RESUMO
A doutrina reformada da expiação limitada vem de João Calvino?
Dúvidas quanto a essa questão têm sido levantadas nos últimos tempos. Uma série
de teólogos seguindo R. T. Kendall, o sucessor de D.M. Lloyd-Jones na Capela de
Westminster, têm defendido que Calvino foi um universalista, pois acreditava que
Cristo morreu por todos os homens indiscriminadamente, ainda que nem todos
sejam salvos. Entretanto, a análise dos escritos de Calvino demonstra que o
reformador de Genebra possuía um conceito de expiação que dificilmente poderia
se encaixar no universalismo. Seu conceito eficaz da expiação que Cristo realizou
na cruz, não apenas providenciando salvação, mas efetivando-a, bem como sua
subordinação da expiação à eleição, impossibilitam a idéia de um escopo
universal. E mesmo quando são analisados aqueles textos nos quais Calvino supostamente
defenderia um escopo ilimitado para a expiação, percebe-se que ele faz isso
apenas no que se refere à pregação do evangelho, mas quando tem que definir
claramente a extensão da expiação, não tem dúvidas em apontar que foi feita
pelos eleitos exclusivamente. Dessa forma, ainda que Calvino não tenha
defendido expressamente uma doutrina da expiação limitada, o que foi feito
posteriormente pelos teólogos que seguiram seu sistema, ainda assim as bases
dessa doutrina são extraídas da teologia de Calvino. Portanto, os calvinistas apenas
desenvolveram o tema a partir de Calvino, mas não romperam com ele. A extensão
da expiação em Calvino não é universal, mas definida.
PALAVRAS-CHAVE
Expiação definida; universalismo; pregação universal;
desenvolvimento do dogma.
INTRODUÇÃO
A partir do desenvolvimento da doutrina da expiação na
tradição reformada, que tem a ver com a obra da redenção realizada por Cristo
através de sua morte na cruz, a pergunta “por quem Cristo morreu?” passou a ter
cada vez mais importância[1].
Devido ao entendimento de que o sacrifício de Cristo não apenas possibilita,
mas realmente expia, ou seja, perdoa os pecados, a teologia reformada sustentou
que Cristo morreu exclusivamente pelos pecados de seu povo. O fato é que os
teólogos reformados começaram a pensar que a morte de Cristo não poderia
realmente se estender a todos os homens sem exceção, pois isso implicaria na
salvação de todos. O que a morte de Cristo poderia fazer por um Judas
Iscariotes? Qual teria sido o benefício de Cristo derramar seu sangue por
alguém que já estava no inferno quando Jesus morreu? Como diz Louis Berkhof, “a
posição reformada é que Cristo morreu com o propósito de real e seguramente
salvar os eleitos, e somente os eleitos. Isto equivale a dizer que Ele morreu
com o propósito de salvar somente aqueles a quem Ele de fato aplica os
benefícios da Sua obra redentora”.[2]
A doutrina reformada da expiação limitada é construída sobre a
doutrina da predestinação. A doutrina da predestinação diz que Deus, desde toda
a eternidade, tem escolhido para si um número certo e limitado de pessoas, as quais
serão salvas, enquanto que tem preterido o restante, que deverá pagar por seus
próprios pecados. Essa idéia reflete consistentemente o ensino da Confissão de Fé de Westminster, a clássica confissão reformada, que delimita a eficácia da
morte de Cristo aos eleitos de Deus:
O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício
de si mesmo, sacrifício que, pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só
vez, satisfez plenamente à justiça de seu Pai, e, para todos aqueles que o Pai
lhe deu, adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no
Reino dos Céus.[3]
A posição da Confissão de Fé de Westminster por sua vez é correlata ao que havia sido desenvolvido no Sínodo de Dort (1619), na Holanda. Naquele concílio, formulou-se o sistema que até hoje é conhecido como “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. São eles: Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos. Esses cinco pontos foram oficialmente reconhecidos a partir desse sínodo em resposta aos cinco pontos do arminianismo, que são anteriores e afirmam exatamente o oposto[4]. Em relação à Expiação Limitada, os teólogos do Sínodo de Dort fizeram questão de enfatizar que “a morte do Filho de Deus é a oferenda e a satisfação perfeita pelos pecados, e de uma virtude e dignidade infinitas, e totalmente suficiente como expiação dos pecados do mundo inteiro”.[5]
Porém, ela não se estende eficazmente a todos os homens do
mundo, conforme o sínodo explicitou:
Porque este foi o conselho absolutamente
livre, a vontade misericordiosa e o propósito de Deus Pai: que a virtude
vivificadora e salvadora da preciosa morte de seu Filho se estendesse a todos
os predestinados, para, unicamente a eles, dotar da fé justificadora, e por
isso mesmo levá-los infalivelmente à salvação; ou seja: Deus quis que Cristo,
pelo sangue de sua cruz (com a qual firmou o Novo Pacto), salvasse eficazmente,
de entre todos os povos, tribos, linhagens e línguas, a todos aqueles, e
unicamente a aqueles, que desde a eternidade foram escolhidos para salvação, e
que lhe foram dados pelo Pai.[6]
Hoje, os cinco pontos, embora não resumam toda a teologia
calvinista, são considerados essencialmente calvinistas. O nome “calvinista”
vem, como todos sabem, do reformador João Calvino (1509-1564), que foi o grande
sistematizador da Reforma Protestante, tendo produzido uma vasta obra teológica
através de comentários da Sagrada Escritura, tratados teológicos, sermões e
cartas. Sua obra magna, as Institutas, é geralmente considerada a maior obra teológica da Reforma
Protestante e uma das mais importantes da história. João Calvino é considerado
o pai da teologia reformada, e todo o sistema reformado depende essencialmente
dos ensinos do reformador de Genebra.
Porém, a questão que se tem levantado nos últimos tempos é se
Calvino concordaria com todos os cinco pontos do calvinismo. Alguns calvinistas
que, curiosamente, não aceitam todos os cinco pontos, especialmente o terceiro que
se refere à expiação limitada, têm afirmado que Calvino também não o aceitava.
Se isso for verdade, então toda uma tradição de interpretação que se entende
surgir em Calvino e passa historicamente por teólogos e pregadores como
Turretini, Kuyper, Spurgeon, Bavinck, Hodge, Warfield, Berkhof, Lloyd-Jones,
Packer, Sproul e pelas confissões de fé reformadas, seria uma tradição
distorcida. Como diz Paul Helm: “Nesse entendimento, depois da morte de Calvino
a tradição é quebrada e substituída por outra, nominalmente calvinista, mas que
foi de fato um repúdio de muito do que Calvino estabeleceu”[7]. Assim, o calvinismo seria um repúdio ao
próprio Calvino e a teologia reformada teria causado um duro golpe na teologia
do reformador.
Os escritores que têm causado mais polêmica em torno disso são
R. T. Kendall[8], Strong[9],
Peterson[10], Vance[11],
Rolston III[12], Hodges[13],
Geisler[14],
Drummond[15], Clifford[16] e Bense[17],
entre outros, os quais de maneiras variadas têm sustentado a fissura entre
Calvino e seus sucessores, especialmente na questão da expiação limitada.
1.
DIFERENTES CONCEPÇÕES SOBRE CALVINO
A primeira coisa que precisa ser dita é que Calvino não fala
sobre “expiação limitada” em seus escritos. Nem poderia falar; afinal esse
conceito foi formulado posteriormente à sua morte. Nesse sentido, é preciso
tomar muito cuidado para evitar o anacronismo. O objetivo aqui é buscar pistas
que ajudem a entender o escopo da expiação no entendimento do reformador,
primordialmente em sua compreensão do objetivo proposto por Deus para a mesma. Isso ajudará a ter uma posição confiável nesse debate.
Mas antes é preciso tomar conhecimento do que os defensores do universalismo[18]
em Calvino têm a dizer.
1.1.
