A expiação realizada por Jesus é descrita como uma obra de
satisfação. Em outras palavras, ele realizou satisfação para a nossa dívida, a
nossa inimizade com Deus e a nossa culpa. Ele satisfez a exigência de resgate
para a nossa libertação da servidão ao pecado. No entanto, há outra palavra significativa
que é freqüentemente usada na descrição da expiação: substituição. Quando consideramos
a descrição bíblica do pecado como um crime, vimos que Jesus agiu como um
substituto, tomando o nosso lugar no tribunal de justiça de Deus. Por essa razão,
às vezes falamos da obra de Jesus na cruz como a expiação substitutiva de
Cristo. E isso significa que, ao oferecer-se a si mesmo como expiação, ele não
o fez para satisfazer a justiça de Deus em favor de seus próprios pecados, e
sim em favor dos pecados de outros. Ele assumiu o papel de Substituto,
representando o seu povo. Ele não deu a sua vida em favor de si mesmo; Ele a
deu em favor de suas ovelhas. Ele é o nosso único Substituto.
A idéia de ser um Substituto que ofereceria uma expiação para
satisfazer as exigências da lei de Deus em benefício de outros era algo que
Cristo entendia como sua missão, desde o momento em que entrou neste mundo e tomou sobre si a natureza humana. Ele
veio do céu, como o dom do Pai, tendo o propósito específico de realizar a
redenção como nosso Substituto, fazendo em nosso lugar o que não poderíamos
fazer por nós mesmos. Vemos isso no início do ministério de Jesus, quando ele
começou sua obra pública, vindo ao Jordão e encontrando-se com João Batista.
Imagine a cena no Jordão, naquele dia. João estava ocupado batizando
as pessoas em preparação para a vinda do reino. De repente, ele olhou e viu
Jesus se aproximando. Ele falou as palavras que mais tarde se tornaram a letra daquele grande hino da igreja, Agnus Dei: “Eis o Cordeiro de
Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). João anunciou que Jesus era
aquele que viera para suportar o pecado de seu povo. Em sua pessoa, Jesus
cumpriria tudo o que estava simbolizado no sistema de sacrifícios do Antigo Testamento,
segundo o qual um cordeiro era imolado e queimado sobre o altar como uma oferta
a Deus, para representar a expiação pelo pecado. O cordeiro era o substituto.
Assim, ao chamar Jesus de “Cordeiro de Deus”, João Batista estava afirmando que
Jesus também seria um Substituto, um substituto que faria a verdadeira expiação.
Jesus se aproximou de João Batista e, para a admiração deste, pediu-lhe
que o batizasse. As Escrituras nos contam a reação de João Batista a esse
pedido: “Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por
ti, e tu vens a mim?” (Mt 3.14). Essa afirmação simples deve ter disfarçado uma
profunda confusão em João. Ele acabara de anunciar que Jesus era o Cordeiro de
Deus; e, para servir como sacrifício perfeito que expiaria o pecado de seu
povo, o Cordeiro de Deus tinha de ser imaculado. Tinha de ser completamente
puro. Mas o ritual do batismo ao qual João exortava Israel a submeter-se como
preparação para a vinda do Messias era um rito que simbolizava a purificação do
pecado. Por isso, João disse, em essência: “Batizá-lo é um absurdo para mim, porque
você é o cordeiro de Deus impecável”. Em seguida, João Batista apresentou uma idéia alternativa: Jesus deveria batizá-lo.
Essa foi a maneira pela qual João reconheceu que era um pecador que necessitava
de purificação.
Jesus anulou o protesto de João, respondendo-lhe: “Deixa por
enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15). A
escolha das palavras de Jesus nesta declaração foi interessante. Primeiramente, ele disse: “Deixa por enquanto”. O
fato de que Jesus deu sua ordem a João Batista usando essas palavras mostra que
havia alguma dificuldade teológica envolvida no assunto. Era como se Jesus
estivesse dizendo: “João, sei que você não entende o que está acontecendo aqui,
mas pode confiar em mim. Vamos, batize-me”. No entanto, Jesus prosseguiu e
explicou por que João deveria batizá-lo. Jesus disse: “Assim, nos convém
cumprir toda a justiça”.
A palavra convém, nesta passagem, também poderia ser traduzida por “é necessário”.
Em outras palavras, Jesus estava dizendo que lhe era necessário ser batizado.
Por que era necessário? João Batista viera como um profeta enviado por Deus.
