Em sua maior parte, a visão federal da Queda tem sido a mais popular entre os defensores da visão reformada da predestinação. A visão ensina que Adão agiu como um representante da raça humana inteira. Com o teste que Deus colocou perante Adão e Eva, Ele estava testando toda a humanidade. O nome de Adão significa "homem" ou "humanidade". Adão foi o primeiro ser humano criado. Ele está na cabeceira da raça humana. Ele foi colocado no jardim para agir não somente por si mesmo, mas por todos os seus futuros descendentes. Assim como o governo federal tem um porta-voz principal que é o cabeça da nação, também Adão era o cabeça federal da humanidade.
A idéia principal do federalismo
é que, quando Adão pecou, ele pecou por todos nós. Sua Queda foi a nossa queda.
Quando Deus puniu Adão por levar embora sua justiça original, nós fomos
igualmente punidos. A maldição da queda afeta a todos nós. Não somente Adão foi
destinado a ganhar a vida com o suor do seu rosto, como isso tornou-se verdade
para nós também. Não somente Eva foi designada para ter dores de parto, como
isso tem sido verdade para as mulheres de todas as gerações humanas. A serpente
errante no jardim não foi o único membro de sua espécie que recebeu a maldição
de rastejar sobre seu ventre.
Quando foram criados, foi dado a
Adão e Eva o domínio sobre a criação inteira. Como resultado de seu pecado, o
mundo todo sofreu. Paulo nos conta:
Pois a criação está sujeita à
vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na
esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção,
para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a
criação geme e suporta angústias até agora (Rm 8. 20-22).
A criação toda geme enquanto
espera pela total redenção do homem. Quando o homem pecou, as repercussões do
pecado foram sentidas através de toda a extensão do domínio do homem. Por causa
do pecado de Adão, não somente nós sofremos, mas leões, elefantes, borboletas e
cachorrinhos também sofrem. Eles não pediram tal sofrimento. Eles foram feridos
pela queda de seu líder.
O Novo Testamento ensina
explicitamente que nós sofremos como resultado do pecado de Adão.
Em Romanos 5, por exemplo, Paulo
faz as seguintes observações:
"...por um só homem entrou o
pecado no mundo, e pelo pecado a morte..." (v. 12).
"...pela ofensa de um só,
morreram muitos..." (v. 15).
"...por uma só ofensa veio o
juízo sobre todos os homens para condenação..." (v. 18).
"...pela desobediência de um
só homem muitos se tornaram pecadores..." (v. 19).
Não há modo de evitar o
ensinamento óbvio da Escritura que diz que o pecado de Adão teve terríveis
consequências sobre seus descendentes. É precisamente por causa da abundância
de tais declarações bíblicas que, virtualmente, todo o corpo cristão tem criado
alguma doutrina do pecado original ligada à queda de Adão.
Ficamos ainda com uma grande
questão. Se Deus de fato julga a raça humana inteira em Adão, até onde isso é
justo? Parece claramente injusto que Deus permita que, não só todos os seres
humanos subsequentes, mas toda a criação sofra por causa de Adão.
É a questão dessa justiça de Deus
que o federalismo tenta responder. O federalismo considera que nós fomos de
fato representados por Adão, e que essa representação foi tanto justa quanto
precisa. Sustenta que Adão nos representou perfeitamente.
Dentro de nosso próprio sistema
legal temos situações que, não perfeitamente, mas aproximadamente, fazem
paralelo com este conceito de representação. Sabemos que, se eu contratar um
homem para matar alguém, e esse pistoleiro contratado cumprir o contrato, posso
justamente ser julgado por homicídio, a despeito do fato de eu não ter
realmente puxado o gatilho. Sou julgado pelo crime que alguém mais cometeu,
porque a outra pessoa agiu em meu lugar.
O protesto óbvio que se levanta a
este ponto é: "Mas nós não contratamos Adão para pecar por nós". Isso
é verdade. Este exemplo meramente ilustra que há alguns casos em que é justo
punir uma pessoa pelo crime de outra.
A visão federal da queda ainda
exala um leve odor de tirania. Nosso grito é: "Nenhuma condenação sem
representação". Assim como as pessoas numa nação clamam por representantes
que lhes garantam que são livres de uma tirania despótica, assim também
exigimos uma representação perante Deus que seja correta e justa . A visão federal
declara que somos julgados culpados pelo pecado de Adão porque ele era nosso
representante correto e justo.
Espere um momento. Adão pode ter
nos representado, mas nós não o escolhemos. Imagine se os pais da República
Americana tivessem exigido do rei George que lhes desse representação, e o rei
respondesse: "E claro que vocês podem ter representantes. Vocês serão
representados por meu irmão". Tal resposta teria lançado ainda mais chá no
porto de Boston.
