O pecado domina o coração humano, e se fosse pela sua vontade,
condenaria cada alma. Se não compreendermos nossa própria perversidade ou não
enxergarmos nosso pecado como Deus o vê, não poderemos entendê-lo ou fazer uso
do remédio contra ele. Aqueles que tentam justificá-lo, negligenciam a
justifica-ção de Deus. Até compreendermos quão totalmente repugnante nosso
pecado é, nunca poderemos conhecer a Deus.
O pecado é abominável a Deus. Ele o odeia (cf. Dt 12.31). “Tu és tão
puro de olhos, que não podes ver o mal e a opressão não podes contemplar…” (Hc
1.13). O pecado é contrário à sua própria natureza (Is 6.3; 1 Jo 1.5). A pena
máxima – a morte – é exigida para cada infração contra a lei de Deus (Ez
18.4,20; Rm 6.23). Até a menor transgressão é digna da mesma pena severa: “Pois
qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um ponto, se torna culpado de
todos” (Tg 2.10).
O pecado suja a alma. Ele rebaixa a dignidade da pessoa. Obscurece o
entendimento. Torna-nos piores que animais, pois os animais não podem pecar.
Polui, corrompe, suja. Todo pecado é vulgar, repulsivo e revoltante aos olhos
de Deus. A Bíblia o chama de imundícia (Pv 30.12; Ez 24.13; Tg 1.21). O pecado
é comparado ao vômito, e os pecadores são os cães que voltam ao seu próprio
vômito (Pv 26.11; 2 Pe 2.22). O pecado é chamado de lamaçal, e os pecadores são
os porcos que rolam nele (Sl 69.2; 2 Pe 2.22). O pecado é semelhante ao cadáver
em putrefação, e os pecadores são os túmulos que contêm o malcheiro e a sujeira
(Mt 23.27). O pecado transformou a humanidade em uma raça poluída e imunda.
As terríveis conseqüências do pecado incluem o inferno, sobre o qual
Jesus disse: “E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti;
pois te convém que se perca um dos teus membros, e não vá todo o teu corpo no
inferno” (Mt 5.30). As Escrituras descrevem o inferno como um lugar terrível e
medonho onde pecadores são “ atormentados com fogo e enxofre… ” e “A fumaça do
seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de
dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba
a marca do seu nome” (Ap 14.10,11). Essas verdades se tornam mais alarmantes
ainda quando percebemos que são parte da Palavra inspirada de um Deus de
infinita misericórdia e graça.
Deus quer que entendamos a excessiva pecaminosidade do pecado (Rm 7.13).
Não ousemos encará-lo com leviandade ou rejeitar nossa própria culpa
frivolamente. Quando encaramos o pecado como ele é, é nosso dever odiá-lo. As
Escrituras vão até mais fundo que isso: “Ali, vos lembrareis dos vossos
caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós
mesmos , por todas as vossas iniqüidades que tendes cometido” (Ez
20.43, ênfase acrescentada). Em outras palavras, quando verdadeiramente vemos o
que o pecado é, longe de obter auto-estima, nós nos desprezaremos.
A natureza da depravação humana
O pecado penetra no mais íntimo do nosso ser. Como vimos no capítulo
anterior; o pecado está no âmago da alma humana. “Porque do coração procedem
maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos
testemunhos, blasfêmias. São estas coisas que contaminam o homem” (Mt
15.19,20). “O homem bom do bom tesouro do coração tira o bem, e o mau do mau
tesouro tira o mal; porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).
No entanto, o pecado não é uma fraqueza ou um vício pelo qual não somos
responsáveis. É um antagonismo ativo e intencional contra Deus. Os pecadores
livre e prazerosamente optam pelo pecado. Está na natureza humana amar o pecado
e odiar a Deus. “O pendor da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8.7).
Em outras palavras, o pecado é rebeldia contra Deus. Os pecadores
raciocinam no próprio coração: “Com a língua prevaleceremos, os lábios são
nossos; quem é
o Senhor sobre nós?” (Sl 12.4, ênfase acrescentada). Isaías 57.4
caracteriza os pecadores como crianças rebeldes que abrem sua enorme boca e
mostram a língua para Deus. O pecado destronaria Deus, o destruiria e colocaria
o ego no seu lugar de direito. Todo pecado é, em último caso, um ato de
orgulho, que diz: “Dê o lugar, Deus, eu estou no comando”. Por isso é que todo
pecado, no seu âmago, é uma blasfêmia.
Para começar, amamos nosso pecado; temos prazer nele, buscamos
oportunidades para praticá-lo. No entanto, por sabermos instintivamente que
somos culpados diante de Deus, inevitavelmente tentamos camuflar ou negar nossa
própria pecaminosidade. Há muitas maneiras de fazer isso, como observamos nos
capítulos anteriores. Elas podem ser resumidas, grosso modo, a três categorias:
encobri-lo, justificar-nos e ignorá-lo.
