Com
vergonha do evangelho: quando a Igreja se torna como o mundo[1]
“O fato é que muitos gostariam de
unir igreja e palco, baralho e oração, danças e ordenanças. Se nos encontramos
incapazes de frear essa enxurrada, podemos, ao menos, prevenir os homens quanto
à sua existência e suplicar que fujam dela. Quando a antiga fé desaparece e o
entusiasmo pelo evangelho é extinto, não é surpresa que as pessoas busquem outras
coisas que lhes tragam satisfação. Na falta de pão, se alimentam com cinzas;
rejeitando o caminho do Senhor, seguem avidamente pelo caminho da tolice”.
Charles Haddon Spurgeon
No “final do
século XIX... a ‘Era da Exposição’ começou a passar, e os primeiros sinais de
sua substituição começaram a ser percebidos. Em seu lugar surgiu a ‘Era do Show
Business’”.
Enquanto Charles Spurgeon
batalhava Na Controvérsia do Declínio,
uma tendência mundial começava a emergir, a qual estabeleceria o curso dos afazeres
humanos em todo o século XX. Era o surgimento do entretenimento como o centro
da vida familiar e cultural. Essa mesma tendência viu o declínio do que Neil
Postman chamou de “A Era da Exposição”, cuja característica era uma ponderada
troca de idéias, de forma escrita e verbal (pregação, debates, preleções). Isso
contribuiu para o surgimento da “Era do Show Business’” – na qual a diversão e
o entretenimento se tornaram os aspectos mais importantes e que mais
consumiriam o tempo de conversa das pessoas. Dramatização, filmes e,
finalmente, a televisão colocaram o “Show Business” no centro de nossas vidas –
em última análise, bem no centro de nossa sala de estar.
No “Show Business”, a verdade é
irrelevante; o que realmente importa é se estamos sendo ou não entretidos.
Atribui-se pouco valor ao conteúdo; o estilo
é tudo. Nas palavras de Marshall McLuhan, o veículo é a mensagem. Infelizmente,
hoje essa forma de pensar norteia tanto a igreja quanto o mundo.
Em 1955, A. W. Tozer escreveu as
seguintes palavras: “Durante séculos a igreja manteve-se firme contra toda
forma de entretenimento mundano, reconhecendo-o como um dispositivo para se
perder tempo, um refúgio contra a perturbadora voz da consciência, um plano
para se desviar a atenção de contas quanto à moral. Por manter sua posição, ela
sofreu abusos por parte dos filhos deste mundo. Ultimamente, entretanto, ela se
cansou de ser abusada e simplesmente desistiu da luta. Parece Ter firmado a
posição de que, se não pode vencer o deus do entretenimento, o melhor que pode
fazer é unir suas forças às dele e aproveitar o máximo de seus poderes. Por
isso, contemplamos hoje o assombroso espetáculo de milhões de dólares sendo
vertidos no negócio nada santo de prover entretenimento mundano aos chamados
filhos dos céus. O entretenimento religioso está, em muitos lugares,
rapidamente desalojando as sérias coisas de Deus. Muitas igrejas, em nossos
dias, se tornaram nada mais que pobres teatros onde “produtores” de quinta categoria
mascateiam suas mercadorias de baixo valor com plena aprovação dos seus líderes
evangélicos, que chegam a citar textos bíblicos para justificar tal
delinqüência. E é difícil acharmos alguém que ouse levantar a sua voz contra
isso”.
De acordo com os padrões da
atualidade, as questões que tanto inflamaram as paixões de Tozer parecem
insignificantes. Por exemplo, igrejas estavam atraindo pessoas para seus cultos
de Domingo à noite através da apresentação de filmes cristãos. Encontros de
jovens eram realizados tendo como atração a música contemporânea e palestrantes
cuja especialidade era o humor. Jogos e atividades onde se gasta muita energia
passaram a desempenhar um papel chave no trabalho com os jovens das igrejas.
Olhando para trás, parece difícil entendermos a angústia de Tozer. Raramente
alguém hoje fica chocado ou preocupado com quaisquer métodos que pareciam radicalmente
inovadores nos anos cinqüenta. A maioria deles é hoje vista com naturalidade.
Entretanto, Tozer não estava
condenando jogos, estilos musicais ou filmes em si mesmos. Ele estava perplexo
a respeito da filosofia que estava por trás do que vinha acontecendo à igreja.
Ele soou o alarme contra a mortal mudança de enfoque. Contemplou os evangélicos
fazendo uso do entretenimento como uma ferramenta para o crescimento da igreja,
acreditava que isso eqüivalia à subversão das prioridades da igreja. Temia que
os desvios frívolos e as diversões carnais da igreja, em última análise,
destruiriam o apetite das pessoas pela verdadeira adoração e pela pregação da
Palavra de Deus.
Tozer estava certo quanto a isso.
Aliás, a sua repreensão revela-se a cada dia mais apropriada. Ele e Spurgeon,
que o precedeu, estavam identificando uma tendência que desabrochou por
completo em nossa geração. Aquilo com que a igreja flertava à época de Spurgeon
tornou-se fascinação na época de Tozer. Atualmente, tornou-se uma obsessão. E o
que é mais prejudicial ainda é que as formas de entretenimento encontradas hoje
na igreja são, com freqüência, completamente seculares, destituídas de qualquer
aspecto cristão.
Um artigo escrito no The Wall Street Journal descreveu a
proposta de uma conhecida igreja no sentido de “reanimar a assistência aos
cultos dominicais noturnos”. A igreja “exibiu uma luta livre entre seus
empregados. Tendo em vista a preparação para o evento, dez funcionários foram
instruídos por Tugboat Taylor, um ex-lutador profissional, em puxar os cabelos,
chutar os queixos dos outros e arremessar seus corpos ao chão sem lhes causar
qualquer dano”. Isto não trouxe dano físico algum aos funcionários da igreja,
mas qual o efeito de tal exibição sobre a mensagem anunciada por aquela igreja?
O evangelho não se torna deturpado e pessimamente caricaturado por esse tipo de
palhaçada? Você poderia imaginar o que Spurgeon ou Tozer teriam pensado a
respeito disso? (...) O episódio aconteceu em um culto de Domingo à noite em
uma das cinco maiores igrejas evangélicas dos Estados Unidos. Outros exemplos
poderiam ser citados de várias das mais destacadas igrejas, supostamente
pertencentes aos principais grupos da ortodoxia evangélica.
Alguns afirmarão que, se os princípios
bíblicos forem apresentados, o instrumento para fazê-lo não é importante. Isso
é bobagem. Se o entretenimento é a chave para conquistar pessoas, por que não
sairmos completamente do prumo? Por que não termos um verdadeiro carnaval?
