
Antes de iniciar a recomendo a leitura do texto 01
Nos anos 50, houve uma famosa série de televisão chamada "Você está lá?" Levava os espectadores, através da mágica da televisão, até conhecidas cenas históricas. Mas, de fato, nenhum aparelho eletrônico ainda foi inventado para nos transportar de volta no tempo, apesar de H. G. Wells. Vivemos no presente. Nosso único acesso ao passado é através de livros, artefatos de arqueologia, e das memórias, nossas e de outros.
Lembro-me de ensinar um curso sobre a Bíblia que envolvia
um breve estudo dos soldados romanos. Mencionei o estandarte romano que
carregava as iniciais SPQR. Perguntei se alguém sabia o que representavam
aquelas letras. Um querido amigo, já na casa dos setenta, falou: Senatus Populus Que Romanus (O Senado e
o Povo de Roma). Sorri para meu amigo e disse-lhe: "Você é a única pessoa
aqui com idade suficiente para se lembrar!"
Nenhum de nós é velho o suficiente para carregar na
memória imagens da queda de Adão. Ou somos? A visão realista da Queda garante
que somos todos suficientemente velhos para nos lembrarmos da Queda. Deveríamos
ser capazes de nos lembrar dela porque realmente estávamos lá.
O realismo não é um exercício de um tipo Bridey-Murphy de
reencarnação. Em vez disso, o realismo é uma séria tentativa de responder ao
problema da Queda. O conceito-chave é este: Não podemos, moralmente, ser tidos
como responsáveis por um pecado cometido por outra pessoa. Para ser
responsáveis, é preciso que tenhamos estado envolvidos, de algum modo, no
próprio pecado. De algum modo, devemos ter estado presentes na Queda. Realmente
presentes. Daí o nome Realismo.
A visão realista da Queda exige algum tipo de conceito da
preexistência da alma humana. Isto é, antes de termos nascido, nossas almas
precisam realmente ter existido. Estavam presentes com Adão na Queda. Caíram
com Adão. O pecado de Adão não foi meramente um ato para nós; foi um ato
conosco. Estávamos lá.
A teoria parece especulativa, talvez mesmo bizarra. Seus
defensores, contudo, apelam para dois textos bíblicos fundamentais como
garantia para esta visão. O primeiro está em Ezequiel 18.2-4:
Que tendes vós, vós que acerca da terra de
Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes e os
dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor
Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são
minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar,
essa morrerá.
Mais adiante, neste capítulo, Ezequiel escreve:
Mas dizeis: Por que não leva o filho a
iniqüidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo, e guardou todos
os meus estatutos, e os praticou, por isso certamente viverá. A alma que pecar,
essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai a iniqüidade do
filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá
sobre este (Ez 18.19,20).
Aqui o realista encontra um texto definitivo para seu
caso. Deus claramente declara que o filho não é considerado culpado pelos
pecados de seu pai. Isto pareceria colocar sérias dificuldades para a idéia
integral de pessoas caindo "em Adão".
O segundo texto fundamental para o realismo é encontrado
no livro de Hebreus, no Novo Testamento:
E, por assim dizer, também Levi, que recebe dízimos,
pagou-os na pessoa de Abraão. Porque aquele não tinha ainda sido gerado por seu
pai, quando Melquisedeque saiu ao encontro deste (Hb 7.9,10).
Este texto é parte de um tratamento mais longo, pelo
autor de Hebreus, concernente ao papel de Cristo como nosso Sumo Sacerdote. O Novo
Testamento declara que Jesus é tanto nosso rei como nosso sacerdote. Lida com o
fato de que Jesus era da linhagem de Judá, para quem o reino havia sido
prometido. Jesus era um filho de Davi, que também era da linhagem de Judá.
O sacerdócio do Antigo Testamento não foi dado a Judá,
mas aos filhos de Levi. Os levitas eram a linhagem sacerdotal. Falamos
normalmente, então, de sacerdócio levítico ou sacerdócio aarônico. Aarão era um
levita. Sendo assim, então, como poderia Jesus ser um sacerdote se ele não era
da linhagem de Levi?
O problema perturbou alguns dos antigos judeus. O autor
de Hebreus argumenta que havia outro sacerdócio mencionado no Antigo
Testamento, o sacerdócio da misteriosa figura chamada Melquisedeque. Diz-se que
Jesus é um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.
Esta porção extensa de Hebreus não fica satisfeita,
contudo, meramente por provar que havia outro sacerdócio no Antigo Testamento,
além do sacerdócio levítico. O maior ponto de argumento aqui é que o sacerdócio
de Melquisedeque era superior ao sacerdócio de Levi.
O autor de Hebreus cita um pouco da história do Antigo
Testamento para provar este ponto. Ele chama a atenção para o fato de que
Abraão pagou dízimos a Melquisedeque, e não Melquisedeque a Abraão.