O Calvino de Strong
O teólogo batista Augustus Hopkins Strong popularizou o
conceito de que Calvino mudou de posição no que se refere à expiação quando
chegou à maturidade teológica e cronológica. Falando sobre a questão da ordem
dos decretos e atacando o supralapsarismo que Strong atribui a Beza e aos
hipercalvinistas, o teólogo batista declara: “Calvino, conquanto na primeira
obra, Instituição Cristã, evita informações definidas sobre a sua posição a
respeito da extensão da obra expiatória, contudo nas suas últimas, os
Comentários, admite a teoria da expiação universal”[19]. O maior argumento de Strong sobre a
expiação universal em Calvino decorre de uma citação de um suposto comentário
de Calvino sobre 1 João 2.2 no qual Calvino defenderia o universalismo[20].
Porém, sérias dúvidas têm sido levantadas contra a integridade desse comentário[21].
A maior delas é que não são palavras de Calvino e sim do próprio Strong, uma
vez que o texto de Calvino é bem diferente dessa suposta citação de Strong[22]. Mas sobre essa base Strong conclui:
Devemos dar a Calvino o crédito de
modificar a sua doutrina com uma reflexão mais amadurecida na idade mais
avançada. Muito do que é chamado de calvinismo teria sido repudiado pelo
próprio Calvino até mesmo no começo de sua carreira e é, na verdade, um exagero
do seu ensino pelos seus sucessores mais escolásticos e menos religiosos[23].
Algo precisa ser dito aqui: evidentemente que um escritor
amadurece ao longo de sua vida, e não há qualquer demérito nesse sentido, pois
não se espera que alguém tenha uma teologia completa e fechada desde o início.
Se isso aconteceu com Calvino, não desmerece seu gênio literário, que começou muito
cedo a produzir teologia. Mesmo que Calvino tivesse realmente mudado de posição
em sua velhice a respeito da extensão da expiação limitada, isso não
testemunharia contra ele. O fato, porém, é que não há evidências de que isso
realmente tenha acontecido. Além disso, este tipo de argumentação que supõe a
mudança do reformador visa muito mais causar um efeito psicológico do que
apresentar um argumento substanciado.
1.2.
O Calvino de Kendall
R. T. Kendall, em seu artigo “A Modificação Puritana da
Teologia de Calvino”[24], que é uma síntese de seu livro Calvin and English Calvinism to 1649 (Calvino e o Calvinismo Inglês até 1649), tem afirmado
categoricamente que Calvino jamais defendeu a expiação limitada, e que, ao
contrário, poderia ser considerado um universalista. Kendall defende que o
calvinismo puritano fez uma profunda modificação na teologia de Calvino, e que
a Confissão de Fé de Westminster é fruto dessa profunda modificação que remonta a Teodoro Beza,
sucessor de Calvino em Genebra. Na Inglaterra, segundo Kendall, o puritano
William Perkins se encarregou de promover o desvio doutrinário que se estendeu
a todo o movimento puritano. Joel Beeke diz que, “de acordo com Kendall, a
teologia de Westminster de 1640 representa um afastamento qualificado do
calvinismo autêntico em uma variedade de doutrinas conectadas com a segurança,
incluindo os decretos de Deus, o pacto da graça, a santificação, a expiação, o
arrependimento e o papel da vontade humana na soteriologia”[25]. Ou seja, a diferença entre Calvino e os
calvinistas diz respeito a muito mais do que posições diferentes em uma
doutrina apenas. Mas a mola mestra para todos os demais supostos desvios no
entendimento de Kendall é justamente a questão da expiação limitada, uma vez que
é sobre esta doutrina que Kendall entende que Calvino constrói a questão da
segurança da salvação.
Segundo Kendall, Calvino buscava a base da segurança da
salvação em Cristo, ao passo que Beza e os puritanos apontavam para a obra da
santificação[26]. É nesse ponto que Kendall passa a falar sobre a questão da
expiação limitada. Kendall afirma que Calvino não cria na expiação limitada, e
justamente porque não cria, podia apontar Cristo para aqueles que desejavam ter
a certeza da salvação. Kendall declara que Calvino “apontava Cristo às pessoas pela
mesma razão que Beza não podia fazê-lo: a questão da extensão da expiação.
Calvino lhes indicava diretamente a Cristo, porque Cristo morreu indiscriminadamente
por todas as pessoas”[27]. Assim, quando alguém tivesse dúvidas quanto
à sua eleição, Kendall diz que Calvino lhes assegurava a eleição em Cristo.
Segundo Kendall, Beza se distanciou de Calvino, e uma vez que passou a defender
a expiação limitada, não poderia mais dizer para
as pessoas que a certeza de sua salvação estava em Cristo somente.
A lógica de Kendall é a seguinte: Como dizer que alguém deve ter certeza de sua
salvação por causa da morte de Cristo, se poderia ser que Cristo não tivesse morrido
pela tal pessoa? Assim, Beza teria que apontar a questão da santificação como
fruto da salvação. Para Kendall essa é a situação mais evidente em que se
percebe que Beza e Calvino diferiam a respeito da extensão da expiação. Kendall
cita Beza para comprovar sua idéia:
Agora, quando Satanás nos põe em dúvida
sobre nossa eleição, nós não podemos procurar a resolução dela no eterno
conselho de Deus, cuja majestade não podemos compreender, mas, ao contrário,
devemos começar pela santificação que sentimos em nós mesmos[28].
Ele contrasta essas palavras com as de Calvino: “Se Pighius me
pergunta como eu sei que sou eleito, eu respondo que Cristo para mim é mais do
que mil testemunhos”[29]. Assim, segundo Kendall, a segurança da
salvação para Calvino estava no próprio Cristo, enquanto que para Beza estava
na santificação. Se Kendall está certo, como já foi dito, toda a teologia
puritana que converge para a Confissão de Fé de Westminster deriva não de
Calvino, mas de Beza. Kendall insiste que a Confissão de Fé de Westminster é
bem pouco calvinista.
Ele diz: “O pensamento de Calvino, exceto pelos decretos da
predestinação, dificilmente é encontrado na Teologia de Westminster”[30].
Kendall acha que Calvino e Armínio pensam de modo igual sobre expiação:
“Armínio e Calvino têm em comum a crença de que Cristo morreu por todos”[31]. Percebe-se que Kendall não está sugerindo
apenas um desenvolvimento da teologia de Calvino por seus sucessores; na
verdade, suas idéias procuram demonstrar que o “calvinismo, como normalmente é
definido, não é um legítimo desenvolvimento de Calvino, mas uma distorção ou um
rompimento”[32].
Kendall pensa que na questão da segurança da salvação, cuja
base é a expiação limitada, os sucessores de Calvino destruíram a obra do
reformador, e se tornaram legalistas. Nem é preciso dizer que ele deseja
“retornar” a Calvino para encontrar base para defender a segurança da salvação
baseada exclusivamente na fé em Cristo independente das obras, ou seja, que
alguém é salvo por um mero assentimento
intelectual, e sua base de certeza é esse assentimento, sem importar que tipo
de vida tal pessoa tenha[33].
1.3.
O Calvino de Antigos e Modernos
As idéias de Kendall na verdade não são originais. Parte delas
já pode ser vista nas considerações do teólogo francês Moïse Amyraut
(1596-1664), da Academia de Saumur, na França. A Academia de Saumur foi criada
em 1598 pelo sínodo nacional da Igreja Reformada Francesa. Essa academia foi a
maior propagadora da doutrina do universalismo
hipotético. O historiador Justo González[34]diz
que Amyraut foi o mais profundo e assíduo estudante de Calvino de seu tempo. O
esforço de Amyraut foi o de colocar os ensinos de Calvino contra aqueles que se
declaravam os mais estritos calvinistas. Segundo González, Amyraut rejeitou a
doutrina da expiação limitada e mostrou com abundância de citações que Calvino
mesmo nunca havia sustentado essa doutrina, mas que o contrário era verdadeiro.[35] Louis Berkhof diz que Amyraut defendeu o
“universalismo hipotético” numa tentativa de suavizar o rigor do calvinismo do Sínodo
de Dort, mas que, na realidade, era uma espécie de expiação universal[36].
