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Catecismo de Heidelberg e Seus Autores


Introdução

Sem dúvida, o Catecismo de Heidelberg é uma das mais, se não a mais, amada confissão de todos os tempos. Aqueles que estimam a herança da verdade e se voltam às confissões da igreja para compreendê-las, irão regozijar-se na confissão de Heidelberg como um precioso presente de Deus através do Espírito da verdade que Cristo prometeu à igreja. Não apenas aqueles que pertencem a igrejas que têm o catecismo como sua base teológica, mas o povo de Deus de qualquer tradição e de todos os contextos eclesiásticos amam e estimam este glorioso credo.

Sua atratividade repousa sobre duas características. A primeira é seu estilo pessoal e caloroso. Ele fala à experiência do filho de Deus. Ele lhe explica o que a verdade significa para ele pessoalmente, em sua própria vida e chamado no mundo. A segunda é o seu tema central sobre o conforto. O aspecto pessoal e experimental do catecismo considera a verdade em toda a nossa vida como sendo uma verdade que traz conforto. Ele ecoa as palavras de Deus em Isaías capítulo 40 verso 1: "Consolem, consolem o meu povo, diz o Deus de vocês".




O Início da vida de Ursinus




Zacarias Ursinus nasceu no dia dezoito de julho de 1534, na cidade de Breslávia, na Silésia, uma província da Áustria. Ele nasceu em uma família com o nome de Baer, ou Urso. Aqueles que conheciam o Ursa Maior como Ursa Major também irão reconhecer que Ursinus é a palavra latina para urso. Os pais de Ursinus eram pobres, pois o salário de um tutor era escasso e seu pai era um tutor. Porém, ele teve duas vantagens por ter sido criado no lar de um tutor. A primeira era que ele foi cercado, desde sua infância, com conhecimento, e a segunda era que ele teve a oportunidade de conhecer muitos ricos e famosos no decorrer de seus primeiros anos.

Ursinus estudou na Breslávia até seus quinze anos, quando foi para Wittenberg. Quatro anos após o corpo de Lutero ter sido sepultado na catedral de Wittenberg e enquanto Philipp Melanchthon, colega e amigo íntimo de Lutero, ainda ensinava, Ursinus veio a esta famosa e ilustre escola. Pelo fato de seus pais não poderem dar-lhe suporte, suas despesas foram costeadas pelo senado da Breslávia com a expectativa de que ele retornaria a sua cidade natal para ensinar depois que tivesse concluído seus estudos.

Embora ele fosse um estudante muito talentoso e dotado, Ursinus era tímido e reservado, tendendo de certa forma a ser melancólico e nem um pouco inclinado a participar da confusão intelectual da vida estudantil na universidade. E também não buscava avidamente a companhia daqueles que estudavam com ele, os quais, frequentemente com festas excessivas, comemoravam a liberdade de uma vida acadêmica. Ele preferia compor versos em Grego e Latim na solidão de seus estudos.  Ele provavelmente teria passado pelos corredores da universidade sendo pouco notado, se não fosse pelo fato de Melanchthon ter observado suas habilidades, trazido Ursinus para sua própria casa e tornado-se um amigo e companheiro, bem como um professor ao tímido estudante. Esta era uma estranha porém valiosa amizade, um dotado teólogo de cinquenta e três anos com um pobre estudante de dezesseis.

A Reforma Luterana tinha chego à Breslávia antes do nascimento de Ursinus e havia influenciado seus pais. Wittenberg era o centro dos estudos luteranos. Não é de se admirar que Ursinus se tornou um ardente luterano. No entanto, Melanchthon já estava reconsiderando sobre o ponto de vista de Lutero a respeito da Ceia do Senhor e estava mais inclinado a concordar com os teólogos suíços quanto a presença de Cristo no pão e no vinho. Ursinus foi influenciado por Melanchthon e desenvolveu sua própria opinião, a qual era mais parecida com a de seu mentor.

Ursinus passou sete anos com Melanchthon e até mesmo o acompanhou a Worms e Heidelberg em 1557. Heidelberg era a cidade na qual Ursinus desenvolveria a sua obra mais importante. Ele a viu pela primeira vez no outono dourado de outubro. Perto da vertente coberta com árvores, ficava o castelo imponente no qual o eleitor vivia. A cidade se localizava no estreito vale do rio Neckar, o qual fluía pela a Floresta Negra em direção ao rio Reno, apenas a poucos quilômetros de distância. A Igreja do Espírito Santo dominava a cidade com suas altas torres sobre os telhados das casas. Quase aos pés das torres estava a mais famosa e antiga universidade da Alemanha, a Universidade de Heidelberg. Ela tinha sido católica romana; mas agora era protestante. Se ela seria luterana ou reformada ainda seria decidido. Este era o lar de Melanchthon, a terra pela qual ele ansiava. Mas Melanchthon não voltou para Heidelberg para ficar; o trabalho de sua vida era sobre o solo arenoso e empoeirado de Wittenberg.

