A arte e prática de meditar
nas Escrituras tem um papel importante no uso devocional da Bíblia. A meditação
é apresentada nas Escrituras como um ato de adoração que envolve a comunhão com
Deus. Em lugar de ser uma rota de fuga em que o indivíduo é, de alguma forma,
assimilado, absorvido ou mesclado com o ser divino por um processo místico não
especificado - como é ensinado com tanta frequência por muitas religiões
orientais e algumas seitas ocidentais modernas - a meditação nas Escrituras
pode ser cuidadosamente definida quanto aos seus objetivos, métodos de prática
e resultados.
Podemos ter uma boa ideia do
que significa a meditação ao examinarmos o contexto em que se encontram o
conceito e as palavras de meditação. O Salmo 77 tem relevância especial,
fazendo referência à meditação em três de seus versículos. O salmo pode ser
dividido em duas partes: os versículos 1-9 expressam a tristeza de Asafe; os
versículos 10-20 relatam como ele superou esses problemas. No tempo de sua
angústia e durante noites insones ele meditou sobre o Senhor (versículo 3). Em
sua inquietação, o salmista recordou-se de dias mais felizes no passado
(versículo 5) e nas longas horas da noite seu coração meditou (versículo 6) no
que ele aprendeu sobre Deus pela Palavra durante os bons tempos da sua vida.
Ele se perguntou se Deus o esqueceria para sempre. Mas, então, no versículo 10
ele subitamente lembrou-se dos feitos passados de Deus. Nesse ponto ele
decidiu: “Considero também nas tuas obras [de Deus] todas e cogito [ou pondero,
medito] dos teus prodígios” (versículo 12). Assim, o profundo desânimo do
salmista acabou cedendo ao livramento de Deus, quando ele concentrou sua
meditação nas obras de Deus. Esse é exatamente o resultado desejado da leitura
devocional dos textos das Escrituras.
A meditação é um exercício do
coração, ou seja, da pessoa como um todo. Tal meditação é ressaltada no Salmo
19.14; 49.3; Provérbios 15.28 e Isaías 33.18. O objetivo da meditação, de
acordo com o Salmo 49.3, é encontrar entendimento, não da maneira como é muitas
vezes pregada nas religiões orientais ou em algumas seitas de nossos dias. Para
meditar, não é preciso tentar esvaziar-se, para que supostamente o divino possa
fluir através do ser de uma forma panteísta. Em vez disso, deve-se procurar
levar todo o ser - corpo, alma e espírito a concentrar-se em Deus, suas obras e
especialmente sua Palavra, que nos fala tanto de sua pessoa quanto de suas
obras.
Baseando-nos simplesmente no
número de referências, ao que parece a meditação que é incentivada pelas
Escrituras tem seu foco central na Palavra de Deus. Como já observamos, Josué
1.8 ordena que a meditação no Livro da Lei seja praticada dia e noite. O
próprio livro de Salmos começa com uma benção para a pessoa que se deleita na
lei de Deus e que medita nessa lei dia e noite (SI 1.1,2). Repetidamente, o
Salmo 119 estimula seus leitores a meditar “nos teus preceitos [preceitos de
Deus]” (versículos 15, 78), nos decretos de Deus (versículos 2 3 ,4 8 ), na sua
lei (versículo 97), nos seus testemunhos (versículo 99) e nas suas promessas
[palavras] (versículo 148). A mente daquele que está meditando não deve ficar
vazia; ela deve encher-se das Escrituras, a Palavra de Deus. Da mesma forma,
quando a lei de Deus está no coração da pessoa, seus passo não vacilam, pois “A
boca do justo profere a sabedoria e a sua língua fala o que é justo ” (SI
37.30,31). É isso que significa meditar na Palavra de Deus quando ela é lida de
maneira devocional. O resultado é que a Palavra de Deus permanece constante no coração do crente em qualquer
situação em que ele se encontrar: quando está assentado em sua casa, andando
pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se (Dt 6.6-9; Pv 3.22-24; 6.22).
** Extraído do Livro "Introdução à Hermenêutica Bíblica" - Walter C. Kaiser Jr. - Moisés Silva - Cultura Cristã.

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