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Exílio







[2Sm 15.19], [Is 20.4], [Is 51.14], exílio, cativeiro; [2Rs 24.16; ls 20.4], deportação, cativeiro, exílio).


O exílio (do latim exilium banimento, degredo) é o estado de estar longe da própria casa (seja cidade ou nação) e pode ser definido como a expatriação, voluntária ou forçada de um indivíduo. Também pode-se utilizar as palavras, banimento, desterro ou degredo. Alguns autores utilizam o termo exilado no sentido de refugiado.

1. O significado do termo
2. O Exílio Assírio
3. O Exílio Babilónico
4. Os efeitos do Exílio

1. O significado do termo. Os termos “exílio" e “cativeiro” são usados permutavelmente na Bíblia. Quando o exílio é imposto sobre um indivíduo, a escolha do lugar do banimento é geralmente deixado para a pessoa exilada. Entretanto, quando o exílio é para muitos grupos de pessoas, o local do banimento é imposto. A deportação de comunidades era geralmente praticada no mundo antigo por razões políticas, freqüentemente para destruir o poder de uma nação considerada inimiga ou para colonizar uma área na qual era desejável, por várias razões, criar uma fusão cultural. Algumas vezes, razões particulares faziam com que a imposição do exílio se efetuasse imediatamente sobre um povo governado. Há duas ocasiões, às quais a Bíblia se refere, em que israelitas foram levados ao exílio. O primeiro foi o exílio assírio no 8 séc. a.C.; e o segundo o exílio babilónico no 69 séc. a.C.

2. O exílio assírio. A primeira deportação de israelitas registrada no AT (2Rs 15.29) ocorreu em 734 a.C. sob a monarquia assíria de Tiglate- Pileser III (745-727 a.C.). Ele marchou contra Peca de Israel e Rezim da Síria porque eles guerrearam contra seu súdito, o rei Acaz de Judá, e ele puniu Israel levando alguns deles ao exílio (2Rs 16.7- 9). Os cativos desta deportação para a Assíria foram das tribos de Naftali, de Rúben, de Gade e da meia tribo de Manassés (lCr 5.26). A segunda deportação para o exílio assírio aconteceu depois da destruição do reino do norte e de sua capital, Samaria, em 722 a.C., depois de 3 anos de cerco (2Rs 17.1-6). Foi Salmaneser que começou o cerco, mas seu sucessor finalmente tomou a cidade. Inscrição assíria registra este evento indicando que 27.290 pessoas foram levadas cativas e deportadas, algumas para a província assíria de Gozã na Mesopotâmia e outras para a Média. Ao mesmo tempo, colonos de outras províncias assírias foram fixados em Samaria e áreas vizinhas para tomar o lugar dos israelitas deportados. O casamento desses provincianos e os israelitas que permaneceram na terra resultou nos híbridos samaritanos, da posterior história bíblica.

Os exilados foram levados principalmente para áreas despovoadas nas províncias de Haia, Gozã e Média, bem como em Nínive e aparentemente foi permitido viver vidas completamente normais. O único registro deles está no livro de Tobias que indica que alguns dos cativos foram leais a Yahweh. Outros foram imersos ou amalgamados na população assíria. O problema das supostas Dez Tribos Perdidas tem sido grandemente exagerado. A estimativa assíria de 27.290 cativos mostra que somente uma fração da população israelita foi deportada e que as tribos não estavam “perdidas” no sentido implicado na frase As Dez Tribos Perdidas de Israel. A destruição do reino do norte de Israel estava de acordo com Oséias e Amós, devido a degeneração moral e espiritual do país e não ao grande poder militar assírio.

3. O exílio babilónico. O povo do reino do sul esteve sujeito a várias deportações pelos babilónicos no reinado de Nabucodonosor, que adotou a política assíria de conquistar povos. O primeiro incidente deste tipo ocorreu em 608 a.C. quando, após a batalha de Carquemis. Nabucodonosor avançou para Jerusalém. Ele poupou o rei Jeoaquim que havia se rebelado contra ele, mas carregou vários príncipes de Judá, dentre eles Daniel, Sadra- que, Mesaque e Abede-Nego (Dn 1.1-7).

