Entrevista
com Ricardo Bitun[1]
concedida ao Blog do Morris da Folha de São Paulo
POR MORRIS KACHANI
Um templo que é 4 vezes maior que o Santuário de
Aparecida, equivalendo a 5 campos de futebol. De
Hebron, na Terra Santa, foram trazidos 40 mil metros quadrados de pedras. Doze
oliveiras foram importadas do Uruguai para reproduzir o Monte das Oliveiras.
Nas paredes, grandes menorás – candelabros de sete braços. E Edir Macedo
orando, de barba branca, vestido com uma indumentária judaica – o kipá, o talit
(xale utilizado pelos hebreus nas preces).
Estamos no Templo de Salomão, da igreja Universal,
em São Paulo, que acaba de ser inaugurado, a um custo de R$ 680 milhões e
capacidade para 10 mil pessoas.
Os
últimos números apresentados IBGE dão conta de que a Universal tem perdido
fiéis e espaço para as concorrentes. No último censo a igreja fundada pelo
bispo Edir Macedo perdeu 229 mil adeptos, passando de 2,102 milhões para 1,873
milhão. Já a Igreja Mundial do Poder de Deus, de Valdemiro Santiago, ganhou 315
mil seguidores.
De
acordo com Ricardo Bitun, professor do departamento de pós graduação de
ciências da religião do Mackenzie, a construção do templo marca uma nova fase
da Universal. “Pelos comerciais que estão sendo veiculados na TV Record, muito
bem feitos por sinal, se projeta um novo perfil para o fiel da Universal: bem
sucedido, bom cidadão, classe média, um homem de família, o famoso bordão: ‘Eu
sou Universal’. Ali você tem uma dentista muito bonita, um médico, um
advogado”.
“Existe
uma transformação em curso. A Universal captou a ascensão de uma nova classe
social e passou a trabalhar de outra forma”.
“A
Universal, veio pra ficar, criar raízes e disputar fiéis no interior do campo
religioso brasileiro, bem diferente de seu início modesto, quando realizava
seus cultos em velhos barracões alugados”.
O que significa a construção do Templo de Salomão
no contexto religioso brasileiro atual?
Penso
que de alguma forma ao construir o Templo de Salomão, a Universal ganha capital
simbólico, ou seja, até então grandes catedrais (que representam capital
simbólico) eram monopolizadas pela igreja Católica romana. Por exemplo o marco
zero da cidade de São Paulo – Catedral da Sé -, ou na cidade de Aparecida do
Norte, localizada entre duas grandes metrópoles, onde temos a maior catedral do
Brasil, e assim por diante.
Em
toda grande capital, você é capaz de vislumbrar uma grande catedral católica
romana encravada no meio da cidade, com suas torres e sinos, dando visibilidade
à religião e simbolizando a força da mesma na cidade.
Quem
utiliza este termo capital simbólico é Pierre Bourdieu, sociólogo francês,
ressaltando que a religião é portadora de um “capital religioso”, que por não
ser obrigatoriamente quantificado ou mensurado, pode ser chamado de “capital
simbólico”. Significa dizer que no chamado “campo religioso” há uma disputa por
parte das instituições para disponibilizar e manipular os “bens simbólicos de
salvação” que compõem o capital (areia abençoada, mesa branca energizada, óleo
orado, rosa ungida, entre outros).
Com
a construção do Templo de Salomão o eixo simbólico religioso é no mínimo
compartilhado (ou deslocado) para uma outra religião que mostra sua força e
vontade de competir numérica e simbolicamente com a religião que até então (500
anos) detinha o monopólio religioso.
Além
disso, mostra por parte da liderança da Universal a firme decisão de querer
estabelecer suas raízes em solo pátrio, não que já não tenha estabelecido, mas
a construção de um templo destas proporções reforça a ideia de que ela,
Universal, veio pra ficar, criar raízes e disputar fiéis no interior do campo
religioso brasileiro, bem diferente de seu início modesto, quando realizava
seus cultos em velhos barracões alugados.
