A idéia de que há um poder intrínseco ou inerente no sangue de
Jesus é um conceito popular no mundo cristão. Ela aparece até em hinos e
cânticos de louvor. Essa idéia reflete um mal-entendido fundamental sobre o
conceito do sangue em relação à expiação do ponto de vista bíblico. Certa vez
ouvi meu amigo John Guest, um evangelista anglicano, pregar sobre a cruz e o
sangue de Cristo. Ele fez esta pergunta: “Se Jesus tivesse vindo a este mundo e
arranhado seu dedo em um espinho, de modo que derramasse uma ou duas gotas de
sangue, isso teria sido suficiente para nos redimir? Isso teria constituído um
derramamento de sangue. Se somos salvos pelo sangue de Cristo, isso teria sido
suficiente?” É óbvio que o argumento que John estava formulando não era que o
sangue de Cristo derramado assim nos salva. A importância do sangue no sistema
sacrificial era que ele representava a vida. O Antigo Testamento enfatiza
repetidas vezes que “a vida da carne está no sangue” (Lv 17.11). Portanto,
quando o sangue é derramado, a vida se acaba. Isso é significativo porque, na
aliança de obras, no Jardim do Éden, a morte foi a penalidade estabelecida para
a desobediência. Essa foi a razão por que Jesus teve de morrer para realizar a
expiação. Quando o sangue é derramado e a vida, exaurida, a penalidade é paga.
Nada menos do que essa penalidade será suficiente.
Jesus
foi abandonado por seu Pai na cruz. Com essa mesma conotação, ouvimos às vezes
que aqueles que estão no inferno são abandonados por Deus no sentido de que o
inferno é a ausência de Deus. As Escrituras ensinam claramente que Deus é
onipresente. Davi disse: “Se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá
estás também” (Sl 139.8).
Então, como devemos entender o inferno em relação à presença de
Deus?
É comum dizermos que o inferno é a ausência de Deus. Afirmações
como essa são motivadas, em grande parte, até pelo pavor de considerarmos como
é o inferno. Tentamos abrandar isso e achar um eufemismo para desviar-nos do
assunto. Quando usamos a linguagem figurada do Antigo Testamento em uma
tentativa de entender o abandono dos perdidos, não estamos falando da idéia de
afastamento ou ausência de Deus no sentido de que Ele deixa de ser onipresente.
Pelo contrário, tal linguagem é uma maneira de descrever o afastamento de Deus
em termos de sua bênção redentora. O inferno é a ausência da luz de seu rosto.
É a presença da carranca da face de Deus. É a ausência da bênção de sua glória
manifestada, que é um deleite para a alma daqueles que o amam; por outro lado,
é a presença das trevas de juízo. O inferno reflete a presença de Deus em sua
forma de julgamento, em seu exercício de ira. E todos gostariam de escapar
disso. Acho que essa é a razão por que ficamos confusos. Há um afastamento em
termos da bênção da intimidade de Deus. Seus benefícios podem ser removidos
para bem longe de nós, e a linguagem bíblica nos chama atenção para isso.
O famoso hino da igreja “Como pode ser?” contém um verso que faz
esta pergunta profunda: “Como pode ser que meu Deus morreu por mim?” É correto
afirmar que Deus morreu na cruz?
Esse tipo de expressão é popular na hinódia e nas conversas de
pessoas comuns. Mas, embora eu tenha esse escrúpulo a respeito do hino e me
inquiete com o fato de que a expressão está ali, acho que a entendo, e há uma
maneira de tolerá-la. Cremos que Jesus Cristo era Deus encarnado. Também cremos
que ele morreu na cruz. Se afirmamos que Deus morreu na cruz e, com isso,
pretendemos afirmar que a natureza divina pereceu ali, nos envolvemos em
heresia séria. De fato, duas heresias relacionadas a esse assunto surgiram nos
primeiros séculos da igreja: teopassianismo e o patripassianismo. A primeira delas, o teopassianismo, ensina que Deus mesmo sofreu a morte na cruz. O patripassianismo indica que o Pai
sofreu vicariamente por intermédio do sofrimento de seu filho. Ambas as
heresias foram severamente rejeitadas pela igreja por negarem, de modo
categórico, o próprio caráter e natureza de Deus, incluindo a sua
imutabilidade. Nunca houve qualquer mudança na natureza e caráter dele. Deus
não somente criou o universo, mas também o sustenta pela palavra do próprio
poder de seu ser. Como Paulo disse: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos”
(At 17.28). Se o ser de Deus cessasse por um segundo, o universo desaparecia.