Após viajarem juntos para Heidelberg, Ursinus e Melanchthon mudaram de rumo, Ursinus viajou por um ano ao redor da Europa visitando os centros protestantes de ensino na Alemanha, França e Suíça. Ele pôde ler as palestras sobre Hebreus de Jean Mercier em Paris, sentar aos pés de Bullinger em Zurique e falar com Calvino em Genebra. Na verdade, Calvino lhe presenteou com o conjunto completo de suas obras, assinado por seu ilustre autor.

Por uns poucos anos, Ursinus cumpriu suas obrigações para com a Breslávia ensinando ali, mas os luteranos suspeitaram que ele fosse mais reformado do que luterano em seu ponto de vista sobre a Ceia do Senhor. Eles estavam certos; mas esta foi uma campanha de intimidação contra ele, que no final eclodiu em um debate público, o qual persuadiu Ursinus a renunciar sua posição e deixar a cidade. Ele nunca apreciou controvérsias e a amargura do ódio na Breslávia era maior do que podia suportar.

Da Breslávia, Ursinus foi para Zurique. Por um breve período ele encontrou paz e tranquilidade. Ali tornou-se um amigo íntimo de Pietro Martire Vermigli, o reformador da Itália, que fez uma extraordinária contribuição para a doutrina reformada da Ceia do Senhor. Ursinus encontrou companheirismo e comunhão com homens com quem ele estava completamente de acordo. Mas, a decisão de Ursinus de ir para Zurique foi uma escolha difícil. Ele falou ao seu tio:

"Não é indispostamente que deixo eu minha terra natal, uma vez que ela não permite a confissão da verdade da qual não posso de boa consciência abrir mão. Se meu professor, Melanchthon, estivesse vivo, eu não iria a nenhum outro lugar a não ser a ele. Mas como ele está morto, vou para Zurique onde existem homens piedosos, excelentes e eruditos. Quanto ao restante, Deus cuidará."

Frederico, o piedoso, queria um professor reformado em Heidelberg e chamou Pietro Martire. Martire recusou a proposta por causa de sua idade avançada, mas indicou Ursinus. Quando Ursinus recebeu a proposta de Frederico, ele estava muito relutante em ir. Ele como qualquer outro, sabia sobre as tensões e controvérsias que estavam  despedaçando a cidade. A um amigo ele escreveu: "Oh, que eu pudesse permanecer escondido em um canto. Eu daria qualquer coisa para me abrigar em alguma vila tranquila".

Contudo, Deus tem seus meios de chamar alguém para um trabalho, alguém que está resistindo. Assim foi com Moisés. Assim foi com Calvino quando, sob as ameaças do impetuoso Farel, foi persuadido a ficar em Genebra. Assim Deus chamou Ursinus, tímido e reservado, para a turbulenta confusão doutrinária e eclesiástica de Heidelberg.

Os Anos em Heidelberg

Eram tempos difíceis em Heidelberg. Embora através do sábio e devoto governo de Frederico, o piedoso, o catolicismo romano tivesse sido praticamente erradicado da cidade, o luteranismo e a fé reformada estavam competindo pelo domínio. As diferenças estavam, quase que exclusivamente, sobre a doutrina da Ceia do Senhor, no entanto os violentos luteranos radicais estavam fazendo tudo o que podiam para livrarem-se de todos que discordassem da posição deles.

Ursinus foi nomeado diretor do Collegium Sapientiae, a Universidade da Sabedoria, como era chamada. Entretanto, não foi muito tempo depois que ele foi designado a ocupar a cadeira de Dogmática, uma posição a qual todo tipo de tarefas e obrigações imagináveis eram impostas, visto que Frederico e outros buscavam fazer uso de suas grandes habilidades e de sua compreensão clara da verdade. Ursinus não estava brincando quando colocou na porta de seu escritório na universidade um letreiro que estava escrito em latim com uma pitada de humor, que traduzido diz: "Amigos que entram aqui: sejam breves, ou saiam; ou ajudem-me em meu trabalho."

No entanto, o trabalho pelo qual Ursinus é reconhecido, é pela autoria do Catecismo de Heidelberg. Com Caspar, ele foi encarregado de elaborar uma confissão que poderia ser utilizada na instrução do povo do Palatinado e poderia servir como uma base para a unidade.

