Há uma humilhação preparatória que
acontece antes de uma transformação salvífica, que não deve ser desprezada,
visto que nos aproxima de Deus, mas que, contudo, não consiste numa total
submissão a Ele.
Esta humilhação preparatória, a qual
muitos veem fenecer, consiste principalmente nas seguintes coisas: em primeiro
lugar, ela reside principalmente no temor de ser condenado - este temor se
assemelha mais à sensação de medo. Consiste também em uma certa apreensão da
grandeza dos nossos pecados, da ira de Deus que ameaça cair sobre nossas
cabeças, e do perigo em que nos encontramos de sermos condenados para sempre.
Ela consiste ainda em certa compreensão da loucura da qual somos culpados ao
pecar, e de algum arrependimento por ter um dia cometido tais coisas, e algum
remorso de consciência por isto. A isto pode se unir um certo sentimento de
tristeza, sendo este expresso através de gemidos e lágrimas. Isso tudo pode ser
acompanhado com confissões de pecado a Deus e a homens, lamentações por nossa
miséria; em alguns, isto precede o próprio desespero. E, finalmente, isto pode
levar a uma indignação contra nós mesmos, e à adoção de uma atitude de severa
vingança sobre nós mesmos; sim, mais do que Deus levaria o homem a adotar; como
Judas fez em se autodestruir. Este desespero e auto execução não são
parte da humilhação preparatória, mas o excesso, o seu erro, e a entrada do
inferno.
Mas há também uma humilhação que é
própria ao convertido, a qual acompanha a salvação, e que inclui tudo o que há
na anterior, e muito mais - assim como a alma racional inclui o sensitivo, o
vegetativo, e muito mais. Esta humilhação salvífica consiste nos seguintes
particulares: ela começa no entendimento, e é enraizada na vontade. Opera nos
sentimentos e, quando há oportunidade, manifesta-se em expressões e atitudes
exteriores.
1. A humilhação do entendimento
consiste em uma baixa apreciação de nós mesmos, num auto rebaixamento, e num
autojulgamento condenatório; e isto nas seguintes particularidades: