Pois é, isso existe. Ateísmo
cristão é a negação do Deus cristão revelado na Bíblia por alguém que, ao mesmo
tempo, tenta redefini-lo usando linguagem e termos evangélicos. Alguém que, na
prática, vive como se ele não existisse.
O ateísmo consiste na negação da
existência de um Deus pessoal. Logo, ele se manifesta em qualquer conceito de
Deus que, de uma maneira ou de outra, o separa da realidade humana.
Em termos práticos, qual é a
diferença entre não acreditar em Deus e acreditar num Deus que não intervém,
não age na história humana, nem se relaciona com as pessoas? Para mim, muito
pouca, ou nenhuma.
Quando um ateu fica doente, por
exemplo. Ele não ora a Deus pedindo sua cura ou pedindo forças para suportar a
enfermidade. Da mesma forma, o cristão que não crê em um Deus que atenda a
orações também não dobra seus joelhos. Este vive como se Deus não existisse.
Aquele não crê que Deus existe. Na prática, é a mesma coisa.
A ideia de que Deus não se mete
com o mundo e com os homens tomou forma “cristã” após o Iluminismo, quando
teólogos ingleses resolveram adaptar o Deus cristão da Bíblia às exigências do
racionalismo predominante do século 18. Naquela época, o mundo estava sendo
concebido como uma grande engrenagem autossuficiente que funcionava de forma
ordeira seguindo leis naturais intrínsecas. Cada efeito, cada fenômeno, cada
evento da natureza e na história era entendido como resultado de alguma causa
natural. Um sistema fechado de causa e efeito que não precisava de nenhuma
intervenção externa para manter seu funcionamento ou para explicá-lo.
Filósofos e escritores britânicos
como Edward Herbert, Charles Bloynt e John Tolarndt entendiam que era preciso
submeter as doutrinas do cristianismo ao crivo da razão e repudiar o que não
pudesse ser demonstrado logicamente. Tudo isso desencadeou uma revisão do
conceito tradicional de um Deus que havia criado o mundo e que o sustentava dia
a dia, agindo na história e nos acontecimentos por meio de sua providência.
Naquela época, a razão e a ciência começavam seu esforço de empurrar Deus para
fora da realidade verificável pelos cânones dos métodos científicos. Assim,
numa tentativa de “salvar” Deus da condenação do cientificismo racionalista e
ao mesmo tempo manterem o respeito acadêmico, eles postularam um Deus que
existe, sim (afinal, que método empírico há de negá-lo?), mas que não se
envolve com o mundo e o ser humano desde que os criou. Como um relojoeiro, Deus
teria montado o mundo, dado corda e o deixado funcionando por si. Esse
entendimento acerca de Deus e sua relação com o mundo recebeu o nome de deísmo,
em contraste com o teísmo, que é a visão tradicional de um Deus que age
cotidiana e soberanamente na realidade que ele mesmo criou.
De acordo com o deísmo, a força
determinante da história são as decisões humanas. Deus não age nas
circunstâncias. Não haveria vontade divina ou propósito celestial oculto nos
acontecimentos diários. Portanto, viver como se uma mão celeste guiasse nossa
vida a cada passo não teria o menor sentido. Muito mais sensato seria guiar-se
pela razão, praticar o bem e fazer as escolhas certas.
Bem, o deísmo acabou gerando a
cartilha pela qual rezam os adeptos do liberalismo teológico. Quem não crê que
Deus quebra as leis naturais e se intromete no sistema fechado que ele mesmo
criou não pode mesmo acreditar em milagres como a encarnação, o nascimento
virginal, a cura de cegos e aleijados e a ressurreição dos mortos. E a Bíblia,
longe de ser um livro revelado por inspiração divina, não passaria de um
compêndio daquilo que seus autores acreditavam a respeito de Deus, registrado
sob o linguajar mitológico de sua época. Dessa forma, o deísmo sobreviveu onde
o liberalismo teológico dominou. E, com o declínio natural do último, o deísmo
também acabou meio sumido do cenário, até ressurgir mais recentemente nas asas
do teísmo aberto e do evolucionismo teísta, dois filhotes do liberalismo
teológico. Deixe-me tentar explicar.
Primeiro, o teísmo aberto. De
acordo com essa teologia (se é que podemos chamá-lo assim), Deus existe, mas
não é onipotente nem onisciente. Ele não sabe o que vai acontecer no futuro,
ele se arrepende de suas decisões, especialmente daquelas que não deram certo —
como ter criado o homem —, e não pode impedir as catástrofes naturais do mundo
que um dia criou. O futuro, portanto, está aberto e é formatado pelas decisões
livres dos seres humanos, as quais Deus respeita e às quais ele se adapta. Deus
não interfere no curso da história, mas, num gesto de amor, deixa aos homens as
decisões que afetarão seu futuro.
A conclusão lógica desta
concepção de Deus é exatamente a mesma do deísmo inglês: deveríamos viver como
se Deus não existisse, pois, mesmo que ele exista, na prática, isso não faria
diferença alguma. Não deveríamos esperar que ele interferisse para nos acudir
ou salvar, ou que ele misteriosamente conduzisse todas as coisas segundo um
propósito predefinido.
