Infelizmente, nós somos muito influenciados pelos pregadores de televisão. Várias vezes eu tenho ouvido esses “evangelistas” se levantarem no púlpito, dizendo: “A primeira coisa de que todos vocês precisam saber é que Deus não é um Deus irado”. Todos devem conhecer aquela famosa frase, “Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Eu sei que isto será bastante ofensivo para muitos de vocês, mas eu quero dizer que tudo isso não é outra coisa, senão o mais completo absurdo. Vamos olhar para alguns textos que nos mostram o ódio de Deus sendo manifesto contra as obras más dos homens – e também contra aqueles que cometem tais obras.
Está escrito: “Deus é justo juiz, Deus que
sente indignação todos os dias” (Sl 7.11). Em outra tradução, Ele é descrito
como “um Deus que está irado todos os dias”. Entenda: Deus não precisa de
marketing ou de relações públicas para fazê-Lo politicamente correto, ou para
que as pessoas gostem Dele. A Bíblia diz que Deus é um Deus irado, e você tem
que se prostrar de joelhos e louvá-Lo pelo que Ele é. E Ele não é apenas um
Deus irado, mas também um Deus que odeia. Então, alguém diz: “Sim, irmão Paul, você esta
certíssimo; Deus odeia o pecado, mas ama o pecador”. Bem, de fato, essa
frase parece boa estampada em uma camisa cristã, mas ela não é bíblica. A
Bíblia não diz que Deus odeia o pecado e ama o pecador; a Bíblia diz que Deus
odeia o pecado e o pecador. Sim, é verdade que a ira de Deus
se revela contra toda a impiedade (Rm 1.18), mas não só contra ela. Basta olhar para o Salmo 5 por um momento e você verá
isso de modo claro: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade” (v. 5). Em outra tradução,
“Tu odeias todos os que praticam o mal”. Está escrito
aqui que Deus odeia o pecado ou que Deus odeia o pecador? Você pode dizer:
“Irmão Paul, mas e quanto à passagem em João 3.16? Lá, está escrito que Deus
amou o mundo”. Sim, isso é bíblico; mas o Salmo 5 também o é.
Deus é um Deus misericordioso e amoroso!
Contudo, nós precisamos entender “todo o conselho de Deus” (At 20.27), e não
apenas os pontos de que mais gostamos. Deus de fato é amor, mas esse Deus
amoroso também odeia. Deus é misericordioso, mas Ele está irado. Nós não podemos considerar somente um lado da
moeda ou apenas uma parte da história – e esse é o problema dos nossos dias. Certa
noite, eu preguei um sermão inteiro sobre a santidade de Deus. Após o culto, três homens
vieram a mim, dizendo: “Nós temos um problema com você, porque você pregou um
sermão inteiro sobre a santidade de Deus e não mencionou o amor de Deus sequer
uma vez”. Então, eu lhes respondi: “Bem, senhores, na noite passada eu preguei
um sermão inteiro sobre o amor de Deus,
e sequer mencionei a santidade de Deus. Contudo, nenhum de vocês teve algum
problema com isso”. Você vê a questão? Estamos sempre considerando
apenas um lado da história, quando as Escrituras nos dizem que nós precisamos
do pleno conselho de Deus.
Eu falarei sobre o
amor de Deus, e é possível que eu o faça de uma maneira pouco usual. Porém,
para que você aprecie o amor de Deus, você precisa entender algo: o amor de
Deus é exaltado da mesma maneira como as estrelas são exaltadas pela escuridão do
céu. Se você estiver lendo este livro antes do anoitecer, responda-me uma
pergunta: para onde foram as estrelas? Por acaso alguém as colocou num cesto e
as levou embora? Por que, quando você olha para cima, você não as pode ver? É
porque há muita luz! Você não pode desfrutar da sua beleza, você não pode nem
ao menos vê-las, tão somente porque o dia está iluminado demais. Da mesma maneira,
você não pode ver as “estrelas” da graça de Deus e do Seu amor quando você está
com muita luz.