Poderíamos contar com um acrobata tatuado, andando sobre um fio bem alto,
fazendo malabarismos com as mãos e recitando versículos, enquanto um cão
treinado se equilibraria na sua cabeça. Isso certamente atrairia uma multidão.
E o conteúdo da mensagem ainda seria
bíblico. É um cenário bizarro, mas ilustra bem como o veículo pode baratear e
corromper a mensagem.
Infelizmente, isso não é tão
diferente do que está, de fato, sendo realizado em algumas igrejas. Parece não
haver limites com relação ao que alguns líderes na igreja moderna farão, a fim
de atrair pessoas que não se interessam por adoração e pregação. Muitos já se
renderam à idéia de que a igreja precisa conquistar os homens através do
oferecer-lhes uma forma alternativa de entretenimento.
Até que ponto a igreja irá em sua
competição com Hollywood? Uma grande igreja do sudoeste dos Estados Unidos
acaba de instalar um sistema de efeitos especiais, que custou meio milhão de
dólares, capaz de produzir fumaça, fogo, faíscas e luzes de lazer no auditório.
A igreja enviou alguns de seus membros para estudar, ao vivo, os efeitos
especiais de Bally’s Casino, em Las Vegas. O pastor terminou um dos cultos
sendo elevado ao “céu” por meio de fios invisíveis que o tiraram da vista do
auditório, enquanto o coral e a orquestra adicionavam um toque musical à
fumaça, ao fogo e ao jogo de luzes. Para aquele pastor, tudo não passou de um
típico Show dominical: “Ele lota a sua igreja através desses artifícios especiais,
tais como derrubar uma árvore com uma serra para ilustrar um ponto de sua mensagem...
realizar o maior espetáculo de fogos do 4 de julho da cidade e um culto de
Natal com um elefante, um canguru e uma zebra alugados. O Show de Natal
apresenta 100 palhaços com presentes para as crianças da igreja”.
Bobagens desse gênero teriam sido
o conteúdo dos piores pesadelos de Spurgeon. Até mesmo Tozer não poderia Ter
previsto o extremo ao qual os evangélicos chegariam em render homenagens ao
grande deus entretenimento.
Energizados Pelo
Pragmatismo
Não há como negar
que essas excentricidades funcionam, isto é, atraem a multidão. Muitas igrejas
que experimentaram tais métodos relatam desfrutar um crescimento numérico na
assistência a seus cultos. E uma porção de mega-igrejas – aquelas que podem
pagar por produções, efeitos e instalações de primeira classe – têm se mostrado
capazes de estimular um grande crescimento numérico. Algumas delas enchem
auditórios enormes, com milhares de pessoas, várias vezes por semana.
Algumas dessas megas igrejas
relembram elegantes clubes de campo ou estâncias de férias. Possuem instalações
que impressionam, incluindo boliche, cinema, spas, restaurantes, quadras para
jogos, rinques de patinação e ginásios poliesportivos de última geração. A
recreação e o entretenimento são, inevitavelmente, os aspectos mais visíveis
destes empreendimentos. Tais igrejas tornaram-se as Mecas dos estudantes de
crescimento de igreja.
No momento, os evangélicos em
toda parte estão procurando freneticamente novas técnicas e formas de
entretenimento para atrair o povo. Seja o método bíblico ou não, hoje isso não
parece Ter importância para o líder de igreja. Produz resultados? Esse é o novo parâmetro para a legitimidade em
nossos dias. Dessa forma, o pragmatismo tem se tornado a força impulsionadora
de muitas das igrejas professas de nossos dias.
É Hora do
Espetáculo!
Quando Charles Spurgeon nos
advertiu a respeito daqueles que “gostaria de unir igreja e palco, baralho e
oração, danças e ordenanças”, foi menosprezado como um alarmista. Mas a
profecia de Spurgeon se cumpriu diante de nossos olhos. As igrejas modernas são
construídas assemelhando-se a teatros (“casas de divertimento”, Spurgeon as
chamou). Em lugar do púlpito, o enfoque está no palco. As igrejas estão
contratando, em regime de tempo integral, especialistas em mídia, consultores
de programação, diretores de cena, professores de teatro, peritos em efeitos
especiais e coreógrafos.
Tudo isso não passa da extensão
natural de uma filosofia norteada por marketing seguida pelas igrejas. Se a
igreja funciona apenas com o objetivo de
promover um produto, é bom mesmo que
seus líderes prestem atenção aos métodos da Avenida Madison. Afinal, a maior
competição para a igreja é um mundo repleto de diversões seculares e uma gama
de bens e serviços mundanos. Portanto, dizem os especialistas de marketing,
jamais conquistaremos as pessoas até que desenvolvamos formas alternativas de
entretenimento a fim de ganhar-lhes a atenção e a lealdade, desviando-as das
ofertas do mundo. Desta forma, esse alvo estipula a natureza da campanha de marketing.
E o que há de errado nisso? Por
um lado, a igreja não deveria mercadejar seu ministério, como sendo uma
alternativa aos divertimentos seculares (1 Ts 3.2-6). Isto acaba corrompendo e
barateando a verdadeira missão da igreja. Não somos apresentadores de carnaval,
ou vendedores de carros usados, ou camelôs. Somos embaixadores de Cristo (2 Co
5.20). Conhecendo o temor do Senhor (v.11), motivados pelo amor a Cristo (v.
14), tendo sido completamente transformados por Ele (v. 17), imploramos aos
pecadores que se reconciliem com Deus (v. 20).
Também, em lugar de confrontar o
mundo com a verdade de Cristo, as mega-igrejas norteadas por marketing estão
promovendo com entusiasmo as piores técnicas da cultura secular. Alimentar o
apetite das pessoas por entretenimento apenas agrava o problema das emoções
insensatas, da apatia e do materialismo. Com toda franqueza, é difícil conceber
uma filosofia de ministério mais contrária ao padrão que o Senhor nos confiou.
Proclamar e expor a Palavra,
visando o amadurecimento e a santidade dos crentes deveria ser âmago do
ministério de toda igreja. Se o mundo olha para a igreja e vê ali um centro de
entretenimento, estamos transmitindo a mensagem errada. Se os cristãos enxergam
a igreja como um salão de diversões, a igreja morrerá. Uma senhora,
inconformada com sua igreja, que tinha abraçado todas essas excentricidades
modernas, queixou-se recentemente: “Quando é que a igreja vai parar de tentar
entreter os bodes e voltar a alimentar as ovelhas?”
