Recentemente, estudando para dar
aulas de teologia paulina, percebi mais uma característica do apóstolo Paulo
que o distancia dos apóstolos modernos. Ao contrário dos tais apóstolos que se
lançam para fazer carreira solo e ter seu próprio ministério, Paulo sempre fez
questão de mostrar que ele fazia parte do grupo apostólico de sua época, embora
tivesse sido chamado para ser apóstolo quando o prazo de matrícula já havia
expirado (“nascido fora de tempo”, ICo 15:8).
Se alguns têm uma visão de Paulo
como um individualista que seguiu carreira e ministério próprios, isso se deve,
em parte, à Igreja Católica, que colocou Pedro acima dos demais apóstolos e,
portanto, longe de Paulo. Os liberais também contribuíram para isso, quando
fizeram de Pedro o líder do cristianismo judaico da Palestina e Paulo o líder
do cristianismo gentílico de Antioquia, em constante tensão e hostilidade
mútua.
De todos os apóstolos, Paulo era
o mais culto, o mais preparado intelectualmente e com maior experiência
intercultural.
Nascido em Tarso da Cilicia, em
território grego, educado no que havia de melhor e mais refinado na erudição
judaica, de família rica o suficiente para lhe dar o status de cidadão romano,
Paulo se destacava dos pescadores, cobradores de impostos, artesãos e ex-guerrilheiros
galileus que compunham o quadro dos doze apóstolos “iletrados” de Jesus Cristo
(At 4:13). Com facilidade, ele poderia ter iniciado um movimento independente,
ter seu próprio ministério e até mesmo fundar uma religião. Todavia, ele se
negou a fazer isso e até mesmo repreendeu os fãs que queriam começar o “partido
de Paulo” (ICo 3:4-9).
Na realidade, o retrato que temos
de Paulo em suas cartas e no livro de Atos é de um apóstolo que não se via
tendo um ministério solo, nem próprio, mas em perfeita harmonia e cooperação
com os demais. Para ele, a Igreja está edificada sobre o fundamento “dos
apóstolos e dos profetas” (Ef 2:20). Ele não se vê como um fundamento à parte.
Ele honrou os apóstolos antes deles, visitando-os em Jerusalém e procurando
comunhão e harmonia com eles (G11:18). Foi provavelmente nessa ocasião que ele
aprendeu com os apóstolos acerca de várias tradições originadas em Jesus (ICo
11:2; 15:3-7). Paulo declara que eles eram importantes e colunas da igreja,
apesar de terem uma condição humana muito humilde, o que realmente não
importava, pois Deus não olha para o exterior (G12:6). Os sinais e prodígios
que ele realizava eram “credenciais do apostolado” (2Co 12:12), isto é, sinais
operados por todos os que eram apóstolos. Paulo não teve problemas em se
submeter às instruções de Tiago quando esteve em Jerusalém (At 21:18-26).
E quando foi obrigado a dizer que
trabalhou até mais que eles, Paulo logo acrescenta que foi somente pela graça
(ICo 15:10). Mesmo após repreender Pedro por sua inconsistência (G1 2:11-21),
não separou-se dele. Na verdade, Pedro mais tarde até mesmo recomenda as cartas
de Paulo como parte legítima das Escrituras (2Pe 3:15-16)!
A melhor maneira de descrever
como Paulo se via entre os demais apóstolos é aquela do filho pródigo, que
disse ao pai, ao regressar: “não sou digno de ser chamado teu filho” (Lc
15:21). Por ter perseguido a Igreja, Paulo fala de seu apostolado como uma
honra nunca merecida, um favor especial concedido por Deus: “Porque eu sou o
menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois
persegui a igreja de Deus” (ICo 15:9).
Fico com a impressão de que a
inspiração dos “apóstolos” evangélicos contemporâneos não é Paulo ou um dos
Doze, mas o atual bispo de Roma.
** - Extrato do livro: “Ateísmo Cristão: E outras Ameaças à Igreja” escrito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, e publicado pela Editora Mundo Cristão – São Paulo.

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