Jesus diria mais tarde: “Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que
João; mas o menor no reino de Deus é maior do que ele” (Lc 7.28). Por meio deste
profeta, Deus havia dado ao seu povo da aliança uma nova ordem: deviam ser
batizados. Nunca devemos pensar que Deus parou de expressar sua vontade ao seu
povo depois de haver entregue os Dez Mandamentos. Inúmeras leis foram
acrescentadas aos dez mandamentos básicos, depois que eles foram outorgados. A ordem
de que seu povo passasse por esse rito de purificação, a fim de preparar-se
para a chegada do reino divino, era o mais recente edito de Deus.
Antes que fosse à cruz, antes que pudesse cumprir o papel de
Cordeiro de Deus, antes que se tornasse uma oblação que satisfaria as
exigências da justiça de Deus, Jesus tinha de submeter-se a cada detalhe da lei
que Deus entregara à nação. Ele tinha de representar, em cada detalhe, o seu
povo diante do tribunal de justiça de Deus. Visto que a lei agora exigia que
todas as pessoas fossem batizadas, Jesus tinha de ser igualmente batizado. Ele tinha
de cumprir cada mandamento para se mostrar impecável. Jesus não estava pedindo
a João que o batizasse por que ele necessitava de purificação. Ele queria ser
batizado para que se mostrasse obediente ao seu Pai em cada detalhe. Essa era a
verdade que Jesus estava estabelecendo para João, porque a sua missão implicava
ser o Substituto, o sacrifício vicário oferecido a Deus. Jesus entendeu isso e
o aceitou.
Desde o começo de seu ministério, ele sabia que viera para agir como
Substituto em favor de suas ovelhas. No âmago de seu ensino estava a afirmação
de que ele fazia isso não por causa de si mesmo, mas por causa de nós — para redimir-nos, resgatar-nos,
salvar-nos. Quando falamos sobre o aspecto vicário da expiação, duas palavras
técnicas nos ocorrem vez após vez: expiação e propiciação. Elas fazem surgir todo tipo de argumento a respeito de qual
dessas palavras devemos usar para traduzir determinada palavra grega. Algumas versões
da Bíblia usam uma delas, e outras versões usam a outra. Freqüentemente,
pessoas me pedem que explique a diferença entre propiciação e expiação. A
dificuldade é que, embora essas palavras estejam na Bíblia, não as usamos como
parte de nosso vocabulário diário, por isso não estamos certos do que
exatamente elas comunicam nas Escrituras. Não temos pontos de referência em
relação a essas palavras.
Consideremos o que significam essas palavras, começando por
explicar o termo expiação. O prefixo ex significa fora de ou da parte de; por isso, expiação está relacionada com a remoção ou afastamento de algo. Em temos
bíblicos, expiação implica a remoção por meio do pagamento de uma penalidade ou
de uma oferta. Por contraste, propiciação está relacionada ao objeto da expiação. O prefixo pro significa “para”; por
isso, a propiciação causa uma mudança na atitude de Deus, fazendo mover-se da
inimizade para o ser por nós. Mediante o processo de propiciação, somos
restaurados à comunhão e ao favor com Deus. Em certo sentido, a propiciação
está relacionada ao ato de Deus ser apaziguado. Sabemos como a palavra apaziguar funciona nos conflitos
políticos e militares. Pensamos nas supostas políticas de apaziguamento, a
filosofia de que, se há um conquistador mundial impetuoso agindo à vontade,
brandindo a espada, em de vez correr o risco de sofrer a ira de seu ataque
repentino, você lhe dá a região dos Sudetos, na Checoslováquia, ou algum pedaço
de território semelhante. Você tenta abrandar a ira desse conquistador dando-lhe
algo que o satisfará, para que ele não venha ao seu país e mate inúmeras pessoas. Essa é uma manifestação ímpia de
apaziguamento. Mas, se você está irado ou foi afrontado, e eu consigo satisfazer
a sua ira ou apaziguá-lo, sou restaurado ao seu favor, e o problema é removido.
De vez em quando, a mesma palavra grega é traduzida pelos vocábulos
expiação e propiciação. Mas existe uma pequena diferença. Expiação é o ato que resulta
na mudança da disposição de Deus para conosco. Foi o que Cristo fez na cruz, e o resultado da obra
expiatória de Cristo é a propiciação — a ira de Deus é removida. A distinção é
mesma que existe entre o resgate pago e a atitude daquele que recebe o resgate.
Juntas, a expiação e a propiciação constituem um aplacamento. Cristo realizou
sua obra na cruz para aplacar a ira de Deus. Essa idéia de aplacar a ira de
Deus tem contribuído pouco para acalmar a ira dos teólogos modernos. De fato,
eles ficam bastante irados quanto a toda a idéia de aplacar a ira de Deus.
