O dicionário Webster define a palavra “dilema” como uma “situação envolvendo
uma escolha entre alternativas igualmente insatisfatórias” ou “um problema aparentemente
incapaz de ser satisfatoriamente solucionado”. Tudo o que eu quero fazer é
lançar um dilema, uma pergunta a ser respondida no próximo capítulo. Nossa
questão está no livro de Provérbios, no qual encontramos o maior problema filosófico
e teológico da Escritura, de modo que você poderia dizer que a Bíblia inteira é
sobre isso – ou seja, se você não compreende esse ponto, você não entende a Palavra
e não entende o próprio evangelho.
O que justifica o perverso e o que condena
o justo abomináveis são para o SENHOR, tanto um como o outro. (Pv 17.15)
“Abominação” é provavelmente a palavra mais
forte que temos em toda a Escritura. Não há nada mais horrível diante de Deus
do que uma abominação – ao pé da letra, algo odiável. O que é odiável e
abominável a Deus, segundo esse texto? Justificar o perverso e condenar o justo
– ambas as atitudes são odiáveis a Deus.
Porém, o que diz o versículo 24 de nosso
texto principal? “Sendo justificados”. Deus nos justificou, mesmo sendo nós um
povo injusto, como vimos no primeiro capítulo. Qual é o problema aqui? Qualquer
um que justifica um homem perverso é uma abominação a Deus, mas nós estávamos,
há pouco, nos regozijando no fato de Deus nos justificar, mesmo sendo nós
homens perversos! Se Deus disse que qualquer um que justifica o perverso é uma
abominação diante Dele, então como Deus pode justificar você, que é perverso,
sem se tornar Ele mesmo uma abominação?
Ora, se Deus não pudesse perdoar o iníquo,
todos nós pereceríamos, porque a Escritura declara que “todos pecaram” (Rm
3.23), que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23) e que “a alma que pecar,
essa morrerá” (Ez 18.4). Mas Deus nos justifica, e já vimos isso! Como Deus
permanece justo? Esse é o maior problema em toda a Escritura e é esse todo o
assunto que permeia o evangelho de Jesus. O maior dilema em toda a Bíblia é
este: Se Deus é justo, Ele não pode perdoar você. Deus não pode tratar ímpios e
justos do mesmo modo. “Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o
ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o
Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25).
Alguém poderia perguntar por que Deus não
pode simplesmente perdoar o pecado do homem
e estar bem com ele. Ora, se a Escritura nos ordena a perdoar livremente, então
por que seria errado para Deus fazer o mesmo? Existem três respostas a essa
pergunta.
Em primeiro lugar, Deus é um ser de valor
infinito. Mesmo a menor forma de rebelião é um crime grotesco contra a Sua
pessoa, um crime de alta traição, um ataque contra a própria ordem da criação.
É digno da pior censura. Não é possível ignorar o ocorrido apenas com um tapinha
nas costas.
Ao defender a justiça de um inferno eterno,
John Piper nos lembra de que:
“a gravidade do pecado origina-se do que
ele diz acerca de Deus. Deus é infinitamente digno de ser honrado. Mas o pecado
diz o oposto. O pecado diz que existem coisas mais desejáveis e mais dignas.
Até que ponto isso é grave? A gravidade de um crime é determinada, em parte,
pela dignidade da pessoa e do cargo que está sendo desrespeitado. Se a pessoa for
infinitamente digna, infinitamente ilustre, infinitamente querida e ocupar um
cargo de infinita dignidade e autoridade, rejeitá-la é um crime infinitamente ultrajante.
Portanto, merece um castigo infinito. A intensidade das palavras de Jesus
acerca do inferno não é uma reação exagerada a pequenas ofensas. As palavras de
Jesus são um testemunho ao infinito valor de Deus e à desonra ultrajante do
pecado humano”[1].
Jonathan Edwards também desenvolve essa
ideia:
“O crime de alguém em desprezar e lançar
desonra sobre outro é mais ou menos infame na proporção da maior ou menor
obrigação desse alguém em obedecer ao desonrado. Consequentemente, se houver
algum ser que temos obrigação infinita de amar, honrar e obedecer, o contrário
concernente a ele deve ser infinitamente
censurável. Nossa obrigação de amar, honrar e obedecer algum ser está em
proporção com sua amabilidade, honradez e autoridade. [...] Mas Deus é um ser
infinitamente amoroso, porque ele tem excelência e beleza infinitas. [...]