Jeremias menciona três deportações (Jr 52.28- 30). A primeira ocorreu em 597 a.C., após outra conquista de Jerusalém por Nabucodonosor (2Rs 24.1-16). O monarca babilónico foi a Jerusalém para punir o rei Jeoaquim pela renúncia ao compromisso de fidelidade à Babilônia, mas antes do fim do cerco da cidade, o filho do rei Jeoaquim sucedeu o trono de seu pai. Nabucodonosor ordenou o exílio de Jeoaquim e sua mãe junto com os homens mais distintos do país e com os tesoureiros do Templo e do palácio real. Entre os cativos estava o profeta Ezequiel que data a cronologia de seu livro conforme a data deste cativeiro. Arqueólogos alemães têm encontrado evidências desta fase do exílio na forma de tabuletas cuneiformes que registram entre as pessoas o recebimento de rações de grão, “Yakin (Jeoaquim), rei de Judá”, e cinco filhos de Jeoaquim, junto com outros hebreus.

A segunda deportação registrada por Jeremias ocorreu 11 anos após a primeira. Em 586 a.C., Zedequias, que foi colocado no trono por Nabucodonosor para suceder Jeoaquim, prestou juramento de fidelidade ao monarca babilónico (Ez 17.13). E começou a dar evidências de deslealdade a Nabucodonosor que novamente tomou medidas contra os hebreus. O monarca babilónico levantou quartéis a Ribla no Orontes dos quais direcionou a campanha contra Jerusalém. O cerco da cidade permaneceu de 10 de janeiro de 587 a.C. à 9 de julho de 586 a.C. quando os babilônios foram capazes de quebrar o muro da cidade construído nos dias de Ezequias (2Cr 32.5). A fuga da cidade por Zedequias e sua comitiva foi interceptada e ele foi trazido a Nabucodonosor em Ribla. Foi forçado a testemunhar a execução de seus filhos e, após, seus olhos foram arrancados; foi levado preso para a Babilônia. Aproximadamente oitenta líderes de destaque da comunidade de Jerusalém, entre eles o sumo sacerdote Seraias foram tomados em Ribla e executados sob as ordens de Nabucodonosor. Em 1 de Agosto de 586 a.C., Nebuzaradã, o capitão da guarda de Nabucodonosor mandou que o Templo fosse destruído e suas riquezas confiscadas. O palácio real e a cidade foram atacados pelo fogo e os sobreviventes (exceto os mais humildes da terra) foram levados em cativeiro (2Rs 24.20; 25; Jr 39.1-10).

Nabucodonosor apontou Gedalias “que está sobre casa de (Zedequias)”, para ser o governador de Judá. Ele exerceu seu ofício em Mispa até que foi traiçoeiramente assassinado por Ismael que tinha sido um fugitivo de Amom e que fez objeção à cooperação aparente de Gedalias com os babilónicos. Esta nova rebelião dos israelitas levou à terceira deportação registrada por Jeremias, e ocorreu em 581 a.C. Alguns dos hebreus remanescentes de forte sentimento anti-babilônico fugiram para o Egito, forçando Jeremias, a quem tinha sido dada consideração especial por Nabucodonosor, a acompanhá-los (2Rs 25.22-26; Jr 40-44).

As declarações relativas ao número de cativos levados à Babilônia são confusas. Jeremias dá o total de 4.600 pessoas levadas nas três deportações (Jr 52.28-30). Como estes números não estão bem definidos, isso poderia ser somente uma referência a homens de uma classe específica. O número daqueles exilados em 597 a.C., citado nessa passagem, é de 3.023 em vez de 8.000 como em 2 Reis 24.15,16. Na segunda referência está relatado que em 597 a.C., 8.000 homens incluindo '"homens de valor, sete mil, artesãos e ferreiros, mil, todos eles fortes e preparados para a guerra” foram exilados. William F. Albright sugere que a diferença desses números “pode ser, particularmente, devido ao fato de que a primeira foi somente uma estimativa hipotética, mas também pode ser devido à extensa mortalidade de cativos famintos e doentes durante a longa jornada no deserto para à Babilônia”. George Adam Smith conclui com base em suas considerações que o número dos cativos não excedeu o total de 70.000, incluindo homens, mulheres e crianças.