Ursinus já havia escrito um pequeno catecismo em latim, que também havia partido da ideia de consolo. Tinha sido sugerido a Ursius o tema deste catecismo, e muito de seu primeiro trabalho foi assimilado ao Catecismo de Heidelberg. É difícil para nós entendermos que Ursinus tinha apenas vinte e oito anos de idade nesta época, porém ele tinha estado imerso na teologia reformada desde a infância e era um homem de talentos brilhantes com os quais Deus o tinha dotado. O trabalho iniciou em 1562 e tomou quase um ano. Esta era uma maravilhosa época para confissões: os Trinta e Nove Artigos tinham sido adotados pela Igreja da Inglaterra; Bullinger tinha escrito sua bela Segunda Confissão Helvética; e os perseguidores espanhóis dos Países Baixos estavam caçando o autor da Confissão Belga, Guido de Brès.

Frederico fez com que o trabalho avançasse o mais rápido possível. Quando o catecismo estava quase pronto no início de 1563, ele convocou uma grande comitiva de ministros e professores de todo o Palatinado para reunirem-se em uma solene assembleia para discutir e, se possível, aprovar o trabalho. Depois dos cultos solenes e uma longa discussão, o grupo reunido estava tão comovido com a genialidade do trabalho, que unanimemente aconselharam Frederico a adotar o catecismo sem alterações. E assim foi feito.

Na segunda edição, Frederico mandou incluir a pergunta e resposta número oitenta, ainda que sem a linguagem afiada com relação à missa; mas quando os ataques dos católicos romanos aumentaram em aspereza e intensidade, Frederico fez outra alteração nesta mesma pergunta e resposta a qual incluiu as palavras que cada vez mais aborreciam as almas dos católicos romanos, palavras que taxavam a missa como sendo "uma idolatria maldita". Frederico também ordenou que o catecismo fosse dividido em cinquenta duas seções, ou Dias do Senhor, a fim de que pudesse ser pregado do começo ao fim em um ano. O catecismo rapidamente passou por muitas edições e logo foi traduzido em diversas línguas, incluindo o holandês, onde o catecismo se tornou uma preciosa confissão das Igrejas Reformadas Holandesas.

Os Anos de Ursinus Depois de Heidelberg

O resto dos anos de Ursinus em Heidelberg foram bem agitados e relativamente infelizes. Além de seus deveres na universidade continuarem, agora ele também pregava o Catecismo de Heidelberg todos os dias do Senhor. Além disso, ele se tornou o defensor principal do catecismo contra os muitos ataques perversos que os católicos romanos e também luteranos faziam contra o mesmo. Eles cansaram tanto aquele que amava a paz, o exauriram tanto fisicamente e prejudicaram tanto a sua saúde, que em 1566, ele parou de escrever e dois anos mais tarde renunciou sua cadeira de dogmática. A cadeira foi para o estimado reformador italiano, Hieronymous Zanchius, cujo trabalho sobre Predestinação é ainda amplamente lido.

Os debates em Heidelberg continuaram, agora a respeito do governo da igreja. A disciplina do impenitente está com o estado ou com a igreja? A controvérsia foi incisiva e feroz. O principal defensor do presbiterianismo foi um inglês chamado George Withers. Bullinger e Beza foram chamados para dar conselhos. Por fim, irritado pelo silêncio de Ursinus, Frederico lhe ordenou que expressasse sua opinião. Ele fez isso em uma assembleia pública de maneira tão sincera e amável, que sua opinião prevaleceu e presbitérios foram estabelecidos com a disciplina seguramente nas mãos da igreja.

Por todos estes anos Ursinus permaneceu solteiro e viveu com estudantes nos dormitórios da universidade. Mas em 1572, com a idade de trinta e oito anos, ele começou a considerar a possibilidade de casamento. Ele havia reparado uma mulher serena e simpática, apenas a um quarteirão de distância da universidade e um dia, ele tomou coragem, deu uma pausa em seus estudos para pedir sua mão em casamento. Ela aceitou e eles se casaram - talvez em um dos mais curtos namoros já registrados. Eles viveram juntos nove anos e tiveram um filho. No entanto, as coisas estavam prestes a mudar em Heidelberg. Frederico morreu, desgastado pelos cuidados do seu reino. O Eleitor Luís - Ludwig - veio ao eleitorado. Luís era um luterano ardente e estava determinado a forçar o luteranismo no Palatinado. Dentro de um ano, ele conseguiu fazer isso e o corpo docente reformado da universidade, incluindo Ursinus, foi demitido. Mais de seiscentos professores e pregadores deixaram o Palatinado durante esta época infeliz. Embora Ursinus tenha sido convidado a ensinar em Lausanne, na Suíça, ele preferiu ir a Neustadt, onde estabeleceu uma escola em um convento com a ajuda de seu bom amigo Casimiro, filho de Frederico, o Piedoso. A escola obteve um excelente corpo docente e logo atraiu muitos estudantes de toda a Europa Ursinus ensinou apenas por um breve período na escola. Ele recebeu um convite de uma Convenção reformada que se reuniu em Frankfurt, em 1577, para elaborar uma confissão que poderia servir como base para a unidade de todas as igrejas reformadas da Europa, mas ele recusou por causa de problemas de saúde.

