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Batismo por Aspersão – Uma característica de nossa Identidade**



INTRODUÇÃO


Estamos vivendo uma época de crise de identidade em nossa denominação, e por isso, precisamos resgatar a nossa identidade. A Igreja Presbiteriana precisa repensar e regressar as antigas verdades outrora defendidas com afinco na igreja.

O nosso tema de hoje é polêmico, isto porque a comunidade evangélica da atualidade é IMERSIONISTA, sendo assim, talvez alguns de vocês tenham assimilado essa prática e gerado um preconceito contra o batismo por aspersão – digo que isso é natural, mas é desprovido de fundamento. Sabe como a imersão tem sido assimilada? Pelo menos de duas formas básicas:

1) Pela associação com o Batismo Católico Romano – Ser aspersionista é ser católico romano; assim, dizem os crentes modernos.

2) João Batista batizou no Rio Jordão – Esse tem sido o argumento do imersionistas, pois, eles supõem que se João, o Batista, batizou em um rio esse batismo foi por imersão.

O nosso estudo visa mostrar que estas duas premissas estão erradas. O batismo por aspersão não é do catolicismo romano, mas é uma forma bíblica de Batismo; segundo, João, o Batista, jamais praticou a imersão.

A nossa Confissão de Fé declara [1] o seguinte: “Não é necessário imergir o batizando na água; mas o batismo é corretamente administrado ASPERGINDO água sobre o candidato” (Confissão de Fé de Westminster, Cap.23 e Séc.3). Essa é a nossa tese neste estudo.

Vejamos o que podemos aprender sobre este assunto:

I – O QUE É BATISMO?

O nosso Breve Catecismo diz que “o batismo é o sacramento no qual o lavar com água em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, significa e sela a nossa União com Cristo, a participação das bênçãos do pacto da Graça, e nosso compromisso de pertencemos ao Senhor” (Breve Catecismo pergunta 94).

Nesta definição de Batismo oferecida por nosso símbolo de fé podemos destacar algumas coisas:

1.1 – O batismo é um Sacramento: O termo “Sacramento” significa algo que é Santo. Um sacramento, dentro da definição presbiteriana, é “um sinal visível de uma graça invisível” que tem sido destinada aos crentes em Cristo[2] , devemos levar em consideração este conceito presbiteriano, o batismo não é qualquer coisa, tem valor e muito valor.

1.2 – O batismo significa e sela a nossa união com Cristo: O batismo aponta para a realidade de que fomos alcançados por Cristo, Deus declara-nos que fomos salvos e que lhe pertencemos mediante este sacramento.

II – ANALISANDO O VOCÁBULO BATISMO

Os imersionistas dizem que o termo Batismo significa sempre “Imergir na água”. Dizem que os termos “Baptw”(Baptô) e “Baptizw”(Baptizô) sempre tem essa conotação. É verdade que no grego clássico estes termos significavam “imergir”, todavia, o grego Novo Testamento é o Grego conhecido como Koinê (Aquilo que é comum, aquilo que é do povo). E os termos nunca são empregados no Novo Testamento com esse sentido de imergir.

Vejamos:

1) Batizar nem sempre é imergir: Cristo não se Batizava antes de comer veja o que diz Lucas 11.38, o vocábulo grego empregado é “ebaptisqh”(Ebaptisthê).Outro fato interessante é o que Marcos diz em 7.4 “quando voltam da praça, não comem sem se aspergirem( baptiswntai - baptisôntai); e há outras cousas que receberam para observar, como a lavagem( baptismouV - Baptismus) de copos, jarros e vasos de metal e camas”.
Ora, se a palavra “Batismo” significa somente imergir, então, como explicar a imersão das camas de dormir – em qual tanque eles praticavam isso? No rio Jordão? Como? Levavam a cama na cabeça até o rio?

Como explicar Dn.4.25? Na versão grega do Antigo Testamento (Conhecida como Septuaginta) diz que “Nabucodonozor foi batizado no Orvalho do Céu”. Ele foi mergulhado no orvalho? Uma gota de chuva prova a imersão ou a aspersão?

2) Batizar não é sepultar: Os imersionistas advogam que o Batismo é símbolo da morte de Cristo. E apelam para Romanos 6.4ss , estes textos fala de nossa identificação com Cristo no Batismo dele que é caracterizado como a sua morte, e este batismo, sela nossa união com Ele. Associam que o descer a sepultura de Cristo, é figura do seu batismo, a pergunta é: Cristo foi sepultado como nós ocidentais somos? Ele foi baixado na cova, ou foi sepultado dentro de uma rocha, ou caverna? Então, o modelo de nosso sepultamento não serve para tal simbolismo do batismo de Cristo.

III – JOÃO, O BATISTA – UM IMERSIONISTA?

Os imersionistas agarram-se a João Batista dizendo que ele praticou a imersão. Será que João praticou a imersão no seu ministério?Alguns argumentam que ele batizou no Rio Jordão, ora se ele batizava em um rio, logo, ele batizava por imersão. Parece-nos uma conclusão lógica.Temos alguns problemas com essa argumentação:

1) Quem era João Batista? Todos nós sabemos que João era o primo de Cristo, e Filho de Isabel e Zacarias. Mas qual é era a função João? Jesus disse que João era Profeta. Por isso, Cristo disse que ele era o Elias prometido conforme profetizado por Malaquias 4.5, isto é fato descrito por Mateus 11.10-13. O que iria fazer o “Elias prometido”? Em Malaquias 3.1,3 diz que ele “purificará os filhos de Levi”, mas como era feita a purificação dos Filhos de Levi? Era por imersão ou aspersão? Veja o que diz Números 8.6-7. Então, João não poderia ser um imersionista.