Portanto, o pecado contra Deus, sendo uma violação de obrigações infinitas,
deve ser um crime infinitamente infame e, assim, merece punição infinita. [...]
A eternidade do castigo de homens incrédulos torna-a infinita... e, logo, faz
com que não seja mais do que proporcional à infâmia daquilo de que são culpados”[2].
Um ato de injustiça tão grande sendo cometido
contra um Ser tão santo não pode simplesmente ser varrido para debaixo do
tapete. Em segundo lugar, Deus é justo, e o Seu amor é um amor justo. Deus não
pode amar injustamente, assim como Ele
não pode amar a injustiça. Não há contradição no caráter de Deus. Ele deve ser
ao mesmo tempo justo e amoroso, e não pode ser um à custa do outro. Às vezes, eu
ouço evangelistas dizerem coisas como: “Deus poderia ser justo com você, mas,
ao invés de ser justo, Ele foi amável”. Você sabe o que isso significa? Que o
amor de Deus é injusto. Você percebe isso? As pessoas dizem muitas coisas
estúpidas: “O grande amor de Deus por você O fez ignorar Sua própria justiça e
pecar para salvar você”.
Esse é justamente o problema: como Deus pode
ser justo e, ao mesmo tempo, o Justificador de homens pecadores? Imagine o
seguinte: estamos 500 anos atrás, e eu sou um escravo na Espanha. Naquela
época, a punição para escravos que roubassem era a morte. Essa era a lei. Isso
é o que a lei dizia. Se você rouba, você precisa morrer. Eu sou um escravo
ladrão que havia fugido, e sou finalmente capturado pelo meu amo, meu mestre.
Existe uma nuvem de testemunhas do meu crime e é inegável a minha culpa. Então,
sabendo do meu destino, eu caio sobre meus joelhos e clamo: “Seja propício a
mim. Seja misericordioso!” O que você diria acerca disso? “Bem, agora eu acho
que o mestre deve fazer uma escolha pela vida do escravo”. No entanto, nós
temos um problema. A lei cobra minha morte. A justiça pede que eu morra. O que está
acontecendo é que eu estou pedindo a meu mestre que desobedeça a lei, feche os
olhos para a justiça e me deixe seguir com meu pecado. Ora, se vivemos em uma sociedade
que não consegue sequer suportar essa tensão no reino dos homens, como entenderemos
completamente como esse mesmo ponto se relaciona com o Reino dos céus, no qual
a justiça de Deus cobra a nossa morte?
Olhe para a nossa cultura. Ela não é
atualmente baseada na justiça, concorda? Nós sequer lemos os livros antigos
sobre as leis! Eu duvido seriamente que qualquer candidato à presidência esteja
lendo a Lex, Rex de Rutherford[3]. Veja, nós somos um povo
de lábios impuros. Bebemos iniquidade como se fosse água. Como o povo de
Nínive, nós não sabemos sequer diferenciar a nossa mão esquerda da direita. E
mais, ainda existe algo muito importante
a ser considerado: Deus deve ser justo não porque existe alguma lei acima Dele,
à qual Ele deve conformar-Se, como algum tipo de lei universal de justiça que
Deus não pode quebrar. Não é isso que a Bíblia ensina. Deus deve ser justo
porque Ele é justo. Deus deve ser consistente com quem Ele é. Ele é um Deus
justo. Ele não pode cometer injustiça nem mesmo em nome do amor. O amor de Deus
é santo, o amor de Deus é justo. Então a pergunta continua a ser: como Deus
pode ser justo e justificar o pecador?
Em terceiro lugar, Deus é o juiz de toda a
terra. É o seu dever garantir que a justiça seja feita e que o mal seja punido.
Não seria adequado para o Juiz celestial perdoar o ímpio mais do que seria para
um juiz terreno perdoar o criminoso que está diante dele em um tribunal de
justiça. Não é nossa queixa frequente que nosso sistema de justiça é corrupto?
Não ficamos irados quando criminosos culpados são libertos? Será que devemos
esperar menos justiça de Deus do que exigimos de nossos juízes?