Nas Escrituras, nada indica que a
igreja deveria atrair as pessoas a virem a Cristo através do apresentar o
Cristianismo como uma opção atrativa. Quanto ao evangelho, nada é opcional: “E
não há salvação em nenhum outro; porque debaixo do céu não existe nenhum outro
nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4.12). Tampouco
o evangelho tem o objetivo de ser atraente, no sentido do marketing moderno. Conforme
já salientamos, freqüentemente a mensagem do evangelho é uma “pedra de tropeço
e rocha de escândalo” (Rm 9.33; 1 Pe 2.8). O evangelho é perturbador, chocante,
transtornador, confrontador, produz convicção de pecado e é ofensivo ao orgulho
humano. Não há como “fazer marketing” do evangelho bíblico. Aqueles que
procuram remover a ofensa, ao torná-lo entretenedor, inevitavelmente corrompem
e obscurecem os pontos cruciais da mensagem. A igreja precisa reconhecer que
sua missão nunca foi a de relações públicas ou de vendas; fomos chamados a um
viver santo, a declarar a inadulterada verdade de Deus – de forma amorosa, mas
sem comprometê-la – a um mundo que não crê.
O Crescimento
Numérico é Um Alvo Digno?
Convém dizer que
não me oponho a igrejas grandes ou ao crescimento da igreja. A Grace Community
Church, fundada há mais de trinta e cinco anos, tem experimentado um crescimento
expressivo em toda a sua história. Aos domingos, quase dez mil pessoas assistem
os nossos cultos. Passamos por ciclos de crescimento seguidos de “planaltos”.
No momento, desfrutamos de outra fase de crescimento expressivo.
Oponho-me ao pragmatismo tão
freqüentemente defendido por especialistas em crescimentos de igreja, que
colocam o crescimento numérico acima do crescimento espiritual, crendo que
podem induzir esse crescimento numérico por seguirem quaisquer técnicas que parecem
produzir resultados naquele momento. O modismo provocado por essa filosofia
está se tornando mais e mais indisciplinado. Está afastando as pessoas das
igrejas bíblicas e desviando as igrejas das prioridades bíblicas, enquanto faz
surgir um punhado de mega-igrejas cujo crescimento depende da capacidade de se
antecipar e responder adequadamente à próxima tendência cultural que aparecerá.
A igreja foi atraída para longe do verdadeiro avivamento e seduzida por aqueles
que advogam a popularização do cristianismo.
E, infelizmente, a maioria dos cristãos parece desatenta ao problema,
satisfeita com um cristianismo que está na moda e que é altamente vistoso.
É o crescimento numérico um alvo
digno no ministério da igreja? É lógico que nenhum bom líder da igreja
argumentaria seriamente contra o crescimento numérico, considerando-o inerentemente
indesejável. E ninguém crê que a estagnação ou o declínio numérico devem ser
buscados. Mas, o crescimento numérico é sempre o melhor indicador da saúde da
igreja?
Concordo com George Peters, que
escreveu: “O crescimento quantitativo... pode ser enganador. Pode não ser mais
do que a proliferação de um movimento social ou psicológico mecanicamente induzido,
uma contagem numérica, uma aglomeração de indivíduos ou grupos, um crescimento
de um corpo sem o desenvolvimento dos músculos e dos órgãos vitais. Talvez se
trate de uma forma de cristandade, mas não da emergência do verdadeiro
cristianismo. Muitos movimentos que alcançaram os povos no passado , tais como
movimentos comunitários e tribais, foram assim. Um exemplo disso encontra-se
nas adesões em massa na Europa, em especial na França e Rússia, quando muitos
foram levados ao batismo e trazidoa para dentro da igreja, resultando em um
grande número de pessoas que professavam a crsitandade, mas não resultando em
uma dinâmica, vibrante, crescente e responsável igreja de Jesus Cristo...
Precisamos admitir... que, em grande parte, essa expansão da forma, da
profissão e do nome da cristandade manifesta pouca semelhança ao cristianismo
definido no Novo Testamento e à igreja retratada no livro de Atos”.
De muitas formas, a expansão da
cristandade veio em detrimento da pureza do evangelho e da verdadeira ordem e
vida cristã. A igreja tornou-se infestada de práticas e crenças pagãs e sincretista
em sua teologia... Grandes segmentos tornaram-se cristo-pagãos.
Nenhum texto das Escrituras
indica que os líderes eclesiásticos deveriam estipular alvos para o seu
crescimento numérico da igreja. Ouçam como o apóstolo Paulo descreveu o processo
de crescimento da igreja: “Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus. De modo que nem o que planta é alguma
cousa, nem o que rega, mas Deus, que dá o
crescimento” (1 Co 3.6,7).
Se nos preocuparmos com a profundidade de nosso ministério, Deus
cuidará de sua largura. Se ministrarmos tendo em vista o crescimento
espiritual, o crescimento numérico será aquilo que Deus tenciona que seja.
Afinal de contas,
qual o benefício de um crescimento numérico que não está arraigado em um
compromisso com o Senhorio de Cristo? Se as pessoas vêm à igreja primariamente
por considerarem isso divertido, em breve hão de abandoná-la, tão logo acabe o
entretenimento ou tão logo encontrem algo mais interessante. Desta forma, a
igreja é forçada a participar de um ciclo vicioso, onde precisa constantemente
sobrepujar cada espetáculo com algo maior e melhor.
As Raízes
Pragmáticas do Movimento de Crescimento de Igreja
O pragmatismo como
filosofia de ministério ganhou ímpeto a partir do movimento de crescimento de
igreja que floresceu nos últimos cinqüenta anos. Donald McGravan, o pai do
moderno movimento de crescimento de igreja, foi um pragmatista descarado. Ele
afirmou:
“Criamos métodos e políticas missionárias à luz do que Deus abençoou e
à luz daquilo que Ele, obviamente, não abençoou. A indústria chama isso de
“modificar operações à luz da realimentação”. Nada atrapalha tanto as missões
transculturais quanto os métodos, instituições e políticas que deveriam atrair
as pessoas a Cristo, mas não o fazem; que deveriam multiplicar as igrejas, mas
não o fazem. Se um método não contribui para a glória de Deus e para a expansão
da igreja de Cristo, jogue-o fora e arranje algo que o faça. Quanto aos
métodos, somos ousadamente pragmáticos; a doutrina é algo diferente”.
Como jovem missionário na Índia e
sendo filho de missionários, McGravan percebeu que era comum ver organizações
missionárias labutar na Índia durante muitos anos, e colher pouco ou nenhum
fruto. A sua própria agência missionária plantou apenas vinte ou trinta
pequenas igrejas em várias décadas de esforço missionário. McGravan, então,
resolveu desenvolver uma estratégia para missões que observasse quais métodos
produziriam resultados e quais não funcionavam. “De acordo com sua própria
declaração no prefácio de um livro de sua co-autoria, na década de 30, ele se
dedicou a ‘descartar teorias de crescimento de igreja que não têm bom êxito e a
aprender e praticar modelos produtivos...’”