2) João como profeta não poderia introduzir um novo rito de purificação: É público e notório que todos os ritos de purificação no V.T eram por aspersão, e todos os profetas praticaram a aspersão como rito de purificação, especialmente porque Moisés havia recebido a ordem de Deus para isso, logo, nenhum profeta poderia alterar o rito, como João, sendo um judeu levita, poderia introduzir tal rito estranho? Basta olharmos o primeiro capítulo do Evangelho de João 1.25 (evangelista) para vermos que isso era impossível.

IV – ALGUMAS PASSAGENS DA ESCRITURA E ASPERSÃO PROVADA

Neste momento queremos mostrar alguns textos das Escrituras onde a imersão não aparece, e torna-se evidente que a aspersão é o caso aplicado. Estes textos provam que a imersão nunca foi uma prática bíblica, e assim, a aspersão é bíblica – não pode existir duas verdades quando uma se opõe a outra, vejamos:

1) Paulo não foi imerso: Não há como negar que Paulo foi batizado em pé Atos 9.18; 22.16. A expressão no original grego anastas ebaptisqh(anastas ebaptisthê) o particípio grego “anastas” indica que houve uma ação simultânea entre o levantar e ser batizado. Não há porque supor que havia um tanque batismal na casa para isso, pois, tal não era a prática de judeus já apegados a aspersão.

2) As abluções são traduzidas por batismos: O autor do livro de Hebreus que as várias cerimônias de purificações no V.T são chamadas de “batismos” isso no capítulo 9.10 e as descreve nos versículos 19-22

3) Como explicar a imersão em I Corintios 10.1,2: É possível ser imerso na nuvem? Ou no Mar Vermelho? Os israelitas foram imersos no Mar Vermelho? Não foram os egípcios? Como podemos ser mergulhados em Moisés? Este texto só tem explicação se a aspersão foi admitida no termo “batismo” que é empregado aqui.

4) Atos 2.41 prova a imersão? A resposta é não. Porque os imersionistas não consideram algumas coisas.
4.1) não havia rio dentro da cidade de Jerusalém.
4.2) como mergulhar 3 mil pessoas em um dia, em um local sem águas para a imersão ser praticada..


Conclusão

Este estudo tem o caráter de ser uma introdução ao assunto, solicitamos que todos possam estudar este assunto com afinco, e assim, possamos resgatar a nossa identidade.




** Publicado originalmente em Presbiterianos Calvinistas


[1] A Igreja Presbiteriana do Brasil possui três símbolos de Fé: 1) A Confissão de Fé de Westminster; 2) O Breve Catecismo de Westminster; 3) O Catecismo Maior de Westminster.
[2] Veja-se a Confissão de Fé de Westminster, Capítulo 26, Seção 1.

A Reforma e os Sacramentos: A Ceia do Senhor**



Introdução



Tenho a impressão de que a maioria dos membros de nossas igrejas, inclusive presbíteros(as) e pastores(as), não sabem o significado da Mesa do Senhor. 

Certa vez participei do culto em uma de nossas igrejas e a Ceia foi celebrada antes do sermão. Já presenciei celebrações em que ao invés de se elevar a Deus uma oração de “ação de graças” (aliás, o significado da palavra “eucaristia”), o pastor orou “consagrando os elementos” da Ceia. Ouvimos de pastores(as) e membros da igreja que o pão e o vinho são apenas símbolos do corpo e do sangue de Cristo. Há algum tempo atrás, um antigo membro da igreja me disse: “Seria ruim se nós participássemos da Ceia todo domingo. A Santa Ceia ia se tornar uma coisa rotineira. É bom quando acontece uma vez por mês. Todo mundo fica esperando o primeiro domingo. A igreja fica cheia nesse dia...”. E o que dizer do “clima” da celebração da Ceia? Os membros seguram o pão e o cálice em suas mãos e participam em um misto de solenidade e tristeza. 

Estas cenas observamos em nossas comunidades. Por isso pergunto: o que está acontecendo no momento em que celebramos a Ceia do Senhor? Seria proveitoso que, quando comemoramos mais um aniversário da Reforma Protestante, buscássemos responder a essa questão voltando os nossos olhos para os próprios reformadores, especialmente João Calvino. É o que pretendemos fazer.

A Ceia do Senhor Antes da Reforma

Como estava a liturgia antes da Reforma? 

O culto não ia nada bem. A Igreja estava dividida entre clero e leigos. A liturgia era alguma coisa que o sacerdote fazia em favor do povo. O sacerdote fazia, o povo assistia. Passou-se a desvalorizar a Palavra e sua proclamação no culto. A missa era realizada em latim. Os leigos nada compreendiam. O povo também não falava e nem orava no culto. Tudo era feito pelo sacerdote, de maneira incompreensível e muitas vezes inaudível. Restava ao povo contemplar o que estava acontecendo.

E quanto à Ceia do Senhor? Na liturgia, tudo servia como preparação para a Eucaristia. A missa eucarística era entendida como um sacrifício que o sacerdote apresentava pelos pecados do povo. Era como se o sacrifício de Cristo fosse repetido. Desenvolveu-se nessa época a idéia de que os sacramentos causam a graça de Deus. Não é Deus quem, diretamente, causa a graça. Os sacramentos eram entendidos como eficazes por si mesmos, tinham poder próprio. Contudo, quem celebrava os sacramentos era o clero. O sacerdote era um ser poderoso, que administrava e infundia a graça. Tudo dependia de sua consagração. Imaginava-se que, a partir dessa consagração, as substâncias do pão e do vinho eram transformadas, respectivamente, nas substâncias do corpo e do sangue de Cristo. O povo, ao receber a hóstia consagrada, recebia verdadeiramente a carne de Cristo e o sacerdote, ao beber do cálice, bebia verdadeiramente o sangue de Cristo. Essa doutrina foi chamada de “transubstanciação”. 

