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Redenção












A Bíblia também nos diz que o santo e justo Deus, cuja perfeição moral se inflama contra o pecado e a rebeldia das criaturas, é, ao mesmo tempo, um Deus cheio de misericórdia e amor - e de fidelidade. A realidade é que Deus amou e se compadeceu dessas criaturas cuja rebeldia e rejeição da sua condição de dependência as levaram a uma queda tão vil, e portanto a experimentar a dor, a culpa e a alienação em que consiste sua condição de pecado.

Mas como nos alcançar, como nos resgatar de nós mesmos, com todas as nossas percepções erradas de Deus, e com o desespero da nossa trágica condição caída? Como nos levar a ver que Deus é por nós, e não contra nós (cf. Rm 8.31)? Como levar o rebelde não só a erguer a bandeira branca da rendição, mas a espontaneamente mudar de lado e, assim, descobrir novamente a alegria e o sentido da vida? É disso que trata o capítulo 3 da história.

E esse é o capítulo mais longo, um capítulo que conta como Deus se propôs redimir e restaurar essas suas criaturas caídas, para que ele pudesse restaurar em nós a visão perdida de Deus, renovar em nós a imagem divina e restabelecer o nosso relacionamento com ele. Mas também, entremeado em todo esse capítulo, está o outro tema – o tema da nossa resistência constante. Lemos, assim, que Deus veio a um homem, Abraão, e fez com ele uma aliança- para abençoá-lo e, por meio dele, abençoar as nações (Gn 12-50) - e com sua descendência, Israel, que havia se tornado um povo escravo (Êxodo). Por meio do primeiro dos seus profetas, Moisés, Deus (agora conhecido pelo seu nome Yahweh-Javé) os libertou da sua escravidão e fez uma aliança com eles no monte Sinai - segundo a qual ele, que os tinha libertado, seria o seu Salvador e Protetor para sempre, que estaria singularmente presente entre eles, ao contrário de todos os demais povos do mundo. Mas eles também teriam de manter essa aliança com ele, ao permitirem ser forjados à semelhança dele. Assim, ele lhes deu a Lei como seu presente, tanto para lhes revelar como ele era, quanto para protegê-los uns dos outros durante esse processo de se tornarem semelhantes a ele (Levítico-Números-Deuteronômio).

Mas a história nos conta que eles se rebelaram repetidas vezes, e viram esse presente da Lei como uma maneira de privá-los da sua liberdade. Como pastores que estavam sendo levados para uma terra agrícola (Josué), eles não tinham certeza de que o seu Deus- um Deus de pastores, como eles supunham - também lhes daria prosperidade nas colheitas, voltando-se, portanto, aos deuses da fertilidade agrícola (Baal e Astarote) dos povos que viviam à volta deles. Dessa forma, passaram por vários ciclos de opressão e livramento (Juízes), mesmo que, em meio a tudo isso, algumas pessoas de fato tenham se revestido do caráter de Deus (Rute). Finalmente, Deus lhes enviou mais um grande profeta (Samuel), que ungiu para eles o rei ideal (Davi), com quem Deus fez uma nova aliança, especificando que um de seus descendentes reinaria sobre o seu povo para sempre (1-2Samuel). Mas, infelizmente, o caldo entorna de novo (1-2Reis; 1-2Crônicas), e Deus, em seu amor, novamente lhes envia profetas (Isaías-Malaquias), cantores (Salmos) e sábios (J ó; Provérbios; Eclesiastes). No fim, a infidelidade constante do povo acaba sendo demais, e Deus o julga com as maldições prometidas em Levítico 26 e Deuteronômio 28. Mas mesmo aqui (v. Dt 30) há uma promessa para o futuro (v., p. ex., Is 40-55; Jr 30-32; Ez 36-37), segundo a qual viria um novo "filho de Davi" e um derramamento do Espírito de Deus no coração do seu povo, de forma que eles seriam vivificados e transformados à semelhança de Deus. Essa bênção final também incluiria pessoas de todas as nações ("os gentios").

Finalmente, imediatamente antes da última cena, com seu final e epílogo, lemos sobre o maior evento de todos - o fato de que o grande e último "filho de Davi" não é ninguém menos que o próprio Deus, o Criador de toda a grandeza e majestade do universo, que entrou no palco humano, como um de nós e à nossa semelhança. Nascido como filho de uma moça camponesa, no aprisco de um povo oprimido, Jesus, o filho de Deus, viveu e ensinou entre eles. E finalmente, com uma morte horrível, seguida de uma ressurreição que derrotou a morte, ele lutou com os "deuses"- todos os poderes que nos foram hostis - e os venceu, ele próprio carregando todo o peso da culpa e da punição pela rebelião das criaturas.

Aqui está a essência da história: um Deus amoroso e redentor, na sua encarnação, restaurou a nossa visão perdida de Deus (tirou a venda dos nossos olhos, por assim dizer, para que pudéssemos ver claramente o que Deus é de fato), e pela sua crucificação e ressurreição tornou possível a nossa restauração à imagem de Deus (v. Rm 8.29; 2Co 3.18), e por meio da dádiva do Espírito se tornou presente conosco em uma comunhão constante. Essa é uma revelação, uma redenção, maravilhosa, quase inacreditável.

O aspecto extraordinário da história bíblica está no que ela nos conta sobre o próprio Deus: um Deus que se sacrifica a si próprio na morte por amor pelos seus inimigos; um Deus que prefere sofrer a morte que nós merecemos a ficar afastado das pessoas que criou para a sua satisfação; um Deus que assumiu ele próprio a nossa semelhança, experimentou a nossa condição de criatura e carregou os nossos pecados, para que dessa forma pudesse prover perdão e reconciliação; um Deus que não nos abandonaria, mas nos perseguiria - a todos nós, mesmo os piores entre nós- para poder nos restaurar à comunhão alegre com ele próprio; um Deus que, em Cristo Jesus, de tal forma se identificou para sempre com suas criaturas amadas que veio a ser conhecido e louvado como "o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo" (1Pe 1.3).

Essa é a história de Deus, a história do seu amor e graça, da sua misericórdia e perdão insondáveis - e é assim que ela também veio a se tornar a nossa história. Essa história nos conta que nós não merecemos nada, e no entanto recebemos tudo; que merecemos o inferno, mas recebemos o céu; que merecemos ser eliminados, apagados da memória, mas recebemos o seu abraço carinhoso; que merecemos a rejeição e o juízo, mas recebemos, de presente, a filiação divina, para levarmos em nós a sua semelhança, para podermos chamá-lo de Pai. Essa é a história da Bíblia, a história de Deus, e que ao mesmo tempo é, também, a nossa história. Na verdade, ele permitiu, inclusive, que suas criaturas humanas tivessem uma parte na sua composição!

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