A grande obra destes anos foi a escrita de seu famoso comentário do Catecismo de Heidelberg, um volume que todos os que amam este credo deveriam adquirir. O volume foi elaborado a partir de suas palestras sobre o catecismo em Neustadt, palestras que ele havia editado e preparado para a publicação, embora este último trabalho ele nunca tenha terminado. O livro foi publicado em 1584 após a sua morte. A saúde de Ursinus continuou a piorar e seus ensinos se tornaram cada vez mais esporádicos. Por fim, no dia seis de março de 1583, com a idade de quarenta e nove anos, ele morreu em Neustadt, deixando sua esposa viúva e seu filho sem pai.

Síntese

Ursinus não era um pregador muito bom, seus dons estavam na sala de aula, onde suas palestras eram eruditas, incisivas, instrutivas e dadas de uma maneira muito interessante. Ele sempre foi um homem cauteloso, tanto que quando as perguntas eram feitas a ele em sala de aula, ele quase sempre adiava as respostas para o dia seguinte, para que pudesse ter tempo de formular uma resposta meticulosa. Sua força estava em sua mente perspicaz e seu profundo compromisso com a verdade. A verdade para ele não era uma questão intelectual, no entanto; ela era o seu "conforto", de tal modo que por si só podia sustentá-lo ao longo dos cansativos anos de trabalho em Heidelberg.

Deus colocou este introvertido homem no turbilhão de Heidelberg. Deus sabe o que fazer com os Seus servos escolhidos, mesmo quando seus caminhos parecem completamente errôneos para eles e para outros. Nós somos os beneficiados, pois foi nos dado o respeitado tesouro do Catecismo de Heidelberg.

Introdução

Deus usou mais de um homem para escrever o Catecismo de Heidelberg. Frederico III, o eleitor do Palatinado, ordenou que ele fosse escrito e apoiou o projeto, até mesmo oferecendo sugestões de vez em quando. Zacarias Ursinus era o teólogo do catecismo. Mas Caspar Olevianus deixou sua própria marca inextinguível sobre ele também.

A história não nos deixou registros de qual parte precisamente cada um dos dois autores do catecismo executou na sua elaboração e as especulações de historiadores sobre o assunto têm-se revelado infrutíferas. Mas isso realmente parece ser uma manifestação da grande sabedoria de Deus quando, na elaboração deste maravilhoso credo, Deus usou tanto Ursinus, o teólogo, quanto Olevianus, o pregador. O catecismo não é apenas uma inigualável síntese da fé cristã com o toque de um teólogo, mas é também uma confissão eminentemente adequada para ser pregada: tem o toque de um homem que era um talentoso e eloquente pregador e pastor.


 Início de Sua Vida e Formação




Caspar Olevianus nasceu no dia dez de agosto de 1536, dois anos após o nascimento de seu colega Ursinus. Ele nasceu em uma das cidades mais famosas do transalpino da Europa, na cidade de Trier, ou, como às vezes era chamada, Treves. A cidade foi construída às margens do rio Mosela, na fronteira da Alemanha com Luxemburgo. Ela se vangloriava pelo fato de que sua história remontava aos dias antes do nascimento de Cristo, e afirmava ser uma das mais antigas, se não a mais antiga cidade ao norte dos Alpes. O imperador César Augusto fundou a cidade em 15 a.C e havia feito dela uma importante cidade de uma imensidão de bárbaros.

A cidade era distinta por ter sido, por um breve período, o lar do grande pai da igreja Atanásio, quando, por causa de sua firme defesa da verdade da divindade de Cristo, foi banido de sua igreja em Alexandria, no Egito. Isso aconteceu na primeira metade do século IV.

O destaque de Trier, na Idade Média era devido, em grande parte, ao fato de que a catedral da cidade afirmava ter em sua posse a túnica sem costura de Cristo[1], a qual os soldados lançaram sorte na cruz. Além disso, a abadia da cidade afirmava ser o local do sepultamento do apóstolo Mateus, o único apóstolo que, segundo a tradição, foi enterrado ao norte dos Alpes.

Olevianus era filho de Gerhard von der Olewig e Sinzig Anna. O nome "Olewig", que significa "azeitona", na verdade refere-se a uma parte da cidade, talvez até uma pequena aldeia anexa à cidade, conhecida por esse nome. "Olevianus" é a forma latina do nome. O pai de Caspar era um comerciante, relativamente rico e um proeminente cidadão deste lugar histórico. Ele era um padeiro, presidente da associação dos padeiros, membro da assembleia municipal e tesoureiro da cidade. Ele seguiu a tradição da família quanto ao serviço à cidade, pois o avô de Caspar foi o presidente da associação de açougueiros e também um membro do conselho. Estas posições na cidade eram importantes, pois Trier, por causa de seu ilustre passado, era uma cidade "livre" na Alemanha.