O povo começou a sentir-se muito indigno de participar da Ceia do Senhor, pois tratava-se do próprio corpo natural de Cristo presente. Induzido pelo clero, deixou de comungar com regularidade. Ao povo só restava contemplar e adorar a hóstia, a carne e o sangue de Cristo presentes diante de seus olhos. O ponto alto do culto era quando o sacerdote fazia Cristo tornar-se corporalmente presente na Ceia.

A Reação dos Reformadores e Suas Divergências Quanto à Ceia do Senhor

A Reforma transformou a liturgia. Os reformadores procuraram: - restaurar a idéia de que o culto é uma tarefa de todo o povo de Deus; - recuperar a importância das Escrituras e do sermão no culto; - realizar o culto na língua que o povo entendia; - aumentar a freqüência da celebração da Ceia; - varrer da liturgia a suntuosidade e tudo aquilo que havia sido agregado por conta da tradição.

Os líderes da Reforma concordavam em muitos assuntos, mas não concordavam em tudo. O pensamento acerca da Santa Ceia foi um dos motivos de divisão entre eles. Citaremos, rapidamente, as opiniões de Lutero, Zuínglio e Calvino sobre esse assunto.

Lutero, junto com os outros reformadores, negou boa parte das doutrinas romanas sobre a Ceia. Não aceitava a Eucaristia como obra meritória. Não aceitava a Eucaristia como uma repetição do sacrifício de Cristo. Não aceitava que o cálice da Santa Ceia fosse negado aos fiéis. Não aceitava o “milagre supérfluo” da transubstanciação. Para Lutero, a Ceia do Senhor, ao lado da proclamação da Palavra, era o centro do culto. O sacramento vale pela graça que o acompanha e é eficaz na medida em que o povo participa dele com fé. 

Lutero acreditava que a presença de Cristo na Ceia vai além de uma presença simbólica. Entendia que, o corpo de Cristo pode se fazer presente na Ceia, da mesma forma como a sua natureza divina se fazia presente no homem Jesus. Para Lutero, na Ceia, ao mesmo tempo em que estão presentes o pão e o vinho, também estão presentes o corpo e o sangue de Jesus, ou seja, o corpo e o sangue de Cristo estão presentes “em”, “com”, “debaixo”, “ao redor” e “por trás” do pão e do vinho. Esta doutrina ficou conhecida como “consubstanciação” e acabou se tornando o ponto de conflito entre o reformador alemão e os reformadores suíços. Entre eles, Zuínglio. 

Zuínglio queria que tudo estivesse de acordo com a Bíblia. Por isso, restaurou em Zurique a celebração da Ceia em ambas espécies. Para ele, a presença corporal de Cristo na Ceia era inútil. O corpo de Cristo encontra-se no céu ao lado do Pai e não pode se fazer presente na terra durante a Ceia. O corpo natural de Cristo não pode ser “mastigado”. Só podemos enxergá-lo com os olhos da fé. Mas Cristo não está ausente na Ceia. A Ceia é mais do que um ato humano. Ela é o sinal da graça de Deus. Se Deus não está presente, a graça e a resposta de fé não acontecem.

Zuínglio acreditava que a Ceia do Senhor é um ato de comemoração e representação simbólica da paixão e morte de Jesus, uma lembrança do sacrifício suficiente de Cristo. A Igreja, ao comungar, transforma-se no Corpo de Cristo. Zuínglio aumentou a freqüência da celebração da Eucaristia de uma para quatro vezes ao ano. Assim o povo participava mais vezes da Ceia e a Mesa era “protegida” daqueles que não observassem uma vida cristã impoluta. Quando a Ceia não era celebrada, realizava-se o culto com o sermão. O resultado era que, na maioria dos cultos, a Palavra e a Eucaristia estavam separados. 

E Calvino, o que pensava? Para Calvino, a consubstanciação de Lutero encerrava a presença física de Jesus no pão e no vinho, e o simbolismo de Zuínglio esvaziava a Ceia da presença do Senhor. Calvino afirmava que Cristo está verdadeiramente presente na Eucaristia. Esta presença não é física, como na transubstanciação e na consubstanciação, mas nem por isso deixa de ser real e válida. Para Calvino, falar da presença de Cristo na Ceia é falar de um mistério. Só podemos sentir a sua presença pela fé. Só podemos entender a sua presença real e espiritual se levarmos em consideração a ação do Espírito Santo. É o Espírito quem torna possível a santa presença na Ceia.

Calvino defendia que os símbolos da comunhão nunca são coisas vazias, lembranças do sacrifício de Cristo. Os símbolos foram escolhidos por Deus para comunicar a sua graça. Os símbolos não se transformam, não se misturam, não se confundem com a realidade que querem significar. A realidade do sacramento e os símbolos são coisas distintas, possuindo, porém, afinidade na medida em que Deus, por seu Espírito, está agindo. E isto só acontece para aqueles que possuem fé. 

Para Calvino, a Ceia do Senhor é o banquete que sustenta a vida cristã. Todos aqueles que foram admitidos à Igreja pelo Batismo, precisam ser nutridos pela Eucaristia. Na Mesa, o Cristo ressurreto comunica a vida. O ser humano é fraco e imperfeito. Sua fé é insuficiente. Precisa alimentar-se de Cristo. Este alimento espiritual só se encontra na Palavra proclamada e selada na Ceia do Senhor. Por isso Calvino insistia para que a Ceia fosse celebrada em todo o culto, pois somos fracos e precisamos ser nutridos por Deus.

