PTDC
- A neo-ortodoxia já majoritária em nossos seminários? Isso já se reflete no
comportamento e no pensamento do evangélico comum?
Augustus
Nicodemus Lopes (ANL) - Eu não conheço a situação de todos os seminários
evangélicos. Falando da minha denominação, a Igreja Presbiteriana do Brasil,
não creio que a neo-ortodoxia seja majoritária em seus seminários. Pode
acontecer que existam seminários de outras denominações, onde professores
comprometidos com essa linha teológica formam mais e mais pastores a cada ano.
Como resultado, existirá um reflexo cada vez maior, que é às vezes sentido de
forma indireta, no comportamento evangélico, como por exemplo, uma visão
mais aberta sobre a sexualidade.
PTDC - Por que a teologia ortodoxa perde cada vez mais espaço na igreja do século XXI? Como este processo pode ser revertido?
ANL
- Eu não diria que a teologia ortodoxa tem perdido mais e mais espaço em nossos
dias. Na verdade, acredito que ela tem passado por um processo de crescimento
em vários quartéis do evangelicalismo brasileiro. Por exemplo, existem hoje no
Brasil várias editoras dedicadas à publicação de literatura reformada e
conservadora, coisa que era impensável 25 anos passados. Além do que, muitos
autores brasileiros têm despontado no horizonte das publicações evangélicas, e
muitos deles são conservadores na teologia. A realização de congressos,
simpósios e encontros sobre a teologia reformada pelo Brasil afora em um número
cada vez maior aponta para o crescimento do interesse pela teologia reformada e
conservadora. Naturalmente, essa teologia ortodoxa precisa passar por um
processo de adaptação às circunstâncias brasileiras, e em certo sentido, é isso
que está faltando.
PTDC - No blog O Tempora, O Mores você tem abordado muito o problema do liberalismo, e agora, da neo-ortodoxia. Entretanto, o neopentecostalismo não representa uma ameaça muito maior no contexto brasileiro? Por que este assunto ainda não foi abordado no blog?
ANL
- Já foi abordado, sim. Por exemplo, publiquei uma postagem sobre a teologia da
Marcha para Jesus, um evento que no Brasil é comandado por uma igreja
neopentecostal. Considero a neo-ortodoxia, o liberalismo e o
neopentecostalismo como ameaças concretas à Igreja de Cristo. Só que ainda o
neopentecostalismo não recebeu tanto a nossa atenção. Somos três escritores no
blog O Tempora, O Mores, e raramente paramos para fazer uma agenda dos assuntos
a serem postados. No geral, somos livres para postar sobre qualquer assunto que
quisermos. Nada impede que amanhã um de nós poste mais alguma coisa sobre o
neopentecostalismo.PTDC - Por que o impacto das igrejas históricas é tão reduzido na sociedade brasileira do século XXI? Quais são as falhas que levaram a este cenário?
ANL
- Não sei ao certo. Uma análise social talvez mostrasse que elas não parecem
relevantes diante do cenário brasileiro. Uma análise bíblica talvez revelasse a
necessidade de uma purificação e de um verdadeiro avivamento espiritual. Uma
análise histórica talvez apontasse para a negligência de ênfases que no passado
caracterizaram as igrejas reformadas que fizeram a diferença nas sociedades em
que estavam inseridas. O que sei ao certo é que o impacto do Evangelho em nosso
país passa por uma profunda reforma espiritual e doutrinária na igreja
evangélica brasileira.
PTDC - Você tem esperança de que, um dia, as igrejas históricas e a teologia ortodoxa possam realmente impactar profundamente a sociedade brasileira? O que precisa acontecer para que este sonho se torne realidade?
ANL
- Não penso muito sobre isso. Talvez devesse, mas na realidade, ocupo-me mais
em fazer o trabalho de base, em ensinar, pregar, escrever, responder perguntas
e comentários, na expectativa de ajudar individualmente pessoas que amanhã
poderão fazer a diferença.
PTDC - Uma das máximas da fé reformada é o Sola Scriptura. No entanto, em muitos artigos, livros, listas e textos de autores de linha reformada/calvinista encontro uma extrema profusão de citações a Calvino e a Credos e Confissões? Não seria isso, na prática, uma negação do Sola Scriptura? Não induziria isso ao entendimento de que Calvino e os Credos e as Confissões têm valor escriturístico, sendo, na prática, "sinônimos"?
ANL
- Não vejo o menor perigo. Pode haver algum calvinista desavisado que acabe
dando essa impressão, mas todo calvinista sério sabe que as confissões e os
credos não são inspirados e nem são infalíveis. Sabem também que são muito
úteis e que representam a condensação do pensamento do cristianismo clássico
conservador através dos séculos. Sou aberto para investigar e estudar as
Escrituras e aperfeiçoar o que pode ser aperfeiçoado na teologia, sem, contudo,
relegarmos à obsolescência aquilo que homens melhores e mais preparados que nós
fizeram no passado. Os que acusam os calvinistas de colocarem credos e
confissões em igualdade à Bíblia se valem de credos e confissões de autores de
outras linhas em sua leitura e interpretação da Bíblia.
