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A Queda de Adão e a Minha



A Série: A Queda de Adão e a Minha será divida em mais dois textos divididos da seguinte forma:

1º Uma Visão Realista da Queda
2º Visão Federal ou Representativa da Queda

Uma questão difícil que cobre a doutrina da predestinação é a questão de como nossa natureza pecaminosa pode ser herdada de Adão. Se nascemos com uma natureza decaída, se nascemos em pecado, se nascemos num estado de incapacidade moral, como pode Deus considerar-nos responsáveis pelos nossos pecados?

Lembramo-nos que o pecado original não se refere ao primeiro pecado, mas ao resultado daquele primeiro pecado. As Escrituras falam repetidamente de pecado e morte entrando no mundo através da "transgressão de um homem." Como resultado do pecado de Adão, todos os homens são agora pecadores. A queda foi grande. Teve repercussões radicais para a raça humana inteira.

Tem havido muitas tentativas de explicar o relacionamento entre a queda de Adão e o resto da humanidade. Algumas teorias apresentadas são totalmente complexas e imaginativas. Três teorias, contudo, emergiram da lista como as mais amplamente aceitas. A primeira destas chamarei de Teoria do Mito da Queda.

A TEORIA DO MITO DA QUEDA


A teoria do mito da Queda, como o nome sugere, defende que não houve nenhuma queda factual ou histórica. Adão e Eva não são considerados pessoas históricas. São símbolos mitológicos imaginados para explicar ou representar o problema da corrupção humana. A história da Queda na Bíblia é um tipo de parábola; ensina uma lição moral.

De acordo com esta teoria, os primeiros capítulos de Gênesis são mitológicos. Nunca houve um Adão; nunca houve uma Eva.

A própria estrutura da história sugere parábola ou mito, porque inclui elementos como uma serpente falante, e objetos obviamente simbólicos como a árvore do conhecimento do bem e do mal.

A verdade moral comunicada pelo mito é que as pessoas caem em pecado. Pecado é um problema universal. Todos cometem pecado; ninguém é perfeito. O mito aponta para uma realidade mais alta: Toda pessoa é seu próprio Adão. Toda pessoa tem sua própria queda particular. O pecado é uma condição humana universal precisamente porque cada pessoa sucumbe à sua própria tentação particular.

Os elementos atraentes desta teoria são importantes. Em primeiro lugar, esta visão absolve Deus inteiramente de qualquer responsabilidade por considerar futuras gerações de pessoas responsáveis pelo que um casal fez. Aqui, ninguém pode culpar seus pais ou o seu Criador por seu próprio pecado. Neste esquema, meu estado decaído é resultado direto de minha própria queda, e não da queda de outra pessoa.

Outra vantagem desta visão é que ela escapa de toda necessidade de defender o caráter histórico dos capítulos iniciais da Bíblia. Esta visão não sofre nenhuma ansiedade de certas teorias da evolução ou de disputas científicas a respeito da natureza da criação. A verdade factual de um mito nunca necessita ser defendida.

As desvantagens desta visão são mais sérias. Sua falha mais crucial, contudo, é que ela não oferece nada como meio de explicação para a universalidade do pecado. Se cada um de nós nasce sem uma natureza pecaminosa, como somos responsá¬veis pela universalidade do pecado? Se quatro bilhões de pessoas nasceram sem nenhuma inclinação para o pecado, sem nenhu-ma corrupção em sua natureza, poderíamos razoavelmente esperar que pelo menos algumas delas se refreassem de cair. Se nosso estado moral natural é de inocente neutralidade, esperaríamos estatisticamente que metade da raça humana permaneceria perfeita. Eu levo isso em conta porque a queda de uma pessoa inocente apresenta um enorme problema intelectual. Mas quando multiplicamos essa dificuldade pelos milhões de pessoas que caíram, o problema torna-se vários bilhões de vezes mais difícil. Também consideramos que, se uma pessoa criada à imagem de Deus pode cair, então é de fato possível que bilhões possam igualmente cair. É a probabilidade estatística aqui que é tão surpre¬endente. Quando pensamos em uma pessoa caindo, isso é uma coisa. Se todo mundo cai, sem exceção, então começamos a querer saber por quê. Começamos a indagar se o estado natural do homem é tão neutro assim.

A resposta padrão dos advogados da visão do mito é que as pessoas não são universalmente nascidas num ambiente idílico como o Éden. A sociedade é corrupta. Nascemos num ambiente corrupto. Somos como o "inocente selvagem" de Rousseau, que é corrompido pelas influências negativas da civilização.