Queremos ter o direito de
escolher nossos representantes. Queremos ser capazes de depositar nosso próprio
voto, e não outra pessoa depositando o voto por nós. A palavra voto vem do
latim votum que significa "com" ou "escolha". Quando
depositamos nosso voto, estamos expressando nossos desejos, estabelecendo
nossas vontades.
Suponha que tivéssemos tido total
liberdade para votar para o nosso representante no Éden. Isso teria nos deixado
satisfeitos? E por que queremos o direito de votar em nosso representante? E
por que fazemos objeção se o rei ou qualquer outro soberano escolher, por nós,
o nosso representante? A resposta é óbvia.
Queremos estar certos de que
nossa vontade está sendo alcançada. Se o rei determina nosso representante,
então terei pouca confiança que nossos desejos serão alcançados. Eu temeria que
o representante escolhido estivesse mais ansioso por cumprir os desejos do rei
do que os meus. Não me sentiria justamente representado.
Mas, mesmo se tivermos o direito
de escolher nossos próprios representantes, não temos garantia de que nossos
desejos serão cumpridos. Quem, entre nós, não foi enlaçado por políticos que
prometem uma coisa durante uma campanha de eleição e fazem outra coisa depois
que são eleitos? De novo, a razão pela qual queremos selecionar nosso
representante é para que possamos ter certeza de que somos corretamente
representados.
Em nenhuma época de toda a
história humana estivemos mais bem representados do que no Jardim do Éden. É
certo que não escolhemos nosso representante lá. Alguém escolheu, por nós, o
nosso representante. Quem escolheu nosso representante, contudo, não foi o rei
George. Foi o Deus Todo-Poderoso.
Quando Deus escolhe nosso
representante, faz isso de maneira perfeita. Sua escolha é uma escolha
infalível. Quando escolho meus representantes, faço isso de maneira falível.
Algumas vezes, escolho a pessoa errada e sou, então, incorretamente
representado. Adão me representou infalivelmente, não porque ele era infalível,
mas porque Deus é infalível. Dada a infalibilidade de Deus, nunca posso
argumentar que Adão foi uma escolha pobre para me representar.
A conjetura que muitos de nós
fazemos quando lutamos com a Queda é que, se tivéssemos estado lá, teríamos
feito uma escolha diferente. Não teríamos tomado uma decisão que mergulharia o
mundo no pecado. Tal conjetura simplesmente não é possível, dado o caráter de
Deus. Deus não comete erros. Sua escolha do meu representante é maior do que a
minha própria escolha.
Mesmo que concordemos que fomos
de fato perfeitamente representados por Adão, precisamos ainda perguntar se é justo
sermos representados com riscos tão altos. Posso responder somente que agradou
a Deus fazer assim. Sabemos que o mundo caiu por meio de Adão. Sabemos que, de
algum modo, Adão nos representou. Sabemos que não o escolhemos para ser nosso
representante. Sabemos que, a escolha que Deus fez de Adão, era uma escolha
infalível. Mas, foi justo o processo todo?
Somente posso responder esta
pergunta definitivamente fazendo outra pergunta — aquela que o apóstolo Paulo
fez. "Existe injustiça em Deus?" A resposta apostólica a esta
pergunta teórica é tão direta quanto enfática. "Deus nos livre!"
Se conhecemos alguma coisa sobre
o caráter de Deus, então sabemos que Ele não é um tirano e que Ele nunca é
injusto. Sua estrutura dos termos da provação da humanidade satisfez a própria
justiça de Deus. Isso deveria ser suficiente para nos satisfazer.
Mesmo assim, ainda discutimos.
Ainda contendemos com o Todo-Poderoso. Ainda presumimos que, de algum modo,
Deus errou conosco, e que sofremos como vítimas inocentes do julgamento de
Deus. Esses sentimentos somente confirmam o grau radical de nossa decadência.
Quando pensamos assim, estamos pensando como filhos de Adão. Tais pensamentos
blasfemos somente sublinham em vermelho o quão precisamente fomos representados
por Adão.
Estou persuadido de que a visão
federal da queda é substan¬cialmente correta. Somente ela, entre as três que
examinamos, faz justiça ao ensinamento bíblico da queda do homem. Satisfaz a
mim que Deus não seja um tirano arbitrário. Sei que sou uma criatura decaída.
Isto é, sei que sou uma criatura, e sei que sou decaído. Também sei que não é
culpa de Deus se sou pecador. O que Deus fez por mim foi redimir-me de meu
pecado. Ele não me redimiu de seu pecado.
