"Os movimentos pentecostais e neopentecostais são modernos, voltados para as necessidades das pessoas"
Entrevista
da Rô (Blog da Rô "Mulheres Sábias) com Augustus Nicodemus Lopes - Refletindo sobre a Igreja Contemporânea,
com o Dr. Augustus Nicodemus Lopes.
É com
imensa satisfação e alegria que eu, Rô Moreira, tenho ao entrevistar o Dr. Augustus Nicodemus Lopes, com uma serie de perguntas e questionamentos feitos
por diversos irmãos internautas, do meu Facebook e do meu
Blog.
As
questões permeiam sobre os rumos da Igreja Brasileira, seus atuais problemas e
seus caminhos, e também sobre questões da teologia reformada. O entrevistado Dr
Augustus Nicodemus Lopes, é um dos mais renomados expoentes da teologia
reformada e Calvinista no Brasil, sendo ele um dos grandes incentivadores do
estudo teológico, e da erudição teológica reformada no Brasil.
Sobre o Rev. Augustus Nicodemus Gomes Lopes, ele é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Fez seu curso de bacharel em teologia no Seminário Presbiteriano do Norte, em Recife. Depois, obteve o mestrado em Novo Testamento na África do Sul, na Universidade Cristã de Potchefstroom, ligada à Igreja Reformada. Posteriormente, depois de servir como professor, e diretor do Seminário Presbiteriano do Norte, bem como pastor da Primeira Igreja Presbiteriana do Recife, obteve o grau de doutor em Hermenêutica e Estudos Bíblicos pelo Seminário Teológico de Westminster, na Filadélfia, Estados Unidos, com estudos adicionais na Universidade Reformada de Kampen, na Holanda. Seu doutorado no Brasil é validado pela PUC do Rio de Janeiro. Recentemente terminou o pós-doutorado no Seminário Teológico de Westminster. Foi pastor da Igreja Evangélica Suíça de São Paulo, professor e diretor do Centro Presbiteriano de Pós Graduação Andrew Jumper, da Igreja Presbiteriana do Brasil e Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie. É autor de diversos livros, entre eles “O Que Você Precisa Saber Sobre Batalha Espiritual”, “A Bíblia e Sua Família”, “O Culto Espiritual”, “A Bíblia e Seus Intérpretes”, “O que Estão Fazendo com a Igreja,” “O Ateísmo Cristão e Outras Ameaças à Igreja,” e comentários sobre diversos livros da Bíblia. Atualmente é pastor assistente da Igreja Presbiteriana de Santo Amaro, em São Paulo e professor de Novo Testamento no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper.
1 – Vou fazer uma analogia: a igreja em Corinto parece muito com as igrejas neo-pentecostais contemporâneas. Meio caóticas e cheias de "dons". E o sistema judaico fariseu lembra muito as igrejas tradicionais e até reformadas, pelo sistema litúrgico e certa racionalidade. A pergunta é: as igrejas neo- pentecostais estão cheias devido ao misticismo, e as tradicionais se esvaziam, devido a racionalidade de sua mensagem e as vezes filosóficas etc. Como encontrar o equilíbrio? Se é que existe. O problema esta no pragmatismo das igrejas pentecostais ou na forma de comunicação das igrejas reformadas? Por - Rô Moreira
Rev. Augustus Nicodemus: - O equilíbrio sempre será um retorno ao ensino das Escrituras sobre o Evangelho e a igreja de Cristo. É no Evangelho que encontramos a conjunção de piedade e conhecimento, de experiência com Deus e profundidade teológica. Se as igrejas neopentecostais resolvessem mudar e seguir o que a Bíblia de fato ensina sobre a pessoa e a obra de Cristo, sobre a sua igreja, sobre a necessidade de arrependimento e mudança de vida, de santificação e mortificação do pecado, e se abandonassem a pregação da prosperidade financeira, teriam um número bem menor de membros, mas a possibilidade de que estes sejam realmente convertidos seria bem maior. Da mesma forma, se as igrejas reformadas se voltassem para este mesmo Evangelho, experimentaria de maneira mais profunda o relacionamento com Deus na prática e teriam mais liberdade para falar à nossa geração de maneira mais contextualizada. Não é garantido que fidelidade à Bíblia sempre produza crescimento numérico – às vezes é até o contrário. Mas certamente produz uma igreja mais forte e mais santa.
