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Queda






O segundo capítulo na história bíblica é longo e trágico. Começa em Gênesis 3, e essa linha sombria da narrativa percorre toda a história bíblica, quase até o fim do último capítulo (Ap 22.11,15). Esse "capítulo" nos conta que o homem e a mulher desejaram e cobiçaram um estado de divindade, e que num momento terrível da história do nosso planeta, eles escolheram esse estado em vez de se contentarem com o seu estado de mera criatura, com a posição de dependência que ele implica. Eles escolheram ser independentes em relação ao seu Criador.

Mas não fomos projetados para viver assim, e o resultado dessa escolha foi uma queda - uma queda colossal. (Na verdade, essa não é uma parte muito popular da história hoje, mas essa rejeição  contemporânea faz parte da própria Qyeda, e é esse o início de todas as falsas teologias.)

Feitos para desfrutar de Deus e ser dependentes dele, e para encontrar o nosso significado basicamente na nossa própria condição de criatura, agora caímos debaixo da ira de Deus, e assim passamos a experimentar as terríveis consequências da nossa rebeldia. A calamidade da nossa condição caída é tríplice. Em primeiro lugar, perdemos a nossa visão de Deus com respeito à sua natureza e caráter. Sendo nós mesmos culpados e hostis, projetamos essa culpa e hostilidade sobre Deus. Deus deve ser culpado: "Por que tu me fizeste assim?", "Por que tu és tão cruel?" são os lamentos queixosos que percorrem toda a história da nossa raça. Dessa forma, tornamo-nos idólatras, criando, agora, deuses à nossa própria imagem; toda e qualquer expressão grotesca da nossa condição caída foi reconstruída em algum deus. Paulo formulou isso desta forma: "Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e substituíram a glória do Deus incorruptível por imagens semelhantes ao homem corruptível, às aves, aos quadrúpedes e aos répteis [ ... ] pois substituíram a verdade de Deus pela mentira e adoraram e serviram à criatura em lugar do Criador, que é bendito eternamente" (Rm 1.22,23,25).

Ao substituirmos a verdade a respeito de Deus por uma mentira, passamos a ver Deus como alguém cheio de caprichos, contradições, hostilidade, cobiça e vingança (tudo isso sendo projeções do nosso eu caído). Mas Deus não se assemelha às nossas idolatrias grotescas.

Na verdade, se ele está escondido, diz Paulo, é porque nós tínhamos nos tornado escravos do deus deste mundo, que cegou a nossa mente, de modo que estamos sempre buscando, mas nunca conseguimos encontrá-lo (v. 2Co 4.4). Em segundo lugar, a Qyeda também nos levou a distorcer – e embaralhar - a imagem divina em nós mesmos, rolando-a na lama, por assim dizer. Em vez de sermos amorosos, generosos, altruístas, atenciosos, misericordiosos - como Deus é -, nós nos tornamos avarentos, egoístas, desamorosos, rancorosos, odiosos. Criados para refletir e, assim, representar Deus em tudo o que somos e fazemos, aprendemos, em vez disso, a levar a imagem do Maligno, o inimigo implacável de Deus.

A terceira consequência da Qyeda foi a nossa perda da presença divina, e, com isso, do nosso relacionamento - nossa comunhão - com Deus. No lugar da comunhão com o Criador, tendo nós um propósito na criação dele, nós nos tornamos rebeldes, ficamos perdidos e jogados à deriva, criaturas que violaram as leis de Deus, abusaram da sua criação e sofreram as terríveis consequências da condição  caída na nossa destruição, alienação, solidão e sofrimento. Debaixo da tirania do nosso pecado - na verdade, somos escravos dele, diz Paulo, e somos culpados-, descobrimos que não estamos dispostos, e nem somos capazes, de voltar ao Deus vivo na busca de vida e restauração. Além disso, passamos adiante a nossa condição destruída sob a forma de todo tipo de relacionamentos destruídos entre nós (isso é ressaltado em letras garrafais em Gênesis 4-11).

A Bíblia nos diz que estamos caídos, que há uma distância tremenda entre nós e Deus, e que somos como ovelhas que estão se perdendo (Is 53.6; lPe 2.25), ou como um filho rebelde e sabe-tudo, que vive numa terra distante entre os porcos, querendo comer a comida deles (Lc 15.11-32). Nos nossos momentos de  maior lucidez, sabemos que essa é a verdade, uma verdade que não se aplica apenas ao assassino, ao estuprador ou àquele que abusa de crianças, mas que também se aplica a nós- egoístas, avarentos e orgulhosos. Não admira que as pessoas vejam Deus como nosso inimigo; nos nossos momentos de maior  lucidez, sabemos que merecemos a sua ira pelo tipo de pessoas repulsivas que na verdade somos.


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