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Carta à Bispa Evônia**






Trata-se de mais uma carta fictícia — gênero que uso como maneira de tornar as minhas ideias mais interessantes para o leitor. Minha esposa não tem nenhuma amiga que virou bispa. Ainda.


Cara Evônia,

Minha esposa me falou do encontro casual que vocês duas tiveram no shopping semana passada. Ela estava muito feliz em rever você e relembrar os tempos do ginásio e da igreja que vocês frequentavam. Aí ela me contou que você foi consagrada pastora e depois bispa desta outra denominação que você tinha começado a frequentar.

Ela também me mostrou os e-mails que vocês trocaram sobre esse assunto, em que você tenta justificar o fato de ser uma pastora e bispa, já que minha esposa tinha estranhado isso na conversa que vocês tiveram. Ela me pediu para ler e comentar seus argumentos e contra-argumentos. Não pretendo ofendê-la de maneira nenhuma — nem mesmo conheço você pessoalmente. Mas faço esses comentários para ver se de alguma forma posso ser útil na sua reflexão sobre ter aceito o cargo de pastora e de bispa.

Acho, para começar, que o fato de você ser bispa vem da conhecida atitude de sua comunidade para com as Escrituras, que equivale a considerá-la condicionada à visão patriarcal e machista da época. Ou seja, a Bíblia é nossa regra, mas não para todas as coisas. Ao rejeitar o ensinamento bíblico sobre liderança, adota-se outro parâmetro, que geralmente é o pensamento e o espírito da época. 

E, é claro, Evônia, que na nossa cultura a mulher — especialmente as inteligentes e dedicadas como você — ocupa todas as posições de liderança disponíveis, desde CEO de empresas à presidência da República. Portanto, sem o ensinamento bíblico como âncora, nada mais natural que as igrejas também coloquem em sua liderança presbíteras, pastoras, bispas e apóstolas.

Mas a pergunta que você deveria fazer, Evônia, é o que a Bíblia ensina sobre mulheres assumirem a liderança da igreja e se esse ensino se aplica aos nossos dias. Não escondo a minha opinião. Para mim, a liderança da igreja foi entregue pelo Senhor Jesus e por seus apóstolos a homens cristãos qualificados. E este padrão, claramente encontrado na Bíblia, vale como norma para nossos dias, pois se baseia em princípios teológicos, e não culturais. Reflita no seguinte:

1. Embora mulheres tenham sido juízas e profetisas em Israel (Jz 4:4; 2Rs 22:14, o que pode sugerir que a cultura judaica não era tão machista assim), elas nunca foram ungidas, consagradas e ordenadas para cuidar do serviço sagrado, das coisas de Deus, conduzir o culto no templo e ensinar o povo de Deus, que eram as funções do sacerdote (Ml 2:7). Encontramos profetisas no Novo Testamento, como as filhas de Filipe (At 21:9; ICo 11:5), mas não encontramos sacerdotisas, isto é, presbíteras, pastoras, bispas e apóstolas. Apelar a Débora e Hulda, como você fez em seu e-mail, prova somente que Deus pode usar mulheres para falar ao seu povo, e não como evidência de que as mulheres devem ser consagradas como autoridades sobre o povo de Deus.

2. Você disse a minha esposa que Jesus não escolheu mulheres para apóstolas porque ele não queria escandalizar a sociedade machista de sua época. Será, Evônia? O Senhor Jesus rompeu com vários paradigmas culturais de sua época. Ele falou com mulheres (Jo 8:10-11), inclusive com samaritanas (Jo 4:7), quebrou o sábado (Jo 5:18), as leis da dieta religiosa dos judeus (Mt 7:2) e também relacionou-se com gentios (Mt 4:15). Se ele achasse que era a coisa certa a fazer, certamente teria escolhido mulheres para constar entre os doze apóstolos que nomeou. Mas não o fez, apesar de ter em sua companhia mulheres que o seguiam e o serviam, como Maria Madalena, Marta e Maria (Lc 8:1-2).