Um último ponto. Para Calvino, não existe Ceia fora da Igreja e não existe Igreja sem a Ceia do Senhor. A Ceia é para a comunidade dos batizados e deve ser sempre celebrada no contexto do culto.

Conclusão

Concluindo. Todos os reformadores entendiam que a Ceia do Senhor era essencial no culto e na vida cristã. Ainda assim divergiam. Essas divergências focalizavam-se na questão da presença de Cristo na Ceia. Todos concordavam que Cristo se faz presente na Ceia. Discordavam quanto à forma dessa presença. Nós, presbiterianos, fomos influenciados pelas idéias de Zuínglio. Por um lado, ignoramos a opinião de Calvino sobre a presença de Cristo na Ceia e dizemos que o pão e o vinho são símbolos do corpo e do sangue de Jesus. Por outro lado, realizamos mais cultos onde a Palavra é proclamada e a Ceia não é celebrada.

O pensamento dos reformadores, em especial o de João Calvino, nos desafia. Deveríamos refletir mais a respeito da freqüência da celebração da Ceia. O que impede que celebremos sempre a Eucaristia? Até que ponto não tornamos a Ceia um apêndice mensal em nossas liturgias? Uma outra questão que tem dividido nossa denominação é a participação de todos os batizados, inclusive as crianças, na Ceia do Senhor. O que, de fato, é indispensável para aqueles que desejam participar da Mesa? Consciência, vontade ou fé? Só os adultos precisam da Ceia? O que João Calvino diria sobre isto?

Precisamos conhecer o significado dos sacramentos. Isto não tem acontecido. Gostamos de discutir e opinar sem estudar. Espero que este texto seja um estímulo para aprofundamento. Indico três livros que consultei: - “Uma História Ilustrada do Cristianismo – Vol. 6 – A Era dos Reformadores”, de J. L. Gonzalez, Ed. Vida Nova; - “O Pensamento da Reforma”, de H. Strohl, ASTE; e - “Grandes Temas da Tradição Reformada”, (ed.) Donald K. Mckim, editado no Brasil pela Associação Evangélica Literária Pendão Real.



** Artigo escrito pelo Rev. Emerson R. P. dos Reis Pastor da IPI de Casa Verde - Presbiterio Santana e publicado originalmente em Sínodo Norte Paulistano



O Batismo Cristão: Imersão ou Aspersão?**







O modo de administrar o batismo não é muito debatido entre os presbiterianos. Isto pode dar origem ao entendimento falso de que não temos base bíblica para sustentar a aspersão. Na verdade falamos pouco sobre o assunto porque consideramos a forma de batizar de importância relativa. Em outras palavras, não cremos que a validade desta ordenança de Cristo dependa da quantidade de água empregada ou do modo como esta água é aplicada.

De fato, é com tristeza que somos obrigados a escrever sobre este assunto, pois poderíamos usar o nosso tempo em questões mais úteis do que debates acerca de cerimônias externas. Talvez nesse ponto estejamos nos igualando aos católicos romanos debatendo com os ortodoxos sobre a maneira correta de fazer o sinal da cruz, ou aos membros de certa igreja disputando acerca da maneira correta de receber a ceia, se sentados nos bancos ou ajoelhados no altar.

Porém, como freqüentemente somos acusados de laborar em erro por batizarmos por aspersão, pretendemos demonstrar que se a validade depende da forma, então o único batismo válido é por aspersão ou efusão, mas nunca por imersão.

Uma comparação com a Ceia

Uma questão que se apresenta logo no início é: se a validade do batismo depende da forma de sua administração, o que dizer da Ceia? Será que existe alguma igreja que celebre a ceia exatamente como o Senhor a instituiu? Uma porção de água que se derrama ou se esborrifa sobre a cabeça de alguém está tão próximo da imersão como uma migalha de pão e um gole de suco de uva está de uma refeição oriental. Portanto, se a pouca água invalida o batismo, pouco pão e vinho invalida a ceia. Aliás, existem igrejas que questionam o uso de pão comum na Ceia, argumentando que o correto é usar pão sem fermento; então por que a maior parte dessas mesmas igrejas -- senão todas -- usa suco de uva se a Bíblia diz claramente que a bebida era vinho? Sim, vinho que embriagava se consumido em demasia (1 Co11.21)!

O Que é um Sacramento?**





Alguém o convidou para um novo culto, moderno, especialmente dirigido para quem tem vinte ou trinta e poucos anos. Identificando-se como parte da “rede” emergente, o grupo não se identifica como uma igreja (porque o termo igreja, como instituição, evoca más associações). Ela não se parece com qualquer igreja, mas mais como uma grande sala, com estações diferentes para diferentes atividades espirituais. Estas estações incluem, talvez, um labirinto de oração, incenso, ícones, e um copo e um pão em uma mesa. Eventualmente, alguém começa a falar enquanto a maioria das pessoas encontra o seu lugar em sofás e cadeiras. Este não é um sermão (sermão é algo muito hierárquico!), mas é uma conversa de coração para coração, tentando “conectar” cristãos e não-cristãos de uma maneira que é “vulnerável” e “autêntica” em contraste com o pragmatismo enlatado que eles conheciam nas mega-igrejas de sua juventude.

