O modo de
administrar o batismo não é muito debatido entre os presbiterianos. Isto pode
dar origem ao entendimento falso de que não temos base bíblica para sustentar a
aspersão. Na verdade falamos pouco sobre o assunto porque consideramos a forma
de batizar de importância relativa. Em outras palavras, não cremos que a
validade desta ordenança de Cristo dependa da quantidade de água empregada ou
do modo como esta água é aplicada.
De fato, é
com tristeza que somos obrigados a escrever sobre este assunto, pois poderíamos
usar o nosso tempo em questões mais úteis do que debates acerca de cerimônias
externas. Talvez nesse ponto estejamos nos igualando aos católicos romanos debatendo
com os ortodoxos sobre a maneira correta de fazer o sinal da cruz, ou aos
membros de certa igreja disputando acerca da maneira correta de receber a ceia,
se sentados nos bancos ou ajoelhados no altar.
Porém, como
freqüentemente somos acusados de laborar em erro por batizarmos por aspersão,
pretendemos demonstrar que se a validade depende da forma, então o único
batismo válido é por aspersão ou efusão, mas nunca por imersão.
Uma comparação com a Ceia
Uma questão
que se apresenta logo no início é: se a validade do batismo depende da forma de
sua administração, o que dizer da Ceia? Será que existe alguma igreja que
celebre a ceia exatamente como o Senhor a instituiu? Uma porção de água que se
derrama ou se esborrifa sobre a cabeça de alguém está tão próximo da imersão
como uma migalha de pão e um gole de suco de uva está de uma refeição oriental.
Portanto, se a pouca água invalida o batismo, pouco pão e vinho invalida a
ceia. Aliás, existem igrejas que questionam o uso de pão comum na Ceia,
argumentando que o correto é usar pão sem fermento; então por que a maior parte
dessas mesmas igrejas -- senão todas -- usa suco de uva se a Bíblia diz
claramente que a bebida era vinho? Sim, vinho que embriagava se consumido em
demasia (1 Co11.21)!
Se
aceitarmos que podemos receber a ceia de pé, ou sentados ou ajoelhados ou
deitados numa cama; se ela pode ser celebrada num cenáculo, numa casa ou num
templo; se podemos usar mais ou menos pão, ou mais ou menos vinho (ou suco de
uva!), etc., por que, então, a forma da outra ordenança é tão importante?
Entendemos que não há hierarquia entre as ordenanças. As duas são igualmente
importantes, instituídas pelo mesmo Senhor, mas cremos que sua importância está
na essência e significado e não em suas variadas formas de administração.
Quando Paulo escreve que há um só batismo (Ef 4.5), será que ele estava falando
aí da forma de administrá-lo? Até uma leitura superficial do contexto mostra
que não.
Respondendo às objeções
Antes de
demonstrar que a forma “correta”[3] de administrar o batismo é a aspersão.
Façamos uma análise rápida dos argumentos usados em defesa da imersão.
a) Batizar
significa imergir somente. “No grego secular bapto, baptizo e baptismos
expressam a idéia de imersão; conseqüentemente devem ter a mesma significação
quando usada no NT.”
Quanto a isto temos duas objeções:
1ª) Supondo
(somente supondo) que no grego secular batizar significa somente imergir, não
se segue necessariamente que o NT tenha empregado a palavra com o mesmo sentido
exclusivo.
A palavra
que designa o outro sacramento -- CEIA --, não é utilizada no sentido fixo e
uniforme que recebe no meio secular. No tempo do NT significava uma refeição
completa, a principal do dia, nunca tomar uma migalha de pão e um gole de
vinho. Se o sentido original e uniforme do vocábulo empregado com relação a uma
ordenança não se conserva, por que deveria ser fixo com relação ao outro? Pois
não há diferença de importância entre ambos.
Ainda que no
grego clássico batizar significasse somente imergir, não podemos pretender que
esse tivesse de ser o seu sentido no NT. Há muitas outras palavras que tem no
NT sentido completamente diferente do que tem no grego clássico. Por exemplo:
LOGOS, quando se aplica à Segunda Pessoa da Trindade. Que escritor profano
empregou esta palavra com tal sentido?
