corretos quanto um médico que não fala a seu paciente que ele está morrendo. Afinal,   Paulo afirma que esse é o propósito da lei: ela não foi designada para nos salvar, mas para nos mostrar como somos pecadores, ao ponto de fazer com que corramos para Cristo (Gl 3.24-25). Pregadores, eu quero que vocês humilhem totalmente o homem. Eu quero que o homem veja quem ele é. Então, quando nós falarmos sobre o amor de Deus demonstrado em enviar o Seu único Filho, os homens gritarão: “Como é maravilhosa a graça que um dia me salvou!”.

Há alguns anos, quando eu estava no Peru, alguém me deu uma fita com a música Amazing Grace3. Aquilo me deixou muito feliz, já que eu amava aquela canção. Eu a coloquei no meu toca-fitas e, quando a primeira estrofe tocou, na mesma hora eu a tirei e a joguei no lixo.  Você quer saber por quê? Porque o hino era cantado assim: “Maravilhosa Graça! Quão doce o som que salvou um homem como eu!”[1]. Vocês sabem que a letra original dizia “pecador como eu”, “miserável como eu” e “verme como eu”, e não apenas “homem”. Vejam, a cada geração que passa, o homem parece estar simplesmente ficando melhor. Ora, bons homens não precisam de um Salvador; os miseráveis é que precisam. Quando você retira do homem  toda  a escuridão que há dentro dele, você retira a glória do evangelho que existe para iluminá-lo.

Por que os homens não buscam um Salvador? É porque, na maioria das vezes, em muitas pregações, o homem é muito “legal”. Ele só precisa ser ajustado aqui e ali, e então terá tudo de que precisa. Ele só precisa de uma coisinha ou outra para tornar sua ótima vida ainda mais perfeita, e Jesus apenas está no topo dessa lista de coisinhas. Assim, ele não precisa entender que todos os homens são nascidos no pecado, miseráveis, sujos, os que odeiam a Deus, possuidores de um coração negro e morto. Muito da pregação do evangelho de hoje tem pouco poder porque estamos preocupados em mostrar aos homens como eles podem ser salvos, mas nos esquecemos de mostrar o quanto o homem está perdido.

Você já se perguntou por que os homens drogados, as mulheres prostitutas e os jovens assassinos, quando são convertidos, demonstram estar repletos de um zelo especial por Deus? Isso é porque eles não vieram de um clube social ou de alguma denominação religiosa onde todos pretendem ser morais, certinhos e merecedores do amor de Deus. Eles saíram do esgoto, e, quando ouviram sobre o amor de Deus, seus corações explodiram de volta em amor.

A ira é a resposta de Deus contra a impiedade do homem. Você diz: “Eu não gosto disso”, mas você deveria.  Se eu pegasse um jornal e sentasse ao seu lado, olhando para as notícias com um ar de riso e um brilho nos olhos, e dissesse: “Ei, você leu isto? Um pedófilo molestou seis garotos”, sem dar a mínima para aquilo, o que você diria sobre mim? Você diria: “Seu doente! O que há de errado com você? Você deveria ficar irado ao ler isso!”. Ah, eu deveria? Mas por que Deus não tem nenhum direito de ficar irado? Ele vê a iniquidade deste mundo todos os dias. Todos os dias, Ele vê a imundícia, os assassinatos, os crimes e tudo o mais, e, na sua concepção de Deus, Ele não tem nenhum direito de estar irado? Eu lhe afirmo que o Senhor está irado, e que Ele está tão irado que, no Dia em que Ele recuar Sua misericórdia e vier julgar este mundo, os grandes capitães desta terra clamarão para que as montanhas se levantem e caiam sobre eles, para escondê-los da ira do Cordeiro.

... e o céu recolheu-se como um pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar. Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster--se? (Ap 6.14-17)

O que você pensaria de um Deus que pudesse olhar para o campo de concentração nazista de Auschwitz e ficar apático? Quem poderia dar um abraço amigo em Hitler? Quem poderia ver os Estados Unidos assassinarem milhares de bebês, todos os dias, e dizer “Está tudo bem”? Deus está irado – e, se não estivesse, Ele seria imoral, assim como eu o seria se lesse uma notícia terrível como aquela e fosse capaz de rir. Se eu fosse neutro sobre violência sexual contra crianças e dissesse: “Cada um por si! Você sabe, somos todos livres”, você olharia para mim e me trataria como um tipo doentio de pessoa. Então, quão irado Deus deveria estar? Sim, Deus está irado, porém não somente contra os “Hitlers” do mundo, mas também contra você, por todos os seus crimes e ofensas contra Ele e contra a Sua criação. Tantas pessoas me dizem: “Eu não acredito nisso!”, e, quando eu digo: “Olhe aqui na Bíblia!”, elas respondem: “Não, eu não vou olhar, porque eu simplesmente não acredito nisso!”. Ora, isso é coerente quando você está em uma universidade, conversando com um professor agnóstico. No entanto, se alguém proclama ser cristão e faz a mesma coisa, isso é um problema sério. “Eu simplesmente me recuso!” – essa não é uma atitude cristã.