Os cativos foram fixados no sul da Mesopotâ- mia. Ezequiel menciona Tel-Abibe, “junto ao rio Quebar” (Ez 3.15), que ficava próxima a Nipur, sudeste da Babilônia. Outros povoamentos são mencionados em Esdras 2.59 eNeemias 7.61, bem como em Baruque 1.4 (cp. Ez 1.3; Ed 8.15,17). Os nomes próprios semitas ocidentais que têm sido encontrados em inscrições de Nipur confirmam que alguns dos exilados estavam fixados lá.

Várias razões têm sido dadas para a localização do exílio na Babilônia. Uma opinião é que Israel, tendo se originado na Babilônia, foi enviado de volta para casa por Deus como um marido envia sua esposa inadequada de volta para casa. Uma opinião na Haggadah é que a Babilônia, sendo um país humilde, toma-se um símbolo do mundo inferior do qual Israel foi resgatado conforme Oséias 13.14, “Os resgatarei do poder do mundo inferior?” (tradução da Sociedade de Publicação Judaica da América). A KJV tem “Eu os resgatarei do poder do túmulo”, enquanto a ARA tem, “Eu os remirei do poder do inferno?”. Alguns acreditam que os reinos do norte e do sul foram exilados para diferentes lugares, de modo que cada um dos dois grupos de cativos puderam tirar algum conforto do infortúnio do outro.

Os exilados estavam sob proteção real e, geralmente, podem ser descritos como estando sob confinamento aberto, em vez de em um campo de concentração. Alguns dos cativos foram usados para fornecer mão-de-obra para muitos projetos de construção de Nabucodonosor, ao menos no início do exílio. Alguns deles gozaram de privilégios especiais. Eles próprios edificaram suas casas e plantaram pomares em suas terras (Jr 29.4-7; Ez 8.1; 12.1-7). Isso os permitiria suprir algumas de suas necessidades físicas. Alguns cativos, aparentemente, ganharam uma vida adequada de outro jeito (Zc 6.9-11) e até iniciaram negócios na “cidade dos comerciantes”, como a Babilônia era conhecida (Ez 17.4-12). A casa bancária hebraica de Murashu aparece nas inscrições. As listas de cativos recebendo rações inclui, junto com os nomes hebraicos, as habilidades profissionais que alguns deles exerceram. Jeremias 29.5-7 mostra que os israelitas foram capazes de acumular riqueza. Muitos foram tão bem-sucedidos financeiramente que enviaram dinheiro a Jerusalém (Baruque 1.6,7,10) e quando Ciro deu permissão aos exilados para retomarem ao lar, eles se recusaram porque conforme Josefo, “não estavam dispostos a deixar suas posses” (Jos. Ant. XI, i. 3). Esse materialismo da parte de alguns dos exilados levou à conformidade com os costumes dos babilônios e à assimilação cultural. A tendência para assimilar incluía a adoção da linguagem aramaica, a aceitação da idolatria e da participação em cerimônias pagãs, assim como o sacrifício de seus filhos sobre altares pagãos (Ez 14.3-5; 20.31).

Socialmente, aos israelitas foi aparentemente permitida a liberdade completa. Eles se casaram, estabeleceram famílias e mantiveram contato com Jerusalém (Jr 29.6). Eles se reuniam em assembléias e essas, ocasionalmente, eram reuniões religiosas. Provavelmente foi em tais ocasiões que aqueles fiéis a Yahweh encontraram a oportunidade para o culto, a confraternização e a renovação da fé que servia para manter viva a visão da restauração de sua terra natal. Foi nestas reuniões que Ezequiel enfatizou as promessas do retomo e reviveu a confiança deles na Lei e nos Profetas (SI 137). Os grandes festivais dos israelitas não podiam ser observados em cativeiro, mas existiam práticas de oração solene, jejum e penitência (Zc 7.3-5). As práticas não dependiam dos grandes festivais relacionados ao Templo para serem praticados. Isso incluía a observância do Sábado, a prática da circuncisão e a oração com a face voltada para Jerusalém (lRs 8.48-50). É neste contexto que a ênfase de Ezequiel sobre a responsabilidade pessoal, a moralidade individual e a espiritualidade aparecem (Ez 18.20-32; 36.26,27).