O amiraldismo pode ser definido como “universalismo
hipotético” no sentido de que Cristo realmente morreu por todos os homens,
porém, somente os eleitos serão salvos. Ainda hoje existe uma espécie de
“amiraldismo” no mundo. Geralmente está ligado aos que crêem em apenas quatro
pontos do calvinismo. Matthew McMahon diz que o “universalismo hipotético é o
sistema teológico de muitas igrejas do século 21 que o esposam como bandeira de
sua visão da expiação de Jesus Cristo”.[37] É uma espécie de calvinismo[38] que crê na T.U.I.P. e não na T.U.L.I.P.,[39] pois deixa de lado a expiação limitada.
Roger Olson segue os passos de Kendall e acredita que Beza e
seus sucessores foram além de Calvino com relação à ordem dos decretos e os cinco
pontos do calvinismo. Ele assevera que é “discutível se Calvino teria concordado
com todos os cinco”.[40] Sobre expiação limitada ele declara:
Beza, assim como a maioria dos
calvinistas, também deduziu a doutrina da expiação limitada – que Cristo morreu
somente pelos eleitos e não pelos réprobos – a partir da doutrina da
providência e dos decretos de eleição divinos. Essa dedução, embora lógica, não
se encontra em Calvino.[41]
Até mesmo John Leith, expositor da teologia reformada,
concorda com Kendall no sentido de que Beza fez uma “sistematização da teologia
de Calvino que dificilmente pode ser considerada ‘o pensamento puro de Calvino’”.[42] Esse autor afirma ainda, concordando com
Kendall, que Beza “extrapolou o pensamento de seu antecessor tanto na área da
eclesiologia como da predestinação”.[43] O curioso é que Leith pretende ser um
grande expositor e defensor da teologia reformada, mas, nesse ponto, igualmente
apenas segue o estudo de Kendall sem considerá-lo criteriosamente. Norman
Geisler, de formação dispensacionalista, em um recente livro sobre os cinco
pontos do calvinismo, defendendo uma espécie de “calvinismo moderado”, também
pressupõe que Calvino se posicionou a favor da expiação ilimitada.[44] Ele concorda com as teses de Kendall e
afirma: “Enquanto Calvino cria que os benefícios da expiação são aplicados
somente a um grupo limitado (aqueles que crêem), ele sustentava que a extensão
da expiação é ilimitada. Isto é, Cristo morreu pelos pecados da totalidade da
raça humana”.[45] Geisler dedica um apêndice inteiro de sua
obra para demonstrar que Calvino defendia a expiação ilimitada, mas a maior
parte de seus argumentos é semelhante aos de Kendall, consistindo em analisar
textos fora do contexto.
2.
O SIGNIFICADO DA EXPIAÇÃO DE CRISTO EM CALVINO
Como se percebe, há um intenso debate sobre qual seria a
verdadeira posição de Calvino a respeito da extensão da expiação. Uma vez que a
maioria das posições advogadas acima deixa de demonstrar com elementos textuais
de Calvino o que o reformador de fato pensava, nesse momento é preciso pesquisar
os escritos de Calvino em busca de seus argumentos. A primeira coisa que é
preciso demonstrar é que, no entendimento de Calvino, Cristo através de sua
morte buscou uma remissão eficaz dos pecados dos eleitos e, dessa forma, ele
somente poderia ter morrido pelos eleitos.
2.1.
A eficácia da expiação em Calvino
Calvino falou da expiação sempre relacionando-a com sua
própria eficácia, e jamais tratou dela como algo meramente provisório. Calvino
descreve a obra de Cristo de forma consumada e não apenas provedora de graça. É
uma obra objetiva e não potencial. É uma obra eficaz. Ele diz:
Esta
é a nossa absolvição: que a culpa que nos mantinha sujeitos à pena foi
transferida para a cabeça do Filho de Deus.
Pois se deve ter em mente, acima de tudo,
esta permuta, para que não tremamos e estejamos ansiosos por toda a vida, como
se ainda pairasse sobre nós a justa vingança de Deus, que o Filho de Deus transferiu para
Si”.[46]
Nossa culpa foi efetivamente transferida para Cristo quando
ele morreu na cruz. Uma permuta, ou seja, uma troca realmente aconteceu:
nossos pecados foram trocados pela justiça de Cristo. A culpa que acarreta a
pena foi transferida para a cabeça de Jesus, e sobre nós ficou a sentença da
absolvição.
Isso deve nos conduzir à segurança, segundo Calvino, pois nos
tornamos inocentes diante do tribunal de Deus. Nessa questão de a culpa ser
transferida para Cristo, Calvino é tão enfático que chega a dizer que nossos
pecados foram literalmente transpostos para ele. Comentando sobre o texto de 1 Pedro
2.24, que diz que Cristo carregou nossos pecados, o reformador diz:
Essa
forma de falar é adequada para fixar a
eficácia da morte de Cristo. Pois como
sob a Lei, o pecador, para que pudesse ser livre da iniqüidade, precisava ser
substituído por uma vítima, assim Cristo
tomou em si mesmo a maldição devida aos nossos pecados, para que pudesse expiá-los
diante de Deus. E ele expressamente acrescenta “no
madeiro”, porque ele não poderia oferecer uma expiação se não fosse na cruz.
Pedro, entretanto, expressa muito bem a verdade de que a morte de Cristo foi um
sacrifício para expiar nossos pecados; pois sendo pregado na cruz e oferecendo
a si mesmo como uma vítima por nós, ele
tomou sobre si mesmo nosso pecado e
punição. Isaías, de quem Pedro tomou a substância dessa doutrina, emprega
várias formas de expressão – que ele foi esmagado pela mão de Deus por nossos
pecados, que ele foi ferido por nossas iniqüidades, que ele foi afligido e
quebrado por nossa causa, que o castigo de nossa paz estava sobre ele. Mas
Pedro pretendeu estabelecer a mesma coisa com as palavras desse verso, que nós
igualmente somos reconciliados com Deus nessa condição, porque Cristo fez a si mesmo diante do seu tribunal uma
garantia e como um pecador por nós, ele sofreu a punição devida a nós.[47]
Dificilmente Calvino poderia usar palavras mais exatas que
denotassem a objetividade da obra de Cristo, do que as que usa nesse
comentário. Cristo carregou nossos pecados literalmente, e isso indica a eficácia da
morte de Cristo. O simples fato de ele dizer que é uma morte eficaz já é
suficiente para perceber que não é um ato de apenas prover expiação. Cristo
realmente expiou os pecados porque carregou os pecados sobre a cruz. Se ele
carregou é porque nós não carregamos mais. O que decorre então é que, se ele
tivesse feito isso por todos, Deus teria que absolver a todos. Ou então, todo o
sofrimento de Cristo, o fato de ele ter sido afligido, quebrado e castigado
teria sido em vão, pois não alcançaria o objetivo para o qual foi proposto.
Para Calvino, o sacrifício de Jesus é eficaz, ele realmente
consegue o que pretende. Sua morte é objetivamente nossa reconciliação com
Deus, pois seu sacrifício apazigua a ira de Deus: “Reconciliação não tem lugar
senão onde uma ofensa a tenha precedido. O sentido, portanto, é: Deus, para
Quem éramos abomináveis por causa do pecado, foi aplacado pela morte de Seu
Filho, para que nos seja propício”.[48] Não há dúvida: o seu sacrifício
efetivamente, objetivamente e eficazmente aplaca a ira de Deus. Se Deus foi
aplacado pelo sacrifício de Cristo, o pecador não o encontrará irado. Por essa
razão, o sacrifício de Cristo só pode ter sido realizado pelos que são
verdadeiramente salvos, pois aplaca a ira de Deus: “O sacrifício de expiação,
porém, é aquele que tem o propósito de aplacar a ira de Deus, satisfazer-lhe ao
juízo e assim abluir e absterger [sic] os pecados, para que o pecador,
expurgado de suas sordícies [sic] e restituído à pureza da justiça, retorne ao
favor com o próprio Deus”.[49]
Segundo Calvino, o sacrifício de Jesus nos compra para Deus,
conforme Calvino declara em seu comentário de Tito 2.14: “Eis aqui outra fonte
de exortação, baseada no propósito ou efeito da morte de Cristo. Ele se
ofereceu em nosso lugar para que fôssemos redimidos da escravidão do pecado, e adquiriu-nos
para si mesmo a fim de sermos sua possessão”.[50]
Como Cristo poderia ter comprado com sua morte aqueles que não pertencem e nem pertencerão
a ele? Como poderia ter comprado aqueles que inclusive já estavam no inferno
antes de sua vinda? Teria o sangue de Cristo comprado Judas Iscariotes? Será
que Calvino, caso defendesse o universalismo, não entenderia as implicações de
sua teologia?
