O movimento evangélico era conhecido por duas convicções
teológicas inegociáveis. Uma era o compromisso com a exatidão absoluta e a
autoridade das Escrituras — como a Palavra revelada de Deus, e não como fruto
da imaginação, experiência, intuição ou ingenuidade humana (2 Pedro 1:21). A
outra era uma forte crença de que o evangelho apresenta o único meio possível
de salvação do pecado e do juízo — pela graça por meio da fé no Senhor Jesus
Cristo.
Nos últimos anos, no entanto, os evangélicos vêm assimilando espontaneamente o espirito dos tempos. Multidões — incluindo muitos que
atuam como líderes espirituais — discretamente abandonaram essas duas
convicções (ou simplesmente deixaram de falar e pensar nelas). O
evangelicalismo agora deixou de ser algo semelhante a um movimento coerente. Em vez disso, tornou-se uma monstruosidade amorfa em que praticamente toda
ideia e toda opinião exigem ser levadas à mesa para discussão, aceitas educada-
mente por todos e consideradas com igual respeito e estima.
Consequentemente, parece que os evangélicos atuais são inca-
pazes de apontar a causa de algo que os torna realmente diferentes. Quando
tentam definir sua própria posição ou explicar para os não evangélicos quem
são, eles às vezes confessam, sem perceber, que a conformidade com este mundo e
seu modo de pensar tornou-se aquilo que os define.
Isso não significa sugerir que os evangélicos contemporâneos
conseguiram enviar algo como uma mensagem clara, coerente ou uniforme. As
declarações formais da posição evangélica tornaram- se tão vagas e desprovidas
de verdadeira convicção que ninguém parece saber ao certo se elas realmente
significam mais alguma coisa. Parece que valores sofisticados como diversidade,
tolerância, coleguismo, amabilidade e liberdade acadêmica ofuscaram a verdade
bíblica na hierarquia evangélica das virtudes. Os evangélicos mundanos de hoje
são claramente arrastados pela forte maré da opinião pós-moderna popular.
Em maio de 2008, foi publicado com grande alarde um novo
“Manifesto Evangélico” para a imprensa secular e religiosa. Ele foi redigido e
assinado por um grupo díspar de estudiosos evangélicos e pós-evangélicos, os
quais se distinguiram por vários meios. Alguns são conhecidos principalmente
como defensores de praticamente toda causa política de esquerda; outros são
mais conhecidos por seus textos de apologia filosófica em defesa de uma visão
de mundo mais conservadora. Alguns eram “evangélicos” somente no sentido de
terem tentado casar a doutrina neo-ortodoxa com o novo estilo evangélico.
O Manifesto de 2008 caiu como uma bomba e foi muito censurado por críticos na mídia (e merecidamente) por causa de sua falta de clareza
do começo ao fim — especialmente por não expressar seu próprio objetivo em uma
linguagem clara. Contudo, a única palavra que parecia ser a chave do documento
era civilidade. Esse termo foi usado diversas vezes na coletiva à imprensa em
que o Manifesto foi apresentado. Considerando o modo como aqueles que redigiram
e assinaram o documento usavam o termo, a suposição implícita era,
simplesmente, de que a “civilidade” nos obriga a discordar “de forma agradável”
e evitar a todo custo qualquer alusão à hostilidade ou discussão séria. Na
verdade, parece justo sugerir que um dos principais objetivos do documento — se
não a ideia geral — era distanciar o movimento evangélico de hoje de qualquer sinal
de militância ou “fundamentalismo” no modo como interagimos com ideias não
evangélicas ou anticristãs.
Parece que o zelo pelas doutrinas essenciais do Cristianismo
bíblico tornou-se praticamente tão inaceitável entre evangélicos e
pós-evangélicos como sempre foi no mundo de um modo geral. As novas regras
exigem um diálogo permanentemente amigável, benesse ideológica, transparência
imparcial e paz ecumênica. Em particular, quando a discussão se volta para a
doutrina, o típico evangélico de hoje invariavelmente age como se um dócil
diálogo fosse moralmente preferível a qualquer tipo de conflito. Afinal, nunca
devemos ser tão veementes com relação ao que cremos a ponto de expressar algum
desdém sério por ideias alternativas.
Nesse cenário, parece que o diálogo evangélico sobre
doutrina tornou-se uma razão principalmente despropositada para conversar só
por conversar. O objetivo não é chegar a algum entendimento comum ou firme
convicção sobre o que é verdadeiro e o que é falso.
Pelo contrário, parece que a ideia geral é juntar à
discussão o maior número possível de opiniões e, então, prolongar a
cordialidade generosa e despreocupada da discussão por tempo indefinido.
** Extraído do Livro "A Outra Face" - John Macarthur
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