Olhe novamente para o Salmo 5: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade” (v. 5). Em outra tradução, se diz: “Tu odeias todos os que praticam o mal”. Aqui, não é dito que o ódio de Deus é direcionado à iniquidade ou ao pecado, mas que a ira do Todo-Poderoso é direcionada ao homem que comete o pecado. Ademais, o amável e humilde Jesus não disse a mesma coisa? “O que, todavia, se mantém  rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.” (Jo 3.36).

O que você pensa que é a “ira de Deus”? A ira de Deus, em hebraico, vem de uma palavra que literalmente significa “o bufar das narinas”. Quer saber o que isso significa? Eu, tendo sido um garoto criado em fazenda, possuía touros da raça Charlet. Nós tínhamos dois ou três mil touros pesados e perfeitos. E eu me lembro de que nós frequentemente recebíamos esta instrução: quando você passar pelos lotes e um touro bufar aquele nariz, sua festa acabou: é melhor você correr! Quando a Bíblia fala da ira de Deus como o “bufar das narinas”, fala de uma Divindade tão irada que, somente com o hálito de Sua boca, as montanhas derretem.

Certa vez, um rapaz me disse: “Eu permanecerei de pé no Dia do Julgamento e não vou ficar com medo”. Eu só pude responder: “Não, jovem. Você vai derreter diante de Deus como uma minúscula estatueta de cera diante de uma fornalha”. Deus vem com ódio contra o mal, Deus vem irado contra o mal – e nós somos pessoas más. Irmãos, nós precisamos ser alertados! Todos os homens precisam saber disso! Deus estende a Sua mão,  todos os dias, para pessoas desobedientes e teimosas, mas, ao mesmo tempo, a Sua ira está vindo sobre o mundo! É como se, com uma mão, Deus estivesse retendo Sua Justiça contra este mundo e, com a outra, clamando aos homens que venham ao encontro da salvação. Porém, um dia, as duas mãos serão abaixadas, e você não poderá mais ir a Deus, tampouco a justiça Dele hesitará em cair sobre você. É por isso que uma das maiores necessidades em nosso evangelismo é ensinarmos aos homens quem Deus é. O evangelho não começa com o homem, mas com o que Deus realmente é, pois aí é que reside o problema. Se Deus não fosse quem é, então o pecado não seria o problema que é. O pecado é o que é justamente porque Deus não é apenas amor, mas também santidade e justiça.

Algumas pessoas dizem: “Irmão Paul, Deus me salvou!” e, quando elas me dizem isso, eu amo perguntar-lhes: “Do que Ele salvou você?”. “Ele me salvou do meu pecado”, elas respondem. Porém, isso está errado. Deus não nos salvou apenas dos nossos pecados, Ele  nos salvou Dele mesmo! Muitos dizem que “o céu é o céu porque Deus está lá”, e isso é real e verdadeiro. Todavia, não podemos assumir o contrário: “o inferno é o inferno porque Deus não está lá”. Não é isso que as Escrituras ensinam.

O inferno é a ira do Deus Todo-Poderoso, é a Sua perfeita justiça revelada contra o homem, por toda a eternidade. A morte e o inferno não são consequências naturais do pecado; eles são atuações sobrenaturais de Deus contra o homem pecador. Eles são o juízo de Deus! Isso pode parecer uma verdade nova e absurda para alguns, mas tão somente leia os livros antigos e você verá que os velhos pregadores sempre disseram isso. Hoje em dia, não agimos da mesma maneira porque perdemos a glória do Altíssimo de vista. Nós apenas respiramos o desejo de possuir grandes igrejas, e isso afasta mensagens que falem da ira.

Certa vez, uma senhora veio a mim e disse: “Não! Deus não pode odiar, porque Deus é amor”. “Antes de tudo”, eu respondi, “nós não devemos buscar inferências filosóficas para a verdade de Deus; nós temos que ir à Escritura e, quando a Escritura diz que Deus odeia, é  melhor você acreditar. Entretanto, vamos ser filosóficos por um momento: você diz que Deus é amor, portanto Ele não pode odiar. Porém, eu lhe digo que Deus é amor e, por isso mesmo, Ele deve odiar”. O ponto é: você ama os judeus? Então você deve odiar o holocausto. Se eu disser: “Ei, você leu sobre o holocausto?” e você responder: “Sim, mas eu sou bastante neutro nesse assunto. Quero dizer, você sabe... Foi ideia do Hitler, por mim está tudo bem”, eu irei pensar que você é um monstro! Você possivelmente iria para a cadeia por um crime de ódio. Se você ama os judeus, você deve odiar o holocausto. Você ama crianças? E quantos de vocês já disseram “Eu odeio o aborto” com a própria boca? Ora, então você tem o direito de odiar, por causa do grande amor que está no seu coração? O que dizer de Deus?! Você acha estranho que Deus odeie porque Ele ama?