3. Por falar nisso, lembre-se também que os apóstolos, por sua vez, quando tiveram a chance de incluir uma mulher no círculo apostólico em lugar de Judas, escolheram um homem, Matias (At 1:26), mesmo que houvesse mulheres proeminentes na assembleia, como a própria Maria, mãe de Jesus (At 1:14-15) — que escolha seria mais lógica do que ela? E mais tarde, quando resolveram criar um grupo que cuidasse das viúvas da igreja, determinaram que fossem escolhidos sete homens, quando o natural e cultural seria supor que as viúvas seriam mais bem atendidas por outras mulheres (At 6:1-7).

4. Tem mais. Nas instruções que deram às igrejas sobre presbíteros e diáconos, os apóstolos determinaram que eles deveríam ser marido de uma só mulher e governar bem a casa deles — obviamente, eles tinham em mente homens cristãos (lTm 3:2,12; Tt 1:6), e não mulheres, ainda que capazes, piedosas e dedicadas, como você. Mesmo que reconhecessem o importante e decisivo papel da mulher cristã no bom andamento das igrejas, não as colocaram na liderança das comunidades, proibindo que elas ensinassem com a autoridade que era própria do homem (lTm 2:12), que participassem na inquirição dos profetas, o que podería levar à aparência de que estavam exercendo autoridade sobre o homem (ICo 14:29-35). Eles também estabeleceram que o homem é o cabeça da mulher (ICo 11:3; Ef 5:23), uma analogia que claramente atribui ao homem o papel de liderança.

5. Você retrucou a minha esposa na troca de e-mails que nenhuma dessas passagens se aplica hoje, pois são culturais. Mas será, Evônia, que estas orientações foram resultado da influência da cultura patriarcal e machista daquela época nos autores bíblicos? Será que Paulo era mesmo um machista, que tinha problemas com as mulheres e suspeitava que elas viviam constantemente tramando para assumir a liderança das igrejas que ele fundou, como você argumentou? Será que um machista deste tipo diria que as mulheres têm direito ao seu marido, que elas têm direitos sexuais iguais ao homem, bem como o direito de separar-se quando o marido resolve abandoná-las? (ICo 7:2-4,15) Um machista determinaria que os homens deveríam amar a esposa como amavam a si mesmos (Ef 5:28,33)? Um machista se referiria a uma mulher admitindo que ela havia sido sua protetora, como Paulo o faz com Febe (Rm 16:1-2)?

6. Agora, se Paulo foi realmente influenciado pela cultura de sua época ao proibir que as mulheres assumissem a liderança das igrejas, o que me impede de pensar que a mesma coisa aconteceu quando ele ensinou, por exemplo, que a homossexualidade é uma distorção da natureza acarretada pelo abandono de Deus (Rm 1:24-28) e que os sodomitas e efeminados não herdarão o reino de Deus (ICo 6:9-11)? Você defende também, Evônia, que estas passagens são culturais e que se Paulo vivesse hoje teria outra opinião sobre a homossexualidade? Pergunto isso, pois em várias igrejas ditas cristãs esse argumento está sendo usado.

7. As alegações apostólicas não me soam culturais. Paulo argumenta que o homem é o cabeça da mulher com base em um encadeamento hierárquico que tem início em Deus Pai, descendo pelo Filho, pelo homem e chegando até a mulher (ICo 11:3).2 Esse argumento me parece totalmente teológico, como aquele que faz uma analogia entre marido e mulher e Cristo e a Igreja: “o marido é o cabeça da mulher como Cristo é o cabeça da igreja” (Ef 5:23). Não consigo imaginar uma analogia menos cultural do que essa para estabelecer a liderança masculina. E, quando Paulo restringe a participação da mulher no ensino autorizado — que é próprio do homem — argumenta com base no relato da criação e da queda (lTm 2:12-14).