Este núcleo leal de israelitas cercando Ezequiel formou o núcleo daqueles que retomaram à sua terra natal e sustentaram o entusiasmo e a liderança para a restauração. Um anúncio da liberdade que viria para os israelitas foi a libertação do rei Jeoiaquim da prisão. Conforme 2 Reis 25.27-30 ele foi solto por Evil-Merodaque, rei da Babilônia em 560 a.C. Jeremias tinha profetizado que o cativeiro permaneceria por 70 anos (Jr 25.12; 29.10; cp. 2Cr 36.21). Uma forma, entre outras, em que este período pode ser calculado, é a do tempo da destruição do templo em 586 a.C. ao tempo da sua reconstrução e dedicação em 516 a.C.

Em 538 a.C., Ciro, o rei persa, destruiu o império babilónico e no mesmo ano publicou um decreto permitindo aos judeus retomarem à sua terra natal (Ed 1.1-4; 6.3-5). Esses relatos do edito de Ciro têm sido confirmados pela arqueologia. A resposta dos exilados para a possibilidade de retomo não foi muito difundida. Alguns eram prósperos e estavam satisfeitos no exílio, ao passo que as condições na terra natal eram inconstantes, a jomada longa, perigosa e cara. O primeiro grupo a retomar, sob o comando de Zorobabel, governador de Judá e filho do filho mais velho de Jeoaquim, Salatiel, assentou as fundações do novo Templo. O segundo grupo, sob o comando de Esdras, escriba e reformador, fixou-se em Jemsalém no 7- ano de Artaxerxes, 457 a.C. Ele reuniu o povo no Rio Aava, um grupo com cerca de 1.800 homens, ou 5.500 a 6.000 homens e mulheres ao lado de 38 levitas e 220 servos do Templo de Casifia (Ed 8). Então, em 444 a.C. veio Neemias, copeiro de Artaxerxes e posteriormente governador de Judá, para reconstruir o muro de Jerusalém (Ne 1-13).

Esdras e Neemias investidos com poder real, apesar de grandes dificuldades, foram capazes de estabelecer a comunidade judaica pós-exílio. Foi neste período que um "israelita” veio a se chamar um “judeu", uma contração de “Judá". Da lista dada em Neemias 7.5-73, parece que a totalidade da comunidade judaica é numerada de 42.360 homens ou 125.000 pessoas.

O ceticismo com o qual os relatos bíblicos concernentes ao exílio foram observados por alguns eruditos, tem sido dispersado pela reconstrução arqueológica do Oriente Próximo. A posição de C. C. Torrey, S. A. Cook, G. Hölscher, W. A. Irwin e outros de que nunca ocorreu um exílio babilónico e, consequentemente, nenhum retomo a Judá, não negou somente a validade das narrativas das histórias bíblicas, mas também o messianismo profético que estava baseado em grande parte sobre esses eventos. Tais livros bíblicos como Ezequiel, Jeremias, Esdras e Neemias eram, segundo esta visão, em grande medida, uma fabricação de escritores posteriores. Tudo isso tem mudado. Descobertas arqueológicas, tais como o óstraco de Laquis e explorações em áreas ocupadas, têm revelado evidências para a destruição das cidades de Judá pelos babilónicos no tempo determinado pela cronologia bíblica. Recentemente, a descoberta de arquivos reais de Nabucodonosor suplementa a evidência de Judá dando suporte à credibilidade da história bíblica.

4. Os efeitos do Exílio. A causa do exílio foi a apostasia do povo em relação a Deus e a seu pacto. Os israelitas tinham rejeitado de forma consistente a mensagem dos profetas e persistentemente continuaram em seu pecado e idolatria. Constantemente os profetas avisavam os israelitas contra a confiança em sua própria sabedoria e poder. O exílio foi interpretado pelos profetas como o julgamento divino que resultaria em restauração e revelação do eterno amor de Deus para com Israel (Is 54.9,10; Jr 31.3-6). Ele é o incidente histórico primário sobre o qual o messianismo bíblico está baseado. Entre os resultados do exílio para Israel estava uma compreensão mais profunda da lei de Moisés e dos Profetas, tão importante para os judeus como um povo. De lá veio também uma compreensão mais clara da universalidade e soberania de Deus; que Yahweh é único Deus e não existe deus além dele. Esta fé permaneceu tão inabalável que suportou a influência e fascinação da cultura grega apesar dos efeitos do Helenismo sobre outras áreas do Judaísmo e sobre o restante do mundo Mediterrâneo.