O pragmatismo de McGravan parece
ter sido motivado por uma legítima preocupação com mordomia. Ele “ficou
assustado ao perceber que muitos dos recursos de Deus – humanos e financeiros –
estavam sendo usados, sem que ninguém questionasse se o reino de Deus estava
avançando ou não, através dos programas que eles estavam sustentando”. Mas o
pragmatismo acabou se tornando a base filosófica para quase tudo que McGravan
ensinou, e isso, por sua vez, tornou-se a agenda de todo o movimento moderno de
crescimento de igreja.
McGravan fundou o Instituto de
Crescimento de Igreja, que em 1965 se uniu à Escola Fuller de Missões Mundiais.
A partir dali, os preceitos do pragmatismo têm alcançado praticamente todos os
campos missionários do mundo.
C. Peter Wagner, professor do
crescimento de igreja na Escola Fuller de Missões Mundiais, é o mais conhecido
dos alunos de Donald McGravan. Atualmente, Wagner é o porta-voz mais profílico,
se não o mais influente, do movimento de crescimento de igreja. Ele escreveu
acerca do pragmatismo inerente ao movimento: “ O Movimento de Crescimento
de Igreja sempre enfatizou o pragmatismo, e ainda o faz, embora muitos o tenham
criticado. Não é o tipo de pragmatismo que compromete a doutrina ou a ética ou
que desmumaniza as pessoas, usando-as como instrumento para um determinado
propósito. Entretanto, é um tipo de pragmatismo consagrado que examina
impiedosamente os programas e as metodologias tradicionais, questionando-as com
severidade. Se algum tipo de ministério em uma igreja não está atingindo os
alvos tencionados, o pragmatismo consagrado diz que há algo de errado e precisa
ser corrigido”.
Wagner, como a maioria dos
envolvidos no movimento de crescimento de igreja, reivindica que o “pragmatismo
consagrado”, que ele advoga, não permite, comprometimento doutrinário ou ético.
“A Bíblia não nos consente pecar, a fim de que a graça seja mais abundante, ou
não permite usarmos quaisquer meios que Deus tenha proibido, a fim de alcançarmos
os fins que Ele nos recomendou”, Wagner destaca corretamente.
“Mas, com esta estipulação”, ele
continua, “temos de perceber nitidamente que os fins, de fato, justificam os meios. O que mais poderia justificar os
meios? Se o método que estou utilizando alcança o alvo a que me propus, por
essa razão é um bom método. Se, por outro lado, o método não está atingindo o
alvo, como posso justificar-me por continuar utilizando-o?”
Isso é verdade? Não, com toda
certeza. Especialmente se “o alvo a que me propus” é um alvo numérico sem o
aval bíblico ou se o “método que não está atingindo o alvo” é a pregação cristalina
da Palavra de Deus. É precisamente esta maneira de pensar que está retirando a
exposição bíblica do ministério cristão, substituindo-a por espetáculos de variedades.
Um best-seller recente dá um
passo além: “É... crucial termos em mente o princípio da comunicação cristã: o
auditório, e não a mensagem, é soberano. Se nossa pregação almeja fazer com que
as pessoas parem, em meio a uma agenda confusa, e reflitam sobre o que lhes
estamos dizendo, nossa mensagem terá de
se adaptar às necessidades do auditório. Quando pregamos algo que se baseia
na proposição do pegue-ou-largue, em vez de uma sensibilidade e resposta às
necessidades das pessoas, estas acabarão, invariavelmente, rejeitando nossa
mensagem”.
O que teria acontecido se os
profetas do Antigo Testamento tivessem endossado essa filosofia? Jeremias, por
exemplo, pregou durante quarenta anos sem ver qualquer resultado significativo.
Pelo contrário, seus conterrâneos ameaçaram matá-lo, se não parasse de profetizar
(Jr 11.19-23); sua própria família e amigos conspiraram contra ele (12.6); por
não ser permitido casar-se, teve de sofrer uma solidão agonizante (16.2); houve
conspirações secretas para matá-lo (18.20-23); foi ferido e colocado no tronco
(20.1,2); foi espionado por amigos que buscavam vingança (v. 10); foi consumido
por desgosto e vergonha, chegando a amaldiçoar o dia em que nasceu (v. 14-18);
e por fim foi injuriado e considerado um traidor de sua própria nação
(37.13,14). Ele foi açoitado e atirado em um calabouço, passando ali muitos
dias sem comer (v. 15-21). Se um etíope não tivesse intercedido em seu favor,
Jeremias teria morrido ali. Por fim, a tradição ensina que ele foi exilado para
o Egito, onde foi apedrejado e morto por seu próprio povo. Jeremias não teve
convertidos a apresentar como fruto de uma vida toda de ministério.
Suponhamos que Jeremias tivesse
assistido um seminário sobre o crescimento de igreja e aprendido uma filosofia
pragmática de ministério. Você acha que isso teria mudado seu estilo de ministério
confrontador? Podem imaginá-lo apresentando um Show de variedades ou utilizando
o humor para tentar conseguir o afeto das pessoas? Ele poderia Ter aprendido
como reunir uma multidão apreciável, mas certamente não teria realizado o ministério
para o qual Deus o chamara.
O apóstolo Paulo também não usou
um método baseado em técnicas de marketing, embora alguns autodenominados experts tenham procurado mostrá-lo como
modelo para o neopragmatismo. Um dos que advogam as técnicas de marketing
afirma: “Paulo foi o maior de todos os peritos em táticas. Constantemente ele
estudava as estratégias e táticas para identificar as que lhe permitiriam
atrair o maior número de ‘candidatos’ e
conseguir o maior número possível de conversões”. É claro que a Bíblia nada diz
em respaldo a essa afirmação. Pelo contrário, o apóstolo Paulo evitou métodos
engenhosos e artifícios que o conduzissem as pessoas a falsas conversões,
através da persuasão carnal. Ele memo escreveu:
Eu, irmão, quando fui Ter
convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem
ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e
este crucificado. E foi com fraqueza, temor e grande tremor que eu estivesse
entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem
persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a
vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e, sim, no poder de Deus (1 Co
2.1-5).
À igreja em Tessalônica ele
relembrou: “Pois a nossa exortação não procede de engano, nem de impureza, nem
se baseia em dolo; pelo contrário, visto que fomos aprovados por Deus, a ponto
de nos confiar ele o evangelho, assim falamos, não para que agrademos a homens,
e, sim, a Deus, que prova o nosso coração. A verdade é que nunca usamos de linguagem
de bajulação, como sabeis, nem de intuitos gananciosos. Deus disto é
testemunha. Também jamais andamos buscando glória de homens, nem de vós, nem de
outros” (1Ts 2.3-6). A exatidão bíblica é o único
critério pelo qual devemos avaliar nossos métodos de ministério.