8. Você já deve ter percebido que para legitimar sua posição como bispa será preciso dar um jeito nesse padrão de liderança exclusiva masculina, que é claramente ensinado na Bíblia. Não há como aceitar ser bispa e ao mesmo tempo reconhecer que a Bíblia toda é a Palavra de Deus para nossos dias. E foi assim que você adotou essa atitude de dizer que a liderança exclusiva masculina é resultado da cosmovisão patriarcal e machista dos autores do Antigo e Novo Testamentos, e que, portanto, não pode ser mais usada em nossos dias, quando os tempos mudaram, e as mulheres se emanciparam e passaram a assumir a liderança em todas as áreas da vida. Em outras palavras, como você mesma confirmou em seu e-mail, a Bíblia é para você um livro culturalmente condicionado, e só devemos aplicar dele aquelas partes que estão em harmonia e consenso com a nossa cultura. Eu sei que você não disse isso com essas exatas palavras, mas a impressão que fica é que você considera a Bíblia como retrógrada e ultrapassada e que o modelo de liderança nela ensinado não serve de paradigma para a liderança moderna da Igreja de Cristo.

Quando se chega a esse nível, então, para mim, a porta está aberta para a entrada de qualquer coisa que seja aceitável em nossa cultura, mesmo que seja condenada nas Escrituras. Como você poderá, como bispa, responder biblicamente aos jovens de sua igreja que declaram ser o casamento ultrapassado, o sexo antes do casamento algo corriqueiro e ainda sobre o relacionamento homossexual? Como você vai orientar biblicamente aquele casal que acha normal ter casos extraconjugais, desde que os dois estejam de acordo entre eles? E aos que entendem que escandalizar-se com o adultério também é coisa do passado?

Sabe, Evônia, você e a sua comunidade não estão sozinhas nessa distorção. Na realidade, esse pensamento é também popularizado por seminários de denominações tradicionais e professores de Bíblia que passaram a questionar a infalibilidade das Escrituras, utilizando o método histórico-crítico, ensinando em sala de aula que Paulo e os demais autores do Novo Testamento foram influenciados pela visão patriarcal e machista do mundo da época deles. Só podia dar nisso...

Quando pastores, presbíteros e as próprias igrejas relativizam o ensino das Escrituras, considerando-o preso ao século 1 e irremediavelmente condicionado à visão de mundo antiga, a igreja perde o referencial, o parâmetro, o norte, o prumo — e, como ninguém vive sem essas coisas, elege a cultura como guia.

Termino reiterando meu apreço e respeito por você como mulher cristã e pedindo desculpas se não me posso dirigir a você, em nossa correspondência pessoal, como “bispa” Evônia. Espero que meus motivos tenham ficado claros.


Um abraço, Augustus




** - Extrato do livro: “Ateísmo Cristão: E outras Ameaças à Igreja” escrito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, e publicado pela Editora Mundo Cristão – São Paulo.





Paganismo versus Cristianismo**






Será que tudo o que nos acontece é por acaso? Os acontecimentos, quer bons quer maus, ocorrem acidentalmente, de maneira aleatória, sem que haja uma finalidade neles? Os que pensam assim acham que Deus não determinou, decretou ou planejou absolutamente nada com relação aos seres humanos, seu futuro histórico ou eterno, e muito menos os acontecimentos diários. Nada foi previsto ou determinado por Deus, inclusive os eventos naturais como terremotos, tsunamis, erupções vulcânicas, acidentes, quedas de aviões, enfim, nada foi previsto ou determinado por ele. Portanto, tudo é imprevisível como num jogo de futebol. Não se sabe o futuro, não se pode prever absolutamente nada quanto ao fim da história. Junto com seus seres morais, Deus constrói em parceria o futuro, que nesse “acaso” é aberto, indeterminado e incognoscível. Inclusive para ele mesmo.

Ou será que as coisas que nos acontecem, mesmo as menores e piores, têm um propósito, ainda que na maior parte das vezes desconhecido para nós? Os que pensam assim entendem que Deus criou o mundo conforme um plano, um propósito, um projeto, elaborado em conformidade com sua sabedoria, justiça, santidade, misericórdia e seu poder. Nada do que acontece, mesmo as mínimas coisas, é feito ao acaso e de forma aleatória e casual, mas segundo esse sábio plano. As decisões dos seres humanos são tomadas livremente por eles mesmos, mas, de uma forma que não compreendemos, elas acabam contribuindo para a concretização do propósito divino sem que Deus seja o autor do pecado. Tudo que ocorre, coisas boas ou ruins, estão dentro desse propósito concebido antes da fundação do mundo.