PTDC - Em contato com muitos irmãos, tenho encontrado uma profusão de adjetivos: cessacionista, pedobatista, aliancista, reformado, supralapsariano, infralapsariano, congragacionalista... adjetivos estes adicionados ao nome como forma de identificação. Será que sermos apenas "cristãos" não é mais suficiente? Não é a ênfase extremada em tantos adjetivos e designações e especificações causa de muitas de "nossas infelizes divisões", como diz o Livro de Oração Comum?
ANL
- Infelizmente, “cristão” não é mais suficiente e nem identifica com clareza
aqueles que crêem no Senhor Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador e
que procuram viver nesse mundo para a glória de Deus. Daí a necessidade dessas
especificações que não deixam de ser "infelizes divisões",
necessárias diante da complexidade do cristianismo moderno. Note que no passado
os rótulos eram ligados às denominações; hoje eles identificam linhas e
tendências doutrinárias e práticas que atravessam as fronteiras
denominacionais. Por exemplo, como reformado, identifico-me muito mais com um
Batista ou um episcopal reformado do que com um presbiteriano liberal. Esses
rótulos deveriam ser usados apenas para a identificação e orientação, e não
para aprofundar rachas no evangelicalismo brasileiro.
PTDC - O cristianismo viveu uma época (séculos XVI a XVIII) onde a ortodoxia era defendida com tal rigor que mesmo onde as diferenças eram pequenas, o rompimento entre as partes era inevitável. Por outro lado, vivemos uma época onde a doutrina e a ortodoxia perderam sua importância na vida prática da igreja. É possível vivermos um cristianismo onde a ortodoxia não divida necessariamente as denominações, permitindo um trabalho conjunto em certos casos, mas não seja tão negligenciada na vida diária das igrejas e dos cristãos?
ANL
- Quando no passado a ortodoxia se posicionou rigorosamente contra o que
considerava desvios doutrinários, o fez porque considerava a teologia
importante, e o erro doutrinário realmente pernicioso. Em nossos dias, quando a
precisão teológica não tem mais importância para a maioria dos evangélicos, posições
doutrinárias firmes são vistas como intolerância, fundamentalismo e prática
xiita. Creio ser possível reafirmarmos as verdades bíblicas com amor e
sensibilidade para com os que discordam, sendo firmes e gentis ao mesmo tempo.
Lamento pelas atitudes iracundas e furiosas de conservadores em reação ao erro
doutrinário. Mas, devemos todos convir que encontraremos pessoas de
temperamento fundamentalista e de reações iracundas também entre os liberais,
neo-ortodoxos e neopentecostais. Não seria isso intolerância e fundamentalismo?
Eu pessoalmente não tenho problemas em trabalhar conjuntamente com irmãos de
outras denominações, e de relegar certas questões doutrinárias a um plano
secundário. Por outro lado, estou disposto a ficar firme naquilo que creio ser a
verdade bíblica, e quando necessário for, declarar a minha posição de maneira
clara, direta e argumentativa, sempre respeitando as pessoas.
PTDC - Muitos cristãos dos dias de hoje defendem uma volta radical à teologia, prática e costumes que remontam às origens da reforma. Esse movimento se reflete não só nas questões de salmódia exclusiva, neopuritanismo e outras correntes entre os reformados, mas também em outras denominações protestantes. Essa reação ao relativismo não seria por demasiado radical, levando em consideração que os reformadores, os puritanos e os avivalistas reagiram face aos desafios propostos por sua própria época, e porque não dizer, um retrocesso?
ANL
- Acredito que se você estivesse convencido que a teologia e a prática da
Reforma representam o Evangelho bíblico, também defenderia uma volta radical as
origens da Reforma certo? Para muitos evangélicos hoje, a Reforma protestante
representou um retorno às antigas doutrinas bíblicas que tinham sido
negligenciadas e abandonadas durante a idade média pelo catolicismo romano.
Hoje, eles percebem que a situação é similar em muitos aspectos: práticas
neopentecostais extremamente parecidas com as práticas católicas, um
desvirtuamento do culto a Deus com a centralização no homem, um desprezo pela doutrina
bíblica, o sepultamento das doutrinas da graça e o surgimento de um
semi-legalismo evangélico, e outros aspectos que pouco diferem da situação
caótica em que estava o cristianismo no século 16. Tudo isso faz com que um
retorno aos ensinamentos da reforma protestante pareça necessário, desejável e
viável, já que as alternativas, como as igrejas tipo comunidades, as igrejas
emergentes, os movimentos avivalistas, não têm nem de perto apresentado uma
solução para a derrocada doutrinária e espiritual do evangelicalismo
brasileiro. Isso não significa dizer que devemos trazer para os nossos dias as
idiossincrasias de determinados grupos puritanos, como a questão da salmodia
exclusiva, a proibição radical da mulher falar no culto, a ausência de
instrumentos musicais da igreja, e outras particularidades. Essas coisas não
fazem o menor sentido em nossos dias e devemos rejeitá-las firmemente. Elas não
representam o cerne da reforma. E por fim, não considero um retrocesso trazemos
para o presente as verdades bíblicas e que consideramos válidas e universais em
todas as épocas. Seria um retrocesso voltar a enfatizar a justificação pela fé,
a salvação pela graça, a soberania de Deus sobre o homem, a necessidade de
santificação, a abrangência do cristianismo sobre todas as áreas da sociedade,
que são ênfases da reforma protestante?