Helm conclui sobre a exposição de Calvino que:
Qualquer que seja o escopo da morte de
Cristo, foi uma satisfação pelos pecados. Em lugar nenhum em Calvino há a
sugestão de que a morte de Cristo meramente possibilitou para todos, ou que
alguma posterior ação de Cristo, em adição à sua morte, foi necessária. Pelo
contrário, Cristo efetuou redenção por sua morte. Ele tomou sobre si e sofreu a
punição, ele apaziguou a ira de Deus. Se essas expressões significam alguma
coisa, elas significam que a justiça divina foi satisfeita por aqueles que a
morte de Cristo beneficia, quem quer que eles sejam.[51]
À luz do texto de Calvino, esta é a conclusão a que realmente
se chega. Cristo objetivamente buscou redenção na cruz para aqueles por quem
ele morreu.
2.2.
O relacionamento entre eleição e expiação em Calvino
A. A. Hodge está certo em afirmar que os reformadores não
tiveram tempo para se preocupar com todos os detalhes de seu sistema teológico[52].
Essa talvez seja a razão porque não se vê Calvino definindo com precisão seu
pensamento sobre a extensão da expiação. Mas, como Hodge bem observa, “o
espírito do sistema de Calvino foi como um todo diretamente caracterizado pela
sujeição da Redenção à Eleição como um meio para um fim”.[53] Esse talvez seja o maior argumento em
favor do escopo limitado da expiação em Calvino. É estranho pensar que ele acreditasse
realmente em dois escopos, um para a eleição e outro para a expiação. Calvino deixa muito clara essa ligação entre a
redenção e a eleição nas Institutas, quando fala sobre a justiça da fé no sacrifício de Jesus que
nos reconcilia com Deus. Ele diz:
E grande peso tem o termo propiciação,
pois que Deus, de certa maneira inefável, no mesmo tempo em que nos amava,
era-nos, entretanto, simultaneamente infenso [sic], até que foi reconciliado em
Cristo (...) A explicação desse mistério deve ser buscada do primeiro capítulo
aos Efésios, onde Paulo, depois que ensinou havermos nós sido eleitos em
Cristo, acrescenta, ao mesmo tempo, que no mesmo Cristo havemos nós recebido o
divino favor.[54]
Calvino diz que Efésios 1 explica porque Deus realizou a
expiação. Nesse texto, Paulo fala da eleição soberana de Deus. A propiciação
foi realizada para cumprir os planos divinos concernentes à eleição. Portanto,
a expiação está de fato subordinada à eleição. Nessa mesma seção Calvino
pergunta retoricamente: “Como começou Deus a abraçar com Seu favor aqueles a quem
havia amado antes de criado o mundo, senão em que revelou o Seu amor quando foi
reconciliado pelo sangue de Cristo?”[55] Nessa passagem, eleição e expiação são
coisas totalmente interligadas. A expiação demonstra e se fundamenta no amor da
eleição. Deus demonstra seu amor pelos eleitos no fato de que Cristo morreu por
eles. Por essa razão, Calvino diz que Jesus havia sido destinado desde a
eternidade a morrer pelos pecados: “Concluímos que no eterno desígnio de Deus,
foi Ele destinado a purgar as imundícies dos homens, pois que derramar sangue é
sinal de expiação”[56]. Deduz-se que ele esteja falando dos
pecados dos eleitos, cuja redenção o sangue de Cristo assegura, pois Cristo foi
destinado a morrer no “eterno desígnio de Deus”, e isso sempre tem algum
relacionamento com a eleição. Se Calvino conclui que tanto a eleição como a
morte de Cristo foram designadas desde toda a eternidade, por que razão
pensaria haver divergência entre elas? Expiação e eleição são coisas
intimamente ligadas. A expiação consuma a eleição. O favor do sacrifício de
Cristo é apenas pelos eleitos. Sua morte nada produz nos réprobos; então,
significa que não é eficaz neles, o que por sua vez conduz ao entendimento de
que não tinha a intenção de ser. A morte de Cristo é apenas para os filhos de
Deus:
Cristo foi sim ordenado o Salvador do
mundo todo, de modo que Ele pode salvar aqueles que foram dados a Ele pelo Pai
do mundo todo, que Ele pode ser a vida eterna deles de quem Ele é o cabeça
(...) Que a virtude e os benefícios de Cristo são estendidos e pertencem a
ninguém exceto aos filhos de Deus.[57]
Se a salvação operada pela aplicação dos benefícios da obra de
Cristo vem somente para os filhos de Deus e para mais ninguém, como imaginar que
Calvino esteja pensando na morte de Cristo como sendo por alguém mais do que os
filhos de Deus? A partir disso também se pode entender o que Calvino quer dizer
quando afirma que Jesus morreu pelo mundo e é o Salvador do mundo: ele morreu e
é o Salvador dos eleitos de todo o mundo. Calvino tem palavras ainda mais
claras para dizer o que pretende:
Pois nossa presente questão é, não o que
o poder ou virtude de Cristo é, nem que eficácia tem em si mesmo, mas quem são
aqueles que ele dá de si mesmo para serem participantes. Agora se a possessão
de Cristo permanece na fé, e se a fé flui do Espírito da adoção, segue-se que
somente se encontra entre seus filhos aquele que Deus designou para ser um
participante de Cristo. Necessariamente o evangelista João estabelece o ofício
de Cristo em ser não outro que o de “reunir juntos todos os filhos de Deus” por
Sua morte. Do que nós concluímos que, embora
a reconciliação seja oferecida a todos os homens através dele, ainda assim, o
grande benefício pertence peculiarmente aos eleitos.[58]
Se a tarefa de Cristo é unir todos os filhos de Deus por sua
morte, então, que sentido teria, nas palavras de Calvino, que Cristo tivesse
morrido pelos perdidos? A única concessão que a morte de Cristo faz ao mundo é
no sentido de que o Evangelho deve ser pregado em todo o mundo, mas não no
sentido de que há realmente provisão de salvação para todo o mundo. A eleição é
o suporte da expiação de Cristo. Considerar essas duas coisas como tendo
escopos diferentes em Calvino é não fazer justiça ao ensino consistente do
reformador.
3.
ANÁLISE DE TEXTOS SELECIONADOS
Evidentemente, uma análise completa da obra de Calvino não
pode ser feita num trabalho como este[59]. Será analisado apenas um extrato dos
textos de Calvino.
3.1.
