O romancista Saul Bellow
ressaltou, certa vez, que ser um profeta é uma obra excelente se você pode
consegui-la. O único problema, ele sugeriu, é que, mais cedo ou mais tarde, um
profeta tem de falar sobre Deus. E, nesse ponto, o profeta tem de falar com
clareza. Em outras palavras, o profeta terá de falar com especificidade a
respeito de quem é Deus, e, nesse ponto, as opções se restringem.
Durante os últimos vinte anos, um
movimento identificado como cristianismo emergente tem feito o seu melhor para
evitar o discurso com especificidade. Figuras importantes no movimento
ofereceram críticas mordazes dos principais segmentos do evangelismo. Mais
enfaticamente, eles têm acusado, de diversas maneiras, o cristianismo
evangélico de ser excessivamente preocupado com doutrina, fora de sintonia com
a cultura, muito proposicional, ofensivo além do necessário, esteticamente mal
nutrido e monótono.
Muitas de suas críticas eram
relevantes – em especial, aquelas alicerçadas em preocupações culturais – mas
outras denunciaram o que pode ser descrito como um relacionamento estranho com
a teologia cristã ortodoxa. Desde o começo do movimento, muitos líderes da
igreja emergente exigiam uma grande transformação na teologia evangélica.
No entanto, mesmo quando muitos desses
líderes insistiam em que permaneciam dentro do círculo evangélico, ficou claro
que muitos estavam se movendo para uma postura pós-evangélica. Houve os
primeiros indícios de que o rumo do movimento seguia em direção ao liberalismo
teológico e ao revisionismo radical. Mas a forma predominante do argumento
deles era a sugestão, e não a asseveração.
Em vez de fazerem asseverações
teológicas e doutrinárias claras, figuras da igreja emergente levantam,
geralmente, questões e oferecem comentários sugestivos. Influenciados pelas
teorias da narrativa pós-modernas, muito no movimento da igreja emergente se
apóiam em histórias, e não no argumento formal. A direção geral parecia
bastante clara. Os principais líderes da igreja emergente pareciam estar
impulsionando o Liberalismo Protestante – apenas um século depois.
O liberalismo protestante surgiu
no século XIX quando teólogos influentes defendiam uma reforma doutrinária. O
desafio deles para a igreja era simples e franco: os desafios intelectuais da
era moderna tornavam impossível a crença nas doutrinas cristãs tradicionais.
Friedrich Schleiermacher escreveu seus fervorosos discursos para os
"desprezadores cultos" da religião, argumentando que algo de valor
espiritual permanecia no cristianismo mesmo quando suas doutrinas não eram mais
críveis. Historiadores eclesiásticos, como Adolf von Harnack, argumentavam que
certo núcleo de verdade e poder espiritual permanecia mesmo quando as
afirmações doutrinárias do cristianismo eram negadas. Nos Estados Unidos,
pregadores como Harry Emerson Fosdick pregavam que o cristianismo tinha de
harmonizar-se com a era moderna e abandonar suas afirmações sobrenaturais.
Os liberais não planejavam
destruir o cristianismo. Pelo contrário, estavam certos de que estavam
resgatando o cristianismo de si mesmo. O esforço de resgate dos liberais exigia
a capitulação das doutrinas que a era moderna achou mais difíceis de aceitar, e
a doutrina sobre o inferno era a principal em sua lista de doutrina que tinham
de ser renunciadas.
Como observou o historiador Gary
Dorrien, do Union Theological Seminary – a fortaleza do liberalismo protestante
– foi a doutrina do inferno que marcou os primeiros grandes afastamentos da
ortodoxia teológica nos Estados Unidos. Os primeiros liberais não podiam
aceitar e não aceitariam a doutrina do inferno que incluía punição eterna
consciente e o derramamento da ira de Deus sobre o pecado.
Portanto, eles a rejeitaram.