Qualquer filosofia de ministério
do tipo “fins-que-justificam-os-meios” inevitavelmente comprometerá a doutrina,
a despeito de qualquer proposição em contrário. Se a eficácia se tornar o
indicador do que é certo ou errado, sem a menor dúvida nossa doutrina será diluída.
Em última análise, o conceito de verdade para um pragmatista é moldado pelo que
parece ser eficaz e não pela revelação objetiva das Escrituras.
Uma consideração da metodologia
do movimento de crescimento de igrejas revela como isso acontece. O movimento
estuda todas as igrejas que estão
crescendo, até mesmo aquelas que possuem doutrinas falsas no âmago de seu
ensino. Igrejas denominacionais liberais, seitas carismáticas extremadas e
ditaduras de hiper-fundamentalismo militante são observadas para o escrutínio
dos especialistas. Às vezes, princípios de crescimento são tirados até mesmo
das igrejas dos mórmons ou dos Salões do Reino das Testemunhas de Jeová. O
especialista em crescimento de igreja procura características comuns a todas as
igrejas que estão crescendo e advoga quaisquer métodos que pareçam estar
produzindo resultados. E a questão principal é sempre o crescimento numérico.
Será que devemos crer que o
crescimento em uma igreja não-cristã comprova que Deus está ali operando?
Deveríamos utilizar a metodologia de grupos religiosos que corrompem o
evangelho? Não é justo questionarmos se qualquer crescimento resultante de tais
métodos é ilegítimo, sendo engendrado por meios carnais? Afinal, se um método
demonstra ser bem-sucedido tanto para uma determinada seita quanto para o povo
de Deus, não existe razão para supormos que os resultados positivos são
sinônimo da bênção de Deus.
Algo que está completamente
ausente da maior parte da literatura sobre crescimento de igreja é uma análise
crítica da eficiente plataforma doutrinária sobre a qual muito do crescimento
da igreja contemporânea é construído. Certo autor, falando acerca de Peter Wagner,
disse: “Wagner não faz avaliação negativa de quem quer que seja. Ele fez sua
carreira a partir da descoberta do que é bom em igrejas que estão crescendo e
em ratificar isso, sem fazer muitas perguntas críticas. Isso lhe permite apresentar
como modelos de vida de igreja não apenas as Igrejas Vineyard, de John Wimber,
mas também a Catedral de Cristal, de Robert Schuller, toda a denominação
Batista do Sul e qualquer outra denominação que esteja em crescimento”. O fato
de uma igreja estar crescendo é freqüentemente confundido com a aprovação divina.
Afinal, as pessoas raciocinam, por que ser crítico sobre qualquer ensinamento
que Deus está abençoando com crescimento numérico? Não é melhor tolerar as
imperfeições doutrinárias e os lapsos de ortodoxia, por amor ao crescimento e à
unidade? Desta forma, o pragmatismo amolda e dá forma à perspectiva doutrinária
das pessoas.
O próprio Peter Wagner, por
exemplo, anteriormente um não-carismático, mudou seu pondo de vista a fim de
aceitar o movimento de sinais e maravilhas e o movimento da “Terceira Onda”,
por razões que são amplamente pragmáticas. E ele é bastante franco a esse respeito:
“Orgulho-me de estar entre os que advogam o evangelismo de poder como uma ferramenta
importante para o cumprimento da grande comissão em nossos dias. Uma das razões
por que estou tão entusiasmado é que o evangelismo de poder está produzindo resultados. Em geral, o
evangelismo mais eficaz do mundo contemporâneo é o que vem acompanhado por
manifestações de poder sobrenatural”. É óbvio, então, que o pragmatismo de
Wagner moldou a sua doutrina e não vice-versa.
Ele admite isso. Declara que a
metodologia do movimento de crescimento de igrejas é “fenomenológica” e não
teológica. Wagner admite que essa abordagem “pode parecer totalmente subjetiva
para teólogos tradicionais”. E continua: “Como ponto de partida, o crescimento
de igreja sempre focaliza o ‘é’ antes de olhar para o ‘deveria ser’... O que os
cristãos experimentaram acerca da obra de Deus no mundo e em suas vidas nem
sempre é precedido de cuidadosas racionalizações teológicas. Muitas vezes, a
seqüência é exatamente o oposto: a teologia é moldada pela experiência cristã”.
Sendo este o caso, não é sem
sentido a afirmação de Wagner ao falar que seu pragmatismo “não é do tipo que
compromete a doutrina”? Afinal, se a experiência sugere que sinais e maravilhas
são ferramentas eficazes para o crescimento de igreja e se é legítimo permitir
que nossa experiência molde nossa teologia, é lógico que alguém modifique sua
doutrina – como fez o próprio Wagner – para acomodar-se a alguma observação
pragmática e heurística. Deve-se, então, simplesmente, encontrar uma forma de
se reinterpretar ou adaptar as Escrituras a fim de que estas se encaixem em
qualquer esquema doutrinário que o pragmatismo pareça impor.
É tolice pensar que alguém pode
ser bíblico e pregamático, ao mesmo
tempo. O pragmatista deseja saber o que
produz resultados. O pensador bíblico se importa tão-somente com o que a Bíblia ordena. As duas
filosofias se opõem mutuamente no nível mais básico.
A Era do
Pragmatismo
Não obstante, o pragmatismo
filosófico nunca tem estado mais popular nas igrejas evangélicas. O movimento
de crescimento de igrejas, que por muitos anos foi um importante fator na
atividade missionária mundial, está agora exercendo tremenda influência no
evangelicalismo ocidental. As galinhas do pragmatismo estão voltando ao lar
para se empoleirarem. As igrejas da América do Norte estão, às centenas,
experimentando as metodologias pragmáticas, e o resultado tem sido uma explosão
de interesses em técnicas inovadoras a respeito de crescimento de igreja. O movimento
de crescimento de igrejas fez uma aliança extra-oficial com aqueles que crêem
ser o evangelismo primordialmente uma aventura de marketing.
O pragmatismo na igreja reflete
bem o espírito de nossa época. Livros com títulos tais como: Marketing seu Próprio Ministério, Marketing a Igreja, e O Desenvolvimento do Marketing Eficaz e das
Estratégias de Comunicação para Igrejas são a última moda. A indústria
publicadora cristã vem produzindo, para líderes de igrejas, conselhos e mais conselhos
tirados de campos seculares de estudo – psicologia, marketing, administração,
política, entretenimento e negócios – enquanto os comentários, livros de
auxílio para estudo bíblico e livros acerca de questões bíblicas estão em
declínio.