2ª) A
palavra “baptizo” não significa somente imergir. Pode expressar a idéia de
imersão parcial, imersão total, absorção ou efusão. Também pode ser empregada
com o sentido de derramar sobre, lavar, limpar, tingir, manchar. Tudo isso pode
ser comprovado consultando-se qualquer bom dicionário de língua grega.
Alexander
Carson, um batista, escreveu: “meu critério é que este vocábulo (baptizo)
significa sempre submergir; e que sempre se refere ao modo. Pois bem: dado que,
tendo todos os lexicógrafos e comentaristas contra mim, será necessário dizer
duas palavras a respeito da autoridade dos dicionários”[4]
b) A
expressão aplicada a João, o Batista: “João batizava também em Enon (...)
porque havia ali muitas águas” (Jo 3:23).
Em Enon
havia “muitas águas”. Essas “muitas águas” na verdade eram muitas fontes ou
arroios. Não há dúvida que eram fios d’água, pois não havia rios caudalosos
perto de Enon. Essas fontes eram preciosas para saciar a sede das multidões que
atendiam ao ministério de João. Tais fontes, porém, não serviam para a imersão.
Para a imersão é necessário muita água, mas a frase diz muitas águas. João não
podia usar mais água que a de um pequeno arroio, e isso era perfeitamente
adequado! Se o modo de administrar o batismo era a imersão, por que João deixou
o Jordão para fixar-se em Enon? Onde estava, no Jordão, havia muita água. Para
quê buscá-la em outro lugar? Portanto esta frase não tem nenhuma força para
determinar o modo do batismo.
c) A
expressão de Paulo em Rm. 6.4 “fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo
batismo..”
Que modo de
batizar parece com um sepultamento? Se pensarmos num ataúde baixando à terra e
por ela sendo coberto, a imersão pode parecer mais com um sepultamento. Mas
estamos tratando de um símbolo. E um símbolo pode parecer tanto com aquilo que
significa quanto uma aliança de casamento “parece” com a fidelidade. De fato,
esta semelhança perde qualquer sentido quando vemos que Paulo se refere ao
sepultamento de Cristo! E como Cristo foi sepultado? “e o depositou no seu
túmulo novo que fizera abrir na rocha; e rolando uma grande pedra para a
entrada do sepulcro, se retirou.” (Mt. 27.60). Portanto Rm. 6.4 nada acrescenta
sobre a forma de batismo e esta não é a intenção do apóstolo ao escrever o
capítulo 6. Provavelmente ele se entristeceria ao constatar como cristãos se
deixaram distrair das questões importantes, ensinadas neste capítulo, acerca do
pecado e da graça para se deterem em exterioridades. O Apóstolo não tinha em
mente fixar norma sobre a forma de batismo, nem aqui nem em nenhum outro trecho
de suas epístolas.
Há, talvez,
outros argumentos de menor peso, porém cremos que eles se desfarão se tratarmos
logo de demonstrar o que afirmamos: o modo “correto” de batizar é a aspersão.
O Batismo: Uma novidade?
Talvez
muitos cristãos imaginem que os judeus não conheciam nem praticavam nada
semelhante ao que é descrito em Marcos 1.4... “apareceu João Batista no
deserto[5], pregando batismo de arrependimento.”
Será que
João Batista introduziu um rito completamente novo, desconhecido aos judeus?
Vemos que o NT não explica o ritual do batismo, dando a entender que os judeus
não necessitavam de explicações. Isso porque o batismo não foi uma cerimônia
introduzida por Jesus, João ou os apóstolos, mas era uma prática comum entre os
judeus desde os primórdios de sua organização como povo. Estes batismos eram
feitos usando-se a água ou outro elemento, como o sangue.
Vejamos
alguns textos:
“Quando
voltam da praça, não correm sem se aspergirem (no original grego “batizarem”);
e há muitas outras cousas que receberam para observar, como a lavagem
(“batismo”) de copos, jarros de metal e camas. (Mc 7.4)
“O fariseu,
porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara (batizara) primeiro, antes de
comer. (Lc 11.38)
Também
Eclesiático[6] 34.25 diz: “Ao que se lava (batiza) depois de haver tocado um
corpo morto, e torna a tocá-lo outra vez, de que lhe valerá o ter-se lavado?”