A mãe de Caspar era uma mulher piedosa e temente a Deus, que exerceu uma grande influência em sua família e filho. É impressionante, se posso fazer um parêntesis aqui com uma observação, que muitos daqueles homens que ocuparam lugares de grande destaque na causa de Deus e da Sua Igreja, tiveram mães muito piedosas e tementes a Deus. Este é um fato histórico que deve trazer descanso a todas as mães no pacto: elas nunca sabem que efeito a sua piedade e humilde serviço à Deus terá sobre os seus filhos e de que maneira Deus usará a piedade delas em Sua causa.

Trier era uma cidade católica romana. Ela permaneceu assim mesmo que a Reforma Luterana tivesse se espalhado por boa parte da Alemanha. Ela permaneceu imune aos ensinos luteranos. Portanto, Caspar foi criado em um lar católico romano e nos primeiros quatorze anos de sua vida ele foi ensinado em uma escola católica romana de Trier.

Para compensar esta influência católica romana houve um episódio que causou uma profunda impressão em Caspar durante estes anos, um episódio do qual ele mesmo falou mais tarde. Enquanto Caspar esteve na escola, um padre idoso porém gentil e virtuoso plantou uma semente em seu coração que acabou por dar frutos. Não foi nada mais do que uma observação que o idoso padre lhe fez nos corredores da escola. Reconhecendo as habilidades do garoto, o padre colocou o braço sobre o ombro de Caspar e disse-lhe: "Nunca se esqueça de que a salvação e conforto são encontrados apenas na perfeita obra de Cristo". Repetidamente, através desses tenebrosos e sombrios séculos, quando o catolicismo romano dominava sobre as mentes e consciências dos homens, encontramos estes indivíduos isolados que, apesar da negação romana do perfeito sacrifício de Cristo pelo pecado, defendiam a verdade de que nossa plena salvação está somente em Cristo. Deve ter sido esses solitários homens dispersos que permitiram com que a igreja de Cristo se mantivesse viva durante esses tempos difíceis.

Em 1550, com a idade de quatorze anos, Caspar concluiu seus estudos em Trier. Seu avô interveio e ofereceu-se para costear a educação de Caspar na França, dando-lhe a oportunidade de estudar direito. Isso era um pouco estranho, pois Trier tinha sua própria universidade; porém torna-se mais compreensível quando lembramos que Trier era solidamente católica romana e suas escolas estavam progressivamente perdendo alunos, enquanto as universidades de outras partes da Europa estavam se tornando muito pópulares devido à abertura para os ensinos renascentistas e reformados.

Foi na França que a vida de Caspar tomou um rumo extraordinário. Sua Conversão e o Início de Seu Trabalho Os anos que Olevianus passou na França foram proveitosos, mesmo que seja apenas pelo fato de que eles o levaram à sua conversão à fé reformada.

Caspar frequentou as universidades de Paris, Orléans e Bourges, as mesmas universidades nas quais Calvino recebeu a sua formação. Embora tenha estudado Direito, ele foi influenciado pelos principais pensadores nas universidades, os quais eram mais ou menos comprometidos com o luteranismo; porém mais importante do que isso, ele foi influenciado pelo ensino huguenote. Os huguenotes eram calvinistas franceses que haviam sido libertos do catolicismo romano, mas que foram forçados a se encontrarem secretamente, pois estavam sendo severamente perseguidos pelo rei e pela igreja. A sombra da estaca, o laço do carrasco, e o brandir da espada constantemente vinham sobre eles e suas famílias. Caspar não somente entrou em contato com eles, mas tornou-se convencido de sua posição e até mesmo participou de suas reuniões secretas.

Houve uma experiência, em especial, que mudou sua vida. Enquanto ele caminhava com um amigo, um príncipe da Alemanha, ao longo do rio que corria por Bourges, Caspar e este amigo foram convidados a cruzarem o rio em um barco no qual estavam os outros estudantes. Caspar recusou porque os alunos no barco estavam bêbados, mas seu amigo aceitou a oferta. No meio do caminho os estudantes começaram a balançar o barco e este virou. Caspar mergulhou na água para salvar seu amigo, mas não foi capaz de fazê-lo por causa da correnteza. Ele mesmo estava em perigo de afogamento. Nesse ponto crucial, Caspar prometeu que, se Deus poupasse sua vida, ele pregaria o Evangelho em Trier. O criado de seu amigo, confundindo Caspar com seu mestre, puxou Caspar da água, enquanto seu amigo se afogava. Embora Caspar tenha continuado seus estudos em direito, aquela promessa, feita nas águas frias do rio Auron, não foi esquecida.