O modelo para o pastor
contemporâneo não é mais o profeta nem o pastor, é o executivo de corporação, o
político ou, pior ainda, o apresentador de programas de “bate-papo” na televisão.
A maioria das igrejas contemporâneas estão preocupadas com índices de audiência,
pesquisas de popularidade, imagem corporativa, estatísticas de crescimento,
lucro financeiro, pesquisas de opinião pública, gráficos populacionais, dados
de recenseamento, tendências da moda, status das celebridades, a lista dos dez
mais e outras questões pragmáticas. O que está desaparecendo é a paixão da
igreja pela pureza e pela verdade. Ninguém parece se importar, desde que a
reação das pessoas seja entusiástica.
Tozer percebeu que o pragmatismo
havia se introduzido furtivamente na igreja de seus dias. Ele escreveu: “Digo
sem hesitação que uma parte, uma grande parte, das atividades existentes hoje
nos círculos evangélicos não são apenas influenciados pelo pragmatismo, mas parecem
totalmente dominados por ele”. Tozer descreveu o perigo que até mesmo o pragmatismo
“consagrado” representa para a igreja: “A filosofia pragmática... não faz
perguntas embaraçosas a respeito da sabedoria daquilo que estamos realizando ou
a respeito de sua moralidade. Aceita como corretos e bons nossos alvos
escolhidos, buscando meios e maneiras eficientes para alcançá-los. E, quando
descobre algo que tem êxito, logo encontra um texto bíblico para justificá-lo,
‘consagra-o’ ao Senhor e vai em frente. Em seguida alguém escreve um artigo em
uma revista, depois sai um livro, e, finalmente, o inventor recebe um título de
honra. Após tudo isso, qualquer indignação quanto à sua biblicidade ou até
mesmo quanto ao seu valor moral é completamente rejeitada. Não há como se
argumentar contra o sucesso. O método produz resultados, portanto, deve ser
bom”.
Uma Filosofia Falida
Você percebe como esta nova
filosofia necessariamente corrompe a sã doutrina? Descarta o próprio método de
Jesus – pregar e ensinar – como instrumentos primordiais do ministério, substituindo-os
por metodologias completamente vazias de conteúdo. Ela existe independentemente
de qualquer credo ou canon. Aliás, evita dogmas ou convicções fortes, considerando-os
como divisivos, indecorosos ou impróprios. Rejeita a doutrina como algo acadêmico,
abstrato, estéril, ameaçador ou simplesmente não-prático. Em vez de ensinar o
erro ou negar a verdade, ela faz algo bem mais sutil e igualmente eficaz do
ponto de vista do inimigo. Não se preocupa com o conteúdo. Não ataca a
ortodoxia frontalmente, mas presta culto à verdade apenas da boca para fora,
enquanto mina, em silêncio, os alicerces da doutrina. Em vez de exaltar a Deus,
esta filosofia deprecia as coisas que são preciosas para Ele. Nesse sentido, o
pragmatismo se apresenta como um perigo mais sutil do que o liberalismo que
ameaçou a igreja na primeira metade do século XX.
O liberalismo atacou a pregação
bíblica. Um dos vultos liberais de maior influência nos Estados Unidos, no
início do século XX, foi Harry Emerson Fosdick, que escreveu: “Pregadores que tomam
textos da Bíblia e depois apresentam seu conteúdo histórico, seu significado
lógico no contexto, seu lugar na teologia do escritor, anexadas a reflexões
práticas, estão empregando mal a Bíblia.” A mesma preocupação pragmática que
invadiu o evangelicalismo de nossos dias levou Fosdick a seu ódio pela exposição
bíblica: “Com certeza, poderia qualquer outro procedimento estar mais
predestinado à monotonia e à futilidade? Aliás, quem poderia afirmar que pelo
menos um, dentre cem, dos ouvintes estaria preocuado com o que Moisés, Isaías,
Paulo ou João queriam dizer naquela passagem específica ou que tenha vindo à
igreja profundamente interessado em tais veículos? Ninguém que conversa com o
público presume que o interesse vital das pessoas está centralizado no
significado de palavras ditas há dois mil anos”. A sugestão de Fosdick foi que
os pregadores deveriam começar pelas necessidades sentidas no auditório: “Que
eles não concluam, e, sim, comecem pensando nas necessidades vitais do
auditório; e que todo o sermão seja organizado em torno de um esforço
construtivo para atender estas necessidades”.
“Tudo isso manifesta bom senso
pela psicologia”, escreveu Fosdick, apelando ao pragmatismo como justificativa.
“Todo mundo usa esse estilo, desde professores a anunciantes de alto nível. Por
que tantos pregadores persisitem em um costume antiquado e negligenciam isso?”
Trata-se exatamente da sabedoria
convencional da “igreja amigável”, norteada por marketing. Começa levando em
conta as necessidades sentidas e aborda-as por meio de tópicos. Se de algum
modo as Escrituras são utilizadas, é apenas para ilustração – precisamente como
advogou Fosdick. É simplesmente uma acomodação a uma sociedade viciada em
auto-estima e entretenimento. A diferença é que agora este conselho provém de dentro do evangelicalismo. Segue o
que está na moda, mas pouco se preocupa com o que é verdadeiro. Encaixa-se bem
ao liberalismo, de onde procede. Porém, está totalmente fora de lugar entre os
cristãos que professam crer que as Escrituras são a Palavra de Deus inspirada.
Um recente “best-seller” evangélico
alerta os leitores a se colocarem de prontidão contra pregadores cuja ênfase
está no interpretar as Escrituras e
não no aplicá-las. Espere um pouco.
Isto é um conselho sábio? Não, de modo algum. Não existe o perigo de a doutrina
ser irrelevante; a verdadeira ameaça e a abordagem não doutrinária em busca de
relevância sem doutrina. O cerne de tudo que é verdadeiramente prático
encontra-se no ensino das Escrituras. Não tornamos
a Bíblia relevante; ela o é, inerentemente, pelo simples fato de ser a Palavra
de Deus. Afinal, como pode qualquer coisa
que Deus diz ser irrelevante (2Tm 3.16,17)?
A Igreja Semelhante a um Barzinho
O pragmatismo radical da
“abordagem amigável” rouba da igreja o seu papel profético. Transforma-a em uma
organização popular, que recruta seus membros através de oferecer-lhes um
ambiente de calor humano e amizade, no qual as pessoas comem, bebem e são entretidas.
