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A Visão Federal ou Representativa da Queda**





Antes de iniciar recomendo a leitura dos texto 01 e texto 02


Em sua maior parte, a visão federal da Queda tem sido a mais popular entre os defensores da visão reformada da predestinação. A visão ensina que Adão agiu como um representante da raça humana inteira. Com o teste que Deus colocou perante Adão e Eva, Ele estava testando toda a humanidade. O nome de Adão significa "homem" ou "humanidade". Adão foi o primeiro ser humano criado. Ele está na cabeceira da raça humana. Ele foi colocado no jardim para agir não somente por si mesmo, mas por todos os seus futuros descendentes. Assim como o governo federal tem um porta-voz principal que é o cabeça da nação, também Adão era o cabeça federal da humanidade.

A idéia principal do federalismo é que, quando Adão pecou, ele pecou por todos nós. Sua Queda foi a nossa queda. Quando Deus puniu Adão por levar embora sua justiça original, nós fomos igualmente punidos. A maldição da queda afeta a todos nós. Não somente Adão foi destinado a ganhar a vida com o suor do seu rosto, como isso tornou-se verdade para nós também. Não somente Eva foi designada para ter dores de parto, como isso tem sido verdade para as mulheres de todas as gerações humanas. A serpente errante no jardim não foi o único membro de sua espécie que recebeu a maldição de rastejar sobre seu ventre.
Quando foram criados, foi dado a Adão e Eva o domínio sobre a criação inteira. Como resultado de seu pecado, o mundo todo sofreu. Paulo nos conta:

Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e suporta angústias até agora (Rm 8. 20-22).

A criação toda geme enquanto espera pela total redenção do homem. Quando o homem pecou, as repercussões do pecado foram sentidas através de toda a extensão do domínio do homem. Por causa do pecado de Adão, não somente nós sofremos, mas leões, elefantes, borboletas e cachorrinhos também sofrem. Eles não pediram tal sofrimento. Eles foram feridos pela queda de seu líder.

O Novo Testamento ensina explicitamente que nós sofremos como resultado do pecado de Adão.

Em Romanos 5, por exemplo, Paulo faz as seguintes observações:

"...por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte..." (v. 12).
"...pela ofensa de um só, morreram muitos..." (v. 15).
"...por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação..." (v. 18).
"...pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores..." (v. 19).

Não há modo de evitar o ensinamento óbvio da Escritura que diz que o pecado de Adão teve terríveis consequências sobre seus descendentes. É precisamente por causa da abundância de tais declarações bíblicas que, virtualmente, todo o corpo cristão tem criado alguma doutrina do pecado original ligada à queda de Adão.

Ficamos ainda com uma grande questão. Se Deus de fato julga a raça humana inteira em Adão, até onde isso é justo? Parece claramente injusto que Deus permita que, não só todos os seres humanos subsequentes, mas toda a criação sofra por causa de Adão.

É a questão dessa justiça de Deus que o federalismo tenta responder. O federalismo considera que nós fomos de fato representados por Adão, e que essa representação foi tanto justa quanto precisa. Sustenta que Adão nos representou perfeitamente.

Dentro de nosso próprio sistema legal temos situações que, não perfeitamente, mas aproximadamente, fazem paralelo com este conceito de representação. Sabemos que, se eu contratar um homem para matar alguém, e esse pistoleiro contratado cumprir o contrato, posso justamente ser julgado por homicídio, a despeito do fato de eu não ter realmente puxado o gatilho. Sou julgado pelo crime que alguém mais cometeu, porque a outra pessoa agiu em meu lugar.

O protesto óbvio que se levanta a este ponto é: "Mas nós não contratamos Adão para pecar por nós". Isso é verdade. Este exemplo meramente ilustra que há alguns casos em que é justo punir uma pessoa pelo crime de outra.

A visão federal da queda ainda exala um leve odor de tirania. Nosso grito é: "Nenhuma condenação sem representação". Assim como as pessoas numa nação clamam por representantes que lhes garantam que são livres de uma tirania despótica, assim também exigimos uma representação perante Deus que seja correta e justa . A visão federal declara que somos julgados culpados pelo pecado de Adão porque ele era nosso representante correto e justo.

Espere um momento. Adão pode ter nos representado, mas nós não o escolhemos. Imagine se os pais da República Americana tivessem exigido do rei George que lhes desse representação, e o rei respondesse: "E claro que vocês podem ter representantes. Vocês serão representados por meu irmão". Tal resposta teria lançado ainda mais chá no porto de Boston.