Após concluir seus estudos na França, Olevianus voltou a Trier, não ainda para pregar - ele era inexperiente para isso -, mas para exercer a advocacia. No entanto, sua promessa oprimia grandemente sua alma e ele não encontrou nenhuma satisfação nos pormenores jurídicos da prática de advogacia do século XVI. Em desgosto e inquietação, Caspar viajou a Genebra com o propósito claro de falar com Calvino.

Os dois anos que ele passou na Suíça foram realmente importantes. Ele não apenas encontrou-se e conversou com Calvino, mas teve a oportunidade de passar muitas horas com Theodoro de Beza, Henry Bullinger, Pietro Martire, William Farel e Peter Viret, todas as resplandecentes estrelas do céu da Reforma. Os anos não foram gastos, no entanto, em conversas fiadas; ele estudou em Genebra com Calvino, aprendeu hebraico, dominou a teologia, foi instruído na arte da pregação e preparou-se para o ministério.

Deve ter sido uma excelente instrução a que ele recebeu sobre pregação, pois, juntamente com o desenvolvimento dos seus dons naturais, esta instrução fez de Olevianus um dos pregadores mais ilustres e eloquentes daquele tempo - e aquele tempo foi abençoado com muitos pregadores talentosos!

O ano de 1559 foi muito importante na história da Reforma. Durante este ano os protestantes franceses realizaram o seu primeiro sínodo em Paris, John Knox retornou à Escócia para estabelecer a igreja presbiteriana, William, o Taciturno, fez o seu voto de expulsar "Os Vermes Espanhóis" da Holanda, o Eleitor Frederico III, o Piedoso, iniciou seu reinado em Heidelberg e Calvino inaugurou sua Academia em Genebra e publicou a última edição de suas Institutas.

Em junho deste importante ano, a pedido de Farel - aquele fervoroso reformador que tinha sido fundamental para manter Calvino em Genebra - Olevianus voltou a Trier. Seu Trabalho em Trier Trier ainda era uma cidade católica romana e a presença de Olevianus como um ministro da verdade da Reforma de Calvino não teria sido muito bem aceita lá. No entanto havia dois homens influentes, Otto Seele e Pedro Sierk, que eram conhecidos em Genebra por terem algumas tendências calvinistas. Calvino escreveu à eles para tentar incentivá-los a labutar por reforma, e especialmente para trazer Caspar Olevianus para Trier a fim de ajudá-los.

Parece que Caspar foi para Trier sem revelar qual era sua posição com relação aos assuntos da Reforma. Pela natureza daquela época, ele deve ter escondido seus verdadeiros propósitos. Por causa da reputação de seus pais e avós, ele não teve dificuldade em obter um emprego para ensinar filosofia na escola de Trier, que era solidamente católica romana. Ele escolheu ensinar a dialética de Melanchthon. O ensino era em latim, e a dialética era um pouco tediosa para qualquer um exceto para os alunos mais fervorosos; logo Olevianus poderia ser pouco influente. Em certo sentido, ele estava fingindo ser alguém que não era, ansioso para manter uma promessa que ele havia feito a muito tempo, mas escondido em uma aula de filosofia em uma escola em declínio.

Pelo fato de que poucas pessoas em Trier compreendiam Latim - mesmo a maioria dos estudantes não eram muito proficientes na língua - Olevianus dificilmente poderia ser um professor, de forma eficaz, das verdades que aprendeu a amar.

Em seu desconforto concernente a sua promessa de que ele iria pregar e determinado a alcançar os leigos, ele decidiu realizar uma palestra pública em alemão, a língua do povo. A palestra foi anunciada. Uma grande multidão se reuniu. O sucesso da palestra foi o início de uma série de palestras na língua alemã, palestras as quais se tornaram exposições de um catecismo reformado.

Pelo fato das pessoas ardentemente receberem o que ele tinha a dizer e as multidões continuarem a crescer, Olevianus pediu permissão do município para pregar ao povo, a qual com relutância foi concedida. Ele escolheu para este sermão o tema da justificação pela fé, o qual ele habilmente anunciou em uma sala lotada, e que tornou-se uma oportunidade para atacar várias práticas romanistas. Enfim ele estava começando a cumprir a promessa que havia feito a Deus no rio de Bourges.

Embora o secretário municipal tenha apoiado esta proclamação pública do Evangelho, Olevianus foi levado perante o conselho da cidade, o qual não estava muito receptivo à ideia. De forma um tanto relutante, mas provavelmente porque o conselho municipal não entendia muito bem o que estava em jogo, os homens do conselho votaram para permitir que ele pregasse.