O cenário que estou descrevendo pode ser encontrado em centenas de reuniões a cada domingo. Muitas são não-denominacionais, mas outras são, pelo menos informalmente, ligadas a alguma denominação. Exaustos com os cultos que consideram inautênticos, muitos desses jovens estão sedentos por mistério e transcendência. Eles querem realmente entrar em contato com Deus e não apenas satisfazer as suas “necessidades sentidas”. Seus pais gostavam de iluminação do palco; já essas pessoas gostam de velas.

O pressuposto nesse quadro é que, já que a fé é uma relação direta e imediata com Deus dentro de nosso espírito, as formas exteriores não têm importância. Portanto, podemos fazer o que quisermos em adoração, conquanto a doutrina esteja correta. Neste cenário, nós muito facilmente escolhemos nossos próprios “meios da graça.”

Novas medidas?

Apesar de podermos concordar com algumas das lutas e impulsos dessa “geração” emergente, esse movimento pode tornar-se simplesmente outro verso do velho e cansado hino que poderíamos chamar de “Um Ode às Novas Medidas.” O revivalista do século XIX, Charles G. Finney, um presbiteriano que não gostava de quase tudo que definia a fé e a prática presbiteriana, rejeitou fortemente o ensino calvinista de que os seres humanos são totalmente incapazes de se regenerar. De acordo com Finney, nós não somos salvos da justa ira de Deus e enxertados na igreja visível de Cristo por uma obra sobrenatural do Espírito de Deus trabalhando através dos meios ordinários de graça, como a pregação do evangelho e a administração dos sacramentos. Em vez disso, dizia que a conversão “não é um milagre nem mesmo algo dependente de um milagre, em qualquer sentido, mas é o resultado filosófico do uso correto de meios” (“novas medidas”, como ele chamou), o trabalho de um evangelista de sucesso é encontrar “excitação suficiente para induzir o arrependimento.” Se a salvação está nas mãos do pecador, então, a conversão dos pecadores está nas mãos do evangelista.

A América é um mercado do desejo, uma loja do desejo do consumidor. A vida religiosa americana do “faça-você-mesmo” é um testemunho disso. Em nossa cultura, compras é uma terapia. Nós não somos tanto como o Peregrino percorrendo o seu caminho na comunhão dos santos em direção à Cidade Celestial, somos mais parecidos com turistas individualistas saltando da banca em banca na Feira das Vaidades. O movimento “emergente” critica a falta de autenticidade religiosa, mas exibe mais do que refuta essa tese. Seu líder mais visível, Brian McLaren (recentemente nomeado pela revista TIME entre os líderes evangélicos mais importantes), além de redefinir ou desafiar as doutrinas evangélicas fundamentais, diz que aprecia a visão “sacramental” de mundo do catolicismo romano. “Quando dizemos que há sete sacramentos, podemos começar a ver tudo como um sacramento em potencial”, escreve ele. Certamente, a teologia da McLaren é diferente da de Finney. Ao contrário do reavivalismo do passado, McLaren evita a abordagem sobre “inferno de fogo e enxofre.” Entretanto, assim como Finney, ele minimiza a gravidade do pecado como uma condição da qual nada menos do que o sacrifício vicário de Cristo pode nos redimir. A teologia de McLaren pode ser descrita como “Finney-light”. E a prática não pode ser separada da teoria. Como Finney, McLaren e muitos no movimento “emergente” parecem pensar que nós podemos decidir o que constitui um “meio de graça”.

Termos do homem versus Termos de Deus

Os reformadores protestantes reconheceram que se você começar com um “evangelho” centrado no homem, você vai precisar de métodos antropocêntricos. Mesmo os sacramentos ordenados podem tornar-se meios do esforço humano, ao invés de serem entendidos como meios da graça divina. Assim como Finney olhou para as “excitações capazes de induzir o arrependimento”, Roma ofereceu várias estratégias para obter a remissão dos pecados por meio da penitência. Os reformadores, por outro lado, reconheceram a lógica de Paulo em Romanos, especialmente o capítulo 10. Nesse capítulo, Paulo diz que há duas respostas para a pergunta: Como posso ser reconciliado com Deus? Uma resposta é “a justiça que é pelas obras”, a outra é “a justiça que vem pela fé em Cristo”. Uma se baseia o nosso zelo para guardar as coisas de Deus, a outra, sobre o zelo de Deus por nós e por nossa salvação.

Enquanto Paulo desenvolve seu argumento no capítulo 10 de Romanos, ele reconhece que a mensagem cria seus próprios métodos. A mensagem da justiça das obras procura maneiras de subir para trazer do alto a Cristo ou maneiras de ir às profundezas para trazê-lo para cima, enquanto a justiça da fé recebe a Cristo como ele já desceu para nós e onde ele promete estar presente para nós, para nossa salvação. Para a justiça das obras, a fé vem pelo esforço, para a justiça do evangelho, a fé vem pelo ouvir Cristo sendo proclamado. Para chegar a Jesus não é preciso pegar um avião para o último “avivamento”, nem ser alcançado na última cruzada ou moda espiritual, não é preciso peregrinar, jejuar e orar por isso, percorrer um labirinto, se curvar diante de ícone, ou seguir os mais modernos “princípios para a vitória.” Cristo nunca está mais perto de nós do que quando ele está realmente se dando a nós na Palavra pregada, no Batismo e da Ceia do Senhor.