Textos de Calvino “contra” a limitação da expiação
Um dos principais textos apontados como universalistas em
Calvino é seu comentário de Mateus 20.28: “Muitos
é usado, não para um número definido, mas
para um amplo número, que Ele mesmo estabelece sobre e contra todos os outros,
e este é seu significado também em Romanos 5.15, onde Paulo não está falando de
uma parte da humanidade, mas da raça humana inteira”[60]. A preocupação de Calvino aqui é evitar
que se pense numa espécie de restrição à obra salvífica de Cristo, como se
fosse indicada apenas para um povo. Ele não defende que Cristo tenha morrido
por cada pessoa sem exceção, mas pela raça humana, e nesse sentido, está apenas
enfatizando a suficiência desse sacrifício. Logo à frente, no mesmo comentário
de Mateus, Calvino volta a bater na mesma tecla:
A palavra muitos
não significa uma parte do mundo somente, mas a raça humana
inteira: ele contrasta muitos com
um, como se dissesse que ele não poderia
ser o Redentor de um homem, mas poderia ir ao encontro da morte para livrar
muitos de sua maldita culpa. Não há dúvidas que ao falar para uns poucos Cristo
deseja tornar seu ensino disponível para um grande número. Ao mesmo tempo nós
precisamos notar que em Lucas (dizendo por vós),
ele se dirige a seus discípulos pelo nome e encoraja a fé individual para
aplicar o derramar de seu sangue para benefício deles. Então quando formos para
a mesa santa, não somente a idéia geral viria para nossas mentes de que o mundo
é redimido pelo sangue de Cristo, mas também cada um poderia entender que seus
próprios pecados são cobertos.[61]
A preocupação de Calvino nesse texto é não limitar a salvação
a um povo apenas, mas estendê-la a todos os povos. Esta é no entendimento de Calvino
a similaridade entre “muitos” e “todos”. Novamente ele faz questão de
contrastar a diferença entre “uma parte do mundo” e a “raça humana inteira”, sendo
que sua intenção primordial é tornar a graça de Jesus acessível “para um grande
número”, e não restrita a um povo, como seria o caso do povo judeu. Mas Calvino
não fala sobre cada pessoa sem exceção, o que nem seria possível, pois como já
foi visto, ele define a expiação em termos de sua eficácia. Em sua atitude
pastoral, Calvino deseja que os crentes pensem que a salvação é oferecida
universalmente, ou seja, a todos sem exceção, mas que cada um deve olhar para
si mesmo. Então, nesse ponto ele já está falando da limitação da extensão dessa
expiação. Cada um deve saber que seus próprios pecados são cobertos, embora,
isso seja oferecido ao mundo inteiro. Essa questão da oferta universal do
evangelho é muito importante para Calvino e dominante em seu ensino sobre a
morte de Cristo. De qualquer forma, Calvino limita o sacrifício por causa da fé
individual que garante a “aplicação” do que o sangue derramado conquistou.
Quando todos estes detalhes são considerados, esse texto não ensina
a expiação universal. Sem dúvida o mais debatido de todos os textos bíblicos no
que se refere à extensão da expiação é João 3.16. Universalistas e calvinistas
tratam o texto de forma bem diferente. Porém, os primeiros acreditam que
Calvino concorda mais com eles:
Ambos os pontos são distintamente
declarados para nós: isto é, que a fé em Cristo traz vida para todos, e que
Cristo trouxe vida, porque o Pai celestial ama a raça humana, e deseja que ela
não pereça. (...) E ele tem empregado o termo universal todo
o que, para convidar todos indiscriminadamente
a participar da vida, e destruir toda desculpa dos incrédulos. Assim, também é importante
o termo mundo,
que ele usa formalmente; pois embora nada seja encontrado no mundo que seja
digno do favor de Deus, ainda assim ele demonstra estar favorável ao mundo
inteiro, quando ele convida todos os homens sem exceção para a fé em Cristo que
é nada mais que uma entrada para a vida. Lembre-mos, por outro lado, que quando
vida é prometida universalmente para todo
o que crê em Cristo, ainda assim a fé não é comum a todos. Pois Cristo é feito conhecido diante
das vistas de todos, mas os eleitos somente são aqueles cujos olhos Deus abre,
e que podem buscá-lo pela fé.[62]
Como Helm questiona: “Há alguma razão aqui para entender que
Calvino ensina que Cristo morreu por todos os homens? Não parece! Na visão de Calvino,
o uso das palavras ‘todos’ e ‘mundo’ nada fala-nos sobre a extensão da
expiação”[63]. Calvino entende a obra de Deus em favor
da “raça humana inteira” como sendo um benefício a ser “oferecido” para o mundo
inteiro, mas que, não obstante, é eficaz apenas nos eleitos. A livre oferta do
evangelho não põe qualquer entrave à expiação limitada. Uma vez que não se sabe
por quem Cristo morreu, como se poderia negligenciar a pregação para quem quer
que seja? Calvino diz: ofereçam o evangelho a todo mundo, mas entendam que somente
os eleitos se converterão. Não há como negar, a limitação está na fé, porém, a
fé, segundo Calvino, é dom de Deus para os eleitos, produzida pelo Espírito
Santo, o qual age em conformidade com o escopo da morte de Cristo.
Em João 3.16 Calvino não defende o universalismo. Por outro
lado, é verdade que Calvino não tem o temor moderno de muitos calvinistas em
admitir que nesse texto “mundo” é mundo mesmo. Deus amou ao mundo, e por essa
razão oferece ao mundo todo uma salvação, embora, em última instância, essa
salvação seja eficaz apenas nos que crêem. Evidentemente, se alguém perguntasse
a Calvino que m são os que crêem, ele diria: os eleitos. No comentário de
Romanos 5.18 há mais um texto de Calvino que deve ser considerado: “Paulo torna
a graça comum a todos os homens, não porque de fato e em verdade se estenda a
todos, senão porque ela é oferecida
a todos. Embora Cristo tenha sofrido
pelos pecados do mundo, e é oferecido pela munificência divina, sem distinção,
a todos os homens, todavia nem todos o recebem”[64]. Aqui, ele parece retomar o entendimento
que já deixou claro em textos anteriores, ou seja, que a extensão da expiação é
universal no sentido de que é oferecida a todos os homens, porém, se limita em
eficácia, da qual desfrutam apenas os que a recebem. Esse é certamente um dos
segredos para se entender a idéia universal do sacrifício de Cristo na visão de
Calvino. Não é universal em seu propósito, mas apenas em sua oferta. Um dos
textos que mais parecem apontar o universalismo em Calvino é seu comentário de
Colossenses 1.14. Calvino fala que todos os pecados do mundo foram expiados por
Cristo:
Essa é a nossa liberdade, essa a nossa
glória diante da morte – que nossos pecados não são imputados a nós. Ele diz
que essa redenção foi providenciada através do sangue de Cristo, pois pelo
sacrifício da sua morte todos os pecados do mundo têm sido expiados. Devemos,
entretanto, ter em mente, que isso é tão somente o preço da reconciliação, e
que todas as futilidades dos papistas quanto à satisfação são blasfêmias.[65]
Mas então significa que todo mundo está automaticamente
perdoado? É evidente que ele não defende um universalismo quanto à salvação,
pois já declarou que somente os eleitos desfrutam dos benefícios dessa
redenção. Se só os eleitos desfrutam dos benefícios dessa salvação e se, como
já foi visto, a expiação de Cristo é objetiva, então só é possível entender
essa declaração como expressando que todos os pecados dos salvos do mundo
inteiro foram expiados por Cristo. Para perceber o quanto o contexto é
importante para entender Calvino, é preciso considerar outra citação um pouco à
frente neste mesmo comentário:
Ele fala do Pai, – que foi tornado
propício às suas criaturas pelo sangue de Cristo. (...) Quer
sobre a terra, quer nos céus. Se você está inclinado a entender isso
como se referindo meramente a criaturas racionais, significará homens e anjos.
Entretanto, não é um absurdo estender isso para todos sem exceção? (...) Alguém
poderia, sobre o pretexto do universalismo da expressão, levantar a questão em
referência aos demônios, se Cristo fez a paz para eles também. Eu respondo:
Não, nem igualmente com homens ímpios: embora eu confesso que há uma diferença,
na medida em que o benefício da redenção é oferecido para os últimos, mas não
para os primeiros.[66]
Será que Calvino está realmente está dizendo que Cristo morreu
por todos os homens? Na verdade não. Mas está dizendo que o evangelho deve ser
oferecido a todos. Esse provavelmente é o texto que mais claramente demonstra
esta tensão em Calvino entre o escopo da pregação do evangelho e o escopo da
morte de Cristo. Suas palavras devem ser analisadas cuidadosamente. Ele fala
que o sangue de Cristo faz Deus ser propício a suas criaturas. Isto está em
conformidade com o que já foi visto. Mas em que sentido deve ser entendido?
Conforme o próprio Calvino diz, no sentido de que há uma oferta para todos. E
aqui ele inclusive diz “para todos sem exceção”. Note-se que Calvino entende de
universalismo, pois percebe a implicação dessa expressão, mas evidentemente ele
está falando da “pregação do evangelho”. E por isso, uma vez que surgiu o
assunto de “fazer a paz”, ele diz que Cristo não fez a paz com os demônios e nem com os homens ímpios. Ou seja, Cristo não fez a paz com os homens perdidos assim
como não fez a paz com os demônios. Ele não morreu pelos demônios, nem pelos
homens ímpios, mas o evangelho deve ser oferecido aos ímpios, ainda que não
deva ser oferecido aos demônios. O universalismo de Calvino é apenas na oferta
do evangelho, mas não no objetivo da morte de Cristo. Essa passagem deixa isso
bem claro. Acima de tudo, o que deve ser notado na passagem é que Calvino se
viu obrigado a deixar os termos mais precisos. Vendo o risco de incorrer em
universalismo ele fez questão de deixar claro que não estava falando disso. Ao
lembrar que ele está escrevendo antes do Sínodo de Dort, é impossível não
pensar que, se vivesse nos tempos da controvérsia arminiana, suas expressões seriam
mais específicas como foram as expressões daquele sínodo.
