É vital que entendamos por que as
Escrituras empregam com tanta frequência a linguagem de guerra com relação ao
conflito espiritual cósmico das eras — especialmente em referência à luta pela
verdade. Esta é uma ideia que permeia as Escrituras. Não se trata de algum
conceito incivilizado, inventado por cristãos perseguidos no século I que agora
deixou de ser útil nesta era mais sofisticada. Não se trata de uma descrição
infantil que, finalmente, abandonamos. Não se trata de uma adaptação dos
preconceitos tolos do século I. Na verdade, aqueles que simplesmente rejeitam o
conceito como sendo inerentemente incivilizado, grosseiro e, portanto, inútil
em urna cultura pós-moderna estão colocando a própria vida em grande perigo.
Queiramos ou não, como cristãos,
estamos em um conflito de vida ou morte contra as forças do mal e suas
mentiras. É uma guerra espiritual. Não é um conflito literalmente físico com
armas mortais. Não é uma campanha para aumentarmos as riquezas de alguém ou
confiscarmos seus bens. Não é uma guerra por território ou por domínio
geopolítico. E, sem dúvida alguma, não é um jihad violento pela expansão da
influência da cristandade no mundo. Não é algum tipo de guerra mágica com seres
invisíveis das esferas inferiores. Não é uma batalha pela ascendência entre
indivíduos ou seitas religiosas, e, sem dúvida, não é uma campanha realizada
pela igreja para assumir o Estado. Mas é, contudo, uma guerra séria com consequências
eternas.
Uma vez que esse conflito
espiritual é, em primeiro lugar, um conflito teológico — uma guerra na qual a
verdade divina se opõe ao erro demoníaco —, precisamos ter sempre em mente que
nosso objetivo é destruir mentiras, não pessoas. Na verdade, se formos fiéis, o
resultado será pessoas sendo libertadas de fortalezas de mentiras, de falsas
doutrinas e de ideologias malignas que as mantêm cativas. Foi exatamente assim
que Paulo descreveu nosso plano de batalha no conflito cósmico em 2 Corintios
10:3-5: “Pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os padrões
humanos. As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são
poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argu- mentos e toda
pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo
pensamento, para torná-lo obediente a Cristo.” Assim, Paulo diz que devemos
declarar guerra contra toda ideia que se levanta contra a verdade divina.
A despeito de tanta linguagem de
cunho militante, não há nenhuma crueldade na postura que Paulo estava
descrevendo (nem quando ele continua no versículo seguinte a dizer aos
corintios que, pessoalmente, estava “[pronto] para punir todo ato de desobediência,
uma vez estando completa a obediência de vocês”). Ele estava pronto não só para
a defesa da verdade, mas também para uma incursão ofensiva contra falsos
sistemas de crenças. A estratégia de Paulo, em suas próprias palavras, incluía
destruir aquelas falsas ideologias, desmontando sistematicamente suas doutrinas
equivocadas, subjugando seus argumentos enganosos e expondo suas mentiras com a
verdade.
Em outras palavras, a verdade era
a única arma de Paulo. Ele não atacou os falsos mestres em Corinto como eles o
haviam atacado — com insinuações, distorções de seu ensino, insultos pura-
mente pessoais e redes de mentiras. Respondeu ao engano deles com a verdade —
desatando o nó górdio de suas mentiras com “a espada do Espírito, que é a
palavra de Deus” (Efésios 6:17). Lutou pela verdade e contra o erro com total
seriedade. Mas, em todas as vezes que Paulo lidou com falsos mestres, seu
objetivo foi aniquilar a falsa doutrina deles, e não os falsos mestres em si. A
guerra não era uma disputa meramente pessoal entre Paulo e seus adversários
para ver quem conseguiria ganhar a lealdade do rebanho em Corinto; era uma
batalha em favor de princípios infinitamente superiores a isso e o que estava
em jogo era algo muito mais significativo do que a reputação de uma pessoa.
Paulo nem sempre foi simpático e
gentil com quem propagava falsos ensinamentos da mesma forma que foi como um
pai para cristãos que simplesmente ficavam perplexos com a confusão de vozes.