Imagine que um rico benfeitor lhe prometeu um milhão de dólares para que você pudesse fazer uma cirurgia necessária para salvar a sua vida. Ele diz a você para encontrá-lo em um determinado local, onde vai dar-lhe o cheque. Um amigo te dá uma carona até o local, um canto pouco auspicioso, em uma parte abandonada da cidade, onde você encontra o bar designado. “Esse não pode ser o lugar”, você pensa, enquanto olha o letreiro de néon pendendo precariamente com letras faltando. Depois de entrar, você se senta num banquinho frágil e nota que seu copo está manchado com café e batom, o pires lascado, e que o serviço é terrível. Você olha ao redor e não consegue imaginar que qualquer pessoa vagamente parecida com um milionário poderia estar entre os fregueses. Então, quando você está prestes a sair, um homem em roupas surradas vai até a sua mesa e chama você pelo nome. Quando você o reconhece, ele desliza no banco e junta-se a você para uma refeição. Então, lá ele lhe oferece o cheque e você comemora sua nova amizade. Venha conhecer, este senhor tem frequentado este bar há anos, é o seu lugar preferido.

Como as nações idólatras, nós procuramos por “deus” em todos os lugares altos, mas o verdadeiro Deus habita os lugares baixos, quando e onde ele se comprometeu a estar presente para distribuir os seus dons durante uma pregação e uma refeição. Nós encontramos esse Deus-por-nós na cruz, sangrando e morrendo pelos pecadores, dificilmente o tipo de “coroação” que os discípulos estavam procurando em Jerusalém. Além disso, esse mesmo Deus mostra-se precisamente onde não esperamos encontrá-lo em nossas vidas, aqui e agora. Se nós fôssemos voar até ao céu para trazer Deus até nós, isso exigiria alguns meios muito poderosos; mas Deus vem até nós na fraqueza. Nós procuramos pela rota mais inteligente, o caminho que faz mais sentido “excitações suficiente para induzir o arrependimento”, mas Deus se recusa a ser encontrado por nós em nossos termos. Ele nos encontra nos termos dele.

Os Sacramentos

A igreja de Corinto era imatura, sempre à procura de um “super-apóstolo” para revelar algo mais espetacular do que o pouco promissor ministério do fraco Apóstolo aos gentios. No entanto, Paulo demanda: “O que você tem que você não recebeu? Mas, se você realmente recebeu, por que te glorias, como se não tivesse recebido?” (1 Coríntios 4:7). Em sua segunda carta, ele escreve, “Mas temos este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não nossa” (2 Coríntios 4:7). Tal como o benfeitor na minha ilustração, o poder reside na promessa de Deus para entregar seus dons quando e onde Ele quiser.

Não por causa de qualquer poder inerente ou astúcia, os sacramentos são meios de graça – e  não de graça geral, mas da graça redentora. A teologia reformada há muito nos incentivou a ver todo o mundo como um teatro da bondade e providência de Deus. Um magnífico pôr do sol, um lindo concerto, o sorriso de uma criança, uma refeição maravilhosa com os amigos e o abraço conjugal são sinais de cuidados gerais de Deus para todos os que ele criou. No entanto, este cuidado se estende igualmente aos crentes e não crentes (Mateus 5:45). Enquanto a revelação geral nos lembra do poder e majestade de Deus, o evangelho pregado comunica a graça salvadora de Deus. Deus está presente em todo lugar, em tudo o que ele fez, mas ele só está presente para salvar no lugar onde ele prometeu ir ao nosso encontro. Enquanto o Grand Canyon pode nos encher de espanto, a pregação de Cristo nos enche de fé. Respondendo à pergunta: “De onde vem essa fé?”, O Catecismo de Heidelberg (Pergunta 65) responde: “O Espírito Santo produz em nossos corações pela pregação do santo Evangelho, e a confirma por meio do uso dos santos sacramentos.”

Mesmo que Deus possa criar e confirmar a fé quando e como ele escolher, ele só tem prometido fazê-lo através dos meios que ele nomeou. Nos sacramentos, Deus reúne os sinais (água, pão e vinho) para as coisas significadas (regeneração, o corpo e o sangue de Cristo), a fim de entregar-nos a mesma promessa do evangelho anunciada por meio de sua Palavra, para que tanto ouçamos quanto vejamos que Deus é bom! O próprio Deus condescende à nossa fraqueza, colocando o selo real de seu pacto de graça. Como Edmund Clowney escreveu:

“Espalhar o significado sacramental sobre toda a criação dilui a sua força. Se tudo é sacramental, em seguida, o pão e o vinho já são sacramentos antes de sua consagração, e o mistério da Eucaristia difere apenas em grau de sacramentalidade de uma criação encarnada …. A revelação de Deus na natureza demonstra o “poder eterno de Deus e sua natureza divina” (Rm 1:20), fazendo com que toda a humanidade responda diante dele, mas a revelação especial de Deus em palavra e ação fornece os sinais do seu poder redentor” (The church, pp. 270-271).

Então, devemos tentar ser mais sábios do que Deus? Sabemos como melhor receber a Cristo e todos os seus benefícios? Quando saímos tentando escalar as alturas do céu para possuir a Deus como ele é em toda a sua majestade, em vez de simplesmente recebê-lo como ele desce até nós, estamos a fazer um bezerro de ouro. Isso é adorar a Deus em nossos termos, em vez adorá-lo em seus termos, é criar uma “experiência” com Deus, que podemos administrar e controlar com nossa tecnologia espiritual ao invés de aceitar humildemente o dom que Ele promete nos dar.