Entenda: Deus ama tudo o que é lindo, amável e excelente. Em outras palavras, Deus ama tudo o que é semelhante a Ele! É daí que vem o problema. Nós achamos que temos o direito de amar tudo o que escolhemos amar, mas nós pensamos que Deus deve amar tudo o que nós amamos. Deus ama tudo o que é semelhante a Ele por causa de Sua absoluta perfeição; e Ele vem com ira contra tudo aquilo que contradiz a Sua natureza e vontade – e estes somos nós. Cada pessoa que já andou na face da terra tem quebrado cada lei que Deus criou. Se você não entende isso, você não entende o Cristianismo.






[1] Provavelmente o hino tradicional protestante mais conhecido do mundo, escrito pelo inglês John Newton em 1779.



** Extraído do livro "O Verdadeiro Evangelho" - Paul Washer - Publicado pela Editora Fiel


A Extrema Pecaminosidade Humana











A primeira coisa que Paulo diz é: “pois todos pecaram”. A palavra “pecado” significa, literalmente, “errar o alvo”. No caso do ser humano, nós não apenas erramos o centro do alvo, mas falhamos em acertar qualquer parte dele. Nós erramos o alvo por completo, quer seja em obedecer à lei de Deus, em permanecer na vontade de Deus ou em glorificar o nome de Deus. Ora, uma vez que somos nascidos de novo, ao ouvirmos “Todos pecaram!”, nós deveríamos cair de nossas cadeiras em adoração a Deus, agradecendo por tão grande salvação, pois Ele nos livrou de algo terrível! Porém, aqueles que tratam o evangelho como algo comum ou que criaram para si outro evangelho, deveriam prostrar suas faces em temor, sabendo que, se Deus não se mover em favor deles, eles estarão em pecado diante Daquele que é triplamente santo – e essa é a situação mais terrível que se pode imaginar.

Quando você ouve uma coisa repetidas vezes, geralmente ela se torna tão comum que perde seu poder. Eu me recordo da primeira vez em que eu cruzei a cordilheira dos Andes, junto com um grupo de missionários. Eu não conseguia entender porque o missionário veterano estava dormindo no meio de toda aquela beleza majestosa. Então, anos mais tarde, quando eu levei um grupo de jovens para atravessar a mesma montanha, eu me encontrei roncando. Com efeito, quanto mais você ouve algo e quanto mais você vê ou lê algo, esse algo perde um pouco de sua majestade.

“Todos pecaram”. Por que não trememos diante disso? É porque não sabemos como essa é uma realidade terrível. Nós não temos consciência do quanto temos pecado, do mesmo modo como um peixe não sabe o quanto está molhado. Nós nascemos no pecado, nós fomos concebidos no pecado, nós nascemos num mundo caído em pecado e a única coisa que nós conhecemos é o pecado.

As Escrituras dizem que a nossa sociedade bebe iniquidade como se fosse água. Além disso, nós também vivemos num mundo repleto de ignorância. Nós não temos conhecimento de  Deus, não sabemos quem Deus é e O tratamos como se Ele fosse um tipo de Papai Noel ou como um vovô bobinho. Nós não entendemos que Ele é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis. Ao considerarmos o livro de Romanos, nós vemos o apóstolo Paulo nos apresentando a coisa mais próxima que temos de uma teologia sistemática. Ainda assim, ele toma os seus três primeiros capítulos e trabalha com toda a sua força tendo um único objetivo: fazer os homens desistirem de qualquer esperança carnal, fechá-los dentro de uma cova, trancar as portas, remover de suas mentes qualquer alívio na carne, a fim de que eles clamem a Deus por misericórdia. Quando nós vamos pregar o evangelho em um campo missionário, precisamos perceber que todo o nosso trabalho é uma absoluta catástrofe – e que experimentaremos fracasso atrás de fracasso, à parte do poder de Deus para ressuscitar homens mortos e odiadores de Deus. Nós precisamos, em nossa pregação, convencer os homens, através das Escrituras, com toda a nossa força, de que todos pecaram.

Muitos dos pregadores famosos atualmente estão ganhando tanta popularidade porque fazem de seu propósito não falar sobre o pecado. Porém, ao agirem dessa forma, eles vão contra a obra do nosso Senhor, que constantemente pregava sobre o pecado. Eles vão  contra a obra dos apóstolos, que trabalharam com toda a sua força intelectual, movidos pelo Espírito Santo, para revelar o pecado do homem. E, principalmente, eu posso lhe assegurar que um pregador ou missionário que não fala sobre o pecado não tem a obra do Espírito Santo em sua vida – porque uma das grandes tarefas do Espírito Santo é convencer os homens do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8). Quando você não crê nisso, você está trabalhando contra o Espírito Santo.

Muitos questionam a Deus o porquê de o inferno ter duração infinita, se nós temos uma vida limitada de pecados. A principal razão disso é esta: cada pecado que você comete é cometido contra um Deus infinitamente digno e bom, logo, o seu pecado é de gravidade infinita. O problema é que nós nos esquecemos de que o pecado ainda é pecado! Veja a maneira como falamos sobre ofender ao Senhor: nós falamos de pecados contra os homens, de pecados contra nós mesmos, de pecado até mesmo contra a natureza, os animais e as árvores; entretanto, ninguém se dá conta de que todo pecado, no final das contas, é cometido contra Deus. Davi pecou contra seu povo ao não representá-lo bem como rei; Davi pecou contra Bate-Seba ao adulterar com ela; e Davi pecou contra Urias ao mandar matá-lo. Porém, no final, ele disse a Deus: “Pequei contra ti, contra ti somente” (Sl 51.4).