Na verdade, não consigo imaginar um exemplo nas epístolas em que a interação de
Paulo com falsos mestres foi dominada pela mansidão daquele espírito paternal.
Muitas vezes, ele mostrou uma raiva justificada contra eles; escreveu com total
desprezo por tudo o que representavam e até os amaldiçoou (Gálatas 1:7,8).
Em sua primeira viagem
missionária, logo depois de sair de Antioquia com Barnabé, Paulo fez a primeira
parada em sua aventura missionária na Selêucia, em Chipre. Chegando à cidade de
Pafos, ele teve seu primeiro encontro registrado com um falso mestre religioso,
cujo nome era Elimas Barjesus. Foi assim que Paulo se dirigiu a ele: “Filho do
Diabo e inimigo de tudo o que é justo! Você está cheio de toda espécie de
engano e maldade. Quando é que vai parar de perverter os retos caminhos do
Senhor? Saiba agora que a mão do Senhor está contra você, e você ficará cego e
incapaz de ver a luz do sol durante algum tempo” (Atos 13:10,11). Deus
confirmou a postura agressiva de Paulo por meio de um juízo milagroso contra
Elimas. “Imediatamente vieram sobre ele névoa e escuridão, e ele, tateando,
procurava quem o guiasse pela mão” (v. 11). O que provocou essa confrontação
agressiva? Os riscos eram muito grandes, porque Sergius Paulus estava ouvindo o
evangelho e sua alma estava em jogo. Em qualquer caso como esse, a estratégia direta
e severa de lidar com um mestre visivelmente falso é, na verdade, preferível a
uma demonstração fingida de aprovação e fraternidade (2 João 10,11; cf. Salmo
129:5-8; 2 Timóteo 3:5).
Paulo, sem dúvida, foi justo com
seus adversários no sentido de nunca deturpar o que eles ensinavam nem dizer
mentiras sobre eles. Mas Paulo claramente reconheceu os erros deles por causa
do que eram e deu-lhes nomes apropriados. Ele falou a verdade. Em seu estilo de
ensino diário, Paulo falava a verdade com mansidão e com a paciência de um pai
amoroso. Mas quando as circunstâncias justificavam um estilo mais forte de
franqueza, Paulo conseguia falar de um modo muito direto — às vezes, até com um
sarcasmo áspero (1 Corintios 4:8-10). Como Elias (1 Reis 18:27), João Batista (Mateus
3:7-10) e até Jesus (Mateus 23:24), ele também era capaz de fazer uso de
escárnios de modo convincente e apropriado para res- saltar o caráter de
ridículo do erro sério (Gálatas 5:12). À maneira de Moisés e Neemias, ele
apontava coisas que os outros tomavam como vacas sagradas.
Paulo não parecia sofrer da mesma
ansiedade excessivamente escrupulosa que leva tantas pessoas, hoje, a encobrir
todo erro até onde a linguagem permitir, supor que até o mais repulsivo dos
falsos mestres esteja dizendo a verdade e atribuir as melhores intenções
possíveis até ao mais grosseiro dos hereges. A ideia de “mansidão” do apóstolo
não era o tipo de falsa benevolência e distinção artificial que as pessoas,
hoje, às vezes acreditam ser a verdadeira essência dos atos de caridade. Nunca
o vimos chamando para o diálogo os falsos mestres ou os que casualmente se
metiam a induzir ao erro religioso, nem ele aprovava essa estratégia quando
alguém da estatura de Pedro sucumbia ao medo do que os outros poderiam pensar e
demonstrava uma consideração exagerada pelos falsos mestres (Gálatas 2:11-14).
Paulo definiu os limites da amabilidade santa e da hospitalidade cristã de um
modo muito parecido com o do apóstolo João. Quando falsos mestres pedirem
refúgio sob o guarda-chuva da comunhão de vocês, João disse, não deem a mínima
atenção: “Todo aquele que não permanece no ensino de Cristo, mas vai além dele,
não tem Deus; quem permanece no ensino tem o Pai e também o Filho. Se alguém
chegar a vocês e não trouxer esse ensino, não o recebam em casa nem o saúdem.
Pois quem o saúda torna-se participante das suas obras malignas” (2 João 9-11).
** Extraído do livro "A Outra Face" - John Macarthur
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