Argumentaram que a doutrina sobre o inferno, embora revelada com clareza na
Bíblia, difamava o caráter de Deus. Ofereceram evasivas intencionais dos
ensinos da Bíblia, revisões da doutrina e rejeição do que a igreja havia
afirmado em toda a sua longa história. Por volta do final do século XX, a
teologia liberal havia esvaziado amplamente as principais igrejas e
denominações protestantes. Quando se inicia o novo século, o liberalismo
teológico é não somente uma rejeição do cristianismo bíblico – mas também uma
tentativa fracassada de resgatar a igreja de suas doutrinas. Por fim, uma
sociedade secular não sente qualquer necessidade de freqüentar ou apoiar
igrejas secularizadas que possuem uma teologia secularizada. A negação da
doutrina sobre o inferno não trouxe relevância para as igrejas liberais. Apenas
enganou milhões de pessoas quanto ao seu destino eterno.
Isso nos traz à controvérsia
sobre o livro Love Wins, de Rob Bell. Como a sua capa anuncia, o livro fala
sobre "o céu, o inferno e o destino de cada pessoa que já viveu". Ler
esse livro é uma experiência entristecedora. Já lemos esse livro antes. Não as
palavras exatas, nem apresentado de modo tão habilidoso, mas o mesmo livro, o
mesmo argumento, a mesma tentativa de livrar o cristianismo da Bíblia.
Rob Bell, como comunicador, é um
gênio. Ele é o mestre da pergunta pungente, da história distorcida e da anedota
pessoal. Como Harry Emerson Fosdick, o paladino do liberalismo no púlpito, Rob
Bell é um exímio comunicador. Se ele tivesse planejado defender o ensino
bíblico sobre o inferno, ele o teria feito maravilhosamente. Teria prestado um
grande serviço à igreja. Mas isso não foi o que ele intencionou fazer.
Como Fosdick, Rob Bell se
preocupa profundamente com as pessoas. Isso se evidencia em seu escritos. Não
há razão para duvidarmos que Rob Bell escreveu este livro motivado por sua
preocupação pessoal com as pessoas que se irritam com a doutrina sobre o
inferno. Se essa preocupação tivesse sido direcionada a uma apresentação de
como a doutrina bíblica sobre o inferno se encaixa no contexto mais amplo do
amor e da justiça de Deus e do evangelho de Jesus Cristo, isso teria sido um
benefício para milhares de cristãos e outras pessoas que procuram entender a fé
cristã. Mas não é isso que Bell faz em seu novo livro.
Em vez disso, Rob Bell usa seu
incrível poder literário e comunicativo para dividir a mensagem da Bíblia e
lançar dúvidas sobre os seus ensinos.
Ele afirma claramente o seu
interesse:
"Um impressionante número de pessoas têm sido ensinadas de que
um grupo seleto de cristãos viverão para sempre em lugar de paz, regozijo e
alegria chamado céu, enquanto o resto da humanidade viverá para sempre em
tormento e punição no inferno, sem qualquer chance de algo melhor. Diz-se
claramente a muitos que essa crença é uma doutrina central da fé cristã e que
rejeitá-la significa, em essência, rejeitar a Jesus. Isso é errado, prejudicial
e, em última análise, subverte a contagiante propagação da mensagem de amor,
paz, perdão e alegria de Jesus, a mensagem que o nosso mundo precisa ouvir
urgentemente".
Essa é uma afirmação tremenda; é
bastante clara. Rob Bell crê que a doutrina da punição eterna de pecadores que
não se arrependem está impedindo que as pessoas venham a Jesus. Esse é um
pensamento inquietante, mas, sob melhor análise, destrói a si mesmo. Em
primeiro lugar, Jesus falou com muita clareza sobre o inferno, usando uma
linguagem que só pode ser descrita como explícita. Jesus advertiu sobre
"aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo"
(Mt 10.28).
Em Love Wins, Rob Bell faz o seu
melhor para argumentar que a igreja tem permitido que a história do amor de
Jesus seja pervertida por outras histórias. A história de um inferno eterno não
é, ele crê, uma boa história. Ele sugere que uma história melhor envolveria a
possibilidade de o pecador vir à fé em Cristo depois da morte, ou de o inferno
ser uma cessação de existência, ou de o inferno ser, por fim, esvaziado de seus
habitantes. O problema, é claro, é que a Bíblia não nos dá qualquer indício da
possibilidade de um pecador ser salvo depois da morte. Em vez disso, a Bíblia
diz: "Aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o
juízo" (Hb 9.27).