Como a Universal se inscreve no cenário
pentecostal? O número de fieis cresce ou diminui? Quem são os principais
concorrentes da Universal e quem os apóia?
A
Universal é descrita por sociólogos e pesquisadores da religião como
pertencente ao chamado neopentecostalismo – pentecostais que se distanciaram da
antiga matriz pentecostal clássica como por exemplo as Assembleias de Deus e
tantas outras. Utilizam a Teologia da Prosperidade -teologia que interpreta os
textos bíblicos a fim de que os fiéis creiam que Deus tem saúde e bênçãos
materiais para entregar ao seu povo-, como sua principal alavanca na conquista
de novos fiéis, prometendo-lhes a riqueza terrena ao invés das futuras riquezas
celestiais. As benesses do céu são para o “aqui e o agora”.
Os
últimos números apresentados pelo IBGE dão conta de que a Universal tem perdido
fiéis e espaço para as concorrentes, também pertencentes ao neopentecostalismo:
Mundial do Poder de Deus, Internacional da Graça de Deus e outras menores.
Qual a diferença entre o público delas e da
Universal?
Além
de curiosos, pesquisadores e público em geral, penso que o próprio fiel da
Universal terá muito interesse e “orgulho” em estar dentro do templo da sua
igreja. Arrisco a dizer que o imaginário medieval pode aqui muito bem ser
reproduzido na cabeça do fiel moderno (guardada as devidas proporções espaciais
e temporais). Imagine um camponês saindo de sua pequena casa e entrando numa
grande igreja europeia da Idade Média, com afrescos e ouro por todos os lados?
Qual a sensação que passaria por sua cabeça? Poder, riqueza, luxo, etc.? Voce
poderia me dizer: -“Isto num primeiro momento, mas depois não viria a raiva, o
sentimento de opressão, exploração, etc?”. Provável. Mas, também o de
construção de algo que lhe dê orgulho, grandeza, etc.
Penso
que o mesmo acontece, (numa análise bem simples e informal) com o fiel da
Universal, aquela é a sua “casa”, a “sua” igreja.
No que o público da Universal se diferencia das
outras neopentecostais?
O
público é também das classes menos favorecidas, mas não só. Você vê pelas
propagandas na TV. Nas outras o poder aquisitivo dos fieis é mais baixo, de
forma geral.
Por
exemplo, Valdemiro Santiago, da Mundial, dá mais ênfase para a cura divina, e a
Universal vem se distanciando disso. A tendência está em buscar a nova classe
média. Talvez a Universal tenha mais apelo com ela, sem esquecer o pessoal lá
de baixo.
Os cultos e a mitologia da Universal mudaram ao
longo do tempo ou continuam os mesmos? Tem alguma ideia ou projeção de quanto a
igreja arrecada em termos de dízimos?
A
ênfase da Universal em seu começo (1977) foi o exorcismo, a “guerra santa”
contra os poderes diabólicos, encarnados principalmente nas religiões
afro. Possuía até então um forte viés maniqueísta vendo o mundo como o
palco de uma luta constante entre Deus e o Diabo, dividindo assim todas as suas
estratégias e atividades.
Na
década de 80 e 90 eles mudam sua ênfase, migrando para a teologia da
prosperidade como seu principal foco. Isto é facilmente verificável através do
chamados “testemunhos” via TV (Record). Antes era o “eu era pobre,
desempregado, miserável…”, agora é “tenho dois carros do ano, casa própria e
uma próspera empresa”. Este é o rosto da Universal pós década de 80 e 90.
Estamos
presenciando agora uma outra fase, que tem seu início, ao que me parece desde a
construção do templo. Pela TV se projeta um novo perfil para o fiel da igreja:
bem sucedido, bom cidadão, classe média, um homem de família, o famoso bordão:
“Eu sou Universal”.