 ** Extraído da Enciclopédia R. N. Champlin e Wikipedia


BIBLIOGRAFIA. G. A. Barton, Archaeology and the Bible (1937), págs. 463-485; G. E. Wright, Biblical Archaeologv (1960), págs. 108-127; J. Gray, Archaeolog)' and the OT World (1962), págs. 180-198; W. F. Albright, The Biblical Period from Abraham to Eira

(1963), págs. 81-89.

O homem que inventou Cristo **



Para conquistar fiéis, ele fez concessões que desagradaram aos discípulos de Jesus – e ainda despertam acirradas discussões entre pensadores e religiosos.
por Yuri Vasconcelos


O mundo cristão não seria o mesmo sem a mensagem que São Paulo transmitiu ao Império Romano. Para conquistar fiéis, ele fez concessões que desagradaram aos discípulos de Jesus – e ainda despertam acirradas discussões entre pensadores e religiosos. Afinal, Paulo espalhou ou deturpou a palavra de Cristo?

Estamos no ano 34 da era cristã. Passaram-se poucos anos desde a crucificação de Jesus. Sua mensagem espalhou-se rapidamente por toda a Palestina e seus discípulos eram implacavelmente perseguidos, principalmente pelos judeus. Os seguidores de Jesus são acusados de heresia e traição à Lei de Moisés. Em Jerusalém, um jovem judeu chamado Saulo faz verdadeiras atrocidades com os cristãos. Persegue-os furiosamente, invade suas casas e os manda para prisão. Informado de que, a cada dia, cresce a comunidade cristã em Damasco, na Síria, pede e obtém do Sinédrio, o Supremo Tribunal da comunidade judaica de Jerusalém, cartas de recomendação aos rabinos daquela cidade, autorizando-os a caçar os hereges cristãos. Acompanhado de alguns homens, percorre a cavalo os cerca de 200 quilômetros até Damasco. Depois de sete dias de viagem, sob um sol escaldante, consegue finalmente avistar as muralhas da cidade.

Mas, de repente, uma forte luz vinda do céu incide sobre ele e assusta seu cavalo, que o joga no chão. Naquele instante, o jovem judeu ouve uma voz que diz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”

Atônito, ele indaga: “Quem és, Senhor?” A voz responde: “Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e te dirão o que deves fazer”.

Catecismo de Heidelberg e Seus Autores


Introdução

Sem dúvida, o Catecismo de Heidelberg é uma das mais, se não a mais, amada confissão de todos os tempos. Aqueles que estimam a herança da verdade e se voltam às confissões da igreja para compreendê-las, irão regozijar-se na confissão de Heidelberg como um precioso presente de Deus através do Espírito da verdade que Cristo prometeu à igreja. Não apenas aqueles que pertencem a igrejas que têm o catecismo como sua base teológica, mas o povo de Deus de qualquer tradição e de todos os contextos eclesiásticos amam e estimam este glorioso credo.

Sua atratividade repousa sobre duas características. A primeira é seu estilo pessoal e caloroso. Ele fala à experiência do filho de Deus. Ele lhe explica o que a verdade significa para ele pessoalmente, em sua própria vida e chamado no mundo. A segunda é o seu tema central sobre o conforto. O aspecto pessoal e experimental do catecismo considera a verdade em toda a nossa vida como sendo uma verdade que traz conforto. Ele ecoa as palavras de Deus em Isaías capítulo 40 verso 1: "Consolem, consolem o meu povo, diz o Deus de vocês".