Acham que ter de ser aplacado e fazermos algo para abrandá-lo ou apaziguá-lo está
aquém da dignidade de Deus. Precisamos ser bastante cautelosos na maneira como
entendemos a ira de Deus, mas permita lembrar-lhe que o conceito de aplacar a ira de Deus está
relacionado não a uma questão periférica e tangencial da teologia, e sim à essência
da salvação. Devo fazer uma pergunta básica: o que significa o termo salvação?Já consideramos
palavras como satisfação, expiação,
redenção, substituição e propiciação. Todavia, o que salvação significa na Bíblia?
Tentar explicá-la rapidamente pode causar-lhe dor de cabeça,
porque a palavra salvação é usada cerca de setenta maneiras diferentes na
Bíblia. Se alguém é livre de uma derrota certa na guerra, ele experimenta salvação.
Se alguém sobrevive a uma enfermidade que ameaça a vida, ele experimenta
salvação. Se as plantas de alguém são restauradas da murcha à saúde robusta,
elas são salvas. Essa é a linguagem bíblica, e não difere de nossa linguagem.
Nós salvamos as coisas. Um boxeador é salvo pelo gongo, significando que ele é salvo
de perder a luta por nocaute, e não que ele é transportado ao reino eterno de
Deus. Em resumo, qualquer experiência de livramento de um perigo evidente e
atual pode ser referida como uma forma de salvação.
Quando falamos sobre a salvação em termos bíblicos, devemos ser
cuidadosos em afirmar do que somos salvos. O apóstolo Paulo fez exatamente isso
quando disse que Jesus “nos livra da ira vindoura” (1 Ts 1.10). Em última
análise, Jesus morreu para salvar-nos da ira de Deus. Sem essa verdade, não
podemos entender o ensino e a pregação de Jesus de Nazaré, pois ele advertiu
constantemente às pessoas que, um dia, o mundo sofreria o julgamento divino.
Eis algumas de suas advertências a respeito do juízo: “Eu, porém, vos digo que
todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a
julgamento” (Mt 5.22); “Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os
homens, dela darão conta no Dia do Juízo” (Mt 12.36); “Ninivitas se levantarão,
no Juízo, com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram com a
pregação de Jonas. E eis aqui está quem é maior do que Jonas” (Mt 12.41). A teologia de Jesus era uma
teologia de crise. A palavra grega crisis significa “julgamento”. E a crise que Jesus pregava era a crise de um julgamento do mundo, pelo qual Deus derramará a sua
ira contra os não-redimidos, os ímpios e impenitentes. A única esperança de
escapar desse derramamento de ira é ser coberto pela expiação de Cristo. Portanto,
a suprema realização da cruz foi que ela aplacou a ira de Deus, que seria
inflamada contra nós, se não fôssemos cobertos pelo sacrifício de Cristo. Se
alguém argumenta contra o aplacamento ou contra a idéia de que Cristo satisfez
a ira de Deus, fique alerta, porque nesse caso o evangelho está em jogo. Isto é
a essência da salvação - as pessoas que estão cobertas pela expiação são
redimidas do supremo perigo ao qual toda pessoa está exposta. Cair nas mãos de
um Deus santo, que se ira, é algo terrível. Mas não há ira para aqueles cujos
pecados foram pagos. Isso é a salvação.
No
seminário, um de meus colegas de classe apresentou um sermão como parte da aula
de homilética. A audiência era os alunos da classe. No final do sermão, cumpria
ao professor dar um resumo de todas as fraquezas e virtudes da apresentação,
incluindo o conteúdo do sermão. Meu colega apresentou um sermão entusiasta
sobre a cruz. Entretanto, aquele professor desprezava o cristianismo ortodoxo e
tinha um ódio terrível à teologia conservadora, por isso se mostrou hostil e
beligerante para com o sermão pregado. O aluno permaneceu no púlpito depois de
expor o sermão, e o professor o desafiou nestes termos: “Como você ousa pregar
a expiação vicária nestes dias e nesta época?” Eu não podia acreditar no que
estava ouvindo. Queria replicar: “O que são estes dias e esta época que
repentinamente tornaram obsoleta a expiação vicária de Cristo?” Eu não fiz isso
e envergonho-me de não tê-lo feito. Talvez agora eu entenda um pouco melhor que
a obra de Jesus na cruz é a própria essência do evangelho. Um Substituto
apareceu no tempo e no espaço, designado por Deus mesmo, para suportar o peso e
o fardo de nossas transgressões, fazer expiação por nossa culpa e propiciar a
ira de Deus em nosso favor. Isso é o evangelho. Portanto, se você remove a
expiação vicária, despoja a cruz de seu significado e drena toda a importância
da paixão de nosso Senhor. Se você faz isso, remove o próprio cristianismo.
Texto extraído do Livro "A Verdade da Cruz" - R. C. Sproul publicado pela Editora Fiel, e disponibilizado em formato Ebook você fazer o download aqui no Ministério Fiel.

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