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Relativismo, Certeza e Agnosticismo em Teologia**






Tenho sempre deparado com pastores e teólogos que acreditam ser a boa teologia somente aquela que está sendo feita agora. Recentemente, encontrei mais um desses que me chamou de fundamentalista porque acredito que existe teologia certa e teologia errada, e porque incluo na primeira categoria os antigos credos cristãos e as confissões reformadas. Ensi- nou-me, com aquela pachorra típica de quem é iluminado e depara com um pobre fundamentalista obscurantista tapado, que “a teologia é apenas um construto humano, limitado, provisório, subjetivo, que deve ser feito por cada geração, pois não atende mais às necessidades da próxima”.

Era óbvio que eu estava diante, mais uma vez, daquela cena hilária em que o relativista declara com toda a autoridade e convicção que “não existe verdade absoluta; tudo é relativo”.

Vamos supor, ainda que por um momentov que esses teólogos — nem sei em que categoria enquadrá-los, pois nem liberais eles são (os liberais de verdade acreditavam em certo e errado) — estejam certos. Consideremos também que cada geração entende Deus, a Bíblia e as grandes verdades do cristianismo de uma maneira totalmente diferente de outra geração e de pessoas de outra cultura, a ponto de não poder adotar as suas reflexões teológicas como verdadeiras e válidas para seu próprio contexto. Se levada às últimas consequências, essa perspectiva sobre a teologia criaria uma série de problemas, inclusive para os que a defendem.

1. Vamos começar pelo fato de que cada nova geração teria de definir o que é o cristianismo. Explico: O cristianismo como religião foi definido e os seus limites estabelecidos durante os primeiros séculos depois de Cristo, quando os primeiros cristãos foram confrontados com explicações diferentes, contraditórias e alternativas da mensagem de Jesus e dos apóstolos, como o montanismo, o marcionismo, o gnos- ticismo, o docetismo e o ebionismo, para mencionar alguns.

Os grandes credos ecumênicos da cristandade estabelecidos nas gerações posteriores nos deram, de forma sintetizada, a doutrina de Cristo, da Trindade, entre outras, as quais o cristianismo histórico adota até hoje. Caso decidíssemos seguir o que esse pastor me disse, teríamos de jogar tudo isso fora e recomeçar, refazer, redefinir o cristianismo com base em nossa situação.

2. A segunda dificuldade é que essa perspectiva acaba pegando mal para seus próprios defensores. Pergunto: o que de novo eles têm descoberto e oferecido mais recentemente acerca do ser e das obras de Deus, da pessoa de Cristo e de sua morte e ressurreição? Quando não caem nas antigas heresias, repetem simplesmente o que já foi dito por outros em tempos passados. A “nova perspectiva sobre Paulo” não deixa de ser uma antiga perspectiva sobre o judaísmo. A nova “busca do Jesus histórico” não tem conseguido oferecer nenhuma reconstrução do Jesus da história que esteja em harmonia com o quadro dele que temos nos evangelhos. A teologia relacional, que afirma que Deus não conhece o futuro, não consegue ir além do Deus sociniano, defendido por Fausto Socínio no século 16.

3. A terceira dificuldade é que essa perspectiva relativista realmente acaba com a distinção entre teologia certa e teologia errada, além de anistiar todas as heresias já surgidas na história da Igreja. Vamos citar, por exemplo, a área de soteriologia, que trata da questão da salvação do homem. A doutrina de que o homem é justificado pela fé somente, sem as obras ou méritos humanos, foi estabelecida cedo na Igreja cristã e reafirmada na Reforma Protestante. Depois de tantos séculos, nossos teólogos progressistas (ainda não gosto desse rótulo, vou acabar achando outro) têm algo de novo para nos dizer sobre esse ponto? Os que tentaram, caíram nas antigas heresias soteriológicas já discutidas e refutadas aà nauseam pelos pais da Igreja e pelos reformadores.

Não me entendam mal. Eu também acredito que a teologia é um construto humano e, como tal, imperfeito, incompleto e certamente relativo. Estou longe de adotar para com a teologia reformada uma postura similar àquela que considera a tradição aristotélica-tomista como a filosofia e/ou teologia “perene”.

Eu também considero que a teologia é fruto da reflexão humana e, portanto, sempre sujeita às vulnerabilidades de nossa natureza humana decaída. Mas não a ponto de ser incapaz de refletir, com uma medida de veracidade e fidelidade, a revelação de Deus nas Escrituras. O problema com essa postura relativista é que ela desistiu completamente da verdade, é agnóstica. Eu creio que a prática teológica, quando é fiel à revelação bíblica e obedece a 2Coríntios 10:5 (“levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo”), produz sínteses confiáveis que podem servir de referencial para igrejas de todas as gerações. Conforme, aliás, as confissões reformadas elaboradas nos séculos 16 e 17 vêm fazendo há muitos anos.