Doutrina da Reforma


No dia 31 de Outubro de 1517, na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, na Alemanha, Lutero afixou as suas 95 teses que acabaram provocando o grande movimento religioso, conhecido como a Reforma do Século XVI. Nelas Lutero convidava os interessados a debater a questão das indulgências (que eram vendidas para a construção da Basílica de S. Pedro, em troca de perdão de pecados) e os males que esse tráfico religioso podia acarretar. Era costume na época afixar em lugares públicos temas ou teses para debate e convidar os interessados para discuti-los. Embora ninguém tivesse comparecido para o debate, em pouco tempo toda a Alemanha conhecia as teses de Lutero, que lhe custaram a bula de excomunhão, mas que representaram também o começo da obra de purificação da Igreja e seu retorno à verdade.

Lutero e a Dieta de Worms de 1521

Reflexões em torno de Lutero
Martin N. Dreher



 Os sempre crescentes ataques de Lutero contra a Igreja Romana, que chegam a uma primeira culminância na Disputa de Leipzig (1519), levaram a que no ano de 1520 o processo contra Lutero, iniciado após a publicação das 95 teses (1517), fosse reativado. A 15 de junho de 1520 foi publicada a bula ¨Exsurge domine¨ (1). Ela contém uma ¨admoestação caridosa¨, o convite para que Lutero abjure no espaço de 60 dias suas doutrinas. Caso Lutero não abjurar no prazo previsto, será excomungado, devendo ser encaminhado a Roma. Toda e qualquer localidade que o abrigar será declarada interdita, i. é, nela não mais serão celebrados os sacramentos, os templos e capelas terão suas portas cerradas.

1. LUTERO QUEIMA A BULA

O bibliotecário papal Jerônimo Aleandro e o teólogo Johann Eck, oponente de Lutero na Disputa de Leipzig, foram encarregados de tornar a bula conhecida (2). Aleandro conseguiu que as obras de Lutero fossem queimadas em Antuérpia e em Lüttich. Em Louvaina, Colônia e Mogúncia, porém, foram queimadas obras de teólogos escolásticos, sob o pretexto de estarem sendo queimadas obras de Lutero. Nem todos os príncipes estavam dispostos a aceitar a bula; muitos bispos vacilaram. O povo estava agitado, assumindo a causa de Lutero; temia-se revoltas populares (3).

O Combate Bretão que John Stott Venceu Martyn Lloyd-Jones e o Evangelho Perderam



Na década de 1960 houve vários embates entre os ministros evangélicos na Inglaterra. Ninguém imaginava que aqueles combates teológicos estariam definindo o destino da igreja moderna.

De um lado da disputa estava o solitário Dr. Martyn Lloyd-Jones que em vão chamava a igreja da Inglaterra de volta à Escrituras e exortava os pastores e teólogos ingleses a abandonarem as filosóficas humanistas dos teólogos progressistas.

Do outro lado estava John Stott e seus colegas, traindo o seu mentor, Martyn Lloyd-Jones. Stott era um dos líderes do grupo apóstata que buscava interpretar as escrituras como um livro histórico, sujeitos à mesma hermenêutica que qualquer outro livro. Ensinavam por exemplo que não um inferno, que a salvação é universal, e que Deus nunca julgaria ninguém. Também defendiam o ecumenismo.

Dr. Douglas Jones da Universidade de Durham escreveu contra o Dr. Lloyd-Jones:

“O Dr. Martyn Lloyd-Jones está tentando nos convencer de que existem marcas doutrinárias que podemos usar para distinguir aquele que crê daquele que não crê... Nesse sentido, Dr. Lloyd-Jones não aprendeu nada com o maior teólogo evangélico dos tempos modernos” – (ele se referia aqui ao herético Karl Barth).

John Stott em 1967 disse sobre o inferno:

“Emocionalmente, acho o conceito (de inferno) intolerável e não compreendo como as pessoas podem viver com ele sem qualquer cauterização de seus sentimentos... Nossas emoções são um guia, oscilante, e confiável para a verdade, mas não devem ser exaltadas ao lugar da suprema autoridade (bíblia)... minha pergunta deve ser – e é – não o que meu coração me diz, mas o que a palavra de Deus tem a dizer?”

Mas Stott de fato colocou suas emoções acima das escrituras quando desenvolveu a doutrina do ‘aniquilacionismo’ que nega as declarações claras da bíblia sobre o castigo eterno no inferno. Apesar deste e de muitos outros erros, John Stott continua a ser o professor favorito de muitos auto-intitulados teólogos evangélicos.