Ele também advoga uma forma de
salvação universal. Novamente, as afirmações de Rob Bell são mais sugestivas do
que declarativas, mas ele tenciona claramente que seus leitores sejam
persuadidos de que é possível – até provável – que aqueles que resistem,
rejeitam ou nunca ouvem de Cristo possam, apesar disso, ser salvos por meio de
Cristo. Isso significa que nenhuma fé consciente em Cristo é necessária para a
salvação. Bell sabe que tem de lidar com textos como Romanos 10.14: "E
como ouvirão, se não há quem pregue?" Ele diz que concorda sinceramente
com esse argumento do apóstolo Paulo, mas, em seguida, descarta todo o
argumento e sugere que esse não pode ser o plano de Deus. Evita totalmente a conclusão
de Paulo de que a fé vem pelo ouvir e o ouvir "pela palavra de
Cristo" (Rm 10.17). Bell rejeita a idéia de que uma pessoa tem de chegar a
um conhecimento pessoal de Cristo nesta vida, para que seja salva. "E se o
missionário não alcançar os perdidos?", ele pergunta.
Essa é a maneira como Rob Bell
lida com a Bíblia. Ele argumenta que as portas que nunca se fecharão na Nova
Jerusalém (Ap 21.25) significam que a oportunidade de salvação jamais se fecha,
mas ele evita considerar o capítulo anterior, que inclui a afirmação clara da
justiça de Deus: "E, se alguém não foi achado inscrito no Livro da Vida,
esse foi lançado para dentro do lago de fogo" (Ap 20.15). As portas
eternamente abertas da Nova Jerusalém aparecem depois desse julgamento.
Assim como muitos outros, Bell
quer separar a mensagem de Jesus das outras vozes do Novo Testamento, em
especial a voz do apóstolo Paulo. Nisto, temos de enfrentar a inescapável
questão da autoridade bíblica. Ou afirmaremos que cada palavra da Bíblia é
verdadeira, digna de confiança e plena de autoridade, ou criaremos nossa
própria Bíblia, de acordo com nossas preferências. Em palavras francas, se
Paulo e Jesus não falam a mesma coisa, não temos qualquer idéia do que é
realmente verdadeiro.
Bell prefere o inclusivismo, a
crença de que Cristo está salvando a humanidade por outros meios além do
evangelho, incluindo outras religiões. Mas ele confunde as coisas, parecendo
advogar o universalismo em algumas páginas, mas esquivando-se de uma afirmação
plena. Ele rejeita a crença de que a fé consciente em Cristo é necessária para
a salvação, mas não se firma com clareza numa descrição específica do que ele
crê.
Bell tenta reduzir toda a Bíblia
e a inteireza do evangelho a história e crê que é seu direito e dever
determinar que história é melhor do que outra – que versão do cristianismo será
convincente e atraente para os incrédulos. Afinal de contas, ele estabeleceu
isso como seu alvo – substituir a história recebida por algo que vê como
melhor.
O primeiro problema nessa atitude
é óbvio. Não temos nenhum direito de determinar que "história" do
evangelho preferimos ou achamos mais convincente. Temos de lidar com o
evangelho que recebemos de Cristo e dos apóstolos, a fé que uma vez por todas
foi entregue à igreja. Sugerir que outra história é melhor e mais atraente do
que essa história é audácia de proporções fenomenais. A igreja está presa à
história revelada na Bíblia – em toda a Bíblia... cada palavra dela.
Há um segundo problema, um
problema que podemos achar que já tínhamos aprendido. O liberalismo não
convence. Bell quer argumentar que o amor de Deus é tão poderoso, que
"Deus consegue o que Deus quer". Ora, Deus quer a salvação de todos,
Bell argumenta, logo, todos serão salvos – alguns depois da morte, até muito
tempo depois da morte. Mas ele não pode sustentar essa idéia por causa da sua
absoluta afirmação da autonomia humana: Deus mesmo não pode impedir e não
impedirá de ir para o inferno alguém que está decidido a ir para lá. Portanto,
se entendemos Bell em seus próprios termos, nem ele crê que "Deus consegue
o que Deus quer".
