Parece que até algumas das mentes
mais brilhantes no movimento evangélico se renderam à ideia de que a teologia é
acadêmica e, por- tanto, a única maneira adequada de avaliar as opiniões
teológicas dos outros é com um desprendimento escolástico indiferente. Eles
concordam — ou, pelo menos, agem como se concordassem — com aqueles que dizem
que é sempre melhor ter uma conversa amigável do que um conflito por causa de
diferenças doutrinárias.
Um erudito escreveu um ensaio
nesse sentido e um anônimo enviou-me uma cópia do texto. O remetente incluiu um
bilhete sem assinar dizendo que estava decepcionado e completamente perturbado
com o título de meu livro A guerra pela verdade. Ele mesmo, na verdade, não
havia lido o livro (e nem tinha a intenção de ler) pois disse que já poderia
dizer o quanto sou irremediavelmente intolerante. Mas queria expressar sua
indignação e descrença de que um “ministro” de minha categoria, nesses tempos
esclarecidos, comparava crenças religiosas com verdade — e ainda tratava a busca
pela verdade como uma “guerra”. Ele tinha certeza de que Jesus jamais teria uma
postura militante como essa.
O ensaio que incluía o bilhete
foi escrito por outra pessoa, e esse autor, de igual modo, expressava grandes
dúvidas “sobre a utilidade da metáfora de guerra’ no Cristianismo”. O que Jesus
faria?, o escritor queria saber. Bondade e pacifismo, em vez de combate e
contenda, não eram características do próprio ministério de Jesus? Ele não
pediu aos seus verdadeiros seguidores que buscassem o amor e a unidade, e não
realizassem cruzadas? Ele não disse: “Bem-aventurados os pacificadores”? Todo o
espírito de militância (especialmente a agressão ideológica contra as crenças
de outros) não parece completamente inoportuno nesta era pós-moderna? Bom senso
e sensibilidade cultural não sugerem que devemos pôr totalmente de lado o
vocabulário de combate e nos concentrar principalmente no tema de
reconciliação?
O autor desse ensaio esforçou-se
para subestimar a importância da linguagem militante empregada em diversas
passagens por todo o Novo Testamento. Ele parecia imaginar que, se os evangélicos
de hoje fossem encorajados a pensar na luta entre verdade e erro como algo mais
sério do que uma corrida de sacos no gramado em um acampamento de verão, a
igreja logo seria inundada de jihadistas cristãos usando bandoleiras, agitando
armas verdadeiras e iniciando um ataque literalmente encarniçado contra mestres
de falsas religiões.
Sem dúvida, nenhum cristão digno
de confiança, que esteja comprometido com as Escrituras como nossa autoridade
suprema, propôs literalmente uma guerra santa neste mundo. A guerra espiritual
não tem nada a ver com isso e as Escrituras são claras nesse sentido: “A nossa
luta não é contra seres humanos” (Efésios 6:12). E “as armas com as quais
lutamos não são humanas” (2 Corintios 10:4).
Não obstante, a mente pós-moderna
às vezes parece incapaz de fazer qualquer distinção significativa entre o
combate físico com armas destinadas a matar pessoas e o combate espiritual com
a verdade destinado a salvá-las da morte espiritual.
A CNN, por exemplo, levou ao ar
uma série especial em 2007 intitulada “Guerreiros de Deus”, com um segmento
principal com o subtítulo “Os guerreiros cristãos de Deus”. O programa estava
longe de ser objetivo e o segmento que se concentrou no Cristianismo parecia
ter pouco sentido a não ser tentar sugerir que há um tipo de paridade moral
entre jihadistas muçulmanos, que explodem pessoas inocentes e cristãos que
creem que Jesus Cristo é o único e verdadeiro Salvador do mundo. “A batalha
deles para salvar o mundo causou raiva, divisão e medo”, enfatizou solenemente
a repórter Christiane Amanpour em sua introdução ao segmento sobre
evangélicos.5 A série colocou fundamentalistas cristãos na mesma categoria dos
jihadistas islâmicos. Naturalmente, isso gerou uma discussão animada em vários
fóruns online. Alguns cristãos que fizeram comentários sobre o especial da CNN
pareceram per- turbadamente ambivalentes na questão que discutia se os cristãos
merecem ou não fazer parte dos grupos de terroristas e homens- bomba. Os
cristãos, na verdade, ganharam fama por serem muito polêmicos com relação às
suas crenças? É hora de repudiarmos toda alusão à luta e conflito, eliminar a
linguagem de guerra de nosso léxico, deixar de confrontar opiniões mundanas e
ideias religiosas antibíblicas, e buscar paz e harmonia, em vez de
controvérsia, com outras visões de mundo? Vários deles também consideraram a
pergunta: Ό que Jesus faria?” Uma pessoa escreveu:
Usamos e enfatizamos excessivamente a metáfora de “guerra” no
Cristianismo. É uma metáfora desgastada que traz à tona muitas imagens do mundo
“moderno” quando vivemos em um mundo pós-cristão e pós-moderno. Não tenho certeza
de que o “Príncipe da Paz” teria sido um entusiasta dos Sol- dados Cristãos ou
mesmo cantado com eles.