Pouco menos de dois antes da morte de Martyn Lloyd-Jones, John Stott solicitou uma reunião com ele para, de acordo com Stott, tentar uma reconciliação com seu antigo mentor. Mas o Dr. Lloyd-Jones, enquanto muito educado, deixou claro que a divisão entre eles dois não era uma questão de personalidades (como alguns no mundo evangélico supunham), mas de princípios. Lloyd-Jones disse a Stott “se você voltar aos princípios bíblicos a brecha entre nós será curada. E eu direi como Simeão: Senhor agora despedes o teu servo em paz”. Mas não era para acontecer. Dr. Lloyd-Jones faleceu no dia 1º de março de 1981.

John Stott e seu grupo venceram. O resultado hoje é visível. Na Inglaterra as grandes catedrais são hoje museus ou mesquitas islâmicas. A Inglaterra que gerou Charles Haddom Spurgeon hoje ordena pastores gays e apóia a pedofilia. Não foi Martyn Lloyd-Jones que perdeu, foram a Inglaterra e o mundo que se perderam de Deus.

Basta relacionar a situação do cristianismo evangélico no mundo hoje com o fato de John Stott ser relacionado pela revista Times, entre as 100 pessoas mais influentes do mundo.

A Europa, antes berço do protestantismo, hoje se tornou berço do anti-cristianismo ao mundo, que é toda a mensagem que relativiza a moral e os princípios bíblicos e centraliza o homem acima de Deus. Seja em forma de socialismo, ateísmo, satanismo, humanismo ou iluminismo.

No Brasil e nos EUA, líderes evangélicos relativizam a palavra, negam o nascimento virginal de Jesus, negam o inferno, classificam o Éden como um mito; defendem a liberação das drogas, do aborto, do casamento e ordenação de homossexuais. Ensinam a salvação universal, o divórcio, o sexo livre, e acima de tudo são marxistas enrustidos.

É Stott realmente responsável por todo o lixo teológico na Igreja Moderna? É responsável pela fuga das ovelhas, aquele que deixou a porteira do aprisco aberta?

Esse é o legado de John Stott deixou a igreja: a teologia relativista, que é a teologia da apostasia. Um evangelho universalista que torna Deus cúmplice e incentivador dos pecados do homem. Que demonizou os Dez Mandamentos, e eliminou a necessidade de arrependimento e novo nascimento.

Por outro lado, devemos dar ouvidos ao que o velho mestre Martyn Lloyd-Jones escreveu:

Certamente não podemos aceitar as idéias universalistas, porque, se assim o fizermos, isso significa que nós encontraremos contradizendo o ensino básico das Escrituras naqueles lugares onde há uma clara divisão entre os salvos e os perdidos, o bom e o mau, os redimidos e os perdidos. Apesar dos argumentos com base em uma idéia filosófica do amor de Deus, a Escritura faz uma distinção fundamental entre a salvação eterna e a destruição eterna. Existe apenas uma salvação, pelo sangue de Cristo e ninguém pode entrar no reino de Deus exceto pela fé em Cristo. Esse é o ensinamento da Escritura.

O mistério que nós como cristãos temos permissão para compartilhar com o mundo é que deus acabará por restaurar a harmonia original, e reunir-se-á novamente com todas as coisas através de Cristo. Jesus está acima de tudo e a harmonia será restaurada... Essas bênçãos só são aplicáveis àqueles que crêem no Senhor Jesus Cristo.

Nenhuma harmonia é prometida aos outros. Eles serão enviados para a “destruição eterna”, estarão fora dos cosmos, e não mais perturbarão a harmonia pela eternidade. A respeito dos anjos caídos é evidente que não há esperança para eles. Eles estão ‘reservados em cadeias’ no Hades até que venha a sua condenação final (2 Pe. 2.4 e Jd. 1.6). Satanás também está para ser no ‘lago de fogo’, onde ele e todos os seus seguidores devem ser atormentados para sempre (Ap. 20.10).