As Escrituras testificam que, se crermos que
somos um pouco pecadores, pouco amaremos a Deus; se percebermos, porém, que
nosso pecado é imenso, nosso amor será cada vez maior (Lc 7.47). Quando esses
pregadores dizem-lhe que os homens são bons, inocentes ou “não tão maus assim”,
eles estão impedindo-o de ver ao Senhor. A única maneira de realmente apreciar
o amor de Deus e a graça de Deus é vendo a profunda escuridão do homem. E,
quando você vê a profunda escuridão do seu próprio coração, então você se dá
conta de que Deus se moveu por amor a você, e isso o faz cair de joelhos, com imensa
admiração, e você O adora! Eu tenho um objetivo em toda essa “loucura” de falar
sobre a ira de Deus: eu quero cavar um buraco e enterrar você no fundo. Eu
preciso mostrar-lhe quão escura é a sua noite e quão sem esperança é a sua
situação, para que, quando eu começar a falar de Jesus, você fique cheio de
admiração. Saiba que o único motivo pelo qual você não ama a Deus como Ele
merece é por que você não entendeu quanto perdão foi derramado sobre você. Do
mesmo modo, você não percebe o quanto foi perdoado porque ainda não teve
coragem de perceber quão profunda é a cova na qual todos nós estamos
enterrados. Quanto mais vemos o nosso pecado, mais nós vemos o quanto Deus
merece ser amado.
Às vezes, eu pego um molho de chaves e o
chacoalho perante uma congregação, dizendo: “O som dessas chaves lhes traz
alguma alegria?”. Todos dizem: “Não!”. E eu lhes respondo: “É claro que não,
porque vocês não estão trancafiados em uma masmorra. Se vocês estivessem presos
em uma masmorra, o som das chaves lhes traria muita alegria; seu coração
pularia de esperança”. Pregadores que evitam falar sobre o pecado são tão
éticos e corretos quanto um médico que não fala a
seu paciente que ele está morrendo. Afinal, Paulo afirma que esse é o propósito da lei:
ela não foi designada para nos salvar, mas para nos mostrar como somos
pecadores, ao ponto de fazer com que corramos para Cristo (Gl 3.24-25).
Pregadores, eu quero que vocês humilhem totalmente o homem. Eu quero que o
homem veja quem ele é. Então, quando nós falarmos sobre o amor de Deus demonstrado
em enviar o Seu único Filho, os homens gritarão: “Como é maravilhosa a graça
que um dia me salvou!”.
Há alguns anos, quando eu estava no Peru,
alguém me deu uma fita com a música Amazing Grace3. Aquilo me deixou muito
feliz, já que eu amava aquela canção. Eu a coloquei no meu toca-fitas e, quando
a primeira estrofe tocou, na mesma hora eu a tirei e a joguei no lixo. Você quer saber por quê? Porque o hino era
cantado assim: “Maravilhosa Graça! Quão
doce o som que salvou um homem como eu!”[1]. Vocês sabem que a letra original dizia “pecador como eu”, “miserável como eu” e “verme como eu”, e não apenas “homem”. Vejam, a cada geração que passa, o homem parece estar
simplesmente ficando melhor. Ora, bons homens não precisam de um Salvador; os
miseráveis é que precisam. Quando você retira do homem toda a
escuridão que há dentro dele, você retira a glória do evangelho que existe para
iluminá-lo.
Por que os homens não buscam um Salvador? É porque,
na maioria das vezes, em muitas pregações, o homem é muito “legal”. Ele só
precisa ser ajustado aqui e ali, e então terá tudo de que precisa. Ele só
precisa de uma coisinha ou outra para tornar sua ótima vida ainda mais
perfeita, e Jesus apenas está no topo dessa lista de coisinhas. Assim, ele não
precisa entender que todos os homens são nascidos no pecado, miseráveis, sujos,
os que odeiam a Deus, possuidores de um coração negro e morto. Muito da
pregação do evangelho de hoje tem pouco poder porque estamos preocupados em
mostrar aos homens como eles podem ser salvos, mas nos esquecemos de mostrar o
quanto o homem está perdido.
Você já se perguntou por que os homens
drogados, as mulheres prostitutas e os jovens assassinos, quando são
convertidos, demonstram estar repletos de um zelo especial por Deus? Isso é
porque eles não vieram de um clube social ou de alguma denominação religiosa
onde todos pretendem ser morais, certinhos e merecedores do amor de Deus. Eles
saíram do esgoto, e, quando ouviram sobre o amor de Deus, seus corações
explodiram de volta em amor.