Primeiro, tentamos
encobrir o pecado : Adão e Eva fizeram isso no Jardim, depois de
ter pecado: “Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam
nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si” (Gn 3.7) – então se
esconderam da presença do Senhor (v.8). O rei Davi tentou em vão encobrir sua
culpa quando pecou contra Urias. Ele tinha adulterado com a esposa de Urias,
Bate-Seba. Quando ela ficou grávida, primeiro Davi tramou um plano tentando
fazer parecer que Urias era o pai da criança (2 Sm 11.5-13). Quando o plano não
funcionou, ele conspirou para que Urias fosse morto (vs.14-17). Isso somente
agravou o seu pecado. Durante todos os meses da gravidez de Bate-Seba, Davi
continuou encobrindo o seu pecado (2 Sm 11.27). Mais tarde, quando Davi foi
confrontado com seu pecado, ele se arrependeu e confessou: “Enquanto calei os
meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o
dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em
sequidão de estio” (Sl 32.3,4).
Segundo, tentamos
nos justificar : O pecado é sempre culpa de alguém. Adão culpou
Eva, e a descreveu como “a mulher que me deste” (Gn 3.12; ênfase acrescentada). Isso mostra que ele
também culpava a Deus. Ele não sabia o que era uma mulher até acordar casado
com uma! Deus, raciocinou ele, era o responsável pela mulher que o vitimizou.
Da mesma maneira, nós nos desculpamos pelos nossos erros porque pensamos que a
culpa é de outra pessoa. Ou argumentamos ter um bom motivo. Convencemos a nós
mesmos que é correto retribuir o mal com o mal. (cf. Pv 24.29; 1 Ts 5.15; 1 Pe
3.9). Ou então pensamos que se os motivos finais são bons, o mal pode ser
justificado – raciocínio errado de que os fins justificam os meios (Rm 3.8).
Chamamos o pecado de desequilíbrio, rotulamos a nós mesmos de vítimas ou
negamos que os nossos atos sejam pecaminosos. A mente humana é de uma
criatividade sem-fim quando se trata de encontrar mecanismos para justificar o
mal.
Terceiro, ignoramos
nosso próprio pecado : Sempre pecamos por ignorância ou presunção.
Por isso Davi orou: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me
das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me
domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão” (Sl
19.12,13). Jesus nos advertiu sobre a loucura de tolerar uma trave nos nossos
olhos e nos preocuparmos com um argueiro no olho do outro (Mt 7.3). Pelo fato
de o pecado ser tão difuso, nós naturalmente tendemos a nos tornar insensíveis
ao nosso próprio pecado, do mesmo modo que o gambá não é incomodado pelo seu
próprio mau cheiro. Até mesmo uma consciência supersensível pode não saber
todas as coisas (cf. 1 Co 4.4).
O pecado não se expressa necessariamente por atos. Atitudes pecaminosas,
disposições pecaminosas, desejos pecaminosos e um estado pecaminoso de coração
são tão repreensíveis quanto as ações que ele produz. Jesus disse que a ira é
tão pecaminosa quanto o homicídio, e a concupiscência tanto quanto o adultério
(Mt 5.21-28).
O pecado é de tal maneira enganoso que torna o pecador insensível contra
sua própria perversidade (Hb 13.3). É natural desejarmos minimizar nosso
pecado, como se ele não fosse de fato uma grande coisa. Afinal de contas,
dizemos a nós mesmos, Deus é misericordioso, não é? Ele compreende nosso pecado
e não pode ser tão duro conosco, não é mesmo? Mas raciocinar dessa maneira é
deixar-se ludibriar pela astúcia do pecado.
O pecado, de acordo com as Escrituras, é “a transgressão da lei” (1 Jo
3.4). Em outras palavras, “aquele que pratica o pecado também transgride a lei,
porque o pecado é a transgressão da lei”. Pecado, portanto, é qualquer falta de
conformidade com o perfeito padrão moral de Deus. A exigência central da lei de
Deus é que o amemos: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda
a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento” (Lc 10.27).
Sendo assim, a falta de amor a Deus é a epítome de todo pecado.
Mas “o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à
lei de Deus, nem mesmo pode estar” (Rm 8.7). Nossa aversão natural à lei é tal
que mesmo sabendo o que a lei requer, ela suscita em nós uma ânsia pela
desobediência. Paulo escreveu: “as paixões pecaminosas postas em realce pela
lei… eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não
teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás” (Rm 7.5-7). A
inclinação do pecador pelo pecado é tal que este o controla. Ele é escravo do
pecado, porém o busca com uma fome insaciável e com toda paixão do seu coração.
** John Macarthur, Jr. disponível em Monergismo

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