Todas estas
passagens dão a entender que os batismos eram cerimônias comuns:
... não
comem sem se batizarem...
... cousas
que receberam para guardar, como o batismo de copos...
... ao que
se batiza depois de haver tocado um cadáver...
Não falamos
ainda sobre o modo como se batizavam. O fato é que se batizavam e que os
batismos eram fato normal entre eles, independentemente da disputa acerca do
significado da palavra.
Note que
estes “batismos” não são invenção humana. O autor de Hebreus fala de “diversas
abluções (no original “diversos batismos”) impostas até ao tempo oportuno de
reforma.” (9.10; ver tb Hb 6.2). Impostos quando e onde? Com certeza, na Lei de
Moisés, que prescrevia minuciosamente as “oferendas e sacrifícios, embora (...)
ineficazes para aperfeiçoar aquele que presta culto”. (Hb 9.9).
Portanto,
quando Jesus veio, encontrou o povo praticando esses diversos batismos (o deles
mesmos, dos copos, das camas, etc) como uma prática cotidiana. Insistimos em
que se note a forma normal e familiar do NT tratar a matéria. João aparece
batizando no deserto, porém não há surpresas; não se dão explicações. Ele veio
pregando o batismo “de arrependimento”. Nova era a doutrina que pregava, não a
cerimônia que praticava. De fato, a cerimônia era algo que o povo esperava ver
o Messias realizar, bem como todo profeta verdadeiro. Por isso, quando João
lhes disse que ele não era o Cristo, nem Elias, nem o profeta, a pergunta
imediata que lhe fizeram foi: “Por que, pois, batizas?”[7] dando a entender,
claramente, duas coisas:
a) que os
profetas tinham o costume de batizar;
b) que
esperavam que o Messias fizesse o mesmo na sua vinda.
Quando o
próprio Senhor foi a João, embora não necessitasse de arrependimento ou
purificação, disse a ele “... convém que cumpramos toda a justiça.” Justiça
aqui significa “aquilo que a Lei exige”. Estas palavras contêm o princípio
geral pela qual o Senhor se conduzia -- obedecer a todas as ordenanças da Lei
de Moisés, pois foram instituídas por Deus. Portanto, os batismos eram
cerimônias eminentemente religiosas ‘impostos’ pela Lei.
Os batismos dos judeus não eram feitos por
imersão
A esta
altura poderíamos pedir, àqueles que acham a forma essencial, que demonstrem
que os batismos que os judeus praticavam eram sempre por imersão. Levando-se em
conta os seus princípios exclusivistas (“nós estamos certos, eles errados”),
são necessariamente obrigados a fazê-lo.
Porém,
tentaremos demonstrar uma proposição negativa. Tais batismos nunca eram feitos
por imersão.
a) a imersão
não está estabelecida
Apesar de
aqueles diversos batismos serem “impostos” ao povo como qualquer outra parte do
ritual judaico, em lugar algum da Lei de Moisés se estabelece a imersão. Não se
pode dar um só exemplo de que se exigisse do judeu a imersão em água em
cumprimento a uma cerimônia religiosa.
Se não se
pode provar a imersão, se não existe um mandamento, como poderíamos concluir
que “era assim”, e mais, que “quem não faz assim” está errado!
b) Os
batismos eram por aspersão ou efusão
Não vemos a
imersão em nenhum lugar do AT, mas a Lei Mosaica ordena expressamente o modo
destes batismos:
“Assim lhes
farás para os purificar: asperge sobre eles água da purificação ....” (Nm 8.7);
“Eleazar, o
sacerdote, tomará do sangue com o dedo e dele aspergirá para a frente da tenda
da congregação ... (Nm 19:18).[8]
Vemos, pois,
que na Antiga Aliança o modo de purificação estava claramente ordenado. Supor
que se batizavam ou purificavam por imersão é supor que agiam sem mandamento,
ou pior, contra o mandamento. Os batismos judaicos eram “impostos” (Hb 9:10)
pela Lei. Eram simples purificações, como os textos demonstram e o modo era a
aspersão, nunca a imersão.
c) As
aspersões e efusões são chamados batismos.