Por que o pecado é algo tão terrível? É porque ele é cometido contra Deus! Como podemos não tremer diante disso? É porque não compreendemos o que isso significa! E por que não compreendemos o que isso significa? É porque não sabemos quão glorioso e bendito Deus é! É uma coisa terrível quando percebemos contra Quem nós pecamos. Como os puritanos costumavam dizer, nós não pecamos contra um pequeno líder de uma simples cidade, mas contra o Rei da Glória, Aquele que está assentado no mais alto e sublime trono.

Imagine isto por um momento: Deus está no dia da criação, dizendo aos planetas que se coloquem em determinada órbita no espaço, e todos eles se curvam, dizem “Amém!” e Lhe obedecem. Ele diz às estrelas que ocupem seus lugares no céu e sigam à risca o Seu decreto, e elas todas se curvam e Lhe obedecem. Ele diz às montanhas que se ergam e aos vales que se afundem, e eles se curvam e O adoram. Ele diz ao bravo mar: “Você virá até este ponto e daqui não passará”, e o mar O adora. Porém, quando Deus lhe diz “Venha!”, você diz “Não!”.

Você percebe o quão perverso é o nosso pecado? Ora, se fossem apenas atos, nossa condição já seria terrível o suficiente. Todavia, o pecado vai mais fundo no coração do homem. O ser humano não simplesmente comete pecados; ele é nascido no pecado. Nós somos podres e corrompidos desde o início.

Viu o SENHOR que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração (Gn 6.5)

“Era continuamente mau”. Eu simplesmente li esse texto ao pregar em uma universidade e um jovem repórter veio a mim, dizendo: “Eu não concordo com a sua interpretação”. Eu lhe respondi: “Jovem, eu não interpretei o texto, eu apenas o li”. Ainda assim, ele disse: “Bom, eu não concordo” e eu respondi: “Jovem, deixe-me dizer-lhe algo: se eu pudesse expor, agora mesmo, o seu coração e cada pensamento que você já teve, desde o seu primeiro levantar até este exato momento – não os seus feitos, mas somente os seus pensamentos – e pudesse colocá-los num vídeo e os exibir aqui neste auditório, você fugiria deste campus e nunca mais mostraria sua face aqui de novo, porque você tem pensado coisas tão doentias e tão pervertidas que não poderia compartilhá-las sequer com seu amigo mais próximo. Na verdade, se seu amigo mais próximo conhecesse alguns dos pensamentos que você teve a respeito dele, ele não seria mais seu amigo. E o motivo pelo qual eu tenho certeza disto não é porque sou um profeta, mas porque isso é o que a Escritura diz – e porque eu também sou um homem como você”.

Eu posso dizer a mesma coisa sobre cada ser humano do planeta. Todos nós gastaríamos toda a nossa energia para esconder o que se passou pela nossa mente apenas na última hora. Não me diga que a Palavra não está certa quando ela fala sobre todos os homens terem pecado, porque todos os homens são, de fato, pecadores.

E o SENHOR aspirou o suave cheiro e disse consigo mesmo: Não tornarei a amaldiçoar a terra por causa do homem, porque é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade (Gn 8.21)

Isso pode significar maldade desde a infância, maldade desde bebê. Deixe-me compartilhar algo que um funcionário de penitenciária disse muito tempo atrás, a respeito da natureza humana. Imagine por um momento um bebê de dezoito meses que você está segurando em seus braços. Então, esse bebê vê um relógio brilhante em seu pulso e tenta pegar o seu relógio. Você afasta a mão dele e diz “Não!”. Ele começa a chorar e a se mexer em seus braços, e então se estica até o relógio novamente. Você afasta a mão dele e diz “Não!”. Ele começa a gritar e chorar, e então se estica de novo, e você diz “Não!”. Ele começa a jogar os braços, até mesmo na direção do seu rosto. Ora, eu lhe digo que a natureza humana é de tal forma que, se esse bebê de dezoito meses tivesse a força de um homem de dezoito anos, ele o espancaria ali onde estava você, papai, arrancaria o relógio do seu braço e passaria pelo seu corpo ensanguentado em direção à porta, sem sentir nenhum remorso.

Eis algo aqui que precisamos entender: Hitler não foi uma anomalia. Hitler não foi um fenômeno extraordinário; Hitler foi o que cada frequentador dos cultos dominicais tem o potencial de ser. E não somente isso! Mesmo em toda a sua maldade, Hitler ainda era restringido pela graça comum de Deus. E precisamos reconhecer isto:  quando não éramos convertidos, se não fosse pela graça comum de Deus nos restringindo, nós faríamos com que Hitler parecesse um coroinha.