A multidão cresceu rapidamente e logo uma congregação protestante e calvinista foi organizada. Mas o arcebispo John, um clérigo da igreja de Roma, bem como eleitor daquela região, ouviu relatos sobre o que estava acontecendo. Ele sabia o que isso significava e logo, marchando com um número de soldados para os portões da cidade, exigiu que tal "absurdo" parasse. Quando a cidade se recusou a abrir os portões para ele, ele levantou um quartel-general perto da cidade e começou a perturbar os cidadãos, tirando o seu status de cidade livre, queimando suas colheitas, apreendendo e atacando cidadãos enquanto eles viajavam para outras cidades, ameaçando a cidade com muitas ameaças terríveis, cortando o fornecimento de água, impedindo que o abastecimento de alimentos entrasse na cidade e convocando mais soldados para fazerem uma marcha definitiva na cidade.

Finalmente, John atacou a cidade, jogou Olevianus na prisão, baniu todos que mantinham práticas protestantes e restaurou o catolicismo romano. Foi um triunfo absoluto de Roma. John, para acrescentar ultraje à injúria, instituiu um dia anual da "Procissão Oleviana" para celebrar o banimento deste homem de Deus. Isto aconteceu cerca de duzentos e cinquenta anos antes de que algum outro culto, além do romanista, fosse realizado novamente naquele lugar.

Olevianus foi mantido na prisão por dez semanas e finalmente foi solto por causa da insistência do Eleitor Frederico, o piedoso, que pagou uma fiança altíssima pela sua libertação. Olevianus nunca mais voltou à cidade de seu nascimento. Ele tinha pensado em pregar o Evangelho - e também tinha prometido fazer isto – em Trier; ele manteve sua promessa, ainda que apenas por um curto período de tempo; Deus o queria em outro lugar. O ano era 1560; Olevianus tinha apenas vinte e quatro anos.

Seu Trabalho em Heidelberg

Embora Olevianus tivesse muitas ofertas para trabalhar em outros lugares, ele escolheu ir para Heidelberg, a convite de Frederico. Em Heidelberg ele se tornou o líder e o diretor do colégio. Lá, ele completou seus estudos de doutorado em teologia e foi nomeado para a cadeira de dogmática. Para o uso em suas palestras, ele fez uma síntese das Institutas de Calvino, o qual foi o principal livro-texto em classe.

No entanto, as habilidades de Olevianus não eram primariamente os dons de um professor, ele era acima de tudo um pregador. E então, quando Zacarias Ursinus veio para a universidade, Olevianus saiu da cadeira de dogmática para dar lugar a Ursinus; e Olevianus se tornou o pastor principal da Igreja de São Pedro e, mais tarde, da Igreja do Espírito Santo em Heidelberg. Ali, no púlpito, expondo a Palavra de Deus, ele se sentia em casa. Ali Deus usou seus dons para o benefício da igreja.

E foi assim que, tanto um professor, talentoso em teologia e um pregador, eloquente e fiel no púlpito, foram, sob a providência de Deus, escolhidos para escrever o Catecismo de Heidelberg. Ursinus tinha vinte e oito anos de idade; Olevianus tinha vinte e seis. É difícil acreditar que eles eram tão jovens. O catecismo dá evidências de uma autoria por homens espiritualmente e teologicamente maduros. E assim eles eram. Maturidade antes dos trinta - esta foi a medida das habilidades que eles receberam de Deus.

O catecismo é um livro do professor e um livro do pregador. É um tratado organizado sistematicamente que abrange a totalidade da fé cristã; no entanto não é uma doutrina de uma sala de aula ou um auditório de palestras, é a doutrina do púlpito e da fé do povo de Deus. A teologia sistemática do credo reflete os dons de Ursinus, mas a apaixonada abordagem pastoral da aplicação do conforto quanto a doutrina é o delicado toque do pregador.

De maneira alguma o catecismo foi tudo o que Olevianus fez em Heidelberg. Suas responsabilidades congregacionais eram suficientes para mantê-lo ocupado, mas ele também se envolveu profundamente com a continuação da reforma no Palatinado. Ele foi fundamental para levar centenas de professores reformados ao Palatinado para ensinar nas escolas e pregadores para pregar nos púlpitos. Ele foi profundamente envolvido na defesa da fé reformada contra os ataques luteranos e católicos romanos.  Ele foi especialmente fundamental para solidificar um genuíno governo bíblico da igreja no Palatinado, embora não, sem uma batalha feroz contra aqueles que queriam que o estado governasse a igreja.

Seus Últimos Anos

Mesmo coisas tão boas como o trabalho de Olevianus em Heidelberg tinham de chegar ao fim. Há tantas coisas no propósito eterno de Deus que parecem totalmente erradas para nós. Bem naquele momento, quando tantas batalhas pareciam ter sido vencidas e quando Heidelberg estava se tornando um centro de estudos reformados, Deus parou tudo.

