Antes de iniciar nosso estudo, preciso
definir “idolatria”. A exposição do primeiro mandamento (“Não terás outros
deuses além de mim” [Êx 20.3]) feita por Martinho Lutero no catecismo maior
continha o seguinte texto: “Tudo aquilo a que o seu coração se apega e se
entrega com fé, isso é seu Deus; bastam apenas a confiança e a fé do coração
para constituir tanto a Deus quanto ao ídolo”[1]. A
esse pequeno trecho, eu acrescentaria: “Tudo aquilo a que seu coração se apega
e em que confia como segurança definitiva”. “Ídolo é tudo o que exige a
lealdade devida exclusivamente a Deus”[2]. Essas
definições de idolatria são básicas e úteis. A palavra “idolatria” pode
referir-se à adoração de outros deuses que não são o Deus verdadeiro ou à
veneração de imagens. Conforme o conceito do Antigo Oriente Próximo e do Antigo
Testamento, o ídolo ou a imagem contêm a presença da divindade, mas essa
presença não se limita à imagem[3]. Christopher
Wright resume bem a avaliação bíblica definitiva da suposta realidade divina
por trás dos ídolos:
Embora deuses e ídolos sejam alguma coisa no mundo, eles
não são nada comparados ao Deus vivo […]
Ainda que os deuses e os ídolos sejam ferramentas dos
portais do mundo demoníaco ou a porta de entrada para esse mundo, o veredicto
irrevogável da Escritura é que eles são obra de mãos humanas, produtos da
nossa imaginação caída e rebelde […]
O principal problema da idolatria é que ela obscurece a
distinção entre Deus, o Criador, e a criação. Isso danifica a criação (em que
nós mesmos nos incluímos) e diminui a glória do Criador.
Uma vez que a missão de Deus é restabelecer a finalidade
original da criação e dar toda a glória a ele mesmo, por conseguinte,
possibilitando que toda a criação desfrute a plenitude das bênçãos que ele quer
para ela, Deus luta contra todas as formas de idolatria e nos convoca a nos
aliar a ele nessa guerra […]
Precisamos entender toda a amplitude da revelação bíblica
acerca dos efeitos destrutivos da idolatria para compreender sua gravidade e o
motivo do discurso veemente da Bíblia a seu respeito.[4]
Este livro vai tratar do que Wright
resume como “danos” idólatras à criação, sobretudo aos seres humanos, que são
a coroa dessa criação, e daquilo que ele chama de “efeitos estrutivos
da dolatria” sobre o homens, o que é ressaltado pelo “discurso veemente da
Bíblia em relação a ela”.
Os estudos da natureza da idolatria
quase sempre abarcam os dois primeiros dos Dez Mandamentos de Êxodo 20:
Não terás outros deuses além de mim.
4 Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do
que há em cima no céu, nem embaixo na terra, ou nas águas debaixo da terra. 5Não te curvarás diante delas, nem as
cultuarás, pois eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso. Eu castigo o pecado dos
pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me rejeitam, mas
sou misericordioso com mil gerações dos que me amam e guardam os meus
mandamentos (v. 3-6).
Enquanto alguns comentaristas
consideram que os dois mandamentos são separados, outros entendem que se trata
de um mandamento único[5]. Seja
como for, é plausível que o primeiro mandamento seja interpretado pelo segundo.
Assim, “não terás outros deuses” diante do Deus de Israel significava que era
proibido fazer “imagem ou algo semelhante” de qualquer coisa do mundo criado
para ser adorada, porque se acreditava que a imagem continha a presença divina.