Queremos ter o direito de escolher nossos representantes. Queremos ser capazes de depositar nosso próprio voto, e não outra pessoa depositando o voto por nós. A palavra voto vem do latim votum que significa "com" ou "escolha". Quando depositamos nosso voto, estamos expressando nossos desejos, estabelecendo nossas vontades.

Suponha que tivéssemos tido total liberdade para votar para o nosso representante no Éden. Isso teria nos deixado satisfeitos? E por que queremos o direito de votar em nosso representante? E por que fazemos objeção se o rei ou qualquer outro soberano escolher, por nós, o nosso representante? A resposta é óbvia.

Queremos estar certos de que nossa vontade está sendo alcançada. Se o rei determina nosso representante, então terei pouca confiança que nossos desejos serão alcançados. Eu temeria que o representante escolhido estivesse mais ansioso por cumprir os desejos do rei do que os meus. Não me sentiria justamente representado.

Mas, mesmo se tivermos o direito de escolher nossos próprios representantes, não temos garantia de que nossos desejos serão cumpridos. Quem, entre nós, não foi enlaçado por políticos que prometem uma coisa durante uma campanha de eleição e fazem outra coisa depois que são eleitos? De novo, a razão pela qual queremos selecionar nosso representante é para que possamos ter certeza de que somos corretamente representados.

Em nenhuma época de toda a história humana estivemos mais bem representados do que no Jardim do Éden. É certo que não escolhemos nosso representante lá. Alguém escolheu, por nós, o nosso representante. Quem escolheu nosso representante, contudo, não foi o rei George. Foi o Deus Todo-Poderoso.

Quando Deus escolhe nosso representante, faz isso de maneira perfeita. Sua escolha é uma escolha infalível. Quando escolho meus representantes, faço isso de maneira falível. Algumas vezes, escolho a pessoa errada e sou, então, incorretamente representado. Adão me representou infalivelmente, não porque ele era infalível, mas porque Deus é infalível. Dada a infalibilidade de Deus, nunca posso argumentar que Adão foi uma escolha pobre para me representar.

A conjetura que muitos de nós fazemos quando lutamos com a Queda é que, se tivéssemos estado lá, teríamos feito uma escolha diferente. Não teríamos tomado uma decisão que mergulharia o mundo no pecado. Tal conjetura simplesmente não é possível, dado o caráter de Deus. Deus não comete erros. Sua escolha do meu representante é maior do que a minha própria escolha.

Mesmo que concordemos que fomos de fato perfeitamente representados por Adão, precisamos ainda perguntar se é justo sermos representados com riscos tão altos. Posso responder somente que agradou a Deus fazer assim. Sabemos que o mundo caiu por meio de Adão. Sabemos que, de algum modo, Adão nos representou. Sabemos que não o escolhemos para ser nosso representante. Sabemos que, a escolha que Deus fez de Adão, era uma escolha infalível. Mas, foi justo o processo todo?

Somente posso responder esta pergunta definitivamente fazendo outra pergunta — aquela que o apóstolo Paulo fez. "Existe injustiça em Deus?" A resposta apostólica a esta pergunta teórica é tão direta quanto enfática. "Deus nos livre!"

Se conhecemos alguma coisa sobre o caráter de Deus, então sabemos que Ele não é um tirano e que Ele nunca é injusto. Sua estrutura dos termos da provação da humanidade satisfez a própria justiça de Deus. Isso deveria ser suficiente para nos satisfazer.

Mesmo assim, ainda discutimos. Ainda contendemos com o Todo-Poderoso. Ainda presumimos que, de algum modo, Deus errou conosco, e que sofremos como vítimas inocentes do julgamento de Deus. Esses sentimentos somente confirmam o grau radical de nossa decadência. Quando pensamos assim, estamos pensando como filhos de Adão. Tais pensamentos blasfemos somente sublinham em vermelho o quão precisamente fomos representados por Adão.

Estou persuadido de que a visão federal da queda é substan¬cialmente correta. Somente ela, entre as três que examinamos, faz justiça ao ensinamento bíblico da queda do homem. Satisfaz a mim que Deus não seja um tirano arbitrário. Sei que sou uma criatura decaída. Isto é, sei que sou uma criatura, e sei que sou decaído. Também sei que não é culpa de Deus se sou pecador. O que Deus fez por mim foi redimir-me de meu pecado. Ele não me redimiu de seu pecado.