A ira é a resposta de Deus contra a impiedade
do homem. Você diz: “Eu não gosto disso”, mas você deveria. Se eu pegasse um jornal e sentasse ao seu
lado, olhando para as notícias com um ar de riso e um brilho nos olhos, e
dissesse: “Ei, você leu isto? Um pedófilo molestou seis garotos”, sem dar a
mínima para aquilo, o que você diria sobre mim? Você diria: “Seu doente! O que
há de errado com você? Você deveria ficar irado ao ler isso!”. Ah, eu deveria? Mas
por que Deus não tem nenhum direito de ficar irado? Ele vê a iniquidade deste
mundo todos os dias. Todos os dias, Ele vê a imundícia, os assassinatos, os
crimes e tudo o mais, e, na sua concepção de Deus, Ele não tem nenhum direito
de estar irado? Eu lhe afirmo que o Senhor está irado, e que Ele está tão irado
que, no Dia em que Ele recuar Sua misericórdia e vier julgar este mundo, os
grandes capitães desta terra clamarão para que as montanhas se levantem e caiam
sobre eles, para escondê-los da ira do Cordeiro.
... e o céu recolheu-se como um pergaminho
quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movidos do seu lugar. Os
reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os poderosos e todo
escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e
disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele
que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira
deles; e quem é que pode suster--se? (Ap 6.14-17)
O que você pensaria de um Deus que pudesse
olhar para o campo de concentração nazista de Auschwitz e ficar apático? Quem
poderia dar um abraço amigo em Hitler? Quem poderia ver os Estados Unidos
assassinarem milhares de bebês, todos os dias, e dizer “Está tudo bem”? Deus
está irado – e, se não estivesse, Ele seria imoral, assim como eu o seria se
lesse uma notícia terrível como aquela e fosse capaz de rir. Se eu fosse neutro
sobre violência sexual contra crianças e dissesse: “Cada um por si! Você sabe,
somos todos livres”, você olharia para mim e me trataria como um tipo doentio
de pessoa. Então, quão irado Deus deveria estar? Sim, Deus está irado, porém
não somente contra os “Hitlers” do mundo, mas também contra você, por todos os
seus crimes e ofensas contra Ele e contra a Sua criação. Tantas pessoas me
dizem: “Eu não acredito nisso!”, e, quando eu digo: “Olhe aqui na Bíblia!”,
elas respondem: “Não, eu não vou olhar, porque eu simplesmente não acredito
nisso!”. Ora, isso é coerente quando você está em uma universidade, conversando
com um professor agnóstico. No entanto, se alguém proclama ser cristão e faz a
mesma coisa, isso é um problema sério. “Eu simplesmente me recuso!” – essa não
é uma atitude cristã.
Olhe novamente para o Salmo 5: “Os arrogantes não permanecerão à tua vista;
aborreces a todos os que praticam a iniquidade” (v. 5). Em outra tradução, se diz: “Tu odeias todos os que praticam o mal”. Aqui, não é dito que o ódio de Deus é
direcionado à iniquidade ou ao pecado, mas que a ira do Todo-Poderoso é
direcionada ao homem que comete o pecado. Ademais, o amável e
humilde Jesus não disse a mesma coisa? “O
que, todavia, se mantém rebelde contra o
Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus.” (Jo 3.36).
O que você pensa que é a “ira de Deus”? A ira
de Deus, em hebraico, vem de uma palavra que literalmente significa “o bufar
das narinas”. Quer saber o que isso significa? Eu, tendo sido um garoto criado
em fazenda, possuía touros da raça Charlet. Nós tínhamos dois ou três mil
touros pesados e perfeitos. E eu me lembro de que nós frequentemente recebíamos
esta instrução: quando você passar pelos lotes e um touro bufar aquele nariz,
sua festa acabou: é melhor você correr! Quando a Bíblia fala da ira de Deus
como o “bufar das narinas”, fala de uma Divindade tão irada que, somente com o
hálito de Sua boca, as montanhas derretem.