Em outro fórum da internet,
algumas semanas depois, alguém escreveu:
Não acho que Jesus jamais realizou uma guerra pela verdade. Ele não
saiu por aí defendendo com iniciativa sua teologia e opondo-se à de todos os
outros. Não estou dizendo que ele não reconhecia que as outras religiões eram
falsas. Mas não acho que teria começado uma Guerra pela Verdade na terra. Jesus
viveu ativamente sua verdade na prática (uma vez que ele mesmo era a verdade) e
teve conversas intensas sobre a verdade baseando-se apenas na necessidade de
fazê-lo. E nem eram cartas enviadas a todos os lugares do país — eram conversas
particulares com os próprios homens. As pessoas eram atraídas à verdade que
Jesus vivia na prática, não por- que eram vencidas em uma batalha de doutrinas.
Todas essas opiniões estão
erradas, e perigosamente erradas. Mas antes de analisarmos o erro, reconheçamos
que a resposta cor- reta não é correr para o outro extremo. Os cristãos não
devem ser beligerantes. O amor ao conflito não é menos pecaminoso que a
terrível covardia.
A guerra espiritual é necessária
por causa do pecado e da mal- dição — não porque haja algo inerentemente
glorioso ou virtuoso no combate. Zelo sem conhecimento é algo espiritualmente
fatal (Romanos 10:2) e até a paixão mais sincera pela verdade precisa sempre
ser moderada com mansidão e graça (Efésios 4:29; Colossenses 4:6). O entusiasmo
impetuoso para pedir que desça fogo do céu contra blasfemadores e hereges está
longe do espírito de Cristo (Lucas 9:54,55).
Reconhecer que a igreja, muitas
vezes, precisa lutar pela verdade não é sugerir que o evangelho — nossa única
mensagem para um mundo perdido — é, de algum modo, uma declaração de guerra.
Sem dúvida alguma não é; trata-se de um manifesto de paz e um pedido de
reconciliação com Deus (2 Corintios 5:18-20). Por outro lado, aqueles que não
se reconciliam com Deus estão sempre em guerra com ele, e o evangelho é uma
mensagem sobre a única maneira de acabar com essa guerra. Assim, ironicamente,
a guerra para defender a verdade é a única esperança de paz para os inimigos de
Deus.
Concordo que normalmente é muito
melhor ser gentil do que áspero. O pacifismo é uma qualidade bendita (Mateus 5:9);
a agressividade é uma falha de caráter que acaba incapacitante (Tito 1:7). A
paciência é, na verdade, uma maravilhosa virtude, mesmo diante da descrença e
da perseguição (Lucas 21:19). Sempre devemos ouvir bastante antes de reagirmos
(Provérbios 18:13). Uma palavra mansa normalmente pode fazer muito mais bem do
que uma reação seca, porque “a resposta calma desvia a fúria, mas a palavra
ríspida desperta a ira” (Provérbios 15:1) — e a pessoa que gosta de provocar
discussão é tola (v. 18).
Além disso, o fruto do Espírito é
uma lista de coisas contrárias a uma atitude litigiosa, agressiva e inclinada à
guerra: “amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade,
mansidão e domínio próprio” (Gálatas 5:22,23). Assim, nossa primeira atitude
quando encontramos alguém no erro deve ser o mesmo tipo de mansidão prescrito
em Gálatas 6:1 para qualquer pessoa em algum tipo de pecado: “Se alguém for
surpreendido em algum pecado, vocês, que são espirituais, deverão restaurá-lo
com mansidão. Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado.”
Compete a todo cristão o seguinte: “Não caluniem ninguém, sejam pacíficos,
amáveis e mostrem sempre verdadeira mansidão para com todos os homens. Houve
tempo em que nós também éramos insensatos e desobedientes, vivíamos enganados e
escravizados por toda espécie de paixões e prazeres. Vivíamos na maldade e na
inveja, sendo detestáveis e odiando uns aos outros” (Tito 3:2,3). E essa
atitude é um dever particular daqueles que são líderes espirituais. Pessoas
dadas a brigas não estão qualificadas para servir como presbíteros na igreja (1
Timóteo 3:3), pois “ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável
para com todos, apto para ensinar, paciente. Deve corrigir com mansidão os que
se lhe opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento,
levando-os ao conheci- mento da verdade” (2 Timóteo 2:24,25).
Todos esses princípios devem, de
fato, dominar nosso modo de proceder com os outros e nosso modo de lidar com
diferenças. E se esses fossem os únicos versículos nas Escrituras que nos dis-
sessem como lidar com o erro, talvez tivéssemos justificativa para pensar que
esses princípios são absolutos, invioláveis e aplicáveis a todo tipo de
oposição ou descrença que encontramos.
Mas não é o que acontece. Somos instruídos a lutar seriamente pela fé (Judas 3). Logo após recomendar a Timóteo que “busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão” (1 Timóteo 6:11), o apóstolo Paulo exorta-o para que “combata o bom combate da fé” (v. 12) e guarde o que lhe foi confiado (v. 20).
Mas não é o que acontece. Somos instruídos a lutar seriamente pela fé (Judas 3). Logo após recomendar a Timóteo que “busque a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança e a mansidão” (1 Timóteo 6:11), o apóstolo Paulo exorta-o para que “combata o bom combate da fé” (v. 12) e guarde o que lhe foi confiado (v. 20).
** Extraído do livro "A outra Face" - John Macarthur

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