Embora a visão federal representativa da Queda seja sustentada pela maioria dos calvinistas, precisamos nos lembrar de que á questão de nosso relacionamento com a queda de Adão não é um problema exclusivo do calvinismo. Todos os cristãos precisam lutar com ele.
É também vital ver a predestinação à luz da Queda. Todos os cristãos concordam que o decreto de Deus a respeito da predestinação foi feito antes da Queda. Alguns argumentam que Deus primeiro predestinou algumas pessoas à salvação e outras à condenação, e então decretou a Queda para ter certeza de que algumas pessoas iriam perecer. Algumas vezes esta visão pervertida é atribuída mesmo a calvinistas. Esta ideia era repugnante a Calvino e é igualmente repugnante a todos os calvinistas ortodoxos. A noção é algumas vezes chamada de "hipercalvinismo." Mas mesmo isso é um insulto. Esta visão não tem nada a ver com Calvinismo. Em vez de hipercalvinismo, é anticalvinismo.

O Calvinismo, com outras visões da predestinação, ensina que o decreto de Deus foi feito tanto antes da Queda, como à luz da dela. Por que isto é importante? Por que a visão calvinista da predestinação sempre acentua o caráter gracioso da redenção de Deus. Quando Deus predestina pessoas à salvação, Ele está predestinando, para serem salvas, as pessoas que Ele sabe que realmente necessitam de salvação. Elas precisam ser salvas porque são pecadoras em Adão, e não porque Ele as forçou a serem pecadoras. O Calvinismo vê Adão pecando por seu próprio livre-arbítrio, e não por coação divina.

Com certeza Deus sabia, antes da Queda, que certamente ela aconteceria, e agiu para redimir alguns. Ele ordenou a Queda no sentido de escolher permiti-la, mas não no sentido de escolher coagi-la. Sua graça predestinadora é graciosa precisamente porque Ele escolheu salvar pessoas que sabia de antemão que estariam espiritualmente mortas.

Uma ilustração final pode ser útil aqui. Ficamos estarrecidos com a ideia de que Deus nos chama para sermos justos, quando somos impedidos pelo pecado original. Nós dizemos: "Mas Deus, não podemos ser justos. Somos criaturas decaídas. Como podes nos considerar responsáveis, quando sabes muito bem que nascemos com o pecado original?"

A ilustração é a seguinte. Suponha que Deus disse a um homem: "Quero que você apare estes arbustos às três horas da tarde. Mas seja cuidadoso. Há um grande poço aberto, bem no limite do jardim. Se você cair no poço, não será capaz de sair de lá. Assim, qualquer coisa que fizer, fique longe do poço."

Suponha que, assim que Deus sai do jardim, o homem corre e se lança no poço. Às três da tarde Deus retorna e encontra os arbustos sem aparar. Ele chama pelo jardineiro e ouve um grito fraco vindo do limite do jardim. Ele anda até a borda do poço e vê o jardineiro indefeso, debatendo-se no fundo. Ele diz ao jardineiro: "Por que você não aparou os arbustos que eu mandei aparar?" O jardineiro respondeu irado: "Como o Senhor espera que eu apare esses arbustos se estou preso neste poço? Se o Senhor não tivesse deixado este poço vazio aqui, eu não estaria nesta situação."

Adão lançou-se no poço. Em Adão, nós todos nos lançamos no poço. Deus não nos atirou dentro do poço. Adão foi claramente prevenido a respeito do poço. Deus lhe disse para ficar longe. As consequências que Adão experimentou por estar no poço foram uma punição direta por ter-se lançado nele.

Assim é o pecado original. O pecado original é tanto uma consequência do pecado de Adão quanto uma punição pelo pecado de Adão. Nascemos pecadores porque em Adão todos caíram. Mesmo a palavra queda tem um pouco de eufemismo. E uma visão cor-de-rosa do assunto. A palavra queda sugere um acidente da sorte. O pecado de Adão não foi um acidente. Ele não era o Pateta. Adão não escorregou simplesmente no pecado; ele lançou-se ao pecado com ambos os pés. Nós nos lançamos imprudentemente com ele. Deus não nos empurrou. Ele não nos enganou. Ele nos deu advertência adequada e justa. A culpa é nossa e somente nossa.


Não é o caso de Adão ter comido uvas verdes e nossos dentes terem se embotado. O ensino bíblico é que, em Adão, todos nós comemos uvas verdes. É por isso que nossos dentes se embotaram.



** Texto extraído do Livro "Eleitos de Deus" - R. C. Sproul, que pode ser adquirido aqui.



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