A melhor maneira de avaliarmos qual das duas é a visão correta é perguntarmos qual delas se aproxima mais da visão de Deus, do mundo e do homem que a Bíblia apresenta. Como os autores bíblicos concebiam o mundo, a história e os acontecimentos?

Ninguém que conheça a Bíblia poderá ter dúvidas quanto à resposta. Os judeus, ao contrário dos povos pagãos ao seu redor, não acreditavam em sorte, azar, acaso, acidente ou contingências. Eram os filisteus que acreditavam no acaso, e não os israelitas (ISm 6.9).

Para eles, Deus havia traçado planos para os homens e as nações que se iriam cumprir inevitavelmente. Esses planos não poderiam ser frustrados por homem nenhum (Jó 42:2; Pv 19:21; Is 14:27; Is 43:13; Is 46:10-11). Tais acontecimentos estavam tão inexoravelmente determinados que Deus permitia o conhecimento deles de antemão, através dos profetas. O fato de que os profetas de Israel eram capazes de predizer o futuro com exatidão era a prova de que o Deus de Israel era superior aos deuses pagãos (Is 46:9-10).

O Ateísmo Cristão**






Pois é, isso existe. Ateísmo cristão é a negação do Deus cristão revelado na Bíblia por alguém que, ao mesmo tempo, tenta redefini-lo usando linguagem e termos evangélicos. Alguém que, na prática, vive como se ele não existisse.

O ateísmo consiste na negação da existência de um Deus pessoal. Logo, ele se manifesta em qualquer conceito de Deus que, de uma maneira ou de outra, o separa da realidade humana.

Em termos práticos, qual é a diferença entre não acreditar em Deus e acreditar num Deus que não intervém, não age na história humana, nem se relaciona com as pessoas? Para mim, muito pouca, ou nenhuma.

Quando um ateu fica doente, por exemplo. Ele não ora a Deus pedindo sua cura ou pedindo forças para suportar a enfermidade. Da mesma forma, o cristão que não crê em um Deus que atenda a orações também não dobra seus joelhos. Este vive como se Deus não existisse. Aquele não crê que Deus existe. Na prática, é a mesma coisa.

A ideia de que Deus não se mete com o mundo e com os homens tomou forma “cristã” após o Iluminismo, quando teólogos ingleses resolveram adaptar o Deus cristão da Bíblia às exigências do racionalismo predominante do século 18. Naquela época, o mundo estava sendo concebido como uma grande engrenagem autossuficiente que funcionava de forma ordeira seguindo leis naturais intrínsecas. Cada efeito, cada fenômeno, cada evento da natureza e na história era entendido como resultado de alguma causa natural. Um sistema fechado de causa e efeito que não precisava de nenhuma intervenção externa para manter seu funcionamento ou para explicá-lo.

Filósofos e escritores britânicos como Edward Herbert, Charles Bloynt e John Tolarndt entendiam que era preciso submeter as doutrinas do cristianismo ao crivo da razão e repudiar o que não pudesse ser demonstrado logicamente. Tudo isso desencadeou uma revisão do conceito tradicional de um Deus que havia criado o mundo e que o sustentava dia a dia, agindo na história e nos acontecimentos por meio de sua providência. Naquela época, a razão e a ciência começavam seu esforço de empurrar Deus para fora da realidade verificável pelos cânones dos métodos científicos. Assim, numa tentativa de “salvar” Deus da condenação do cientificismo racionalista e ao mesmo tempo manterem o respeito acadêmico, eles postularam um Deus que existe, sim (afinal, que método empírico há de negá-lo?), mas que não se envolve com o mundo e o ser humano desde que os criou. Como um relojoeiro, Deus teria montado o mundo, dado corda e o deixado funcionando por si. Esse entendimento acerca de Deus e sua relação com o mundo recebeu o nome de deísmo, em contraste com o teísmo, que é a visão tradicional de um Deus que age cotidiana e soberanamente na realidade que ele mesmo criou.

De acordo com o deísmo, a força determinante da história são as decisões humanas. Deus não age nas circunstâncias. Não haveria vontade divina ou propósito celestial oculto nos acontecimentos diários. Portanto, viver como se uma mão celeste guiasse nossa vida a cada passo não teria o menor sentido. Muito mais sensato seria guiar-se pela razão, praticar o bem e fazer as escolhas certas.