Nós não entendemos o que a Palavra ensina sobre a extrema maldade dos homens. E se você disser: “Eu não concordo!”, isso é porque você aprendeu o suficiente para estar no Cristianismo, mas não para crer na Bíblia. O testemunho das Escrituras contra você e todos os homens é este: nós nascemos com a maldade, nós somos maus.

Acaso você precisa ensinar uma criança a mentir? Você precisa ensinar uma criança a ser egocêntrica? Você precisa ensinar uma criança a ser egoísta? Você precisa ensinar uma criança a ser bruta com outras crianças? Elas aprendem isso por si mesmas. Deixe-as livres, deixe de discipliná-las e veja o que terá em dez anos: um verdadeiro monstro! Por quê? Porque o que a Palavra diz é verdade: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). E quantos de nós não tapamos os ouvidos, dizendo: “Eu não quero escutar isso! Não quero escutar isso!”, da mesma maneira que uma pessoa morrendo de câncer permanece em negação, recusando qualquer tratamento?

A primeira coisa que devemos abraçar é que todos os homens nascem em pecado e entregues ao pecado, e esse é o motivo de todos os homens nascerem odiando a Deus. Alguém pode retrucar que nunca odiou a Deus, mas ele não percebe que, se isso fosse verdade, a Bíblia estaria mentindo para nós. Absolutamente todo homem odiou a Deus em seu estado não convertido, porque a Escritura declara que “outrora, éreis... inimigos” (Cl 1.21) e que “éramos, por natureza, filhos da ira” (Ef 2.3). Outro pode contestar, alegando que ama a Deus desde pequeno. No entanto, o que amávamos era uma imagem de Deus criada por nossa própria mente; e era isso que amávamos, de tal modo que, se alguém nos apontasse o Deus da Palavra, nós rapidamente ficaríamos irados, dizendo: “Eu nunca poderia amar um Deus como esse!”.

Já perdi as contas de quantas vezes alguns bons membros de igreja me disseram que amaram a Deus por toda a vida e, depois de eu sentar com eles apenas por trinta minutos para expor na Palavra algumas crenças cristãs históricas sobre Deus, eles diziam, assustados: “Esse não é o meu Deus!”, e eu tinha que responder: “Claro que não, mas é o Deus da Palavra”.  O profeta Isaías usa palavras aterradoras ao falar da condição do homem: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades, como um vento, nos arrebatam” (Is 64.6).

Anos atrás, eu ajudei a edificar uma igreja em San Pablo, perto da fronteira na Amazônia Colombiana, e era uma colônia de leprosos. Você já viu alguma vez um leproso? Já sentiu o cheiro de um leproso? Se um leproso do pior tipo tentasse ir à sua igreja, você sentiria seu cheiro antes mesmo de ele sair do estacionamento. Ele seria uma massa de carne podre, fluido corporal pôs e sangue. Quando Isaías diz que “todos nós somos como o imundo”, é possivelmente a isso que ele se refere.

Vamos supor que existem irmãs muito finas em sua igreja, e elas pensem que precisam fazer algo a respeito daquele leproso. Então elas vão à loja mais fina e compram algumas das mais finas sedas que encontram. Depois de enrolarem o leproso da cabeça aos pés, elas dizem: “Bravo! Olhe o que fizemos! Salvamos o dia! Nós o fizemos apresentável”. Mas aquela seda somente repousa naquela carne por poucos segundos e a corrupção daquele homem começa a sangrar através daquela seda fina, tornando-a tão corrupta quanto o próprio homem. Eis o porquê de nossas melhores obras serem como trapos imundos diante de Deus. O fato de sermos pecadores não significa apenas que pecamos constantemente, mas que não fazemos nada além de pecar. Tudo o que fazemos é pecaminoso diante de Deus. Nós corrompemos até as nossas boas obras, de modo que, Segundo Salomão, até mesmo “a lavoura dos ímpios [é] pecado” (Pv 21.4, ACR), porque tais obras não são feitas por fé (Rm 14.23) nem para a glória de Deus (1Co 10.31).

Muito da psicologia moderna fala a respeito de se sentir bem com quem você é. Entretanto, não é isso que eu quero; eu quero que você seja salvo de quem você é e do que você tem feito. Todos nós, antes da conversão, tínhamos um coração de pedra, um coração   odiador de Deus, um coração maligno, nascido no pecado e dado ao pecado. Esse é o testemunho da Palavra! Os homens antigos ouviam isso ser pregado constantemente, mas parece que as novas gerações não podem suportar a verdade; antes, preferem ser enganadas e pensar bem de si mesmas. Contudo, um homem que não aceita a sua própria doença não pode ser curado. Um homem que não tem todas as suas esperanças moídas a respeito de seus próprios méritos, valor e justiça pessoal não pode voltar-se para Cristo.