Semelhantemente, o argumento de
Bell está centralizado na afirmação do caráter amoroso de Deus, mas ele separa
o amor da justiça e da santidade. Isso é característico do liberalismo
tradicional. O amor é divorciado da santidade e se torna mera sentimentalidade.
Bell quer resgatar a Deus de qualquer ensino de que sua ira é derramada sobre o
pecado e pecadores e, com certeza, em qualquer sentido de punição eternamente
consciente. Mas Bell também quer Deus vindique as vítimas de assassinato,
estupro, abuso infantil e males semelhantes. Ele parece não reconhecer que tem
destruído sua própria história, deixando Deus incapaz ou indisposto de realizar
sua própria justiça.
Na verdade, qualquer esforço
humano para oferecer ao mundo uma história superior à abrangente história da
Bíblia fracassa em todos os lados. É uma abdicação da autoridade bíblica, uma
negação da verdade bíblica e um evangelho falso. Engana pecadores e não salva.
Também fracassa em seu alvo central – convencer pecadores a pensarem melhor em
Deus. O verdadeiro evangelho é o evangelho que salva – o evangelho que tem de
ser ouvido e crido, para que pecadores sejam salvos.
Mas é exatamente neste ponto que
o livro de Rob Bell se desvia. Ele descreve o evangelho nestes termos:
Começa na verdade certa e segura
de que somos amados. A verdade de que, apesar do que saiu horrivelmente errado
em nosso coração e se espalhou por todos os cantos do mundo; apesar de nossos
pecados, erros, rebelião e coração insensível; apesar do que foi feito para nós
e do que temos feito, Deus fez as pazes conosco.
Ausente do evangelho de Rob Bell,
está qualquer referência clara a Cristo, qualquer entendimento adequado do
pecado, qualquer afirmação da santidade de Deus e de sua garantia de punir o
pecado, qualquer referência ao sangue derramado de Cristo, de sua morte na
cruz, de sua expiação vicária e de sua ressurreição e, tão impressionantemente,
qualquer referência à fé como a reposta de pecadores às boas-novas do
evangelho. Aqui não há verdadeiro evangelho. Isso é apenas uma reedição da
mensagem impotente do liberalismo teológico.
N. Richard Niebuhr condensou
brilhantemente a teologia liberal nesta sentença: "Um Deus sem ira trouxe
homens sem pecado a um reino sem julgamento por meio das ministrações de um
Cristo sem uma cruz".
Sim, já lemos este livro antes.
Com Love Wins, Rob Bell se move firmemente no mundo do liberalismo protestante.
Sua mensagem é um liberalismo que chega tarde no cenário. Tragicamente, sua
mensagem confundirá muitos crentes, bem como inúmeros incrédulos.
Não ousamos evadir-nos de tudo
que a Bíblia diz sobre o inferno. Jamais devemos confundir o evangelho, nem
oferecer sugestões de que talvez haja algum meio de salvação além da fé
consciente em Jesus Cristo. Jamais devemos crer que podemos fazer um trabalho
de relações públicas a respeito do evangelho ou do caráter de Deus. Jamais
devemos ser imprecisos e subversivamente sugestivos sobre ao que a Bíblia
ensina.
Nas páginas iniciais de Love
Wins, Rob Bell garante aos seus leitores que "nada neste livro não foi
ensinado, sugerido ou celebrado por muitos antes de mim". Isso é bastante
verdadeiro. Mas a tragédia é que essas coisas foram ensinadas, sugeridas e
celebradas por aqueles cuja companhia nenhum amigo do evangelho deveria querer.
Neste novo livro, Rob Bell toma sua posição com aqueles que tem procurado
resgatar o cristianismo de si mesmo. Sob qualquer medida, isso é uma grande
tragédia.
O problema começa no próprio
título do livro. A mensagem do evangelho não é apenas que o amor vence (Love
Wins) – é que Jesus salva.
** Por: Albert Mohler Jr. (disponível em Ministério Fiel
Traduzido por: Wellington
Ferreira
Do original em inglês: We Have Seen All This
Before: Rob Bell and the (Re)Emergence of Liberal Theology. Publicado
originalmente no site:www.albertmohler.com

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