Bem, o deísmo acabou gerando a cartilha pela qual rezam os adeptos do liberalismo teológico. Quem não crê que Deus quebra as leis naturais e se intromete no sistema fechado que ele mesmo criou não pode mesmo acreditar em milagres como a encarnação, o nascimento virginal, a cura de cegos e aleijados e a ressurreição dos mortos. E a Bíblia, longe de ser um livro revelado por inspiração divina, não passaria de um compêndio daquilo que seus autores acreditavam a respeito de Deus, registrado sob o linguajar mitológico de sua época. Dessa forma, o deísmo sobreviveu onde o liberalismo teológico dominou. E, com o declínio natural do último, o deísmo também acabou meio sumido do cenário, até ressurgir mais recentemente nas asas do teísmo aberto e do evolucionismo teísta, dois filhotes do liberalismo teológico. Deixe-me tentar explicar.

Primeiro, o teísmo aberto. De acordo com essa teologia (se é que podemos chamá-lo assim), Deus existe, mas não é onipotente nem onisciente. Ele não sabe o que vai acontecer no futuro, ele se arrepende de suas decisões, especialmente daquelas que não deram certo — como ter criado o homem —, e não pode impedir as catástrofes naturais do mundo que um dia criou. O futuro, portanto, está aberto e é formatado pelas decisões livres dos seres humanos, as quais Deus respeita e às quais ele se adapta. Deus não interfere no curso da história, mas, num gesto de amor, deixa aos homens as decisões que afetarão seu futuro.

A conclusão lógica desta concepção de Deus é exatamente a mesma do deísmo inglês: deveríamos viver como se Deus não existisse, pois, mesmo que ele exista, na prática, isso não faria diferença alguma. Não deveríamos esperar que ele interferisse para nos acudir ou salvar, ou que ele misteriosamente conduzisse todas as coisas segundo um propósito predefinido.

Em entrevista à revista Carta Capital em abril de 2011, o pastor Ricardo Gondim, um dos mais conhecidos defensores do teísmo aberto em nosso país, afirmou que “um Deus títere, controlador da história [...] pode ter cabido na era medieval, mas não hoje” e que “se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado com esse pressuposto”. Sua “resposta” é que “Deus não está no controle”: “Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas é infantiliza- dora da vida.” Na mesma entrevista, Gondim cita a controversa filósofa francesa Simone Weil, segundo a qual o mundo só seria possível pela ausência de Deus.

Acho que entendo o que esses livres-pensadores estão querendo dizer. Eles apregoam que não deveríamos levar Deus em consideração diante do mal que existe no mundo, pois, ao fazê-lo, atribuindo-lhe o controle de tudo, estaríamos, os cristãos, incorrendo em passividade criminosa. Portanto, quando o mal acontece, deveríamos “fazer de conta” que Deus não existe. Deveríamos nós mesmos partir para socorrer, ajudar e resolver os problemas com nossos recursos e nossa força.

Nesse caso, visto que o mundo é cheio de males, infortúnios, conflitos, doenças, desastres, imprevistos, dores e sofrimentos, Deus terminaria reduzido a pequenos e quase insignificantes momentos em que tudo vai bem na minha vida particular ou no mundo em geral. Ou seja, eu vou realmente acabar vivendo como se Deus não existisse, praticamente em todos os momentos da minha vida. O que nos leva de volta ao início deste texto: não há diferença prática entre essa visão de Deus e o ateísmo. O único distintivo é que o teísmo aberto se considera cristão. Para sermos justos, então, devemos considerá-lo como “ateísmo cristão”.

Agora, o evolucionismo teísta. Essa teoria defende que Deus “criou” a vida na terra por meio daquilo que a teoria evolucio- nista chama de processo não dirigido ou intencional, em que mutações acidentais e aleatórias levaram gradativamente à seleção natural e à sobrevivência das espécies mais aptas. O grande problema com esta teoria são os termos “não dirigido”, “aleatório” e “acidental”. Esse conceito é fundamental na teoria darwinista — na verdade, é um de seus pilares. Segundo ele, as mutações ocorreram de forma randômica, ao acaso. Como, então, integrar esse conceito à supervisão do Deus cristão, que é onisciente, onipresente e onipotente? Se Deus é onisciente, como poderia ter inventado um processo natural que se desenrolaria de maneira totalmente imprevisível, acidental e aleatória, totalmente fora de seu controle ou conhecimento?