Nós precisamos entender que estamos destituídos de qualquer valor e que há somente um Salvador – e Seu nome é Jesus. O problema é que, hoje em dia, é tudo sobre o ego.  Os homens são cheios de ego! Precisamos entender que os homens não necessitam de mais autoestima; de fato, eles precisam perceber que esse é exatamente o seu maior problema. Eles precisam, na verdade, estimar o Único que é digno de estima, Deus, e entregar-se a Ele. No entanto, para viverem, crerem e pregarem dessa forma, os homens devem saber quem Deus é. Paulo expressa nossa extrema pecaminosidade de modo eloquente na carta aos Romanos: “Não há justo, nem um sequer” (Rm 3.10). A palavra “justo” é sinônimo de “reto”, referindo-se a um padrão. Para ser justo, você tem que estar perfeitamente  linhado a certo modelo, e, se você não está moldado àquele padrão de retidão, você está distorcido. Em outras palavras, você está pervertido. O padrão é a natureza de Deus e a lei de Deus. O problema é que a Bíblia diz que ninguém, absolutamente ninguém, pôde jamais se conformar ao padrão da santa natureza de Deus e ao padrão da santa lei de Deus. Todos nós nos tornamos distorcidos e deslocados. Paulo continua, dizendo que “não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (3.11). Se você alguma vez realmente buscou a Deus, é apenas porque Ele o buscou primeiro. O texto prossegue deixando clara a nossa maldade: “todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3.12).

Quantas pessoas, mesmo aquelas que se colocam na esfera do Cristianismo, dizem que irão para o céu porque não são tão más? Elas dizem que irão para céu porque são boas, mas qual é o testemunho das Escrituras? Não existe alguém bom, nem um sequer, absolutamente nenhum. Todos pecaram!

Você me diz: “Irmão Paul, mas eu não pequei tanto!” Todavia, quanto você tem que pecar? Adão precisou pecar somente uma vez, e o universo inteiro foi lançado num caos moral e posto sob julgamento. Você já pecou mais vezes do que se pode contar em uma calculadora. Se Adão e Eva, e até mesmo a criação, não conseguiram escapar da condenação por um único pecado, como você irá escapar de todos os pecados que estão sobre a sua  cabeça? Mas talvez você me diga: “Ah! Mas eu estou muito bem, se comparado com as outras pessoas!”. Todavia, você não será julgado por padrões humanos; você será julgado por um Deus justo e santo. Algumas pessoas dizem: “Não me julgue! Você não sabe o que está no meu coração”. Essa é uma frase tola, porque elas ficariam envergonhadas se soubéssemos o que está no seu coração. Saiba que Deus de fato tem visto o seu coração – e Ele conhece toda a podridão que está lá. Se nós escondemos nossos corações de todo o mundo, por que o usaríamos como desculpa diante de Deus? As pessoas dizem que nós não as conhecemos realmente, mas nunca nos deixariam vê-las sozinhas, no secreto. Todos nós somos julgados pela acusação de nossa consciência.

“Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). É muito comum tomarmos esse versículo e torná-lo tão humanista! O que significa “carecem da glória de Deus”? Alguns dirão que Deus tem um maravilhoso plano para todos nós e Ele investiu tanto para nos ver  cheios de glória, mas, apesar desse grande plano, nenhum de nós o alcançou. Eu não acredito que esse seja o sentido primário deste texto. Quando Paulo diz que “nós carecemos da glória de Deus”, eu penso que essa frase deveria ser interpretada no contexto do primeiro capítulo de Romanos, no qual está escrito: “porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças” (Rm 1.21).

Vamos pensar nisso por um instante. Por quem você foi criado? Por Deus. Entretanto, não apenas você foi criado por Deus, mas todas as suas faculdades, a sua própria existência é sustentada por Ele. Você deve cada respirar e cada batida do seu coração a Deus. Aliás, sua respiração é dada apenas para retornar em adoração; e seu coração bate somente para servi-Lo. Ainda assim, observe o testemunho deste texto contra nós: nossa mente e nossas vidas são repletas de busca por nossos propósitos, nossos sonhos, nossos objetivos e nossos desejos. Mesmo aqueles que alegam algum tipo de piedade precisam assumir que, em suas vidas diárias, são ateístas praticantes. Deus está longe dos seus pensamentos. Quando estão trabalhando, quando estão nas fábricas, quando estão no campo, quando estão em casa, Deus é o centro de seus pensamentos? Tudo o que eles estão pensando e tudo que estão fazendo, estão fazendo para a glória de Deus? Então você me diz: “Irmão Paul, ninguém é desse jeito!”. É justamente aí que quero chegar! “Todos pecaram, todos carecem da glória de Deus”.

Por que os homens são tão vazios, tão miseráveis e tão sem propósito? Não é incrível que os cristãos na América sejam os mais saudáveis e mais protegidos cristãos que já existiram na história, e, ainda assim, 85% do que se vende nas livrarias “cristãs” dizem respeito a quão vazios nós somos?