Mas os teólogos relativistas acreditam em quê? Já que para eles não existe verdade absoluta, por coerência devem acreditar em tudo e, portanto, em nada. Eles tentam manter tudo fluido, em permanente devir, sempre abertos para todas as possibilidades. Mas, nesse caso, não teriam que, forçados pela própria lógica, aceitar também a teologia conservadora como legítima? Mas é aqui que a lógica relativista se quebra, pois, para eles, todas as opiniões estão corretas, menos as dos conservadores.

Um amigo teólogo me disse outro dia numa conversa que “a verdade é absoluta, mas minha percepção dela é sempre relativa”. Até hoje estou intrigado com essa declaração. Eu o conheço o suficiente para saber que ele não é relativista. Sou obrigado a reconhecer, por força do conhecimento da minha limitação e subjetividade, que ele está certo quanto à relatividade da nossa percepção teológica.

Mas, por outro lado, reluto em aceitar a inferência que os relativistas gostam de fazer de declarações dessa natureza, que é negar a existência de uma verdade absoluta ou negar a possibilidade de uma percepção real e válida dela por nós. Porque, apesar da aparente humildade, admitir o carátersempre relativo da nossa percepção implica concordar que ninguém tem a verdade, o que acaba com a possibilidade do certo e do errado, do verdadeiro e do falso como conceitos públicos, transformando cada indivíduo, ao final, no referencial último dessas coisas.

Será que não poderíamos dizer que nós, mesmo enviesados por nossos pressupostos e preconceitos (horizontes), ainda somos capazes, em virtude da nossa humanidade básica compartilhada com as pessoas de todas as épocas — para não mencionar a graça comum e a ação do Espírito Santo —, de perceber a verdade da mesma forma que outras pessoas a perceberam em outros tempos e em outros lugares?

Aqui as palavras de Anthony Thiselton em seu livro The Two Horizons são pertinentes:

“O que será da ética cristã se adotarmos uma perspectiva re- lativista da natureza humana? Se a experiência da dor, do sofrimento e da cura no mundo antigo não tem nenhuma continuidade com qualquer conceito moderno, o que poderemos dizer acerca do amor, autossacrifício, santidade, fé, pecado, rebelião etc.? Ninguém num departamento de línguas clássicas, literatura ou filosofia de uma universidade aceitaria as implicações de um relativismo tão radical. Nada poderíamos aprender sobre a vida, o pensamento, ou ética, dos escritores que viveram em culturas antigas. Com certeza, nenhum estudioso, se pressionado com essas implicações, defenderia até o fim esse tipo de relativismo”.

4. Uma última dificuldade que desejo mencionar é que essa visão, se levada às últimas consequências, acaba nos privando da Bíblia. Vejamos: Quem defende essa visão (há exceções, eu sei) geralmente tem dificuldades em aceitar que as Escrituras do Antigo Testamento e do Novo Testamento foram dadas por inspiração divina e são, portanto, infalíveis. Nessa lógica, as Escrituras são apenas a reflexão teológica de Israel e da igreja cristã primitiva. Consideremos as cartas de Paulo. Elas são a teologia do apóstolo, resultado da aplicação que ele fazia das boas-novas às situações novas das igrejas nascentes no mundo helénico. Para ser coerente, quem defende que toda teologia é relativa, imperfeita e subjetiva, e que é válida somente dentro dos limites da cultura e da geração em que foi produzida, não poderia aceitar para hoje a teologia de Paulo, Pedro, João e a de Isaías. Teria de rejeitar as Escrituras como um todo, pois elas são a teologia de Israel e da Igreja, elaboradas em uma época e em uma cultura completamente diferente da nossa.

Para dizer a verdade, há quem faça isso mesmo. Os antigos liberais faziam. Para eles, a Bíblia nada mais era que a teologia (ultrapassada) dos seus autores. O cristianismo se reduzia a valores éticos e morais, que eram as únicas coisas permanentes neste mundo.

Eu admiro e respeito os antigos liberais. Os de hoje precisariam assumir o discurso relativista e levá-lo às últimas consequências. Pode ser que não conseguiriam absolutamente nada com isso, como acho que não vão conseguir. Mas, pelo menos, teriam o meu respeito — se é que isso vale alguma coisa.







** - Extrato do livro: “Ateísmo Cristão: E outras Ameaças à Igreja” escrito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, e publicado pela Editora Mundo Cristão – São Paulo.




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