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O que quer que nos alimente com a Palavra de Deus e nos guie por sua lei é útil. No entanto, estes não são, estritamente falando, os meios de graça. Muitas coisas são exigidas como deveres na vida cristã, e muitas outras coisas, mesmo não exigidas por Deus podem ser úteis. No entanto, estes não são, estritamente falando, os meios de graça, mas os meios de discipulado. Em outras palavras, eles são os meios adequados de nossa resposta a Deus, enquanto que a pregação e os sacramentos são os meios de Deus nos alcançar. O Catecismo de Heidelberg chama oração, por exemplo, “a parte mais importante da gratidão que Deus exige de nós” (pergunta 116). Oração é indispensável para a vida cristã, assim como a comunicação o é para um casamento frutífero. No entanto, a oração é a resposta da fé, enquanto a pregação e os sacramentos criam e confirmam a fé. Como meios de graça, sacramentos comunicam algo de Deus para nós, enquanto, em todos os exercícios de gratidão e obediência cristã, nós respondemos com amor a Deus e ao próximo.

Conclusão

Embora haja muitas coisas que o cristão deve fazer, nada que façamos pode comunicar graça para nós mesmos. Há, naturalmente, muitas coisas que devemos fazer para receber a Palavra de Deus e os sacramentos: vestir-se, ir à igreja, passar o dia meditando sobre as riquezas de Deus em Cristo. Mas a comunicação dessas riquezas é inteiramente um ato do próprio Deus, não nosso. A boa notícia é que Deus não só criou o seu caminho para nós na vida, morte e ressurreição de Cristo, mas que Ele também já determinou seu encontro conosco nesta presente era, no Sabbath semanal. Na verdade, o meio é a mensagem. “Portanto, uma vez que estamos recebendo um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de forma aceitável, com reverência e temor. Porque o nosso Deus é fogo consumidor “(Hebreus 12:28-29).






Traduzido por Gustavo Vilela | iPródigo. Texto originalmente publicado no jornal Evangelium, Vol 4, Edição 1. (Jan/Fev 2006) e postado no Reforma 21



** Michael Horton (PhD) é o professor de apologética e teologia no Westminster Seminary, Califórniam editor-chefe da revista Modern Reformation e autor de vários livros, incluindo O Cristão e a cultura, Creio, Cristo o Senhor, As Doutrinas da Maravilhosa Graça, A Face de Deus, A Lei da perfeita liberdade, Um Caminho Melhor e O Deus da Promessa, todos da Cultura Cristã.

A Teologia do Pacto e os Sacramentos**





“Mas, uma vez que certos espíritos frenéticos excitaram graves perturbações na Igreja em nosso tempo por causa do pedobatismo, mesmo agora não deixam de produzir tumultos, nada posso fazer senão adicionar aqui um apêndice com o fim de coibir-lhes as fúrias...” (João Calvino)

Pois bem, parece que não foi somente nos tempos de Calvino que pessoas tem se levantado contra o verdadeiro entendimento dos sinais da aliança dada por Deus como estatuto perpétuo a Abraão e posteriormente a Moisés. E que permanecerão essencialmente e eternamente através do Novo testamento.

Tentarei fazer um breve resumo desta tão vasta doutrina, interligada a tantas e tantas outras, para que de uma forma bem simples possa ser entendida até pelos mais indoutos.

Não vou me ater ao período anterior a Abraão, até por que quanto mais extenso o texto, menos pessoas o lerão. E aqui começa nossa odisseia dentro do pacto da graça e seus símbolos em distintas dispensações.

Aprouve a Deus chamar um Homem, chamado Abrão e fazer com ele um Pacto, que serviria para ele e toda sua posteridade como estatuto perpétuo:

“... e falou Deus com ele, dizendo: Quanto a mim, eis a minha aliança contigo: serás o pai de muitas nações; E não se chamará mais o teu nome Abrão, mas Abraão será o teu nome; porque por pai de muitas nações te tenho posto; E te farei frutificar grandissimamente, e de ti farei nações, e reis sairão de ti;

E estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti em suas gerações, por aliança perpétua, para te ser a ti por Deus, e à tua descendência depois de ti. E te darei a ti e à tua descendência depois de ti, a terra de tuas peregrinações, toda a terra de Canaã em perpétua possessão e ser-lhes-ei o seu Deus. Disse mais Deus a Abraão: Tu, porém, guardarás a minha aliança, tu, e a tua descendência depois de ti, nas suas gerações.

Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado. E circuncidareis a carne do vosso prepúcio; e isto será por sinal da aliança entre mim e vós.” (Gênesis 17:3-11)

Antes de discorrer sobre tal doutrina, é importante que eu já abra um parêntese para dizer que da mesma maneira como o povo da circuncisão (os judeus) no antigo pacto eram conhecidos como Filhos de Abraão por manterem a aliança dada ao seu Pai. Assim também no Novo Pacto (não Novo no sentido de algo realmente iniciado do nada, mas no sentido de renovação, do grego kainós), Deus enxertou aos Filhos de Abraão os gentios, e deu a eles o direito de serem feitos coerdeiros da aliança filhos do novo pacto: “Sabei, pois, que os que são da fé são filhos de Abraão.” (Gálatas 3:7).

Logo, confiados em Deus e nas Escrituras, podemos dizer que somos filhos de Abraão tão quanto os Judeus no Antigo Pacto o eram.

Sabendo agora que pertencemos ao mesmo pacto que Abraão foi chamado, devemos manter-se cumprindo dentro desse RENOVADO Pacto os sinais de nossa Aliança com Deus, a saber, o Batismo que aponta exatamente para as mesmas coisas que a Circuncisão apontava no seio da antiga aliança.