Nosso Senhor Jesus atraía os pecadores porque Ele era diferente. Eles se aproximaram d’Ele, porque eles sentiam que havia algo diferente n’Ele. O mundo deve nos ver como seres diferentes. Essa idéia de que você vai ganhar as pessoas para a fé cristã mostrando-lhes que, afinal de tudo, você é igual a eles, é teologicamente e psicologicamente uma asneira profunda. David Martyn Lloyd-Jones, O último Propósito de Deus: Uma exposição de Efésios 1.1-23 (de Edimburgo, Carlisle, na Pensilvânia: Banner Of Truth Trust, 1978), 202-07.

A mensagem de Lloyd-Jones à igreja do Séc. XX é atual é necessária no séc. XXI, não há realmente nada de novo sob o sol:

Toda essa pregação moderna no fato de que Deus é amor é uma indicação da mesma atitude e espírito. Dizemos hoje que os sermões antigos que pregavam a lei e falavam sobre a convicção do pecado e chamavam o povo ao arrependimento estavam todos errados porque eram legalistas. Os teólogos modernos nos disseram que devemos retornar a mensagem de Jesus e nos livrar de toda a nossa teologia, nossa argumentação e doutrina. A grande mensagem da pregação moderna é dizer às pessoas que Deus é amor. Não importa o que elas sejam, ou o que tenham sido, ou o que eles fizeram, ou que elas podem vir a fazer, Deus as ama. Ninguém será punido! Não há nenhuma lei, por isso não há castigo e nem há um inferno...

Teólogos modernos da igreja nos dizem que o que precisamos é de um ‘cristianismo sem religião’. Um deles escreveu um livro no qual ele diz que se você realmente que encontrar Deus, não vá aos locais de culto. Ele disse que encontrou mais de Deus nos bordéis e botecos do que ele jamais encontrou em uma igreja. Amor e bondade um para com outro, dizem eles, é a mensagem de Cristo. Isso tudo é apenas uma maneira muito inteligente, moderna, sofisticada e filosófica de dizer – ‘não se arrependam!’.

Se você sabe a mensagem da bíblia, você não terá nenhuma dificuldade em responder a esta pergunta. É o arrependimento essencial para a salvação? Não há salvação sem arrependimento! Se você diz que precisa de um Salvador, isso se deve por você perceber que vive de maneira errada e pecaminosa. A vida pecaminosa merece o julgamento e a punição de Deus e do inferno. O objetivo daquela morte na cruz foi a de nos reconciliar com Deus. É uma reconciliação pessoal. A morte de Cristo na cruz não apenas nos coloca bem com a lei, mas também com uma pessoa... Para ter essa relação, comunhão e intimidade com Deus devemos ser iguais a Ele. Entendemos que devemos ser justos, pois não há comunhão entre luz e trevas, portanto, devemos ser livres de tudo que é errado e mau. Isso é arrependimento.

O mundo precisa de ser lembrado do julgamento. Este país (Inglaterra) está perdendo a moral, todos os países estão, e não adianta tentar resolver o problema passando leis no Parlamento, você não poderá resolvê-los... Para tal, precisa mudar a natureza humana. O problema está no coração humano. Porque as pessoas não têm idéia do julgamento de Deus, tampouco possuem algum senso de responsabilidade. O mundo inteiro precisa saber que está correndo na direção do Juízo Final. Só a perspectiva de julgamento pode trazer o homem à consciência, e é o propósito da pregação do evangelho, dizer ao mundo que o julgamento está chegando e não dizer que Deus ama a todos, e portanto, todo mundo irá para o céu. Nosso Senhor pregou o julgamento. Como vimos, é a única explicação de por que Ele morreu. Martyn Lloyd-Jones, O Cristianismo Vitorioso, EUA 1 Ed. (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2003), 66-74.

Seguindo a teologia de Stott e seus cooperadores a Igreja Moderna deixou de seguir os mandamentos da Bíblia e suas exortações. O resultado é que os crentes não reconhecem o pecado quando o encontram. Eles aceitam todo o ‘caminho que ao homem parece direito’ (Pv. 16.25). E por que possuem vergonha do evangelho de Jesus que apresenta um Deus que pune o pecador, travestem a tolerância ao pecado em amor e negam o juízo de Deus para serem tolerados pelo mundo. Imaginando-se cheios de amor e misericórdia, estão sendo iludidos por Satanás.


Artigo extraído do seguinte endereço: Fé em Contexto