PTDC O protestantismo histórico no Brasil tem se tornado uma religião cada vez mais elitista, perdendo força de penetração junto aos mais pobres, para os pentecostais e neopentecostais, e atualmente perdendo força junto à classe média, por conta dos avanços dos neopentecostais, das chamadas "comunidades evangélicas" e dos novos movimentos apostólicos. Como resgatar o envolvimento missionário dos protestantes, lembrando que os puritanos, o metodismo primitivo, os não-conformistas batistas e congregacionais tiveram seu maior exito junto às classes médias e baixas de sua época?
ANL
- Permita-me discordar da sua avaliação, implícita na pergunta. Em primeiro
lugar, não creio que o protestantismo histórico tenha se tornado cada vez mais
elitista. Tenho viajado pelo Brasil afora e pregado em muitas igrejas
históricas de diferentes denominações, e raríssimas vezes tenho encontrado
igrejas cuja membresia seja caracterizada por qualquer tipo de elite. Ao
contrário, encontro mais e mais e irmãos das classes pobres, pois a classe
pobre tem crescido mais e mais no Brasil. Quem tem se tornado elitista, na
verdade, como você disse, são as igrejas neopentecostais, os movimentos
apostólicos, com seus pretensos apóstolos dirigindo carros importados e vivendo
de maneira nababesca, e ensinando que ser pobre é pecado. O movimento
pentecostal também tem se elitizado, atingindo cada vez mais a camada média e
alta da nossa sociedade, com padrão elevado de vida para os obreiros e
dirigentes. Você encontrará nas favelas não somente igrejas pentecostais, mas
também presbiterianas, batistas e outras. Não creio que devamos colocar a
questão como uma alternativa de evangelizar os pobres ou evangelizar os ricos.
Ambos precisam de evangelização. Qual é o problema se as igrejas históricas
tiverem maior sucesso junto às elites e classe média, e os irmãos pentecostais
entre as mais pobres? Se considerarmos as igrejas pentecostais e históricas
como igrejas irmãs, podemos encarar a questão da seguinte maneira: num país tão
grande como o Brasil, devemos repartir a tarefa de evangelização, cada um de
nós se dedicando a aquilo que sabe fazer melhor ou que tem a melhor
oportunidade para fazer.
PTDC - Existem versículos que nos mandam evangelizar e pregar a Palavra. Mas também existem versículos que nos mandam alimentar os famintos, vestir os nus e nos envolvermos ativamente junto aos pobres. Os evangélicos em geral dão muita ênfase no pregar a Palavra e pouquíssima ênfase no fazer o bem a todos. Talvez isso se dê pela doutrina protestante da Salvação pela Fé e pela Graça, por oposição à Salvação pelas Boas Obras, do catolicismo. Ao negligenciarmos a ação social, não estamos deixando o fazer o bem como uma bandeira exclusiva de movimentos espíritas ou católicos romanos? Isso não é uma vivência de fé por demais individualista?
ANL
- Mais uma vez peço permissão para discordar das premissas de sua pergunta. Não
posso concordar que os evangélicos dão pouquíssima ênfase no fazer o bem a
todos. Acredito que hoje o movimento evangélico do Brasil está mais
sensibilizado do que antes para com as questões sociais, embora estejamos ainda
muito longe de fazermos tudo que deveríamos fazer. Não sei se o motivo para
termos ficado tanto tempo desconectados da realidade social brasileira foi uma
reação à doutrina da salvação pelas obras do catolicismo e do espiritismo. Pode
ser que tenha sido. Mas, tenho certeza que não foi por causa da doutrina
protestante da salvação pela fé mediante a graça, pois somente quanto essa
doutrina não é corretamente entendida é que ela se torna em um analgésico ou
paralisante doutrinário. Uma pessoa que foi genuinamente salva pela graça,
viverá a uma vida de gratidão a Deus, e demonstrará essa gratidão em boas obras
de misericórdia. Infelizmente, as alternativas que têm surgido no cenário
brasileiro, como a teologia da libertação, a teologia da prosperidade, e
outras, acabam se tornando em sérios desvios doutrinários da palavra de Deus,
fazendo com que os evangélicos sérios fiquem preocupados e receosos de entrar
nessa área sem uma teologia forte e firme por detrás. Creio que podemos
aprender com a Reforma protestante, especialmente com aquilo que os
reformadores escreveram e praticaram acerca da responsabilidade social das
igrejas, como por exemplo, na cidade de Genebra, sob a batuta do mestre
Calvino.
Entrevista publicada originalmente em:

Nenhum comentário:
Postar um comentário