Sabemos que o conceito de Sacramento, segundo nossa Teologia Reformada é:

“Os sacramentos são santos sinais e selos do pacto da graça, imediatamente instituídos por Deus para representar Cristo e os seus benefícios e confirmar o nosso interesse nele, bem como para fazer uma diferença visível entre os que pertencem à Igreja e o resto do mundo, e solenemente obrigá-los ao serviço de Deus em Cristo, segundo a sua palavra.” (CFW)

O Reformador John Knox sabiamente escreveu:

“Assim como os patriarcas sob a Lei, além da realidade dos sacrifícios, tinham dois sacramentos principais, isto é, a circuncisão e a páscoa, e aqueles que os desprezavam e negligenciavam não eram contados entre o povo de Deus, assim nós também reconhecemos e confessamos que agora, na era do Evangelho, só temos dois sacramentos principais, instituídos por Cristo e ordenados para uso de todos os que desejam ser considerados membros de seu corpo, isto é, o Batismo e a Ceia ou Mesa do Senhor, também chamada popularmente Comunhão do seu Corpo e do seu Sangue”.

John Knox afirma sabiamente o que é claramente é visto na Escritura que ambos os sacramentos, de forma comparativa, tanto a Circuncisão quanto a Pascoa apontam exatamente para as mesmas coisas que o Batismo e a Santa Ceia. Duas Grandes Ordenanças de Deus ao Povo, tanto do antigo pacto, como no Novo Pacto.

Um dos Pilares da Chamada Teologia do Pacto, é que pertencemos a mesma Igreja do Antigo Testamento, e que em ambos os momentos estamos sob a Graça de Deus. Outra coisa é que no Pacto Renovado (Novo- kainós), permaneceu toda a essência do antigo, sem, no entanto permanecer as formas, isso se da no culto, nos sacramentos e em outros aspectos.

Apesar da Renovação ter mudado a forma visível dos dois grandes sinais do antigo pacto como eu já disse o significado continuam os mesmos... (Me aterei apenas a questão do Batismo).

Muitos alegam que a Circuncisão no Novo testamento não aponta para o Batismo, pois a circuncisão do crente é dentro do Coração, mas esquecem de que a verdadeira circuncisão do Judeu dentro do antigo pacto também era dentro do Coração.

Moises diz:

“Tão-somente o SENHOR se agradou de teus pais para os amar; e a vós, descendência deles, escolheu, depois deles, de todos os povos como neste dia se vê. Circuncidai, pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz”. (Deuteronômio 10:15-16).

É justamente isso que o Apostolo Paulo fala em Romanos:

Mas é Judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; (Romanos 2:29)

Paulo (assim como Moisés) fala que a verdadeira circuncisão acontece no coração do Judeu. Isso indica que mesmo no tempo em que o sinal visível era a circuncisão na carne do prepúcio, ela não passava de um meio de Graça que indicava um sinal externo de uma graça interna. Assim como o Batismo aponta um sinal externo de uma graça interna, Por que verdadeiramente é batizado quem o é interiormente, aquele que foi lavado pelo sangue, mortificado com Cristo e Purificado de seus pecados.

Por isso o Apostolo Paulo é categórico em afirmar que nós gentios estamos também circuncisados por que fomos sepultados com Cristo pelo Batismo:

“No qual também estais circuncidados com a circuncisão não feita por mão no despojo do corpo dos pecados da carne, a circuncisão de Cristo; Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos”. (Colossenses 2:11-12)

Mas isso gera a grande dúvida, mas se eles apontam para isso, não é necessário ter fé para participar? E as crianças? Porque as Batizamos então?

Oras, por que como disse bem Calvino:

“Quando o Senhor manda Abraão observar a circuncisão, ele prefacia que será o Deus dele e de sua semente, acrescentando que nele estavam a afluência e a suficiência de todas as coisas, para que Abraão tivesse consciência de que sua mão haveria de ser-lhe a fonte de todo bem [Gn 17.1-10];

E diz mais...

Os filhos dos judeus, sendo também feitos herdeiros desse pacto, uma vez que se distinguiam dos filhos dos ímpios eram chamados semente santa [Es 9.2; Is6.13]; pela mesma razão, ainda agora, os filhos dos cristãos são considerados santos, ainda que nascidos só de um genitor fiel; e, segundo o testemunho do Apóstolo [1Co 1.14], eles diferem da semente imunda dos idólatras.

Ora, quando o Senhor, imediatamente após ser firmado o pacto com Abraão, preceituou que nas crianças fosse assinalado um sacramento exterior [Gn 17.12], que justificativa, pois, podem os cristãos alegar para não atestarem e selarem hoje também em seus filhos?

O pacto é comum; comum é a razão de confirmá-lo. Só o modo de confirmar é diverso, porque àqueles era a circuncisão, a qual foi substituída pelo batismo. porque o sinal de Deus, comunicado à criança como um selo impresso, confirma a promessa dada ao pai piedoso e declara ter sido ratificado que o Senhor há de ser por Deus não só a ele, mas também à sua semente; nem quer que sua bondade e graça sejam acompanhadas não só por ele, mas ainda por sua posteridade até a milésima geração [Ex 20.6; Dt 5.19]. No qual primeiramente brilha a bondade de Deus para glorificar e enaltecer seu nome; e, segundo, para consolar ao homem fiel e dar-lhe maior ânimo para entregar-se totalmente a Deus, ao ver que não só se preocupa com ele, mas também com seus filhos e sua posteridade.

Com isso não há desculpa para a ausência dos filhos dos crentes no Batismo, pois são igualmente santos, como os filhos dos judeus eram santos, no antigo pacto.


Se deveras afirmamos que pertencemos à descendência de Abraão e que fomos incluídos a esse pacto, que somos corpo de Cristo e membros da mesma Igreja, negar todas essas verdades bíblicas é jogar todo o antigo pacto num dispensação morta que pra nada serve a não ser o que foi escrito diretamente sobre as paginas do Novo testamento.


** por Atila Calumby postado originalmente em Mensagem Reformada