A explicação pede uma pergunta: Em primeiro lugar, como a sociedade ou a civilização se tornaram corruptas? Se todos nascem inocentes, sem um traço de corrupção pessoal, esperaríamos encontrar sociedades que não são mais do que meio corruptas. Se pássaros de mesma plumagem voam juntos, poderíamos encontrar sociedades onde todos os corruptos andam juntos, e outras sociedades onde o mal nunca está presente. A sociedade não pode ser uma influência corruptora, até que primeiro ela própria se torne corrupta. Para explicar a queda de uma sociedade ou civilização inteira, precisamos enfrentar as dificuldades que já apontamos.

Em outra das famosas obras de Jonathan Edwards, seu tratado sobre o pecado original, ele faz a importante observação que, por ser o pecado do homem universal, mesmo se a Bíblia não dissesse nada sobre uma queda original da raça humana, a razão iria exigir tal explicação. Nada grita mais alto a respeito do fato de sermos nascidos em estado de corrupção do que o fato de que todos pecamos.

Outra questão espinhosa que se levanta é concernente à relação entre pecado e morte. A Bíblia deixa claro que a morte não é "natural" ao homem. Isto é, diz-se repetidamente que a morte entrou no mundo como resultado do pecado. Se é assim, como explicamos a morte de crianças? Se todos os homens nascem inocentes, sem nenhuma corrupção inata, Deus seria injusto ao permitir que bebês ainda não decaídos morressem.

A visão mitológica da Queda precisa também enfrentar o fato de que faz violência radical ao ensinamento da Escritura. A visão faz mais do que meramente interpretar os capítulos de abertura da Bíblia como sendo não factuais. Assim fazendo, a visão coloca-se em clara oposição à visão da Queda do Novo Testamento. Seria preciso ginástica intelectual do tipo mais severo para argumentar que o apóstolo Paulo não ensinou uma queda histórica. Os paralelos que ele traça entre o primeiro Adão e o segundo Adão são muito fortes para permitir isto, a menos que argumentemos que, na mente de Paulo, Jesus foi também um personagem mitológico.

Consideramos que a narrativa da Queda, em Gênesis, contém alguns elementos literários pouco comuns. A presença de uma árvore que não acompanha os padrões de uma árvore normal segue certas imagens de poesia. É conveniente interpretar poesia como poesia e não como narrativa histórica. Por outro lado, há fortes elementos de narrativa histórica em Gênesis 3. A situação do Éden é localizada, no capítulo 2, entre quatro cabeceiras de rios, incluindo Pisom, Giom, Tigre e Eufrates.
Sabemos que as parábolas podem ser ambientadas em locais históricos reais. Por exemplo, a parábola do Bom Samaritano é ambientada no contexto geográfico da estrada para Jerico. Portanto, a mera presença de rios históricos verdadeiros não requer absolutamente que identifiquemos esta seção do Gênesis como narrativa histórica.

Existe outro elemento do texto, contudo, que é mais forte. A narrativa de Adão e Eva contém uma genealogia significativa. Os romanos, com sua inclinação pela mitologia, podem não ter nenhuma dificuldade em traçar sua linhagem até Rômulo e Remo, mas os judeus foram certamente mais escrupulosos a respeito de tais assuntos. Os judeus tinham um forte compromisso com a história verdadeira. A luz da vasta diferença entre a visão judaica da História e a visão grega da História, é impensável que o povo judeu pudesse incluir personagens mitológicos em suas próprias genealogias. Na escrita judaica, a presença da genealogia indica narrativa histórica. Note que o historiador do Novo Testamento, Lucas, inclui Adão na genealogia de Jesus.


E muito mais fácil considerar uma árvore verdadeira servindo como ponto focai de um teste moral e por isso sendo chamada de árvore do conhecimento do bem e do mal, do que acomodar a genealogia a uma parábola ou mito. Isto, é claro, poderia ser feito se outros fatores o exigissem. Mas nenhum de tais fatores existe. Não há nenhuma razão vigorosa pela qual não devamos interpretar Gênesis 3 como uma narrativa histórica, e múltiplas razões pelas quais não devamos tratá-la como parábola ou mito. Tratá-la como história, é tratá-la como os judeus o fizeram, incluindo Paulo e Jesus. Tratá-la de outro modo é comumente motivado por alguma agenda contemporânea, que não tem nada a ver com a história judaica.

** Texto extraído do Livro "Eleitos de Deus" - R. C. Sproul, que pode ser adquirido aqui.

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