A solução é o deus do teísmo aberto. Essa “divindade”, de acordo com os teólogos abertos ou relacionais, desconhece o futuro e não sabe o que vai acontecer no universo nos próximos minutos. Ou seja, ela serve perfeitamente como o deus do evolucionismo teísta. É isso que está sendo defendido em anos recentes por evo- lucionistas teístas. De acordo com os tais, “Deus” implantou no DNA o potencial para as mutações, mas não tinha — nem tem — a menor ideia sobre como tudo isso vai acabar. O processo evolucionário é autônomo e imprevisível a tal ponto que “Deus” desconhece seu produto final. Se é que um dia ele haverá de terminar.

Bem, se é assim, os evolucionistas teístas deveriam mudar o nome para “evolucionistas deístas”, uma vez que estes, conforme vimos acima, acreditam numa divindade remota que abandonou sua criação à própria sorte. Mais uma vez, as semelhanças com o ateísmo são muito maiores do que as semelhanças com o Deus da Bíblia. O que estamos vendo, portanto, é a própria secularização de Deus.

Enfim, ateus cristãos (ou seria melhor “cristãos ateus”?), por uma questão de coerência, não deveriam orar, mas simplesmente meditar. Não deveriam adorar e louvar, mas entrar em transe. Não deveriam agradecer, mas congratular-se consigo mesmos. Não deveriam confiar que todas as coisas cooperam para seu bem, mas trincar os dentes e esperar estoicamente que a sorte lhes sorria. Não deveriam ir à igreja, mas filiar-se a uma ONG. Não deveriam evangelizar, mas somente distribuir sopa e agasalhos. Enfim, viver como se Deus não existisse.


Eu ainda sou mais Deus.





** - Extrato do livro: “Ateísmo Cristão: E outras Ameaças à Igreja” escrito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, e publicado pela Editora Mundo Cristão – São Paulo.


Relativismo, Certeza e Agnosticismo em Teologia**






Tenho sempre deparado com pastores e teólogos que acreditam ser a boa teologia somente aquela que está sendo feita agora. Recentemente, encontrei mais um desses que me chamou de fundamentalista porque acredito que existe teologia certa e teologia errada, e porque incluo na primeira categoria os antigos credos cristãos e as confissões reformadas. Ensi- nou-me, com aquela pachorra típica de quem é iluminado e depara com um pobre fundamentalista obscurantista tapado, que “a teologia é apenas um construto humano, limitado, provisório, subjetivo, que deve ser feito por cada geração, pois não atende mais às necessidades da próxima”.

Era óbvio que eu estava diante, mais uma vez, daquela cena hilária em que o relativista declara com toda a autoridade e convicção que “não existe verdade absoluta; tudo é relativo”.

Vamos supor, ainda que por um momentov que esses teólogos — nem sei em que categoria enquadrá-los, pois nem liberais eles são (os liberais de verdade acreditavam em certo e errado) — estejam certos. Consideremos também que cada geração entende Deus, a Bíblia e as grandes verdades do cristianismo de uma maneira totalmente diferente de outra geração e de pessoas de outra cultura, a ponto de não poder adotar as suas reflexões teológicas como verdadeiras e válidas para seu próprio contexto. Se levada às últimas consequências, essa perspectiva sobre a teologia criaria uma série de problemas, inclusive para os que a defendem.

1. Vamos começar pelo fato de que cada nova geração teria de definir o que é o cristianismo. Explico: O cristianismo como religião foi definido e os seus limites estabelecidos durante os primeiros séculos depois de Cristo, quando os primeiros cristãos foram confrontados com explicações diferentes, contraditórias e alternativas da mensagem de Jesus e dos apóstolos, como o montanismo, o marcionismo, o gnos- ticismo, o docetismo e o ebionismo, para mencionar alguns.