Embora a visão federal
representativa da Queda seja sustentada pela maioria dos calvinistas,
precisamos nos lembrar de que á questão de nosso relacionamento com a queda de
Adão não é um problema exclusivo do calvinismo. Todos os cristãos precisam
lutar com ele.
É também vital ver a
predestinação à luz da Queda. Todos os cristãos concordam que o decreto de Deus
a respeito da predestinação foi feito antes da Queda. Alguns argumentam que
Deus primeiro predestinou algumas pessoas à salvação e outras à condenação, e
então decretou a Queda para ter certeza de que algumas pessoas iriam perecer.
Algumas vezes esta visão pervertida é atribuída mesmo a calvinistas. Esta ideia
era repugnante a Calvino e é igualmente repugnante a todos os calvinistas
ortodoxos. A noção é algumas vezes chamada de "hipercalvinismo." Mas
mesmo isso é um insulto. Esta visão não tem nada a ver com Calvinismo. Em vez
de hipercalvinismo, é anticalvinismo.
O Calvinismo, com outras visões
da predestinação, ensina que o decreto de Deus foi feito tanto antes da Queda,
como à luz da dela. Por que isto é importante? Por que a visão calvinista da
predestinação sempre acentua o caráter gracioso da redenção de Deus. Quando
Deus predestina pessoas à salvação, Ele está predestinando, para serem salvas,
as pessoas que Ele sabe que realmente necessitam de salvação. Elas precisam ser
salvas porque são pecadoras em Adão, e não porque Ele as forçou a serem
pecadoras. O Calvinismo vê Adão pecando por seu próprio livre-arbítrio, e não
por coação divina.
Com certeza Deus sabia, antes da
Queda, que certamente ela aconteceria, e agiu para redimir alguns. Ele ordenou
a Queda no sentido de escolher permiti-la, mas não no sentido de escolher
coagi-la. Sua graça predestinadora é graciosa precisamente porque Ele escolheu
salvar pessoas que sabia de antemão que estariam espiritualmente mortas.
Uma ilustração final pode ser
útil aqui. Ficamos estarrecidos com a ideia de que Deus nos chama para sermos
justos, quando somos impedidos pelo pecado original. Nós dizemos: "Mas
Deus, não podemos ser justos. Somos criaturas decaídas. Como podes nos
considerar responsáveis, quando sabes muito bem que nascemos com o pecado
original?"
A ilustração é a seguinte.
Suponha que Deus disse a um homem: "Quero que você apare estes arbustos às
três horas da tarde. Mas seja cuidadoso. Há um grande poço aberto, bem no
limite do jardim. Se você cair no poço, não será capaz de sair de lá. Assim,
qualquer coisa que fizer, fique longe do poço."
Suponha que, assim que Deus sai
do jardim, o homem corre e se lança no poço. Às três da tarde Deus retorna e
encontra os arbustos sem aparar. Ele chama pelo jardineiro e ouve um grito
fraco vindo do limite do jardim. Ele anda até a borda do poço e vê o jardineiro
indefeso, debatendo-se no fundo. Ele diz ao jardineiro: "Por que você não
aparou os arbustos que eu mandei aparar?" O jardineiro respondeu irado:
"Como o Senhor espera que eu apare esses arbustos se estou preso neste
poço? Se o Senhor não tivesse deixado este poço vazio aqui, eu não estaria
nesta situação."
Adão lançou-se no poço. Em Adão,
nós todos nos lançamos no poço. Deus não nos atirou dentro do poço. Adão foi
claramente prevenido a respeito do poço. Deus lhe disse para ficar longe. As
consequências que Adão experimentou por estar no poço foram uma punição direta
por ter-se lançado nele.
Assim é o pecado original. O
pecado original é tanto uma consequência do pecado de Adão quanto uma punição
pelo pecado de Adão. Nascemos pecadores porque em Adão todos caíram. Mesmo a
palavra queda tem um pouco de eufemismo. E uma visão cor-de-rosa do assunto. A
palavra queda sugere um acidente da sorte. O pecado de Adão não foi um
acidente. Ele não era o Pateta. Adão não escorregou simplesmente no pecado; ele
lançou-se ao pecado com ambos os pés. Nós nos lançamos imprudentemente com ele.
Deus não nos empurrou. Ele não nos enganou. Ele nos deu advertência adequada e
justa. A culpa é nossa e somente nossa.
Não é o caso de Adão ter comido
uvas verdes e nossos dentes terem se embotado. O ensino bíblico é que, em Adão,
todos nós comemos uvas verdes. É por isso que nossos dentes se embotaram.
** Texto extraído do Livro "Eleitos de Deus" - R. C. Sproul, que pode ser adquirido aqui.

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