Mesmo fazer uma imagem em que o Deus de Israel supostamente estivesse presente
(como parece ser o caso em Êx 32.1-9) era proibido pelas seguintes razões: 1)
Deus não se revelara a Israel em nenhuma forma; por isso, representá-lo na
forma de qualquer elemento da criação seria falseá-lo e, portanto, cometer
idolatria (Dt 4.12-16, 23-25). Desse modo, o “autodesvelamento de Deus se deu
mediante a revelação em palavras, e a experiência do Sinai constituía um
paradigma da autorrevelação de Deus a Israel; logo, proibiam-se imagens”[6]. 2)
Além disso, não se permitiam imagens de Deus para conservar no meio de seu povo
a perpétua consciência da distinção existente entre o Criador e a criatura
finita, que “nem de longe corresponde à natureza absoluta e transcendente do
Deus de Israel”[7]. 3)
As imagens também eram proibidas para que os israelitas conservassem
perpetuamente a ideia de que seu Deus é diferente dos deuses pagãos e não se compara
a esses (Is 40.18-26)[8], cuja
presença podia ser transferida para determinadas imagens em forma
de criaturas, ao passo que a presença de Deus jamais se pode localizar nem
captar desse modo. Afirmar que um objeto criado não pode conter nem sequer uma
fração da presença do verdadeiro Deus é fazer que Israel se lembre de que cada
fragmento da criação pertence a Deus (“toda a terra é minha” [Êx 19.5]); ao
contrário do que ocorre com as divindades das outras nações, cujo domínio se
restringe tão somente à nação que as adora[9]. “Deus é Espírito, e é necessário que os que o adoram o adorem no
Espírito e em verdade” (Jo 4.24)[10]. Adorar a imagem de qualquer parte da criação é aviltar a glória
incomparável de Deus: “Eu sou o Senhor, este é o meu nome; / Não darei a minha
glória a outro, / nem o meu louvor às imagens esculpidas” (Is 42.8). Deus é
“zeloso” (isto é, tem ciúmes, não tolera infidelidade) quando as pessoas dão
glória a qualquer ente que não seja ele mesmo, porque no universo ele é
verdadeiramente o único ser merecedor de glória (cf. Êx 20.5; Dt 4.24; 5.9;
32.16,21).
Quando explica o segundo mandamento,
Calvino afirma que representar Deus por imagens da criação é proibido porque,
quando as pessoas, condicionadas pelo ambiente físico, concebem e criam uma
imagem relativa à divindade, elas têm a atenção desviada da verdadeira natureza
espiritual de Deus e, em alguma medida, passam a conceber a divindade em alguma
forma corpórea[11]. É
mais importante ainda não produzir imagens de Deus, uma vez que essas “fraudes
idolátricas nos cercam por todos os lados [de modo que], em nossa natureza vã,
seremos responsabilizados” por nos desviar para substitutos da adoração verdadeira
de Deus[12]. “Visto
que Deus nos determinou o modo que ele deve ser adorado [isto é, sem imagem
nenhuma], quando nos desviamos, ainda que minimamente, dessa norma, estamos
criando outros deuses para nós e tirando Deus do seu devido lugar”[13]. Esse
culto ordenado por Deus é a diferença “entre a verdadeira religião e as
superstições”[14]. Logo,
embora eu tenha proposto razões para a proibição de imagens, Calvino diria
acertadamente que o mandamento divino do culto sem imagens é em si
justificativa suficiente para esse tipo de adoração.
É verdade que há manifestações de Deus
em forma humana, quer em visões celestiais, quer de outro modo; todavia, é consenso
que essas manifestações são exceções legítimas à regra, sobretudo porque se
trata de aparições vivas de iniciativa soberana do próprio Deus, não imagens
sem vida fabricadas por homens na forma de elementos da criação. É consensual
também a ideia de que o segundo mandamento não proíbe a feitura de imagens que
representem elementos da criação com finalidade artística, desde que essas
peças de arte não pretendam simbolizar Deus. Conquanto haja diferença entre
adorar imagens do verdadeiro Deus e adorar deuses pagãos (com ou sem imagens),
neste estudo o vocábulo idolatria se refere a todos esses usos, em
harmonia com nossa análise do primeiro e do segundo mandamento, sobretudo
porque os autores bíblicos normalmente não fazem distinção entre essas formas de
idolatria, mas, sim, consideram ambas igualmente abomináveis[15].