Os grandes credos ecumênicos da cristandade estabelecidos nas gerações posteriores nos deram, de forma sintetizada, a doutrina de Cristo, da Trindade, entre outras, as quais o cristianismo histórico adota até hoje. Caso decidíssemos seguir o que esse pastor me disse, teríamos de jogar tudo isso fora e recomeçar, refazer, redefinir o cristianismo com base em nossa situação.

O Apóstolo Pródigo**





Recentemente, estudando para dar aulas de teologia paulina, percebi mais uma característica do apóstolo Paulo que o distancia dos apóstolos modernos. Ao contrário dos tais apóstolos que se lançam para fazer carreira solo e ter seu próprio ministério, Paulo sempre fez questão de mostrar que ele fazia parte do grupo apostólico de sua época, embora tivesse sido chamado para ser apóstolo quando o prazo de matrícula já havia expirado (“nascido fora de tempo”, ICo 15:8).

Se alguns têm uma visão de Paulo como um individualista que seguiu carreira e ministério próprios, isso se deve, em parte, à Igreja Católica, que colocou Pedro acima dos demais apóstolos e, portanto, longe de Paulo. Os liberais também contribuíram para isso, quando fizeram de Pedro o líder do cristianismo judaico da Palestina e Paulo o líder do cristianismo gentílico de Antioquia, em constante tensão e hostilidade mútua.

De todos os apóstolos, Paulo era o mais culto, o mais preparado intelectualmente e com maior experiência intercultural.

Nascido em Tarso da Cilicia, em território grego, educado no que havia de melhor e mais refinado na erudição judaica, de família rica o suficiente para lhe dar o status de cidadão romano, Paulo se destacava dos pescadores, cobradores de impostos, artesãos e ex-guerrilheiros galileus que compunham o quadro dos doze apóstolos “iletrados” de Jesus Cristo (At 4:13). Com facilidade, ele poderia ter iniciado um movimento independente, ter seu próprio ministério e até mesmo fundar uma religião. Todavia, ele se negou a fazer isso e até mesmo repreendeu os fãs que queriam começar o “partido de Paulo” (ICo 3:4-9).

Na realidade, o retrato que temos de Paulo em suas cartas e no livro de Atos é de um apóstolo que não se via tendo um ministério solo, nem próprio, mas em perfeita harmonia e cooperação com os demais. Para ele, a Igreja está edificada sobre o fundamento “dos apóstolos e dos profetas” (Ef 2:20). Ele não se vê como um fundamento à parte. Ele honrou os apóstolos antes deles, visitando-os em Jerusalém e procurando comunhão e harmonia com eles (G11:18). Foi provavelmente nessa ocasião que ele aprendeu com os apóstolos acerca de várias tradições originadas em Jesus (ICo 11:2; 15:3-7). Paulo declara que eles eram importantes e colunas da igreja, apesar de terem uma condição humana muito humilde, o que realmente não importava, pois Deus não olha para o exterior (G12:6). Os sinais e prodígios que ele realizava eram “credenciais do apostolado” (2Co 12:12), isto é, sinais operados por todos os que eram apóstolos. Paulo não teve problemas em se submeter às instruções de Tiago quando esteve em Jerusalém (At 21:18-26).

E quando foi obrigado a dizer que trabalhou até mais que eles, Paulo logo acrescenta que foi somente pela graça (ICo 15:10). Mesmo após repreender Pedro por sua inconsistência (G1 2:11-21), não separou-se dele. Na verdade, Pedro mais tarde até mesmo recomenda as cartas de Paulo como parte legítima das Escrituras (2Pe 3:15-16)!

A melhor maneira de descrever como Paulo se via entre os demais apóstolos é aquela do filho pródigo, que disse ao pai, ao regressar: “não sou digno de ser chamado teu filho” (Lc 15:21). Por ter perseguido a Igreja, Paulo fala de seu apostolado como uma honra nunca merecida, um favor especial concedido por Deus: “Porque eu sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (ICo 15:9).


Fico com a impressão de que a inspiração dos “apóstolos” evangélicos contemporâneos não é Paulo ou um dos Doze, mas o atual bispo de Roma.