Em entrevista à revista Carta
Capital em abril de 2011, o pastor Ricardo Gondim, um dos mais conhecidos
defensores do teísmo aberto em nosso país, afirmou que “um Deus títere,
controlador da história [...] pode ter cabido na era medieval, mas não hoje” e
que “se Deus é bom e onipotente, e coisas ruins acontecem, então há algo errado
com esse pressuposto”. Sua “resposta” é que “Deus não está no controle”:
“Vivemos como se Deus não existisse, porque só assim nos tornamos cidadãos
responsáveis, nos humanizamos, lutamos pela vida, pelo bem. A visão de Deus
como um pai todo-poderoso, que vai me proteger, poupar, socorrer e abrir portas
é infantiliza- dora da vida.” Na mesma entrevista, Gondim cita a controversa
filósofa francesa Simone Weil, segundo a qual o mundo só seria possível pela ausência
de Deus.
Acho que entendo o que esses
livres-pensadores estão querendo dizer. Eles apregoam que não deveríamos levar
Deus em consideração diante do mal que existe no mundo, pois, ao fazê-lo,
atribuindo-lhe o controle de tudo, estaríamos, os cristãos, incorrendo em
passividade criminosa. Portanto, quando o mal acontece,
deveríamos “fazer de conta” que Deus não existe. Deveríamos nós mesmos partir
para socorrer, ajudar e resolver os problemas com nossos recursos e nossa
força.
Nesse caso, visto que o mundo é
cheio de males, infortúnios, conflitos, doenças, desastres, imprevistos, dores
e sofrimentos, Deus terminaria reduzido a pequenos e quase insignificantes
momentos em que tudo vai bem na minha vida particular ou no mundo em geral. Ou
seja, eu vou realmente acabar vivendo como se Deus não existisse, praticamente
em todos os momentos da minha vida. O que nos leva de volta ao início deste
texto: não há diferença prática entre essa visão de Deus e o ateísmo. O único
distintivo é que o teísmo aberto se considera cristão. Para sermos justos,
então, devemos considerá-lo como “ateísmo cristão”.
Agora, o evolucionismo teísta.
Essa teoria defende que Deus “criou” a vida na terra por meio daquilo que a
teoria evolucio- nista chama de processo não dirigido ou intencional, em que
mutações acidentais e aleatórias levaram gradativamente à seleção natural e à
sobrevivência das espécies mais aptas. O grande problema com esta teoria são os
termos “não dirigido”, “aleatório” e “acidental”. Esse conceito é fundamental na
teoria darwinista — na verdade, é um de seus pilares. Segundo ele, as mutações
ocorreram de forma randômica, ao acaso. Como, então, integrar esse conceito à
supervisão do Deus cristão, que é onisciente, onipresente e onipotente? Se Deus
é onisciente, como poderia ter inventado um processo natural que se
desenrolaria de maneira totalmente imprevisível, acidental e aleatória,
totalmente fora de seu controle ou conhecimento?
A solução é o deus do teísmo
aberto. Essa “divindade”, de acordo com os teólogos abertos ou relacionais,
desconhece o futuro e não sabe o que vai acontecer no universo nos próximos
minutos. Ou seja, ela serve perfeitamente como o deus do evolucionismo teísta. É isso que está sendo defendido
em anos recentes por evo- lucionistas teístas. De acordo com os tais, “Deus”
implantou no DNA o potencial para as mutações, mas não tinha — nem tem — a
menor ideia sobre como tudo isso vai acabar. O processo evolucionário é
autônomo e imprevisível a tal ponto que “Deus” desconhece seu produto final. Se
é que um dia ele haverá de terminar.
Bem, se é assim, os
evolucionistas teístas deveriam mudar o nome para “evolucionistas deístas”, uma
vez que estes, conforme vimos acima, acreditam numa divindade remota que
abandonou sua criação à própria sorte. Mais uma vez, as semelhanças com o
ateísmo são muito maiores do que as semelhanças com o Deus da Bíblia. O que
estamos vendo, portanto, é a própria secularização de Deus.
Enfim, ateus cristãos (ou seria
melhor “cristãos ateus”?), por uma questão de coerência, não deveriam orar, mas
simplesmente meditar. Não deveriam adorar e louvar, mas entrar em transe. Não
deveriam agradecer, mas congratular-se consigo mesmos. Não deveriam confiar que
todas as coisas cooperam para seu bem, mas trincar os dentes e esperar estoicamente
que a sorte lhes sorria. Não deveriam ir à igreja, mas filiar-se a uma ONG. Não
deveriam evangelizar, mas somente distribuir sopa e agasalhos. Enfim, viver
como se Deus não existisse.
Eu ainda sou mais Deus.
** - Extrato do livro: “Ateísmo Cristão: E outras Ameaças à Igreja” escrito pelo Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes, e publicado pela Editora Mundo Cristão – São Paulo.

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