Deixe-me dar um exemplo. Você deixa sua
família em casa para trabalhar e, quando retorna à noite, descobre que eles
foram assassinados violentamente. Você entra pela porta e o homem que os matou
ainda está lá, com sangue em suas mãos, e está terminando de estrangular a sua
última criança. Com a força de um touro, você corre pelo quarto, carrega aquele
homem, o agarra e o lança ao chão. Tudo o que você quer é matá-lo, mas, por ser
salvo em Cristo, você resiste e chama a polícia. Você entrega esse violento
assassino, que acabou com toda a sua vida, despedaçando tudo pelo que você já
viveu, nas mãos das autoridades. A polícia o leva ao juiz, e, na presença de
todas as pessoas da cidade naquele tribunal, o juiz olha para baixo, para o
homem que assassinou sua família inteira, e diz: “Eu sei que você é um assassino cruel e
violento, mas eu sou um juiz muito amável e eu nunca fico irritado com ninguém.
Você está livre para ir, eu te perdoo”.
O que você faria? Existe alguém naquela corte
que vai se juntar a você, dar as mãos e cantar o “Tchutchuê”? Eu vou dizer-lhe
exatamente o que aconteceria: você pularia imediatamente do seu lugar e
gritaria: “Eu exijo justiça!”. Você escreveria para a Câmara dos Deputados, para
o Senado, para o Presidente e para a ONU; colocaria nos jornais e iria à
televisão, dizendo: “Existe um juiz sentado naquela Corte que é mais perverso
do que o homem que massacrou minha família, porque um juiz deve fazer o que é
certo, ele deve fazer justiça, ele não pode justificar o perverso”. Você vê o
problema? Você exigiria justiça de seus próprios juízes, mas você fica nervoso quando
alguém diz que Deus é justo. Se Deus é justo – e Ele certamente é –, Ele não
pode perdoar você sem se tornar perverso.
Essa é a questão de toda a Escritura e é isso
o que quero dizer quando digo que as pessoas não compreendem o evangelho atualmente. Quando
foi a última vez que você ouviu isso? Nós temos ignorado a profundidade do
evangelho e ainda nos perguntamos por que nossas pregações possuem tão pouco
poder. Como perdemos o evangelho, acabamos precisando apelar carnalmente para
todas aquelas técnicas de crescimento de igreja. O motivo pelo qual não
alcançamos as gerações X, Y ou Z, ou qualquer outra, não é por causa de
irrelevância cultural, mas por falta da mensagem do evangelho. Temos uma versão
reduzida e sem profundidade, mas não o evangelho que é poderoso e mortal, que é
vigoroso e escandaloso – e é nele que reside o poder para a salvação.
Eu percebo como esquecemos o verdadeiro
evangelho quando faço perguntas sobre a Escritura para alguns estudantes que
encontro nas minhas viagens, especialmente pela Europa.
“Por que Jesus morreu?”
Eles dizem: “Bem, por
causa do nosso pecado”.
“Ok, por que Jesus
morreu?”
“Já dissemos, por causa
de nosso pecado.”
“Não, vocês não estão
respondendo à pergunta. Vocês têm que ir mais profundo do que isso. Por que o
pecado é um problema?”
“Bem, porque o
pecado é errado.”
Não! Não é esse o problema. O problema é
este: Deus é um Deus justo e Ele é o Juiz de toda a terra, de modo que Ele deve
fazer o que é correto, Ele deve ser consistente com o Seu próprio caráter. Se
Ele olhar para o pecado e libertar o pecador, Ele é tão perverso quanto aquele juiz
que acabei de descrever. Portanto, o maior problema em toda a Bíblia, o dilema
Divino de todas as Escrituras inspiradas, é este: se Deus é Justo, Ele não pode
perdoar você. Então, a questão é: como pode Deus justificar um homem perverso e
continuar sendo justo?
[1]
PIPER, John. O que Jesus espera de seus seguidores: mandamentos de Deus para o mundo. São Paulo: Editora
Vida, 2001, p. 107.
[2] EDWARDS, Jonathan. The justice of God in damnation of
sinners. In: The
works of Jonathan Edwards. v. 1. Edinburg: The Banner of Truth Trust, 1974, p.
669.
[3]
Lex, Rex é um livro escrito pelo ministro presbiteriano escocês
Samuel Rutherford, publicado em 1644 com o subtítulo “A Lei é Rei”, pretendendo
ser uma defesa do ideal presbiteriano e escocês de política.

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