Mostramos
que a aspersão era ordenada e praticada e a imersão era desconhecida. Além
disso, a tradução grega dos escritos judaicos refere-se a este método de
purificação por aspersão usando a palavra “batizar”. Preste atenção: Esta
palavra que, tantas e tantas vezes e em tanta confiança nos dizem significar
submergir — e nada além disso —, se aplica a estas aspersões judaicas. A
tradução grega de Eclesiástico 34:25 diz:
“Aquele que
se batiza depois de haver tocado num corpo morto, e torna a tocá-lo, de que lhe
valerá a ter-se lavado?”
Já vimos que
o modo como se realizava este batismo por haver alguém tocado num corpo morto,
está claramente ordenado na Lei de Moisés:
“Todo aquele
que tocar o cadáver de qualquer pessoa e não se purificar, contaminou o Tabernáculo
do Senhor, e essa pessoa será cortada de Israel; porquanto a água da
purificação não foi aspergida sobre ele, [por isso] imundo será, e a sua
imundícia será sobre ele” (Nm 19:13).8
Portanto,
vemos que o NT utilizou uma palavra que já era usada há pelo menos 200 anos
para designar estas cerimônias. Se a palavra batizar era usada, por centenas de
anos, para indicar a aspersão, por que ensinar que no tempo do Senhor e de João
Batista os judeus realizavam seus batismos de outro modo?
Muito antes
da vinda de Jesus já se havia lido que aspergir-se por causa dos mortos era
como batizar-se por eles [9]. Dizer que o método era a imersão é ir contra toda
a evidência, visto que a aspersão aparece ensinada universalmente no AT.
d) “batizar”
equivale a “lavar”.
Por exemplo
Mt. 15:2 - “Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois
não lavam as mãos quando comem. Comparado com Lc 11:38 “O fariseu, porém,
admirou-se ao ver que Jesus não se lavara (no grego: batizara) primeiro, antes
de comer”.
Aquele se
batiza por haver tocado num corpo morto, e torna a tocar nele, de que se valerá
o ter-se lavado? Portanto lavar e batizar podem ser usadas para descrever a
mesma ação.
e) O batismo
judeu era um rito cotidiano.
Os judeus
não só se “batizavam” antes das refeições, ou “batizavam” as mãos antes de
comer, mas batizavam-se também por causa de outras impurezas, como, por
exemplo, quando se contaminavam, tocando um corpo morto. O mesmo faziam com as
mesas e camas. Note que estes batismos de mãos antes das refeições não eram
feitos com motivações higiênicas conforme fazemos atualmente. Era o cumprimento
de um ritual religioso.
Se tudo isso
era feito por imersão, cada família deveria ter um lugar apropriado. Neste caso
o batistério seria um lugar essencial de cada casa judaica. Porém, não há
evidência histórica ou bíblica que houvesse tal lugar em alguma casa, quer
rica, quer pobre.
Não sendo
necessária a imersão, deveria, então, existir alguma coisa para cumprir seus
rituais de outra forma.
De fato, o
NT se refere a vasilhas com capacidade para conter de 80 a 100 litros, pequenas
demais para se imergir alguém, mas grandes o suficiente para se meterem as mãos
nelas com o propósito de se retirar água usada para aspergir ou derramar sobre
pessoas ou objetos. São as talhas de pedra mencionadas nas Bodas de Caná da
Galiléia, “que os judeus usavam para as purificações.” (Jo 2.6)
f) O livro
de Hebreus confirma os batismos por aspersão ou efusão
O livro de
Hebreus (9.10) faz menção às “diversas abluções (batismos) impostas” ao povo.
Já vimos que a Lei de Moisés não ordena a imersão, portanto estes “batismos
impostos não podiam ser realizados dessa forma.
Também, pelo
contexto imediato, fica claro que eram batismos “com o sangue de bodes, touros
e as cinzas de uma novilha aspergidos sobre os contaminados” (9.13).