A igreja acaba funcionando mais como um clube do que como uma casa de adoração.
Isso não é um exagero. Um recente
“best-seller” que advoga idéias pragmáticas de crescimento de igreja incluiu
esta sugestão: “Lembra-se como o bar da esquina costumava ser o lugar onde os
homens da vizinhança se reuniam para assistir na TV os grandes eventos esportivos,
tais como lutas e campeonatos mundiais de box? Embora os tempos tenham mudado,
o mesmo conceito pode ser usado pela igreja para causar um grande impacto. A maior
delas possui um grande auditório que poderia ser utilizado para reuniões
especiais ao redor dos grandes eventos da mídia – esportes, debates políticos,
entretenimentos especiais e coisas semelhantes”. O cenário é construído em
torno de pressuposições que são claramente antibíblicas. A igreja não é um
clube à busca de novos sócios. Não é o barzinho do bairro onde a vizinhança se
reúne. Não é um grêmio estudantil à procura de calouros. Não é um centro
comunitário onde se realizam as festas. Não é um clube de campo para as massas.
Não é um comitê eleitoral onde os problemas da comunidade são discutidos. Não é
uma corte judicial para corrigir as injustiças sociais. Não é um fórum aberto,
ou uma convenção política, ou até mesmo uma cruzada evangelística.
A igreja é o corpo de Cristo (1
Co 12.27), e as reuniões da igreja são para adoração e instrução. O único alvo
legítimo da igreja é “o aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço,
para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12) – crescimento vital, não apenas
expansão numérica.
A idéia de que as reuniões da
igreja deveriam ser usadas para encantar ou atrair os não-cristãos é um
conceito relativamente novo. Nas Escrituras, não há qualquer sugestão quanto a
isso; aliás, o apóstolo Paulo falou da presença de incrédulos na igreja como um
evento excepcional (1 Co 14.23). Hebreus 10.24,25 indica que os cultos da
igreja são para o benefício dos crentes e não dos incrédulos: “Consideremo-nos
também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não
deixemos de congregar-nos”.
Atos 2.42 mostra-nos o padrão que
a igreja primitiva seguia, quando se reunia: “E perseveravam na doutrina dos
apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.”. Observe que adorar a
Deus e encorajar os irmãos eram as prioridades da igreja primitiva. A igreja se
reunia para a edificação e se dispersava para evangelizar o mundo.
Nosso Senhor comissionou seus
discípulos para evangelizarem da seguinte forma: “Ide, portanto, fazei
discípulos de todas as nações” (Mt 28.19). Cristo deixou evidente que a igreja
não deve esperar que o mundo venha ou que deve convidá-lo a vir às suas
reuniões; Ele mostrou com clareza que a igreja deve ir ao mundo. É a
responsabilidade de todo crente. Temo que uma abordagem que enfatiza a
apresentação do evangelho de uma forma facilitada dentro da igreja, exime o
crente de sua obrigação pessoal de ser uma luz no mundo (Mt 5.16).
Novamente ressaltamos que a
proclamação da Palavra de Deus deve ser central na igreja (1 Co 1.23; 9.16; 2
Co 4.5; 1 Tm 6.2; 2 Tm 4.2). “Quer seja oportuno, quer não”, é tarefa dos
ministros de Deus corrigir, repreender, exortar com toda a longanimidade e doutrina
(2 Tm 4.2). O pastor que coloca o entretenimento acima da pregação bíblica e
vigorosa abdica da responsabilidade primária de sua função, ou seja, apegar-se
“à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para
exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem” (Tt 1.9).
A estratégia da igreja nunca foi
de apelar ao mundo utilizando os termos do mundo. Não se espera que as igrejas
estejam a competir pelo consumidor no mesmo nível que uma cerveja famosa ou uma
grande rede de televisão. Não há como estimularmos crescimento genuíno via
persuasão fascinante ou técnicas engenhosas. É o Senhor quem acrescenta as
almas à igreja (At 2.47). Metodologias humanas não podem acelerar ou suplantar
o processo divino. Qualquer crescimento adicional que venha a produzir não
passará de uma pobre e infrutífera imitação.
Crescimento artificial ou
não-natural, no reino biológico, pode causar deformação – ou pior, câncer.
Crescimento sintético, no reino espiritual, é genuinamente doentio.
Boa Técnica? Não, Má Teologia
A filosofia que une técnicas de marketing com a teoria de
crescimento da igreja resulta de uma péssima teologia. Pressupõe que se você
empacotar adequadamente o evangelho, as pessoas serão salvas. Esta idéia tem
suas raízes no arminianismo, que faz da vontade humana, e não do Deus soberano,
o fator decisivo na salvação. Fala da conversão como uma “decisão por Cristo”.
Essa linguagem e doutrina começaram a permear o ministério moderno. O alvo do
ministério norteado por marketing é uma decisão humana imediata, em lugar de
uma transformação radical do coração, operada pelo Deus Todo-Poderoso, por meio
da obra do Espírito Santo em trazer convicção e através da verdade da Palavra.
Uma crença sincera na soberania de Deus na salvação findaria muitas das tolices
que hoje acontecem nas igrejas.
Além do mais, toda essa abordagem
de agência publicitária com relação à igreja corrompe o cristianismo e atende
às concupiscências carnais que estão arraigadas na estrutura do sistema mundano
(1 Jo 2.16). Temos uma sociedade repleta de pessoas que desejam o que querem,
quando o querem. Estão presos a seu próprio estilo de vida, recreação e
entretenimento. Querem conforto, felicidade e sucesso. E, quando a igreja apela
a esses desejos egoístas, apenas alimenta um fogo que impede a verdadeira
piedade.
A igreja se acomodou à nossa
cultura ao inventar um tipo de cristianismo onde o tomar a cruz tornou-se
opcional, ou até mesmo, impróprio. De fato, muitos dos membros das igrejas do
ocidente crêem que servirão melhor a Deus se confrontarem o mundo o menos
possível.
Tendo incorporado os valores do
mundo, o cristianismo em nossa sociedade encontra-se moribundo. O mundanismo e
a auto-indulgência vêm sutil, porém efetivamente, devorando o coração da
igreja. O evangelho freqüentemente pregado em nossos dias está tão distorcido
que oferece o crer em Cristo como nada mais do que um simples meio para o contentamento e a prosperidade. O
escândalo da cruz (Gl 5.11) tem sido sistematicamente removido, de modo que a
mensagem se torne mais aceitável aos incrédulos. A igreja, de alguma forma,
concebeu a idéia de que pode declarar paz com os inimigos de Deus.