3.2.
Textos de Calvino “a favor” da limitação da expiação
O primeiro texto a ser considerado é o texto em que Calvino
mais claramente define o que ele quer dizer com a palavra “todos” em seus
escritos. Isso ele faz no comentário de João 6.45:
E eles serão todos ensinados por Deus. A
palavra todos precisa
ser limitada aos eleitos, somente os quais são os verdadeiros filhos da Igreja.
Não é difícil ver em que sentido Cristo aplica essa predição à situação
presente. Isaías mostra que a Igreja é verdadeiramente edificada somente quando
ela tem seus filhos ensinados por Deus. Cristo, portanto, justamente conclui
que os homens não têm olhos para enxergar a luz da vida até que Deus lhes abra
a visão. Mas, ao mesmo tempo, ele inclui na frase todos;
porque ele argumenta a partir daí que todos aqueles que são efetivamente
ensinados por Deus são trazidos.[67]
Algo parecido pode ser visto no mesmo comentário de João
12.32:
A palavra todos,
que ele emprega, precisa ser entendida como se referindo aos filhos de Deus,
que pertencem ao seu rebanho. Eu concordo com Crisóstomo, que diz que Cristo
usou o termo universal, todos,
porque a Igreja foi reunida igualmente de entre gentios e judeus.[68]
Esses dois textos claramente definem e delimitam a palavra
“todos” de Calvino em relação aos eleitos. Nesse sentido, aqui estão dois
textos que podem ser claramente usados a favor de uma expiação limitada.
Segundo Calvino, a palavra “todos” se refere a classes de homens, como gentios
e judeus, ou seja, os eleitos dentre
os gentios e os judeus. Não é apenas nos comentários que se acha base
para a defesa de um escopo limitado para a expiação em Calvino. As Institutas também
demonstram isso:
Ele havia ordenado a Timóteo que as
orações deviam ser regularmente oferecidas na igreja pelos reis e príncipes.
Mas, como parecia algo absurdo que elas devessem ser oferecidas por uma classe
de pessoas que estivesse quase sem esperança (todos eles não sendo somente
alienados do corpo de Cristo, mas fazendo o máximo para destruir o seu reino),
ele acrescenta que isso era aceitável a Deus, que deseja que todos sejam
salvos. Por isto ele certamente quer dizer nada mais senão que o caminho da
salvação não está fechado para nenhuma pessoa; que, pelo contrário, ele havia
manifestado a sua misericórdia de tal modo que não teria barrado ninguém dela.[69]
A referência de Paulo aqui é justamente ao controvertido
comentário na Primeira Carta a Timóteo sobre o desejo de Deus de que todos os
homens sejam salvos. Calvino trabalha com o contexto da afirmação que trata do dever
de orar pelos reis e pelos que estão investidos de autoridade. O argumento de
Calvino é que Paulo está dizendo que mesmo os reis e os governantes podem ser
salvos, e, portanto, é preciso haver oração por eles. Novamente, Calvino tem em
mente a extensão da oferta do evangelho, que é universal. No entanto, se fosse
universalista, teria perdido uma excelente ocasião para demonstrar seu ponto de
vista, como também teria perdido em seu comentário direto do texto, que nada
fala sobre expiação ilimitada. O texto fora dos comentários que deixa mais
claro o entendimento de Calvino sobre por quem Cristo morreu é um trecho de seu
tratado sobre a Santa Ceia, onde Calvino declara: “Como pode o ímpio beber o
sangue de Cristo que não foi derramado para expiar os pecados dele, e a carne
de Cristo, que não foi crucificada por ele?”[70] Calvino está tratando sobre quem deve e
quem não deve participar da Santa Ceia. Sua opinião é que o “ímpio” não deve
participar da Santa Ceia porque Jesus Cristo não derramou seu sangue e nem foi
crucificado por ele. Os defensores do universalismo em Calvino se vêem em
dificuldades com esse texto. Geisler diz que Calvino parece ter exagerado
verbalmente seu argumento no calor da batalha contra a reivindicação herética
de Heshunius de que mesmo o ímpio pode receber o benefício da comunhão[71].
Roger Nicole diz que Charles Bell e Curt Daniel tentaram explicar essa
declaração como algo que reflete o ponto de vista dos incrédulos que não têm
conhecimento da relevância para eles do sacrifício de Cristo, antes do que a
própria posição de Calvino. Mas, dessa forma, o argumento contra Heshunius
seria muito fraco, pois Calvino está argumentando que os incrédulos profanavam
a Ceia do Senhor por deixar de discernir a realidade de Cristo em, com e sob os
elementos naturais, tanto quanto a relevância universal de sua obra de expiação[72].
Na verdade, essa passagem de Calvino contra o luterano Heshunius é ainda mais
forte porque Heshunius, seguindo o luteranismo, crê na expiação universal, e
Calvino está claramente demonstrando que não concorda com ele. A afirmação de
Calvino é clara: Cristo não derramou seu sangue pelos ímpios.
Propositalmente ficou para o final o texto mais claro de
Calvino a respeito de seu entendimento sobre a extensão da expiação, que é o
seu comentário de 1João 2.2:
E não
por nós somente. Ele acrescenta isso por motivo de
amplificação, a fim de que o fiel possa ter certeza de que a expiação feita por
Cristo estende-se a todos que pela fé abraçam o evangelho. Aqui, uma questão
pode ser levantada: como podem os pecados do mundo inteiro terem sido expiados?
Eu passo por alto os sonhos dos fanáticos, que sobre esse pretexto estendem a
salvação para todos os réprobos, e até mesmo para Satanás. Uma coisa monstruosa
como essa não necessita de refutação. Aqueles que buscam evitar esse absurdo
têm dito que Cristo sofreu suficientemente pelo mundo inteiro, mas
eficientemente somente pelos eleitos. Essa solução tem geralmente prevalecido
nas escolas. Embora eu concorde que o que tem sido dito é verdadeiro, ainda
assim eu nego que seja adequado a essa passagem; pois o desejo de João não foi
outro senão tornar esse benefício comum à igreja inteira. Então, sobre a
palavra todos ou
inteiro, ele não inclui os réprobos, mas designa aqueles que creriam, assim
como aqueles que estavam espalhados por várias partes do mundo. Pois, então, é
na verdade evidente, que a graça de Cristo é declarada ser a única verdadeira
salvação do mundo”.[73]
Ao longo da discussão, esse texto de Calvino tem sido o mais
debatido e talvez o mais conclusivo quanto à sua opinião sobre a extensão da
expiação. Strong entendia que ele apontava para a opinião universalista de
Calvino, mas Strong possuía uma citação espúria desse texto de Calvino, a qual com
toda certeza não era original[74].