O autor de
Hebreus contrasta o culto judaico com a dispensação cristã. No primeiro havia
regulamentos com respeito a comidas e bebidas, e diversos batismos e ordenanças
acerca da carne. O sangue dos animais ou as cinzas de uma novilha misturadas à
água, aspergidos sobre os imundos cerimonialmente os santificavam quanto à
purificação da carne. Na dispensação cristã, o sangue de Cristo é eficaz. No
primeiro, “Moisés (...) tomou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã e
escarlate e aspergiu o livro da Lei e o povo, além do tabernáculo e seus
utensílios” (Hb 9.19,21).
Sem
discussão, estes são os “diversos batismos” a que se refere o v.10.
E sempre por
aspersão!
g) A figura
do Batismo com o Espírito Santo favorece a efusão ou aspersão
Observe a
linguagem bíblica empregada em relação a este tema.
“Porque
João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito
Santo.” (At 1.15).
No capítulo
seguinte a promessa se cumpre e Pedro explica o acontecido ao povo usando a
profecia de Joel: “e acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei
do meu Espírito sobre toda a carne... até sobre os meus servos e sobre as
minhas servas derramarei do meu Espírito.”
Vemos assim,
sem discussão que a ação de Deus derramar o seu Espírito sobre os discípulos é
chamada de batismo com o Espírito Santo. Temos aqui, indiscutivelmente um
batismo por efusão, um batismo no mais elevado sentido da palavra. E já que o
próprio Espírito o representou como um derramamento e o chamou de batismo nas
Escrituras que Ele mesmo inspirou, por que querer impor uma forma diversa? Por
que afirmar, contra toda evidência, que a imersão é a única forma correta?
Quando, em imediata relação com o derramamento do Espírito, se menciona o
batismo com água de cerca de três mil pessoas, não é duvidoso, para dizer o
mínimo, que estas pessoas tenham sido metidas na água ao invés de se aplicar
água sobre elas? O mais sublime batismo, o do Espírito Santo -- do qual o outro
é um tipo -- é por efusão. Será o tipo administrado de um modo totalmente
diferente?
h)
Esperava-se que o Messias batizasse, e a forma esperada era a aspersão
Já vimos que
os judeus esperavam que o Messias batizasse.
“Por que
batizas, se não és o Cristo...?” foi a pergunta que fizeram a João Batista (Jo.
1.25). Qual a origem desta expectativa? Tentarei explicar. Referindo-se ao
Messias, o texto de Isaías 52.15 diz:
“Assim
causará admiração às nações...” (Edição Revista e Atualizada).
Até 1960,
porém, em lugar de “causar admiração” o verbo hebraico “nazah” era traduzido
por aspergirá. A profecia seria, então, “ele aspergirá a muitas nações.” “A
nova tradução, mui discutível, funda-se mais em razões exegéticas que filológicas.”[10]
De fato, a
Edição Contemporânea da Bíblia traz:
“...assim
borrifará a muitas nações.”
Em uma visão
da Nova Aliança, o profeta Ezequiel assim escreve: “então, aspergirei água pura
sobre vós e ficareis purificados” (v. 25).
A esta
promessa seguem-se as promessas da concessão de um novo espírito e coração
(v.26) e de que o Espírito faria morada dentro do homem (v.27) para fazê-lo
obedecer à Lei. Veja também Jr 31.31-33.
Reconhecemos,
então, que os profetas utilizaram um ritual de purificação, por eles conhecido,
como um símbolo da real purificação que o Messias realizaria no impuro coração
humano. Os tradutores da Bíblia viva corretamente parafraseiam Is. 52:15 da
seguinte forma: “... com seu sofrimento ele purificará a muitas nações.”
O Messias
“aspergirá a muitas nações ....”.
“Aspergirei
água pura sobre vós ....”
“Por que
batizas, se não és o Cristo (...) ?”
Mais uma
vez, nenhum indício de imersão e uma forte evidência em favor da aspersão.
i) A
simplicidade dos batismos no NT.
Cremos já
ter estabelecido solidamente o fato de que, se havemos de invalidar o batismo
de alguém por causa da maneira como foi aplicado, não será o daqueles que foram
batizados por aspersão. Se o leitor tiver um pouco mais de paciência poderemos
ainda nos deter no exame dos batismos descritos no NT.