A mesma crueldade que Ursinus sofreu veio sobre Olevianus. Luís subiu ao trono. Os púlpitos e escolas foram os primeiros objetos do ataque de Luís. Olevianus foi demitido de seu cargo e colocado sob prisão domiciliar. Naquele tempo esta detenção surgiu apenas para banir do Palatinado qualquer um que proferisse uma palavra reformada. Mais de seiscentos pastores e professores, incluindo Olevianus, fugiram e a Reforma de Calvino teve uma pausa súbita.

Olevianus esteve, por um curto período de tempo, em um castelo de um amigo no centro da Alemanha, para ser o tutor de seu filho e para ajudar na obra reformatória que estava sendo feita naquela região. Após sua expulsão de Heidelberg, ele foi para Herborn, outra cidade da Alemanha, como o pregador principal da igreja e como promotor da Reforma. O resultado foi que, embora o luteranismo fosse a fé dominante na Alemanha, havia diversos lugares onde o calvinismo estava florescendo e uma igreja reformada se desenvolvia com força.

No mesmo ano em que Olevianus foi para Herborn, ele deu início a um seminário, mais propriamente uma academia, pois também eram ensinados temas necessários para estudos pré-teológicos. Olevianus mais uma vez ocupou a cadeira de dogmática. Sob seus labores e sua liderança, o seminário expandiu e cresceu com uma velocidade incrível. Um ano depois de ter sido iniciado, o famoso Piscator veio à escola juntamente com mais doze professores de destaque no movimento da Reforma. E o corpo discente estava cheio de calvinistas europeus.

Mas nós estamos chegando ao fim da história.  Apesar de ter apenas cinquenta e um anos, Olevianus estava desgastado com a labuta e fadiga pela causa do Evangelho. Quando ele estava quase morrendo, ele confessou: "Eu só aprendi a conhecer nesta doença o que é pecado e quão grande é a majestade de Deus." Ele contou um sonho que tivera:

"Ontem eu estava cheio por mais de uma hora com alegria indizível. Parecia-me que eu estava andando em um campo resplandecente de luz, e enquanto estava passeando, um orvalho celeste caiu sobre mim, não em gotas, mas em córregos. Tanto o meu corpo quanto a minha alma estavam cheios de grande júbilo."

Ouvindo esta confissão Piscator, disse:

- "Então, o bom Pastor o levou a Seus pastos verdejantes".
- "Sim, ele me levou para a fonte da água viva." - Olevianus respondeu.

Olevianus rogou que o Salmo 42 e Isaías 53 fossem lidos para ele. Ele pediu que as pessoas a seu lado cantassem um hino da Reforma e juntou-se a eles em uma voz fraca. Ele morreu pouco depois de dizer aos que o rodeavam: "Eu não adiarei mais a minha jornada ao Senhor, eu desejo partir e estar com Cristo". Ele disse adeus à sua esposa, sua idosa mãe, seus filhos e seus amigos, aproveitando a ocasião para abençoar a cada um deles. E assim vivendo e morrendo naquele "único conforto na vida e na morte", ele foi estar com o Senhor.

A força de Olevianus estava em sua pregação. No entanto, mais um feito, e este no campo da teologia, deve ser mencionado. Ele escreveu um livro, sem dúvida, o melhor de todos os seus escritos, intitulado The Covenant of Grace[2]. O que é tão admirável sobre este livro é que, apesar de muitas vezes Olevianus ter falado da aliança como um pacto ou um acordo - uma ideia em harmonia com sua época - ele também, extraordinariamente, falou sobre a aliança como um laço de amizade e companheirismo, uma ideia que não seria totalmente desenvolvida em toda a sua beleza até a teologia de Herman Hoeksema no século XX. Essa é a grandeza deste célebre homem de Deus, através de quem Deus nos deu o Catecismo de Heidelberg.

Não é de se admirar que neste mesmo catecismo apareceria uma profunda verdade da aliança - pergunta e resposta número setenta e quatro:

"As crianças também deveriam ser batizadas? Sim, pois uma vez que elas, assim como os adultos, estão incluídas na aliança e na Igreja de Deus; e uma vez que a redenção do pecado pelo sangue de Cristo, e do Espírito Santo, o autor da fé, é prometida a elas nada menos do que aos adultos, elas devem, portanto, através do batismo, como um sinal da aliança, também serem admitidas na igreja cristã [...]."




** Extraído do Livro: Retrato de Santos e Fiéis, Herman Hanko (Fireland Missions)








[1] Nota do Autor: Esta túnica ainda é colocada em exposição pública a cada vinte e cinco anos, e centenas de milhares de pessoas lotam a cidade para vê-la.

[2] Tradução de “O Pacto da Graça”.

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