Você quer saber por que somos vazios? Primeiramente, a grande maioria daqueles que se chamam cristãos não é convertida de verdade. Em segundo lugar, até mesmo aqueles que são cristãos estão vazios porque não têm comido do melhor alimento. Jesus disse: “Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis... A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4.32,34). Nossa comida tem sido ganhar terras neste planeta, sucesso, conforto, fama, lazer, juventude e beleza. Sempre nós, nós, eu, eu. E, quanto mais temos de “nós”, mais vazios somos, porque fomos feitos para outra coisa – melhor dizendo, fomos feitos para outra Pessoa. O resumo de tudo é que nós nos tornamos distorcidos e deslocados. Não apenas pecamos, não apenas estamos separados de um Deus santo e justo, mas todo o nosso propósito foi retirado de nós. “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus”.

Bem, agora temos um problema: a maior bênção que você jamais poderia ouvir é também o maior terror que jamais poderia cair sobre você. E o que é? Deus é justo. Você diz: “Isso é bom, eu quero um Deus justo, eu não iria querer um Ser todo-poderoso que é mal. Eu quero um Deus justo. Essas são boas notícias, irmão Paul”. Na verdade, não são, porque você não é justo. Eis o problema: Ele é um Deus justo e, sendo um Deus justo e o Juiz de toda a terra, Ele agirá corretamente. E, ao agir corretamente, a resposta Dele em relação a você é completamente apavorante.



** Extraído do livro "O Verdadeiro Evangelho" - Paul Washer - Publicado pela Editora Fiel







Verdadeiro Evangelho: Breves Palavras










Temos diante de nós o que, ao longo da história da igreja, muitos eruditos e pregadores (como Martyn Lloyd-Jones e Charles Spurgeon) disseram ser “a acrópole da fé cristã”, “a cidade fortificada do Cristianismo” e “a grande estrela brilhante das Escrituras”. Eu já ouvi homens muito piedosos dizerem que, se eles perdessem a Bíblia inteira e pudessem guardar somente uma passagem, essa seria a que eles guardariam, pois, nesses versos, encontra-se a verdadeira salvação dos homens, o verdadeiro evangelho de Jesus. Há palavras aqui que, possivelmente, são as palavras mais importantes em toda a Escritura, e nós não podemos entender o evangelho de Jesus Cristo sem entendermos algumas dessas palavras que são ditas neste pequeno texto:

Alguém descreveu este texto (Rm 3.25-26) como a “acrópole da fé cristã”. Nós podemos estar certos de que não há nada que a mente humana possa jamais considerar que seja, em qualquer sentido, tão importante quanto estes dois versículos. A história da Igreja demonstra muito claramente que eles têm sido o meio usado por Deus Espírito Santo para trazer muitas almas das trevas para a luz, e para dar a muitos pobres pecadores o seu primeiro conhecimento da salvação e a sua primeira segurança quanto à salvação.[1]

A questão é: se você não entender a glória de Deus que é manifesta no evangelho, como então você viverá? Em nossos dias, existem tantos indivíduos que nós chamamos de “endurecidos ao evangelho”, os quais, na verdade, são ignorantes – e não duros – em relação ao evangelho.

Existem tantos outros que são realmente nascidos de novo e que estão em busca de motivação, razão, zelo e força na vida cristã, mas não entendem que toda a força da qual eles precisam se encontra somente na verdade do evangelho. Não existe nada mais profundo e mais valioso do que as boas novas consumadas por Jesus Cristo naquela cruz. Se entendermos bem essa verdade, teremos todo o fogo de que precisamos ardendo em nosso coração, e não precisaremos mais de falsa empolgação, emocionalismo vazio ou entretenimento barato.

Precisamos entender algumas coisas sobre nossa missão nesta terra. Fazer missões não significa enviar missionários, tampouco criar organizações; fazer missões significa comunicar a verdade de Deus aos homens. Você pode enviar todos os crentes de seu país como missionários, todavia, se eles não estão comunicando a verdade do evangelho, isso não passa de tolice carnal. Além disso, precisamos entender que vivemos em dias nos quais o evangelho não está muito claro em nossas mentes. Um grande pecado de nossa era é o que chamaríamos de “reducionismo do evangelho”. Muitos pensam conhecer o conteúdo das boas-novas de Cristo, mas não percebem que o evangelho na América de hoje foi reduzido a “quatro leis espirituais” e a “cinco coisas que Deus quer que você saiba”. O evangelho é tratado como uma pequena verdade, um assunto útil apenas para a classe dos novos convertidos; algo que você aprende em cinco minutos, faz uma oração e, logo em seguida, avança para coisas maiores.

Nós tomamos o glorioso evangelho do nosso bendito Deus e o transformamos em pequenas perguntinhas vagas, como “Você sabe que é pecador?” ou “Você quer aceitar Jesus como seu único Salvador?”. E, se alguém responde afirmativamente a essas questões, nós papalmente as declaramos salvas após repetirem uma oração conosco. Nós ouvimos incontáveis histórias de evangelistas indo para o exterior e pregando para dezenas de milhares de pessoas, gerando milhares de convertidos.