Outras obras sobre idolatria
Existe uma quantidade razoável de
livros e artigos que tratam direta e expressamente do tema idolatria, muitos
deles, porém, analisam formas contemporâneas de idolatria e se concentram menos
na ideia que se encontra na Bíblia[16]. Alguns
materiais pertinentes serão mencionados em vários pontos ao longo do livro.
Existe, contudo, um livro publicado recentemente, Idolatry and the Hardening
of the Heart [A idolatria e o endurecimento do coração], de Edward P.
Meadors, que é semelhante a este meu em alguns aspectos. Meadors apoia-se na
tese acerca da idolatria que eu já apresentei em alguns artigos e no meu
comentário do Apocalipse e, em certa medida, ele a desenvolve. Aqui, vou
elaborá-la de modo mais aprofundado[17].
Consequentemente, em algumas partes
ele afirma o que é minha tese central neste livro: as pessoas se tornam
parecidas com os ídolos que adoram, isto é, quando se faz referência a elas,
menciona-se que estão ficando semelhantes à representação de seu objeto de
culto idólatra[18].
Porém, na maioria das vezes, Meadors
trata de exemplos simples de adoração de ídolos, sem dar exemplos do princípio
de ficarmos parecidos com o que adoramos e de sua complexa natureza. Na realidade,
a obra de Meadors lida mais com a ideia do “endurecimento do coração” como
parte da idolatria (por isso o título do livro dele), um tema específico de que
praticamente não tratei. Ele não dá nenhum exemplo de que os ídolos são
representados como portadores de “coração endurecido”. Por conseguinte, quando
então analisa pessoas de quem a Escritura afirma terem coração endurecido e diz
que elas se endureceram como os ídolos, fica sem nenhum precedente que possa
indicar como analogia precisa do que afirma. De modo geral, acredito que ele
está no caminho certo, mas, na realidade, as Escrituras não afirmam
especificamente em parte alguma que os ídolos tinham coração duro, nem que os
adoradores ficaram endurecidos como os ídolos que adoravam. Apesar disso, o
livro de Meadors contém, sim, análises úteis sobre o tema da idolatria.
Vamos examinar uma série de exemplos
em que os ídolos são retratados de determinado modo e em seguida os que os
adoram são retratados exatamente do mesmo modo. Defenderei a tese de que a finalidade
desse retrato idêntico é mostrar ironicamente que o adorador, em vez de
desfrutar a bênção vivificante esperada, recebeu uma maldição, tornando-se
espiritualmente tão inerte, vazio, rebelde e vergonhoso quanto se menciona que
o ídolo é. Por exemplo, quando se retratam os ídolos com olhos e orelhas que
não enxergam nem ouvem, afirma-se que seus adoradores têm olhos e orelhas, mas
não veem nem ouvem. Além disso, também vou me concentrar no fato de que os
adoradores do Deus verdadeiro refletem sua imagem em bênção. Todos os seres
humanos foram criados para ser criaturas refletoras, e vão refletir aquilo com
que estão fundamentalmente comprometidas, seja o Deus verdadeiro, seja
qualquer outro objeto da ordem criada. Assim, reiterando o tema principal deste
livro, nós nos assemelhamos àquilo que adoramos, para nossa ruína ou para
nossa restauração.
* G. K. Beale
Extraído da Introdução ao Livro "Você se Torna Aquilo que Adora" publicado pela Editora Vida Nova.
Notas
[1] Tomei
conhecimento dessa referência em B. S. Rosner, “Idolatry”, in New Dictionary
of Biblical Theology. Editores: T. D. Alexander e B. S. Rosner (Downers
Grove: Ill.: InterVarsity Press, 2000), p. 571.
[2] J. A. Motyer,
“Idolatry”, in The Illustrated Bible Dictionary. Editor: J. D. Douglas
(Leicester: U.K.: InterVarsity Press, 1980), 2:680.