Certa vez, um rapaz me disse: “Eu
permanecerei de pé no Dia do Julgamento e não vou ficar com medo”. Eu só pude
responder: “Não, jovem. Você vai derreter diante de Deus como uma minúscula
estatueta de cera diante de uma fornalha”. Deus vem com ódio contra o mal, Deus
vem irado contra o mal – e nós somos pessoas más. Irmãos, nós precisamos ser
alertados! Todos os homens precisam saber disso! Deus estende a Sua mão, todos os dias, para pessoas desobedientes e
teimosas, mas, ao mesmo tempo, a Sua ira está vindo sobre o mundo! É como se,
com uma mão, Deus estivesse retendo Sua Justiça contra este mundo e, com a
outra, clamando aos homens que venham ao encontro da salvação. Porém, um dia,
as duas mãos serão abaixadas, e você não poderá mais ir a Deus, tampouco a
justiça Dele hesitará em cair sobre você. É por isso que uma das maiores
necessidades em nosso evangelismo é ensinarmos aos homens quem Deus é. O
evangelho não começa com o homem, mas com o que Deus realmente é, pois aí é que
reside o problema. Se Deus não fosse quem é, então o pecado não seria o
problema que é. O pecado é o que é justamente porque Deus não é apenas amor, mas também
santidade e justiça.
Algumas pessoas dizem: “Irmão Paul, Deus me
salvou!” e, quando elas me dizem isso, eu amo perguntar-lhes: “Do que Ele
salvou você?”. “Ele me salvou do meu pecado”, elas respondem. Porém, isso está
errado. Deus não nos salvou apenas dos nossos pecados, Ele nos salvou Dele mesmo! Muitos dizem que “o céu é o céu porque Deus está lá”, e isso é
real e verdadeiro. Todavia, não podemos assumir o contrário: “o inferno é o
inferno porque Deus não está lá”. Não é isso que as Escrituras ensinam.
O inferno é a ira do Deus Todo-Poderoso, é a
Sua perfeita justiça revelada contra o homem, por toda a eternidade. A morte e
o inferno não são consequências naturais do pecado; eles são atuações
sobrenaturais de Deus contra o homem pecador. Eles são o juízo de Deus! Isso
pode parecer uma verdade nova e absurda para alguns, mas tão somente leia os
livros antigos e você verá que os velhos pregadores sempre disseram isso. Hoje
em dia, não agimos da mesma maneira porque perdemos a glória do Altíssimo de
vista. Nós apenas respiramos o desejo de possuir grandes igrejas, e isso afasta
mensagens que falem da ira.
Certa vez, uma senhora veio a mim e disse: “Não!
Deus não pode odiar, porque Deus é amor”. “Antes de tudo”, eu respondi, “nós
não devemos buscar inferências filosóficas para a verdade de Deus; nós temos
que ir à Escritura e, quando a Escritura diz que Deus odeia, é melhor você acreditar. Entretanto, vamos ser filosóficos
por um momento: você diz que Deus é amor, portanto Ele não pode odiar. Porém,
eu lhe digo que Deus é amor e, por isso mesmo, Ele deve odiar”. O ponto é: você ama os judeus? Então você deve odiar o
holocausto. Se eu disser: “Ei, você leu sobre o holocausto?” e você responder: “Sim,
mas eu sou bastante neutro nesse assunto. Quero dizer, você sabe... Foi ideia
do Hitler, por mim está tudo bem”, eu irei pensar que você é um monstro! Você
possivelmente iria para a cadeia por um crime de ódio. Se você ama os judeus,
você deve odiar o holocausto. Você ama crianças? E quantos de vocês já disseram
“Eu odeio o aborto” com a própria boca? Ora, então você tem o direito de odiar,
por causa do grande amor que está no seu coração? O que dizer de Deus?! Você
acha estranho que Deus odeie porque Ele ama?
Entenda: Deus ama tudo o que é lindo, amável
e excelente. Em outras palavras, Deus ama tudo o que é semelhante a Ele! É daí
que vem o problema. Nós achamos que temos o direito de amar tudo o que
escolhemos amar, mas nós pensamos que Deus deve amar tudo o que nós amamos. Deus ama tudo o que é semelhante a Ele por causa de Sua
absoluta perfeição; e Ele vem com ira contra tudo aquilo que contradiz a Sua
natureza e vontade – e estes somos nós. Cada pessoa que já andou na face da terra
tem quebrado cada lei que Deus criou. Se você não entende isso, você não
entende o Cristianismo.
[1] Provavelmente o hino tradicional protestante
mais conhecido do mundo, escrito pelo inglês John Newton em 1779.
** Extraído do livro "O Verdadeiro Evangelho" - Paul Washer - Publicado pela Editora Fiel

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