É claro que estou brincando – o
calvinismo tem muito mais do que cinco ou seis pontos. Esses que vou citar são
alguns dos que creio com respeito à salvação. E mesmo assim, nem todos os que
se consideram calvinistas concordariam completamente comigo. Meu alvo é tentar
esclarecer o que calvinistas, em geral, acreditam sobre a soberania de Deus e a
responsabilidade humana. Não coloquei textos
bíblicos, pois não quero provar nada – só explicar o que acredito como calvinista.
1 – Creio que
Deus predestinou tudo o que acontece. O Deus que determinou todas as coisas é
um Deus pessoal, inteligente, justo, santo e bom, que traçou seus planos
infalíveis levando em conta a responsabilidade moral de suas criaturas. Ele não
é uma força impessoal, como o destino. Portanto, as decisões que tomamos não
são mera ilusão e nossa sensação de liberdade ao tomá-las não é uma farsa. Eu
acredito que as nossas decisões e escolhas são bem reais e que fazem a
diferença. Elas não são uma brincadeira de mau gosto da parte de Deus. De uma
maneira para mim misteriosa, porém perfeitamente compatível com um Deus
onipotente e infinito, ele consegue ser soberano sem que a vontade de suas
criaturas seja violentada. Ao mesmo tempo, ao final, sempre prevalecerá aquilo
que Deus já determinou desde a eternidade. Encaro essa relação entre a
soberania de Deus e a responsabilidade humana como sendo parte dos mistérios
acerca do ser Deus, como a doutrina da Trindade e das duas naturezas de Cristo
2 – Creio que Deus
predestinou desde a eternidade aqueles que irão se salvar. Esta convicção não
me impede de orar pelos descrentes e evangelizar. Ao contrário, evangelizo com
esperança, pois Deus haverá de salvar pecadores. Creio que Deus já sabe, mas
oro assim mesmo. Sei que ele ouve e responde, e que minhas orações fazem a
diferença. Sei também que, ao final, através de minhas orações, Deus terá
realizado toda a sua vontade. Não sei como ele faz isso. Mas, não me incomoda
nem um pouco. Não creio que minha oração seja um movimento ilusório no
tabuleiro da soberania divina.
3 – Não creio
que Deus predestinou todos para a salvação. Da mesma forma, não creio que ele
foi injusto e nem que ele fez acepção de pessoas para com aqueles que não foram
eleitos. Não creio que Deus tenha predestinado inocentes ao inferno, pois não
há inocentes entre os membros da raça humana. E nem acredito que ele tenha
deixado de conceder sua graça a quem merecia recebê-la, pois igualmente não há
pessoa alguma que mereça qualquer coisa de Deus, a não ser a justa condenação
por seus pecados. Deus predestinou para a salvação pecadores perdidos,
merecedores do inferno. Ao deixar de predestinar alguns, ele não cometeu
injustiça alguma, no meu entender, pois não tinha qualquer obrigação moral,
legal ou emocional de lhes oferecer qualquer coisa.
4 – Creio que
Deus sabe o futuro, não porque previu o que ia acontecer, mas porque já
determinou tudo que acontecerá. Por isso, entendo que a presciência de que a
Bíblia fala é decorrente da predestinação, e não o contrário. Negar a
predestinação e insistir somente na presciência de Deus com o alvo de proteger
a liberdade do homem levanta outros problemas. Quem criou o que Deus previu? E,
se Deus conhece antecipadamente a decisão livre que um homem vai tomar no futuro,
então ela não é mais uma decisão livre.
5 – Creio que
apesar de ter decretado tudo que existe desde a eternidade, Deus acompanha a
execução de seus planos dentro do tempo, e se comunica conosco nessa condição.
Quando a Bíblia fala de um jeito que parece que Deus nem conhece o futuro e que
muda de ideia algumas vezes, é Deus falando como se estivesse dentro do tempo e
acompanhando em sequência, ao nosso lado, os acontecimentos. É a única maneira
pela qual ele pode se fazer compreensível a nós. Quem melhor explica isso é
John Frame, no livro "Não Há Outro Deus," da Editora Cultura Cristã,
que recomendo entusiasticamente.
6 – Creio que
Deus é soberano e bom. A contradição que parece haver entre um Deus soberano e
bom que governa totalmente o universo, por um lado, e por outro, e a presença
do mal nesse universo é apenas aparente e, por enquanto, sem explicação. Diante
da perversidade e dos horrores desse mundo, alguns dizem que Deus é soberano
mas não é bom, pois permite tudo isto. Outros, que ele é bom mas não é
soberano, pois não consegue impedir tais coisas. Para mim, a Bíblia diz
claramente que Deus não somente é soberano e bom – mas que ele é santo e odeia
o mal. Ao mesmo tempo, a Bíblia reconhece a presença do mal do mundo e a
realidade da dor e do sofrimento que esse mal traz. Ainda assim, não oferece
qualquer explicação sobre como essas duas realidades podem existir ao mesmo
tempo. Simplesmente afirma ambas e pede que vivamos na certeza de que um dia
Deus haverá, mediante Jesus Cristo, de extinguir completamente o mal e seus
efeitos nesse mundo.
Deve ter ficado
claro que um calvinista, para mim, é basicamente um cristão que aceita o que a
Bíblia diz sobre a relação entre Deus e o homem e reconhece que não tem todas
as explicações para as questões levantadas. Para muitos, esse retrato é de
alguém teologicamente fraco e no mínimo confuso. Mas, na verdade, é o retrato
de quem deseja calar onde a Bíblia se cala.


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