Uma
evidência em favor da aspersão no NT é o fato de que as pessoas eram batizadas
imediatamente, no lugar em que se convertiam, quer fosse na cidade, quer no
deserto; numa casa ou em uma estrada; na prisão ou à margem de um rio; no
inverno ou no verão. Não havia demora, não há referência alguma à saída para um
lugar adequado para a imersão.
Quando
alguém cria, no mesmo instante e no mesmo lugar havia sempre o necessário para
ser batizado. Por isso, é muito difícil crer que fosse assim, se se praticasse
a imersão. Pode-se supor, sim, mas é uma suposição altamente improvável.
Vejamos alguns exemplos:
Paulo (At
9). Após sua queda e cegueira no caminho de Damasco, Paulo permaneceu três dias
em jejum na casa de Judas. Ananias, guiado por Deus, entra na casa e, após
breve instrução, batiza Paulo. Diz o texto: “a seguir, levantou-se e foi
batizado”.
Havia um
tanque na casa? foram a outro lugar? O texto não diz. A única “prova” seria o
pretendido significado de “batizar”. Todas as circunstâncias são contra a
imersão: na mesma casa, em pé, sem demora para preparar-se, sem sair nem
entrar, pondo-se imediatamente a serviço de Cristo.
O carcereiro
de Filipos (At 16). Convertido na prisão a altas horas da noite e, lá mesmo,
imediatamente batizado junto com os seus. Foram a algum rio em plena noite?
Havia um tanque na prisão? Quantas dificuldades o texto apresenta se partirmos
do pressuposto de que batizar significa imergir, e nada mais. Por outro lado,
quão simples se torna o relato, se se leva em conta que, para o povo judeu, era
coisa natural o batizar-se por aspersão ou efusão.
Cornélio e
sua casa (At 10). Sobre este episódio, se diz que o “Espírito Santo caiu sobre
todos os que ouviam a palavra. “Admiraram-se, porque também sobre os gentios
foi derramado o dom do “Espírito Santo”. “Quando comecei a falar, caiu o
Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio. Então me
lembrei da palavra do Senhor quando disse: João, na verdade, batizou com água,
mas vós sereis batizados com o Espírito Santo (At 10.44; 11:15-16).
“Porventura
pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como
nós, receberam o dom do Espírito Santo?” (At 10:47). Pedro batizou estas
pessoas por imersão? De um lado somente uma suposição contra toda evidência. De
outro porém, além da forte impressão que Cornélio foi batizado em sua própria
casa, há o registro de que o “derramamento” do Espírito fez Pedro pensar que os
termos batizar, derramar e cair — aplicados ao Espírito Santo — implicavam uma
idéia semelhante à água.
Filipe e o
eunuco (At 8:26-39). Comumente este é um texto julgado claramente em favor da
imersão. Em sua viagem, o etíope lia Isaías 53; provavelmente ele tinha acabado
de ler o último versículo do capítulo 52 “ele aspergirá muitas nações”. Filipe
lhe explicou a passagem e, quando chegaram a um lugar onde havia água, desceram
a ela e Filipe batizou o eunuco. Por imersão? Mesmo entendendo o texto como uma
entrada real na água, nem por isso fica demonstrada a imersão. Leve-se em conta
que as sandálias podiam ser facilmente tiradas, e que isto estaria de acordo
com os costumes orientais e que, depois de descerem à água, Filipe lhe
administrou o rito do batismo por aspersão ou efusão. Por outro lado, é muito
duvidoso que no lugar deserto onde se encontravam houvesse uma corrente de água
com profundidade suficiente para submergir o eunuco.
Tudo indica
que não esperaram para obter roupas próprias para o batismo e não é provável
que o viajante se submergisse com a roupa que trazia ao corpo. O texto diz
simplesmente que, após o batismo o eunuco “foi seguindo seu caminho cheio de
júbilo”. Diz o texto, também, que Filipe foi “arrebatado pelo Espírito do
Senhor” para Azoto. Não podemos presumir que o Eunuco seguiu viagem pingando
água e Filipe achou-se repentinamente em Azoto com as roupas encharcadas.