Perderia a existência, porque nada pode existir à parte do poder sustentador de Deus. Se Deus morre, tudo morre com ele.
Então, é óbvio que Deus não pode ter morrido na cruz. Alguns dizem: “Foi a
segunda pessoa da Trindade que morreu”. Isso seria uma mutação no próprio ser
de Deus, porque, ao considerarmos a Trindade, dizemos que os três são um em
essência e que, embora haja distinções entre as pessoas da Divindade, essas
distinções não são essenciais no sentido de que são diferenças no ser. A morte
é algo que envolve uma mudança no ser de uma pessoa. Devemos esquivar-nos, com
horror, da idéia de que Deus morreu na cruz. A expiação foi realizada pela
natureza humana de Cristo. De algum modo, as pessoas tendem a pensar que isso
diminui a dignidade ou o valor do ato vicário, como se isso negasse
implicitamente, em algum nível, a deidade de Cristo. Jamais. Foi o Deus-Homem
que morreu, mas a morte é algo experimentado somente pela natureza humana,
porque a natureza divina é incapaz de experimentá-la.
Há uma conexão entre um entendimento incorreto quanto à depravação
humana e a rejeição da doutrina da expiação limitada?
Sob o risco de parecer estar sendo incoerente com o que tenho dito
tantas vezes, eu acho realmente que o maior problema que temos na teologia é
chegarmos a um entendimento correto de duas doutrinas: a doutrina de Deus e a
do homem. No capítulo inicial das Institutas da Religião
Cristã, João Calvino escreveu
sobre a importância de possuirmos um entendimento correto a respeito de quem o
homem é, para obtermos um entendimento exato sobre quem Deus é. Em seguida,
Calvino faz uma afirmação meio paradoxal e diz que, para entendermos o homem,
precisamos também entender a Deus. Infelizmente, não sabemos quem Deus é, por
isso não sabemos o que nós mesmos somos. Todavia, quanto mais entendemos a
santidade e a justiça de Deus, tanto mais começamos a perceber, por contraste,
quão desesperadamente caídos e dependentes somos da misericórdia e graça de
Deus. O conflito básico da teologia diz respeito a uma teologia teocêntrica e
uma teologia antropocêntrica — uma teologia centrada em Deus e uma teologia
centrada no homem. Receio que muitos cristãos professos estão mais interessados
na exaltação do ser humano do que na dignidade de Deus mesmo.
Você percebe algum conflito entre a “salvação por decisão” e a
eleição?
Acho que o maior perigo é que as igrejas estejam cheias de pessoas
que fizeram uma profissão de fé, mas não estão na graça. A justificação ocorre
por meio de possuirmos a fé, e todo aquele que tem a fé verdadeira é chamado a
professá-la. Mas você não entra no reino de Deus por levantar a mão, vir à
frente do templo, fazer a oração de salvação ou assinar um cartão de decisão.
Todas essas coisas são boas, mas são exterioridades. Infelizmente, tendemos a
focalizar essas coisas. Quando alguém faz uma profissão de fé, dizemos: “Você
entrou no reino”. Não pedimos à pessoa que se examine para saber
se a fé que ele ou ela confessa é, de fato, autêntica. Contudo, é vital que
façamos isso, porque somente a fé autêntica trará justificação. Essa fé é dom
de Deus. Eu não posso produzir a fé em outra pessoa. Posso plantar a semente e
regá-la, mas somente Deus, o Espírito Santo, pode produzir o crescimento.
Como o pós-modernismo afeta o entendimento popular quanto à
expiação?