É preciso entender cada declaração do reformador para chegar a uma conclusão
satisfatória. Ele diz que a expressão do Apóstolo “e não por nós somente” tem a
função de demonstrar que a extensão da expiação feita por Cristo estende-se
realmente a todos que crêem no evangelho. Antecipando a pergunta a respeito do
universalismo, Calvino diz que os pecados do mundo inteiro não são realmente
expiados. Nesse ponto é importante lembrar mais uma vez que o conceito de
expiação em Calvino é o de uma obra eficaz. O que Jesus realizou na cruz não
foi uma espécie de “provisão” de redenção, mas redenção de fato. Calvino
entende perfeitamente que se Cristo efetuou essa redenção por todas as pessoas
então todas seriam efetivamente salvas. Ele diz que a idéia de que o Senhor
teria feito expiação pelos réprobos é algo monstruoso e coisa de fanáticos, tanto quanto a idéia
de que Cristo fez expiação por Satanás. Isso deixa bem claro que não passa por
sua cabeça a idéia de que Cristo tenha morrido pelos réprobos. Em seguida ele
faz menção da idéia escolástica de que Cristo sofreu suficientemente pelo
mundo inteiro, mas eficientemente somente pelos eleitos. O que Calvino acha dessa idéia? Ele não
acha que ela seja relacionada com o que João está tratando neste texto,
porém, deixa claro que concorda que a afirmação é verdadeira. Se tudo o que foi
visto nesse trabalho ainda não resolveu a questão, essa expressão terá que
resolver. Ele está dizendo claramente que concorda com a formulação teológica
de que Cristo morreu suficientemente pelo mundo inteiro (cada pessoa sem
exceção), mas eficientemente pelos eleitos, ou seja, Calvino entende que a
morte de Cristo é ilimitada no sentido de que tem virtude para salvar o mundo
inteiro, mas que o propósito da mesma foi salvar especificamente os eleitos.
Como diz A. A. Hodge, “uma declaração deliberada que limita o desígnio da morte
de Cristo é melhor para definir o sentido do que um número de expressões vagas
e indefinidas”[75]. E aqui está uma
declaração deliberada e clara. Ela vale mais do que qualquer outra declaração
obscura ou duvidosa. Voltando ao texto, Calvino entende que a intenção de João
ao usar a expressão “mundo inteiro” é tornar o benefício da morte de Cristo
comum à igreja inteira. Nenhuma declaração poderia ser mais clara do que esta:
“Então, sobre a palavra todos
ou inteiro, ele não inclui os réprobos,
mas designa aqueles que creriam, assim como aqueles que estavam espalhados por
várias partes do mundo”. Os réprobos não fazem parte do escopo da expiação de
Cristo no entendimento de Calvino, e ao mesmo tempo ele ainda deixa claro que
entende a expressão “mundo inteiro” como se referindo a “várias partes do
mundo”. A essa altura fica muito difícil afirmar que Calvino sustentava uma
expiação universal.
CONCLUSÃO
A primeira conclusão que se chega é que Calvino não se
preocupou em formular expressamente uma doutrina sobre a extensão da expiação
pelo motivo de não ser algo que estivesse em evidência durante seus dias. Por
essa razão, a fim de evitar o anacronismo, não é possível dizer que Calvino
tenha defendido ou deixado de defender a doutrina da expiação limitada tal qual
é conhecida hoje. Mas o fato é que Calvino fala sobre a extensão da expiação em
seus escritos, ainda que não para formular expressamente a doutrina, pelo menos
em conformidade e em resposta às necessidades teológicas e pastorais de sua
época.
Quanto à tese de Kendall sobre o desvio que o calvinismo
puritano, seguindo Beza, teria produzido na tradição reformada, afastando-se de
Calvino, como diz Letham, “tem um grande número de fraquezas”[76]. Kendall não trata Calvino adequadamente,
pois sempre procura ler o reformador com seus óculos antinomistas. Kendall só
tem ganho apoio daqueles que como ele defendem o antinomismo, ou daqueles que
desejam achar alguma forma de criticar o calvinismo. Mas seus argumentos são
falhos por não considerarem a obra de Calvino como um todo, e não fazem justiça
ao contexto histórico do reformador de Genebra.
Há, no entanto, um sentido em que Calvino realmente diz que
Cristo morreu por todo o mundo. É no sentido de que a salvação deve ser oferecida
a todos os homens. Calvino fala bastante dessa questão do direito de todos os homens
terem esperança da salvação, e do dever de pregar o Evangelho a todos sem
distinção, pois a morte de Cristo conquistou isso também. Como já foi
sinalizado, esta é sem dúvida a chave para entender as expressões
universalistas que Calvino usa, sem precisar com isso incorrer numa expiação universal.
Calvino repudia totalmente a idéia de limitar a oferta do evangelho, e nesse
sentido fala da morte de Cristo em termos universais.
A forte estrutura da teologia de Calvino em termos do
propósito divino implica numa limitação da expiação. Parece estranho pensar que
Calvino colocaria uma redenção indefinida e hipotética, quando demonstra tão
claramente que a salvação é limitada aos eleitos. Será que, caso fosse
universalista, não perceberia que estava causando uma divisão dentro da obra da
própria Trindade? Como poderia Cristo morrer pelos homens que o Pai não
escolheu e que o Espírito não regeneraria? Essas distinções da obra da Trindade
estão muito claras no texto de Calvino, mas ele não parece dividi-las em
escopo.
Além disso, e esse argumento parte do pressuposto histórico, o
que teria feito com que a teologia reformada mudasse tanto dentro de um espaço de
apenas 50 anos? De Calvino para Dort são apenas 55 anos. Seriam os teólogos ingleses
e holandeses tão ingênuos que não veriam a terrível modificação que Beza fez na
teologia do célebre Calvino? Essa pressuposição denigre os calvinistas
posteriores, pois lhes faz ignorar o pensamento de Calvino, ou denigre o
próprio Calvino, pois faz com que o reformador não tivesse expressão
suficiente, a ponto de se tornar um “ilustre desconhecido”.
ABSTRACT
This article
deals with the origin of the limited atonement concept in John Calvin. The
author starts with a description of the debate in old and modern scholarship
over whether John Calvin would have been an advocate of universalism (unlimited
atonement). He then evaluates mainly the modern interpretation of R. T.
Kendall. This scholar understands that Calvin believed Christ died for every
individual. The analysis of Calvin’s texts, however, demonstrates that the
reformer of Geneva had a concept of atonement hardly consistent with
universalism. Lima demonstrates that Calvin believed in an effective atonement
rather than a provisional, potential one. The atonement, in Calvin’s mind, is
subordinate to election. The author pays close attention to the texts of Calvin
that allegedly defend universalism, but concludes that the reformer takes this
stand only as far as the preaching of the Gospel is concerned.
When Calvin has
to define the extension of the atonement, he indicates that it is limited to
the elect only. Lima concludes that, although Calvin did not expressly defend
the doctrine of limited atonement, it may be clearly deduced from his theology.
KEYWORDS
Limited
atonement; Universalism; universal preaching; development of dogma.
** Sobre o autor: Leandro
Antônio de Lima, é ministro presbiteriano, graduado em teologia pelo Seminário
Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, em São Paulo, e mestre em teologia
e história pelo Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper. É diretor
e professor de teologia sistemática da Faculdade Teológica Reformada, em
Guarapuava (PR) e pastor da Igreja Presbiteriana Betel, na mesma cidade. Fides reform/2004-077 a 184 05/11/04 6:07 PM Page 77
[1]
No século 17, a teologia escolástica protestante produziu extensas obras sobre
a expiação. Uma das obras mais conhecidas foi a do puritano John Owen, que
tratou amplamente da questão da expiação limitada.Cf. OWEN, John. Por Quem
Cristo Morreu? São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986. Essa
obra é uma versão simplificada e condensada do clássico “A Morte da Morte na
Morte de Cristo” (1616-1684). Cf. GOOLD, William H. (Ed.). The Works of John Owen. Carlisle:
Banner of Truth, 1967. Vol X. Livro I.
[3] Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Editora
Cultura Cristã, 1991, VIII.v.
[4] Os cinco pontos do arminianismo são depravação
parcial, eleição condicional, expiação ilimitada, graça resistível e
possibilidade de perda da salvação.
[6] Ibid., II.VIII.
[7] HELM, Paul. Calvin and the Calvinists.
Edinburgh: Banner of Truth, 1982, p. 5. (Minha tradução).
[8]
KENDALL, R.T. A Modificação Puritana na Teologia de Calvino. Em REID, W.
Stanford (Ed.). Calvino e sua Influência no Mundo Ocidental. Trad. Vera
Lúcia Kepler. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, pp. 245-265. Idem, Calvin and English Calvinism
to 1649. Carlisle: Paternoster, 1997 (1979).
[9]
STRONG, Augustus H. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Hagnos,
2003, Vol 2, p. 470.
[12] ROLSTON, Holmes III. John Calvin
versus The Westminster Confession. Richmond: John Knox
Press, 1972.