Os três mil
de Atos 2 (vv 37-41). No mesmo dia em que os discípulos foram batizados do alto
pelo derramamento do Espírito sobre eles, mais três mil almas foram acrescentadas
à Igreja. Foram submergidos estes convertidos? Para responder que sim, só se
pode dar como prova o pretenso significado da palavra batismo, o qual já
descartamos. Nada mais no texto pode sugerir a submersão. Porém, para negá-la,
amontoa-se uma série de circunstâncias: Não havia lugar para realizar essa
forma de batismo, nem no templo, nem nos arredores onde estavam reunidos. Quem
sabe foram em procissão até a porta dos ovelhas onde havia um tanque, pediram
licença à multidão de enfermos que lá jazia (Jo 5:1-3) e passaram horas e
horas, provavelmente até tarde da noite, submergindo três mil pessoas.
Será que
naquele dia Jerusalém presenciou multidões de pessoas andando pelas ruas, a
caminho de suas casas com as roupas gotejando, encharcadas, coladas a seus
corpos?
Todos esses
obstáculos, mais o fato de o batismo do Espírito Santo ter sido descrito como
um derramamento, na realidade se opõe fortemente à idéia da imersão, ao passo
que se harmoniza perfeitamente com a aspersão ou efusão. Para esta última forma
de batismo havia tempo suficiente; o lugar onde estavam era adequado, não era
preciso uma muda de roupa e ninguém necessitou voltar molhado para casa. Não
há, portanto, contradição entre o batismo do Espírito e o da água. A palavra
batizar se emprega em ambos os casos, com o mesmo sentido, pois tanto a água
como o Espírito são derramados sobre as pessoas.
Uma palavra final
Um estimado
amigo batista contou-me a seguinte história:
“Em Z....um
lugar árido da África, um missionário estava obtendo uma boa quantidade de
convertidos. Porém a água era pouca e preciosa. O que fazer? O missionário,
então, cavou um buraco no chão, cobriu-o com um oleado e comprou, de um
fornecedor, vários galões água a 20 dólares o galão! Com o tempo, o aguadeiro
passou a gradativamente aumentar o preço do galão. Quando o missionário
reclamou, o homem replicou. “Há tanta areia aqui, por que você não batiza com
ela? Se você se dá ao luxo dessa extravagância, é porque tem condições de pagar
por ela.”
Volta e meia
surge um novo pregador no rádio, denunciando coisas que não tem nenhuma
importância. Movem céus e terra para falar do “erro” daqueles que não tem, na
igreja, a cerimônia do lava-pés, tão claramente ordenada por Jesus. Todas as
igrejas estão erradas, menos a do pregador, que restaurou a ordenança. Há
aquelas igrejas que usam pão fermentado na ceia -- o fermento é símbolo do
pecado! Que dizer daqueles que constróem batistérios, quando não há nenhuma referência
a eles nas Escrituras? Que grande pecado cometem as igrejas que não tem costume
de se saudar com o ósculo santo! E aqueles que não se cumprimentam com “a paz
do Senhor”? Quantas árvores teriam que ser transformadas em papel para
tratarmos de tão importantes questões!
Pretendemos
ter provado solidamente que a forma “correta” do batismo é a aspersão. Mas que
importância tem isso? Talvez alguma, se, ao menos, tornar mais maleáveis gente
como aquele missionário de Z... que deveria usar a água para matar a sede
daquelas pessoas -- misericórdia quero e não holocaustos!
Que nosso
Senhor, na sua volta, não encontre seus filhos, como crianças (para não usar
outra palavra), a contender a respeito dos mosquitos e engolindo os camelos.
Glória
somente a Deus.
** Por: Túlio César Costa Leite - publicado originalmente em Monergismo
NOTAS:
______________
[1]Este
trabalho é, em linhas gerais, um resumo dos pontos principais do livro com o
título em epígrafe, de Charles Hodge, publicado pela Casa Editora
Presbiteriana, em 1ª edição, em 1988.
Charles
Hodge (1797-1878) foi o teólogo presbiteriano mais influente dos EUA no século
19.
[2] Agradeço
às estimadas irmãs Emília e Rosana a digitação deste texto.
[3] Entre
aspas para lembrar que estamos usando a palavra no sentido daqueles que vêem
importância na forma. Poderíamos trocar “correta” por “usual”.
