Durante quase dois mil
anos, os Salmos foram centrais para a devoção da igreja cristã, ensinando os
fiéis a orar, em resposta ao Deus que se revela, uma confissão e glorificação
ao Deus trino, criador, redentor e restaurador. Deste modo, “quando abraçamos Salmos,
juntamo-nos a um amplo grupo de pessoas que por quase trinta séculos tem
baseado seus louvores e orações nessas palavras antigas. Reis e camponeses,
profetas e sacerdotes, apóstolos e mártires, monges e reformadores, executivos
e donas de casa, professores e cantores populares – para todos esses e para uma
multidão de outros, Salmos tem sido vida e respiração espiritual”.1 Como
Eugene Peterson escreve, “não existe outro lugar em que se possa enxergar de
forma tão detalhada e profunda a dimensão humana da história bíblica como nos
Salmos. A pessoa em oração reagia à totalidade da presença de Deus, partindo da
condição humana, concreta e detalhada”. Só que, por volta da primeira metade do
século dezenove, com o aparecimento dos métodos críticos de estudos bíblicos,
os salmos perderam sua centralidade na devoção cristã. Deixaram de ser a escola
de oração que dava forma à oração dos fiéis, em sua resposta ao Deus que se
revela. Passaram a ser vistos, na avaliação de Peterson, como a piedade
deteriorada de uma religião desgastada.2
1. Os Salmos e a oração
A escola que Israel e a
Igreja recorreram para aprender a orar foram os Salmos, que, junto com Isaías,
foi o livro mais citado por Jesus e os apóstolos no Novo Testamento, inclusive
como apoio de doutrinas centrais da fé cristã. Para os primeiros cristãos, a
ordem era: “Enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos” (Ef 5.18-19).
Logo, estes, “como seus antepassados judeus, ouviram a palavra de Deus nesses
hinos, queixas e instruções e fizeram deles o fundamento da vida e do culto”.3
Os salmos eram declarações de relacionamento entre
o povo e seu Senhor. Pressupunham a aliança entre ambos e as implicações de
provisão, proteção e preservação dessa aliança. Seus cânticos de adoração,
confissões de pecado, protestos de inocência, queixas de sofrimento, pedidos de
livramento, garantias de ser ouvido, petições antes das batalhas e ações de
graças depois delas são, todas expressões do relacionamento ímpar que tinham
com o único Deus verdadeiro. Temor e intimidade combinavam-se no entendimento
que os israelitas tinham desse relacionamento. Eles temiam o poder e a glória
de Deus, sua majestade e soberania. Ao mesmo tempo protestavam diante dele,
discutindo suas decisões e pedindo sua intervenção. Eles o reverenciavam como
Senhor e o reconheciam como Pai.4