Melquisedeque também abençoou Abraão; Abraão não abençoou Melquisedeque. O
ponto é este: No relacionamento entre Abraão e Melquisedeque, era Melquisedeque
quem servia como sacerdote, e não Abraão.
Para o judeu, o pensamento-chave é citado no verso 7: "Evidentemente,
é fora de qualquer dúvida que o inferior é abençoado pelo superior".
O autor de Hebreus continua a tecer a trama de seu
argumento. Ele argumenta que, de fato, o pai é superior ao filho. Isso
significa que Abraão está adiante de Isaque na hierarquia patriarcal. Por sua
vez, Isaque está adiante de Jacó, e Jacó de seus filhos, incluindo seu filho
Levi. Se levarmos isso adiante, significa que Abraão é maior do que seu bisneto
Levi.
Agora, se Abraão é maior do que Levi, e Abraão, ele
próprio, é subordinado a Melquisedeque, isso significa que o sacerdote
Melquisedeque é maior do que Levi, e do que toda a linhagem de Levi. A
conclusão é clara. O sacerdócio de Melquisedeque é uma ordem maior de
sacerdócio do que o sacerdócio de Levi. Isto dá suprema dignidade ao ofício
sumo sacerdotal de Cristo.
A maior preocupação, para o autor de Hebreus, não era
explicar o mistério da queda de Adão com tudo isto. Mesmo assim ele diz algo,
ao longo do caminho, a que os realistas se agarram para provar sua teoria. Ele
escreve que "Levi pagou dízimos através de Abraão". Levi fez isto
enquanto ainda "não tinha sido gerado por seu pai".
Os realistas vêem esta referência a Levi fazendo alguma
coisa antes mesmo de ter nascido, como uma prova bíblica para o conceito da
preexistência da alma humana. Se Levi podia pagar dízimos quando ainda não
tinha sido gerado por seu pai, isso deve significar que Levi, de alguma forma,
já existia.
O tratamento desta passagem de Hebreus provoca equívoco.
O texto não ensina explicitamente que Levi existiu ou preexistiu nos lombos de
seu pai. O próprio texto chama isto de "maneira de dizer". O texto
não exige que saltemos para a conclusão que Levi "realmente"
preexistia. Os realistas chegam a este texto armados com uma teoria que eles não
encontraram no texto, e então lêem a história encaixando-a no texto.
O argumento do texto de Ezequiel sempre falha num ponto.
Ezequiel não estava fazendo um discurso sobre a queda de Adão. A queda não está
em foco aqui. Em vez disso, Ezequiel está se dirigindo à desculpa comum que os
homens usam para seus pecados. Eles tentam culpar alguém por suas próprias
transgressões. A atividade humana continuou desde a queda, mas isto é quase
tudo que esta passagem tem a ver com a queda. Na queda, Eva culpou a serpente e
Adão culpou tanto Deus quanto Eva por seus próprios pecados. Ele disse:
"A mulher que Tu me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu
comi" (Gn 3.12).
Desde então, os homens têm tentado transferir a
responsabilidade de sua própria culpa. Ainda, argumentam os realistas, um
princípio é estabelecido em Ezequiel 18 que tem relação com o assunto. O
assunto é que os homens não são considerados culpados pelos pecados de outras
pessoas.
Com certeza esse princípio geral é estabelecido em
Ezequiel. E um grande princípio da justiça de Deus. Ainda assim, não ousamos
fazer dele um princípio absoluto. Se o fizéssemos, então o texto de Ezequiel
provaria coisas demais. Eliminaria o valor da propiciação de Cristo. Se nunca é
possível que uma pessoa seja punida pelos pecados de outra, então não teríamos
Salvador. Jesus foi punido por nossos pecados. Esta é a própria essência do
Evangelho. Não somente Jesus foi punido por nossos pecados, como sua justiça é
a base meritória para nossa justificação. Somos justificados por uma justiça
alheia, uma justiça que não é a nossa própria. Se pressionarmos a declaração de
Ezequiel até o limite absoluto quando lemos que "a justiça do justo será
sobre ele mesmo, e a maldade do ímpio será sobre ele mesmo", ficaremos
então como pecadores que precisam justificar a si próprios. Isso nos coloca em
maus lençóis.
É certo que a Bíblia fala de Deus visitando a iniqüidade
das pessoas na terceira e quarta gerações. Isto se refere às conseqüências do
pecado. Uma criança pode sofrer pelas conseqüências do pecado de seu pai, mas
Deus não o considera responsável pelo pecado de seu pai.
O princípio de Ezequiel permite duas exceções: a cruz e a
Queda. De algum modo, não nos importamos com a exceção da cruz. É a Queda que
nos incomoda. Não nos importamos em ter nossa culpa transferida para Jesus, ou
ter sua justiça transferida para nós; é termos a culpa de Adão transferida para
nós que nos faz lamentar. Nós argumentamos que, se a culpa de Adão nunca
tivesse sido transferida para nós, então a obra de Jesus nunca teria sido
necessária.
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