E quando, em cima disso,
rockeiros punk, ventrílocos, palhaços, atiradores de facas, lutadores
profissionais, levantadores de peso, comediantes, dançarinos, malabaristas de
circo, artistas de rap, atores e celebridades do “Show Business” assumem o
lugar do pregador, a mensagem do evangelho recebe um golpe catastrófico: “E
como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).
Creio que podemos ser criativos e
inovadores quanto à forma de apresentarmos o evangelho, mas precisamos Ter o
cuidado de harmonizar nossos métodos com as profundas verdades espirituais que
estamos procurando transmitir. É muito fácil trivializarmos a mensagem sagrada.
Precisamos fazer com que a mensagem, e não o veículo em si, seja o cerne
daquilo que desejamos comunicar ao auditório.
Não se precipite em abraçar as
tendências das mega-igrejas cheias de tecnologia. Não desdenhe a adoração e a
pregação convencionais. Não precisamos de abordagens engenhosas para que as
pessoas sejam salvas (1 Co 1.21). Precisamos apenas voltar a pregar a verdade e
plantar a semente. Se formos fiéis nisso, o solo que Deus já preparou haverá de
produzir fruto.
Mas, se a igreja não se voltar
para o cristianismo bíblico, logo testemunharemos o fim de nossa influência em
nome de Cristo. Todos se admiram em ver quão rapidamente a face de nosso mundo
está se alterando. Ao mesmo tempo, poucos cristãos percebem quão assustadoramente
rápido a igreja está caminhando rumo ao declínio. Podemos estar vivendo os
últimos dias do evangelicalismo bíblico como força significativa em nossa
nação. Não é fantasioso imaginar que daqui a uns vinte anos haverá missionários
do mundo oriental vindo evangelizar os países ocidentais.
Admitir essa possibilidade me
deixa profundamente preocupado. Nós que conhecemos e amamos a verdade
precisamos ser a voz profética do nosso Deus e proclamar a santidade de seu nome.
Precisamos exigir que qualquer esforço feito em nome de nosso Senhor manifeste
também a integridade de sua natureza. Ele é “Santo, Santo, Santo” (Is 6.3) e precisa
ser representado dessa forma. Qualquer outra coisa não é digna de sua grandeza,
majestade e santidade.
O Irromper de
Uma Lepra
No final do século XIX, Spurgeon
vislumbrou essa tendência de se trazer diversão para dentro da igreja. Na
medida em que se alastrava A Controvérsia
do Declínio, em 1889, a saúde de Spurgeon se tornava precária, e, por isso,
ele deixou de pregar em vários domingos. Mas, em uma Quinta-feira à noite, no
mês de abril, Spurgeon pregou, no Tabernáculo, uma mensagem na qual ele
afirmou: “Creio não estar procurando erros onde o erro não existe; mas não
consigo abrir os olhos sem ver coisas sendo feitas em nossas igrejas que, há
trinta anos, não eram nem sonhadas. Em termos de diversão, os professos têm avançado
no caminho do relaxamento. O que é pior, as igrejas agora pensam que sua
responsabilidade é entreter as pessoas. Discordantes que costumavam protestar
contra a ida a um teatro, agora fazem com que o teatro venha a eles. Muitos [templos
de igrejas] não deveriam receber licença para exigir peças teatrais? Se alguém
fosse sério em exigir obediência às leis, não teriam de obter uma licença para
que suas igrejas funcionassem como teatros?” Tampouco ouso falar a respeito do
que tem sido feito nos bazares, jantares beneficentes etc. Se esses fossem
organizados por pessoas mundanas decentes, não poderiam alcançar melhores resultados?
Que extravagância ainda não foi experimentada? Que absurdo tem sido grande demais
para a consciência daqueles que professam ser filhos de Deus e que não são
deste mundo, mas chamados a andar com Deus em vida de separação? O mundo
considera as altas pretensões de tais pessoas como hipocrisia; e, de fato, não
conheço outro termo melhor para classificá-las. Imaginem aqueles que gostam da
comunhão com Deus brincando de tolos, com roupas teatrais! Falam acerca do
lutar com Deus na oração em secreto, mas fazem malabarismo com o mundo em uma
jogatina irreconciliável. Será que isso está correto? O certo e o errado
trocaram de lugar? Sem dúvida, existe uma sobriedade de comportamento que é
coerente com a obra da graça no coração, e existe uma leviandade que indica que
o espírito maligno está em supremacia. Ah! Senhores, pode Ter havido uma época
em que os cristãos eram por demais precisos, mas não é assim em meus dias. Pode
Ter existido uma coisa espantosa chamada rigidez Puritana, mas eu nunca a vi.
Agora estamos bem livres desse mal, se é que ele existiu. Já passamos da
liberdade para a libertinagem. Ultrapassamos o dúbio e caímos no perigoso, e
ninguém pode profetizar onde haveremos de parar. Onde está a santidade de Deus
hoje?... Ela não passa de algo turvo, tal qual um paio que fumega; é mais um
objeto de ridicularização do que de reverência. Será que o grau de influência
de uma igreja não pode ser medido por sua santidade? Se grandes hostes daqueles
que professam ser cristãos fossem , quer em sua vida familiar, quer em seus
negócios, santificados pelo Espírito, a igreja se tornaria uma grande potência
no mundo. Os santos de Deus poderão lamentar juntamente com Jerusalém, ao
perceberem que sua espiritualidade e santidade estão em níveis baixíssimos!
Outros podem considerar isto como algo que não trará qualquer conseqüência;
porém, nós o vemos como o irromper de uma lepra”.
Eis o desafio para a igreja de
Cristo: “Purifiquemos de toda impureza, tanto da carne como do espírito,
aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2 Co 7.1). Não é a engenhosidade
de nossos métodos, nem as técnicas de nosso ministério, nem a perspicácia de
nossos sermões que trazem poder ao nosso testemunho. É a obediência a um Deus
santo e a fidelidade ao seu justo padrão em nosso viver diário.
Precisamos acordar. O declínio é um lugar
perigoso para ficarmos. Não podemos ser indiferentes. Não podemos continuar em
nossa busca insensata por prazer e auto-satisfação. Somos chamados a lutar uma
batalha espiritual e não poderemos ganhá-la apaziguando o inimifo. Uma igreja
fraca precisa se tornar forte, e um mundo necessitado precisa ser confrontado
com a mensagem da salvação; e talvez haja pouco tempo para isso. Como Paulo
escreveu à igreja em Roma: “Já é hora de vos despertardes do sono; porque a
nossa salvaçãso está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai
alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e
revistamo-nos das armas da luz (Rm 13.11,12).
____________________________________________________________
[1]
Extrato do livro: “Com Vergonha do Evangelho: Quando a Igreja se Torna como o
Mundo” – John Marcarthur publicado no site Monergismo

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