[13] HODGES, Zane C. Calvinism Ex Cathedra: A
Review of John H. Gerstner’s Wrongly Dividing The Word of Truth: A Critique of
Dispensationalism. Journal of the Grace Evangelical
Society, Volume 4:2 (1991). Disponível em
http.www.faithalone.orgjournal1991bCalvin.html.htm. (Consultado em 08 jul.
2003).
[14]
GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres. São Paulo: Editora Vida, 2001.
[15] DRUMMOND, Lewis A. Resenha R. T. Kendall,
Calvin and English Calvinism to 1649. Review and Expositor 78 (Sum
1981): p. 434.
[16] CLIFFORD, Alan. Calvin’s Authentic Calvinism,
A Clarification. Norwich: Charenton Reformed
Publishing, 1996.
[17] BENSE, Walter F. Resenha R. T. Kendall,
Calvin and English Calvinism to 1649. Jornal of Ecumenical
Studies 19:1 (1982): pp. 123-124.
[18]
O termo universalismo neste artigo não significa a salvação de todas as
pessoas, mas a idéia de que a morte de Cristo foi em favor de todos os homens
sem exceção.
[20] Ibid. Cf. Systematic Theology.
Valley Forge: Judson Press, 1907, p. 778.
[21] Cf. VANCE, The Other Side of Calvinism,
pp. 466-467.
[22] Cf. CALVINO, João. Commentary on the
First Epistle of John. Albany, OR: Books for the Ages, 1998. (1Jo 2.2).
[23]
Ibid.
[24]
KENDALL, R. T. A Modificação Puritana da Teologia de Calvino, pp. 245-65. Esse
ponto de vista de Kendall foi originalmente exposto em sua tese de doutorado na
Universidade de Oxford em 1976 sob o título The Nature of Saving Faith from
William Perkins (d. 1602) to the Westminster Assembly (1643-1649). Kendall expressou um conceito semelhante
em The Influence of Calvin and Calvinism upon the American Heritage
(Evangelical Library Annual Lecture, 1976) e John Cotton – First English
Calvinist, em The Puritan Experiment in the New World. Westminster
Conference, 1976. Cf. HELM, Paul. Calvin and the Calvinists, p. 5.
[25] BEEKE, Joel. Does Assurance Belong to the
Essence of Faith. Reformed Christian,
2000. Disponível em: http://www.geocities.com/reformedchristian/BeekeAssurance.htm;
consultado em 07/07/03. (Minha tradução).
[26]
Ibid., p. 248.
[27]
Cf. KENDALL, A Modificação Puritana da Teologia de Calvino, p. 253.
[28] BEZA, Thedore. Briefe and Pithie.
Londres: Moptid and Mather, 1572, pp. 36-37. Apud KENDALL,
R. T. A Modificação Puritana da Teologia de Calvino, p. 253.
[29] CALVIN, John. Concerning the Eternal
Predestination of God. Naperville: Allenson, 1965, p. 135. Apud
KENDALL, R. T. A Modificação Puritana da Teologia de Calvino, p. 254.
[30] KENDALL, R. T. The Nature of Saving Faith
from William Perkins (d. 1602) to the Westminster
Assembly (1643-9). Apud HELM, Paul. Calvin
and the Calvinists, p. 6. (Minha tradução).
[31]
Ibid., p. 32. (Minha tradução).
[33] Cf. KENDALL, R. T. Once Saved, Always
Saved. Chicago: Moody Press, 1983, pp. 52-53. ApudANGLADA, Paulo. A
Confissão de Fé de Westminster é Realmente Calvinista?, p. 9.
[34] Cf. GONZÁLEZ, Justo L. A History of
Christian Thought. 2ª- ed. Nashville: Abingdon Press, 1986. Vol. III, p.
289. Cf. MAcGIFFERT, A. C. Protestant Thought before Kant. New York:
Harper TorchBooks, 1991 (1961), pp. 151-154; HODGE, A. A. The Atonement,
p. 375ss.
[36]
Cf. BERKHOF, Louis. História de las Doutrinas Cristinianas. Edinburgh:
El Estandarte de la Verdad, 1969, p. 243.
[37] McMAHON, Matthew. Amyraut and
Hypothetical Universalism. A Puritan’s Mind,
2003. Disponível em
http://www.apuritansmind.com/PuritanWorship/Amyraut%20Universalism.htm.
Consultado em 8 jul. 2003. (Minha tradução).
[38]
Lewis Sperry Chafer entende que não é necessário crer nos cinco pontos do
calvinismo para ser um calvinista. Ele diz: “É verdade que a doutrina da
expiação limitada é um dos cinco pontos do calvinismo, mas nem todos que são
classificados corretamente como calvinistas aceitam essa parte do sistema”. CHAFER,
Lewis Sperry. For Whom Did Christ Die? Biblioteca Sacra (Outubro-Dezembro
1980): p. 310. (Minha tradução).
[39]
O acrônimo TULIP em inglês representa os cinco pontos do calvinismo. O “L”
representa o terceiro ponto, a Expiação Limitada (Limited Atonement). Os outros pontos são: “T” - Total
Depravity; “U” - Unconditional Election; “I” - Irresistible Grace; “P” -
Perseverance of the saints.
[40] OLSON, Roger. História
da Teologia Cristã – 2000 Anos de Tradições e Reformas.
São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 471.
[42]
LEITH, John H. A Tradição Reformada. A Tradição Reformada – Uma maneira de
ser a comunidade Cristã. São Paulo: Pendão Real, 1997, p. 212.
[43]
Ibid.
[44]
GEISLER, Eleitos, mas Livres, p. 132.
[46]
CALVINO, João. Institutas – Tratado da Religião Cristã. São Paulo: Casa
Editora Presbiteriana, 1985. (2.16.5). (Minha ênfase).
[47] CALVINO, João. Commentary on the First
Epistle of Peter. Trad. John Owen. Albany, OR: Books for the Ages, 1998. (1Pe
2.24). (Minha tradução e minha ênfase).
[48]
CALVINO, Institutas 2.17.3.
[49]
Ibid., 4.18.13.
[50]
CALVINO, João. As Pastorais. Trad. Valter Graciano Martins. São Bernardo
do Campo: Edições Parákletos, 1998, p. 338 (Tt 2.14).
[52]
HODGE, A. A. The Atonement, p. 374. (Minha tradução).
[53]
Ibid., p. 389. (Minha tradução).
[54]
CALVINO, Institutas 2.17.2.
[55]
55 Ibid.
[57] CALVINO, João. “A Treatise on the Eternal
Predestination of God”, p. 94. Apud HELM, Paul. Calvin and the
Calvinists, p. 20. (Minha tradução).
[58] CALVINO, João. “A Treatise on the Eternal
Predestination of God”, p. 94. Apud HELM,
Paul. Calvin and the Calvinists, p. 22. (Minha tradução e minha ênfase).
[59]
Para uma análise mais completa cf. LIMA, Leandro Antonio de. Uma Defesa da
Expiação Definida em Calvino. Dissertação (Mestrado em Teologia). Centro
Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, São Paulo, 2003.
[60] CALVINO, João. Commentary on the
Harmony of the Gospels. Trad. William Pringle. Albany, OR: Books for the
Ages, 1998. (Mt 20.28). (Minha tradução).
[62] CALVINO, Commentary on The Gospel
According to John. (Jo 3.16). (Minha tradução).
Ages,
1998. (Cl 1.14). (Minha tradução).
[68]
Ibid., (Jo 12.32). (Minha tradução).
[71]
GEISLER, Eleitos, mas Livres, p. 182.
[72] Cf. NICOLE, Roger. John Calvin’s View of
the Extent of the Atonement. Disponível em: http://www.apuritansmind.com/Arminianism/NicoleRogerCalvinsLimitedAtonement.htm.
Consultado em 08/07/03.
[73] CALVINO, Commentary on the First
Epistle of John. (1Jo 2.2). (Minha tradução).
[74] Ver VANCE, The Other Side of Calvinism,
p. 467.
[76] LETHAM, Robert. Faith and Assurance in
Early Calvinism: A Model of Continuity and Diversity, p. 357. (Minha tradução).

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