[3] Encontraremos evidências
disso no AOP mais adiante, no capítulo 1, em nossa análise de Isaías 6. A ideia
de que a presença de uma divindade estrangeira se manifestava em sua imagem
parece ser a melhor maneira de compreender textos como Êxodo 20.23 (“deuses de
prata [...] de ouro”), Levítico 19.4 (“Não vos volteis para os ídolos, nem
façais deuses de metal para vós”) e Josué 24.14 (“jogai fora os deuses a quem
vossos pais [...] cultuavam”).
[4]C. J. H.
Wright, The Mission of God (Downers Grove, Ill.: InterVarsity Press,
2006), p. 187-188. [Edição em
português: A Missão do Povo de Deus (São Paulo: Vida Nova, 2011).]
[5] A análise do parágrafo anterior segue B. S.
Rosner, “Idolatry”, p. 575.
[6] E. M. Curtis, “Idol, Idolatry”, in The Anchor Bible
Dictionary, org. D. N. Freedman (New York: Doubleday, 1992),
3:379.
[7] U. Cassuto, A Commentary on the Book of Exodus (Jerusalem:
Magnes Press, 1967), p. 236-237.
[8] V. de Curtis, “Idol, Idolatry”, p. 379, para
este último ponto sobre a impossibilidade de comparação.
[9] Ibidem, p. 227.
[10] Embora no contexto de João 4 isso se refira aos
adoradores da era escatológica inaugurada, que adoram à luz e no que concerne
às realidades intensificadas do fim dos tempos (p. ex., o dom escatológico do
Espírito), ainda vale o preceito de que Deus é espírito e deve ser adorado como
Deus sem atributos materiais.
[11] John Calvin, Commentaries on the Last Four Books of
Moses (Grand Rapids: Eerdmans, 1964), 2:116-17.
[12] Ibidem, 2:127.
[13] Ibidem, 1:419.
[14] Ibidem.
[15]
Curtis, “Idol, Idolatry”, p. 379, e mais amplamente
Rosner, “Idolatry”, p. 571.
[16] V. a bibliografia organizada por S. F. Eix in Ex Auditu 15
(1999): 143-50, bem como as referências bibliográficas das notas de rodapé
desse volume nas p. 19-142; Ehud Ben Zvi, Hosea (Grand Rapids: Eerdmans,
2005) p. 119, para fontes secundárias sobre a idolatria.
Para
informações mais recentes, v. o bem equilibrado capítulo sobre idolatria de
Wright, Mission of God, p. 136-188. V. também de Stephen C. Barton,
org., Idolatry: False Worship in the Bible, Early Judaism and Christianity (Edinburgh:
T&T Clark International, 2007); tive conhecimento dessa obra apenas
recentemente, por isso não tive como dialogar com ela neste livro.
[17]
Na verdade, minhas publicações anteriores sobre o
assunto são mais citadas no livro dele do que qualquer outro autor. As publicações são: 1) “Isaiah
6:9-13: a Retributive Taunt Against Idolatry”, Vetus Testamentum 41
(1991): 257-78; 2) “The Hearing Formula and the Visions of John in Revelation”,
in A Vision for the Church: Studies in Early Christian Ecclesiology in
Honour of J. P. M. Sweet, org. Markus Bockmuehl e M. B. Thompson
(Edinburgh: T&T Clark, 1997), p. 167-180. Meadors
também faz referência a seções do meu comentário sobre Apocalipse, apesar de
não se referir à parte em que examino a idolatria mais diretamente, na qual
integro meus artigos anteriores; v., de minha autoria, The Book of
Revelation, NIGTC (Grand Rapids: Eerdmans, 1999), p. 236-239.
[18] V. de Edward P. Meadors, Idolatry and the Hardening
of the Heart (New York: T&T Clark, 2006), pref., 2-3, 37-38, 49, 52,
59, 72, 84, 110, 167, 171-172, 190, 194. A maioria dos exemplos
importantes se baseia em minhas publicações anteriores, mas Meadors menciona
certos exemplos não contidos nessas publicações, os quais também observei de
maneira independente ao pesquisar para este livro. Dentro do possível,
mostrarei em determinadas partes deste livro esses exemplos que tenho em comum
com Meadors.
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