[4] On
Baptism, p.79, citado por Hodge em O Batismo Cristão, p.8, negritos
acrescentados. Transcrevemos, a seguir, parte do verbete “Batismo”, do
Dicionário Bíblico de Davis, publicado pela Junta de Educação Religiosa da
Igreja Batista:
“BATISMO - O
rito de lavar com água simbolizando a purificação religiosa, ou consagração a
Deus, era usado com muita freqüência, conforme as prescrições legais que se
encontram em Ex. 19:4; 30:20; 40:12; Lv 15; 16:26,28: 17:15; 22:4,6; Nm 19:8
(...). O modo pelo qual João batizava não é claramente descrito, porém, como
Jesus entrasse no Jordão para receber o batismo, Mc. 1: 9,10, é possível que
fosse administrado por aspersão ou por imersão. (...)
Conquanto a
palavra “baptismo” derive do verbo grego “baptizo”, que significa
etimologicamente imergir, isto não prova que a imersão seja o único modo de
batizar, indispensável e necessário. Pois é certo que muitos casos há, em que a
palavra batizar não tem o sentido [de] imergir, como em Lc. 11:38, e Mc 7:4. A
Escritura, em parte alguma, prescreve o modo de batizar.”
Este verbete
suscitou uma nota da Casa Publicadora Batista na qual, após elogiar o
Dicionário de Davis, afirma que “no nosso entender” Davis feriu “frontalmente a
mais acertada exegese neste caso”.
[5] Que
lugar improvável para imersões!
[6] Livro
apócrifo, porém útil como referência histórica.
[7] Jo
1.19-25
[8] É
salutar ler todo o capítulo 19 de Números, que trata da preparação da água purificadora
(água adicionada às cinzas de uma novilha sacrificada) que deveria ser
aspergida sobre todo o homem ou objeto impuro. O livro de Hebreus se reporta a
este capítulo ao registrar que “se o sangue de bodes e de touros e a cinza de
uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam, quanto à
purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito Eterno
a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de
obras mortas, para servimos ao Deus vivo! “ Hb 9:13-14. ver tb 9:19 e Ex 24:6,8
[9] Nesse
ponto Hodge dá uma importante contribuição para a interpretação de 1Co 15:29
que transcrevo em linhas gerais:
Onde teve
origem este costume ?
a)
Instituição divina ou
b)
Superstição humana.
No caso de b
por que o apóstolo não o condena ?
No caso de
a, onde está o mandamento ?
- Tem a
palavra batizar significado literal ou equivalerá a angústia, aflição ou
desgosto (Lc 12:50; Mc 10:38)
- O que
significa para, em lugar de, por causa de ?
- Os mortos
referidos são os fisicamente ou espiritualmente ?
Se
admitirmos que as pessoas a quem Paulo se refere são judeus, as dificuldades se
desvanecem. Admitindo-se o contraste no versículo seguinte entre “os que se
batizam pelos mortos” e “nós estamos em perigo”, pode-se concluir a
possibilidade de os primeiros serem judeus. Que outro povo tinha tal costume ?
O apóstolo
trata da doutrina da ressurreição. O argumento do v. 30 é: se não há
ressurreição dos mortos, por que estamos em perigo cada momento ? Por que
corremos tantos riscos ? Por que não dizer: “Comamos e bebamos porque amanhã
morreremos ?” O mesmo ocorre com v. anterior: a conduta dos judeus mostra que
também eles crêem numa vida futura de outro modo por que se batizavam pelos (ou
por causa dos) mortos ? Para que querem eles limpar-se da impureza, se não
existe um além, uma ressurreição ? Por que se preocupam com a culpa, se sua
existência acaba com a morte ?
[10]
Sabatini Lalli, em nota de rodapé, no livro citado.
Assim
comenta o NCB o v. 15 de Is 52: “Borrifará (15), palavra que alguns tradutores
dizem corresponder a “surpreenderá”. Aquele que uma vez surpreendeu toda a
gente pelo seu sofrimento tornará a assombrá-la com seu triunfo e exaltação. O
verbo “borrifar” assim empregado sugere antecipação profética da obra do Servo
como purificador expiatório.”
Novo
Comentário da Bíblia, vol. 2, p. 731. Ed. Vida Nova.
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