Minha maior preocupação é com a maneira pela qual a mentalidade
pós-moderna está seduzindo a igreja, inclusive a igreja reformada. Parece haver
uma aceitação tácita de que em algum tempo por volta de 1970, no final da
revolução cultural dos anos 1960, algo admirável aconteceu — uma mudança
referente à nossa constituição ocorreu na natureza dos seres humanos, a partir
da maneira como fomos criados. Agora a vida não é mais construída sobre a base
da verdade penetrando a alma por meio da mente. Desde 1970, adotamos a “cultura
dos sensos” que se focaliza em nossos sentimentos, relacionamentos e tudo que é
subjetivo. Até a verdade é considerada subjetiva e não objetiva. Por
conseguinte, a verdade é o que você quer que seja verdade. Esta é geração mais
narcisista na história da raça humana. Norteadas por essas mudanças, igrejas
estão se apressando a mudar sua maneira de lidar com a cultura, adotando o uso
de temas políticos, entretenimento e esse tipo de coisas. Esquecem que o poder
está na Palavra de Deus, não em métodos, e que a Palavra de Deus é dirigida, em
primeiro lugar, à mente. Deus tencionou que sua Palavra fosse inteligível; e,
somente quando a entendemos, ela penetra em nossa mente e coração, revelando-se
em vidas mudadas.
Falamos sobre a expiação realizada por Cristo, mas foi Deus, o Pai, quem enviou
Jesus ao mundo. O que podemos fazer para manter nosso entendimento da
centralidade do Pai na história da redenção?
Em termos práticos, acho que uma das melhores e mais importantes
coisas que podemos fazer é meditarmos de novo no Antigo Testamento. Um de meus
motivos freqüentes de reclamação é a maneira como achamos que, pelo fato de que
o evangelho surgiu na história e de que o Novo Testamento nos proporciona uma
revelação de Jesus, podemos agora dispensar ou menosprezar o Antigo Testamento.
Esquecemos que esse enorme compêndio de informações é revelação divina; e
grande parte do seu conteúdo é um desvendamento do caráter de Deus visando ao
nosso benefício. Precisamos conhecer o Deus do Antigo Testamento, porque foi
Ele a quem Jesus chamou de Pai. Foi o Deus do Antigo Testamento que enviou
Jesus e foi satisfeito mediante a obra realizada por Cristo. Chamamos a nós
mesmos de cristãos, mas precisamos lembrar que a razão por que amamos a Jesus e o
seguimos é que ele nos reconciliou com o Pai. Na administração da redenção, o
próprio Jesus é subordinado ao Pai e nos chama a soli Deo gloria,dar glória somente a
quem ela pertence, a Deus.
Em que ponto da história uma pessoa é redimida — quando Cristo
morreu na cruz, em favor de seu povo, ou quando a pessoa responde ao evangelho,
com fé?
Na versão grega da Bíblia, o verbo salvar aparece em todos os
tempos possíveis. A Bíblia diz que fomos salvos desde a fundação do mundo ou que estávamos sendo salvos desde a fundação do
mundo; que somos salvos ou que estamos sendo salvos; e que seremos salvos. A verdade é que desde a fundação do mundo somos justificados,
nos decretos de Deus. Mas isso não se consumou até o tempo e a ocasião da obra de Cristo; e
não se realiza enquanto não somos vivificados pelo Espírito Santo, para que
venhamos à fé e nos apropriemos dos benefícios que foram determinados e
garantidos para nós em eras passadas.
A expiação se aplicou àqueles que viveram antes da crucificação de
Cristo?
A resposta para essa pergunta é clara nas Escrituras. As pessoas
que viveram na época do Antigo Testamento tinham o sistema de sacrifícios, mas
o sangue de touros e bodes não podia expiar o pecado de ninguém. Essas coisas
faziam o povo de Israel olhar para longe de si mesmo, para uma expiação que
satisfaria a justiça de Deus. Uma pessoa do Antigo Testamento que confiasse na
promessa da obra do Messias era salva, embora essa obra ainda não tivesse sido
realizada no tempo e no espaço. O fundamento dessa salvação era a obra de
Cristo, que viria. Os crentes do Antigo Testamento eram salvos pela fé que
olhava para frente, enquanto nós somos salvos pela fé que olha para trás. O
fundamento objetivo da salvação de ambos os grupos é o mesmo — a expiação de
Cristo.
Essa seção de perguntas e respostas foram extraídas do livro "A Verdade da Cruz" - R. C. Sproul, que está disponibilizado o ebook para download no site da Editora Fiel seguindo o link Ministério Fiel Aqui.
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