Não
quero dizer com isso que ela abandone as outras fases (exorcismo, prosperidade,
etc), apenas que ela não mais as enfatiza.
Quanto
à arrecadação ninguém nunca soube ao certo e asseguro que nunca saberá, este
segredo é guardado a sete chaves.
Como
se dá a interface entre Universal e Record? Qual o nível de
representatividade política da igreja?
A
igreja ocupou com muita habilidade o espaço público, principalmente o espaço
político. Hoje presenciamos no Rio de Janeiro Garotinho e Crivella numa disputa
acirrada pelo governo. Crivella, sobrinho de Edir Macedo, foi ministro da pesca
no atual governo. Vereadores, deputados e senadores ligados à igreja são
cuidadosamente eleitos e colocados estrategicamente em postos-chave nas
comissões que interessam a Universal, principalmente as ligadas a rádio e
televisão. Voltando um pouco ao tempo, percebemos a importância da Universal no
cenário político quando da derrota eleitoral de Lula representado pela
esquerda, assim como na eleição de Fernando Collor (89) e Fernando Henrique
(94).
O que sabe sobre o momento atual de Edir Macedo? Na
última foto ele aparece vestindo toda a indumentária religiosa judaica, além da
barba branca. Tem um por que? Ou ainda, qual seria sua opinião pessoal a
respeito disso tudo?
Sua
indumentária judaica, sua longa barba branca, etc., compõe o cenário “religioso
espetacular” o qual ele, Edir Macedo está pronto a encenar.
Sabe-se
pelo último censo do IBGE que a Universal perdeu fiéis para seus concorrentes
diretos, principalmente a Mundial do Poder de Deus. Um “contra-ataque” se faz
necessário para todo aquele que deseja manter-se na liderança e em pleno
crescimento. Creio que Edir Macedo, como todo empresário bem-sucedido, quer
garantir sua posição no “ranking da fé”.
Por que a indumentária judaica?
Não
só a Universal como outras igrejas neopentecostais, resgatam uma tendência
judaizante. Os pentecostais estão muito mais próximos do judaísmo que os
católicos. É uma forma de se diferenciarem do arcabouço católico romano que
formou a nação brasileira nestes primeiros 500 anos.
E
o ritual judaico é riquíssimo, ele dá uma liga. O Antigo Testamento é
extremamente simbólico e afinal, constitui aproximadamente ¾ da Bíblia.
A
Universal utiliza muitos elementos do judaísmo em suas campanhas. Por exemplo,
tem a campanha da Pedrinha de David, na qual o fiel vai lá na frente, faz uma
oferta e ganha uma pedrinha simbolizando David. Esta pedrinha supostamente
serve para ser usada na hora das dúvidas. O fiel é orientado a pegá-la na mão e
orar, em busca de uma solução.
Segundo
a Bíblia David destruiu o inimigo filisteu representado pelo gigante Golias,
com apenas três pedrinhas.
Por que decidiram chamar este complexo religioso de
Templo de Salomão?
O
cristianismo sai do judaísmo. São muito próximos no começo. Salomão é filho de
David. O Templo de Salomão foi o primeiro grande templo judaico (o Muro das
Lamentações, em Jerusalém, é o que sobrou dele). Segundo a Bíblia no templo
original havia uma arca de aliança toda de ouro com querubins em cima, e dentro
três elementos: as duas tábuas da lei que Moisés recebeu, a vara de Arão (irmão
de Moisés), e o maná – o pão que descia do céu durante a travessia no deserto.
Isso se perdeu, após a destruição do templo. Mas no templo da Universal, vai
ter uma réplica dessa arca.
Fonte: Blog do Morris (FOLHA)
[1]
Ricardo
Bitun é bacharel em Teologia e Ciências Sociais, mestre em Ciências da Religião
pela Universidade Metodista e doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo.
Casado com Vânia e pai de Marina e Ricardo Estefano, ele é professor no Programa de Pós-Graduação em
Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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