No entanto, assim que o missionário as procura, ele não encontra uma sequer frequentando a igreja. Nós vivemos em uma era de superficialidade, em uma era na qual se faz muito barulho; no entanto, o que tem sido realmente conquistado? Espero que ninguém fique ofendido com isto, mas há muitos anos eu comecei a compreender como nós somos um povo estúpido. Há alguns anos, um amigo da Colúmbia Britânica[2] me enviou um livro sobre lógica. Eu precisei ler o primeiro capítulo cerca de três vezes para compreender bem o que estava sendo dito, e concluí que aquilo se tratava da mais alta expressão da lógica que eu já havia lido. Era muito complicado, mais complicado do que qualquer coisa que eu havia lido na universidade. Porém, ao fechar o livro, notei que na frente dele havia um desenho rabiscado de tinta, e, ao olhá-lo melhor, observei – para minha surpresa – que no desenho havia algo semelhante a crianças de oito ou nove anos de idade, em pé diante de um professor, sendo questionadas. Então eu percebi que aquele livro de lógica, escrito por um antigo puritano, era na verdade o básico para crianças da escola primária. Sendo assim, uma das coisas que eu quero encorajá-lo a fazer é isto: na sua leitura das Escrituras e em sua busca por conhecer mais a respeito de Cristo, não se dê tanto à literatura contemporânea, mas retroceda na história e descubra algumas das maiores coisas já escritas.

Eu diria a você que a nossa maior necessidade é redescobrir o evangelho de Jesus Cristo e proclamá-lo. Eu sempre digo isto, especialmente a jovens missionários com os quais tenho lidado: tudo de que eu preciso é um homem simples o suficiente para andar no meio de uma praça com uma Bíblia aberta, pregando o evangelho de Jesus Cristo, até que alguém saia convertido ou ele saia deitado numa maca. Nós precisamos de pregadores! Precisamos de homens e mulheres que creiam que essa tarefa é tão grandiosa que nem todas as estratégias do mundo, à parte do evangelho, podem fazer uma única alma ser convertida. Há um poder de Deus para a salvação, e esse poder é o evangelho de Jesus Cristo (Rm 1.16). É por isso que eu gostaria de tomar um tempo para meditarmos sobre esse assunto.

Sei que alguém logo reivindicará, dizendo: “Mas, irmão Paul, nós entendemos o evangelho!”. Ó meu caro, preste bastante atenção ao que tenho para lhe dizer. Há muito para se estudar hoje a respeito da segunda vinda de Jesus Cristo e da correta interpretação do livro de Apocalipse. Porém, eu posso lhe assegurar que você entenderá tudo a respeito do livro de Apocalipse e tudo a respeito da segunda vinda de Cristo no dia em que tudo aquilo acontecer. Mas eu também posso lhe assegurar que você gastará uma eternidade de eternidades nos  céus e ainda não compreenderá o evangelho de Jesus Cristo totalmente. Isso não é uma matéria básica do Cristianismo, da qual nos livramos em cinco minutos de aconselhamento e depois partimos para coisas mais grandiosas.

Não há nada mais grandioso na vida cristã do que o evangelho. Nunca haverá nada mais grandioso do que o evangelho. E não há poder para salvar à parte da clara proclamação do evangelho. Muitos acham que o evangelho é algo apenas para o homem perdido, para aquele que não ouviu sobre Jesus, mas não pense que para por aí. A maior motivação, a única verdadeira motivação na vida cristã, é o que Deus fez por nós na pessoa e obra de Jesus Cristo. Sempre que estou em conferências sobre missões, eu fico extremamente exultante ao ouvir os testemunhos e os cânticos, de tal modo que meu desejo imediato sempre é comprar uma passagem de avião e ir a algum lugar a fim de pregar o evangelho onde ele ainda não tenha sido pregado. Todavia, eu descobri que até mesmo o fogo que é levantado através de conferências de missões rapidamente morre. Eu sempre me perguntava se haveria um medicamento mais forte, algo que manteria um homem no campo, algo que faria uma mulher permanecer quando tudo dentro deles está gritando. E eu percebi que para tanto é necessário mais do que uma conferência, um livro ou alguns cânticos; nós precisamos da revelação da glória de Deus na face de Jesus Cristo. Tudo aquilo que somos e tudo aquilo que fazemos deve ser motivado por esta única coisa:  o evangelho Daquele que derramou o Seu próprio sangue por nossa alma. O cristão vive entre dois dias: o dia em que Cristo foi pendurando diante dos homens e o dia em que todos os homens irão se ajoelhar perante Cristo.  Isso é que é motivação!

Agora, olhemos para esse nosso pequeno, reduzido e falso evangelho e comparemo-lo ao evangelho que é revelado na Palavra – é isso o que iremos fazer ao estudar este glorioso texto de Romanos 3. Vamos observar esta passagem, linha por linha, e buscar descobrir, pela graça de Deus, o que está sendo pregado nela, a fim de crescermos na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, para o bem do destino eterno de nossa alma.








[1] LLOYD-JONES, David Martyn. Romans: An exposition of chapters 3.20-4.25 - Atonement and  justification. Edinbug: Banner of Truth Trust, 1998, p. 95.
[2] Uma das províncias do Canadá (Colúmbia Britânica)




** Extraído do livro "O Verdadeiro Evangelho" - Paul Washer - Publicado pela Editora Fiel