** - Extrato do livro: “Ateísmo Cristão: E outras Ameaças à Igreja” escrito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, e publicado pela Editora Mundo Cristão – São Paulo.


A Loucura do Evangelho e as Loucuras dos Evangélicos**





O apóstolo Paulo escreveu aos coríntios que a palavra da cruz é loucura para a mente carnal e natural, para aqueles que estão perecendo (ICo 1:18,21,23; 2:14; 3:19). Ele mesmo foi chamado de louco por Festo quando lhe anunciava a palavra da cruz (At 26:24). Pouco antes, ao passar por Atenas, havia sido motivo de escárnio dos filósofos epicureus e estoicos por lhes anunciar a cruz e a ressurreição (At 17:18-32).

O evangelho sempre parecerá loucura para o homem não regenerado. Todavia, não há do que nos envergonharmos se formos considerados loucos por anunciar a cruz e a ressurreição. Como Pedro escreveu, se formos sofrer, que seja por sermos cristãos, e não como assassinos, ladrões, malfeitores ou como quem se intromete em negócios de outros (IPe 4:15-16).

Nessa mesma linha, a certa altura da carta que escreveu aos coríntios, o apóstolo Paulo pede que eles evitem parecer loucos: “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos?” (ICo 14:23). Ou seja, o apóstolo não queria que os cristãos dessem ao mundo motivos para que nos chamassem de loucos, a não ser pela pregação da cruz.

Infelizmente, os evangélicos — ou uma parte deles — não deram ouvidos às palavras de Paulo, de que é válido tentarmos não parecer mais loucos do que já nos consideram. Existe no meio evangélico tanta insensatez, falta de sabedoria, superstição, coisas ridículas que acabamos dando aos inimigos de Cristo um chicote para nos baterem. Somos ridicularizados, desprezados, nos tornamos motivo de escárnio, não porque pregamos Cristo crucificado, mas pelas sandices, tolices e bobagens, todas feitas em nome de Jesus Cristo.

Carta ao apóstolo Juvenal**





Não se preocupem, o apóstolo Juvenal não existe. Também nunca tive amigo que virou apóstolo. O apóstolo Juvenal é um personagem fictício, embora baseado em personagens da vida real.

Meu caro Juvenal,

Espero que você se lembre de mim, o Augustus Nicodemus, seu colega de turma do seminário presbiteriano. Faz uns vinte anos que não temos contato. Só recentemente consegui seu e-mail com um amigo comum.

Desculpe-me por não tratá-lo como apóstolo. Você sabe, desde os tempos do seminário, minha opinião é que os apóstolos constituíram um grupo único e exclusivo na história da Igreja e que hoje não existem mais. Qual não foi a minha surpresa quando deparei com seu programa de televisão e com você se apresentando como apóstolo Juvenal! Eu não sabia que havia deixado o pastorado em nossa denominação, Carta ao apóstolo Juvenal montado uma comunidade e adquirido esse título de “apóstolo”, o qual, como já disse, não consigo reconhecer como legítimo.

Você sabe que para nós, cristãos históricos, os apóstolos de Jesus Cristo tiveram um papel crucial e extremamente relevante na fundação da Igreja cristã. E um cargo, um ofício, tão sério e fundamental, que ver pessoas usando esse título nos dias de hoje causa um grande desconforto, uma profunda perplexidade e tristeza inominável. Não consigo imaginar uma banalização maior do que essa. Não que você seja uma pessoa indigna, pífia, pérfida ou mesquinha, não se trata disso. Eu sentiria a mesma coisa se o próprio Calvino resolvesse usar esse título.

Não sei o que se passou por sua cabeça para que você, conhecedor da Bíblia e da história da Igreja, resolvesse virar um apóstolo e montar sua própria comunidade. Pelo seu programa de televisão, ficou patente para mim que você adotou os cacoetes, o linguajar e as ideias que são próprias dos outros “apóstolos” que já estão por aí há mais tempo. Valendo-me da nossa amizade dos tempos de seminário, resolvi escrever-lhe e tirar as dúvidas, perguntar diretamente a você, para não ficar imaginando coisas.