2 - Segundo pesquisas as igrejas históricas atuam
mais tempo no Brasil. E são referencias em missões, educação e teologia tendo
maior penetração na classe média e alta, já o pentecostalismo cresce nas
camadas mais pobres. P: a condição sócia econômica do brasileiro seria uma das
causas do baixo crescimento das igrejas históricas? Se há outra causa,
qual seria? Pergunta de Ro Moreira.
Rev. Augustus Nicodemus: - Essa associação das igrejas históricas com as classes mais altas da sociedade nem sempre é verdadeira. Uma das maiores igrejas presbiterianas do mundo é a do México, com mais de 2 milhões de membros. Contudo, não é uma igreja da classe alta, mas sim das camadas mais pobres da população. E também é importante notar que o pentecostalismo vem avançando, no Brasil e no mundo, entre pessoas das classes mais altas da sociedade (lembrando que no exterior o pentecostalismo é diferente quanto aos usos e costumes do pentecostalismo brasileiro). Até a década de 50 no Brasil,
as maiores igrejas evangélicas eram as presbiterianas e batistas. Perderam espaço para os pentecostais e depois os neopentecostais porque foram infiltradas pelo liberalismo teológico, através dos seminários, e tiveram que enfrentar o inimigo dentro de casa. Durante as décadas de 60 e 70 os presbiterianos no Brasil estavam empenhados em sobreviver ao vírus mortal do liberalismo, que fechou muitas igrejas na Europa. O foco deixou de ser o crescimento e passou a ser a sobrevivência. Não podemos dizer que as igrejas históricas ficaram totalmente livres deste mal, mas o fato é que elas perderam muito do fervor inicial de ganhar os perdidos para Cristo.
3- “Nossa geração (e aqui incluímos a igreja) enfrenta uma crise que tem afetado todas as áreas, seja da psicologia, antropologia, sociologia, filosofia ou teologia, questões que no passado eram definidas, retornam nesta era como grandes desafios para sociedade. As questões que envolvem a homossexualidade, aborto, eutanásia, racismo, pobreza, religiosidade entre outras, voltaram para um estado de indefinição.” P: Neste aspecto a igreja parece tão desorientada quanto a sociedade. É culpa do politicamente correto ou é mais uma das , digamos, portas do inferno que a igreja enfrenta nas eras de sua edificação? - Pergunta de Ro Moreira.
Rev. Augustus Nicodemus: Na verdade, estas questões nunca foram totalmente definidas. Já na época dos pais da igreja (sécs. II em diante) encontramos alguns destes temas sendo discutidos ou sendo objeto de orientações por parte dos líderes cristãos. É verdade, todavia, que antigamente as respostas para estas questões eram mais claras e definidas. O que mudou é que a sociedade ocidental que se ergueu sobre valores cristãos se secularizou e o cristianismo cada vez mais deixa de ter sua voz ouvida na arena pública. Estas questões passaram a ser questões de estado, que na sociedade secularizada é, por definição, laico. A igreja no Brasil, além de não ter tradição de influenciar a sociedade nestas questões (como tem nos Estados Unidos e antigamente na Europa), está fragilidade em seu testemunho, pulverizada em sua unidade e é teologicamente fraca, embora seja numericamente grande. A falta de exposição bíblica, formação bíblica séria, a falta do cultivo de mentes e corações enraizados na Palavra de Deus produziu um cristianismo no Brasil que é tão extenso quanto o Amazonas ao RS mas de uma rasura de poucos centímetros…
4 - Li em um artigo do Renato Vargens que o senhor afirmou certa vez que " as Escrituras não deixam dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente; ao mesmo tempo, porém, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. " P: Como entender o fenômeno dos desigrejados? - Pergunta de Ro Moreira
Rev. Augustus Nicodemus: O termo “desigrejado” pode ser usado para pessoas que se identificam como cristãos mas que rejeitam as igreja cristãs organizadas ou institucionalizadas, particularmente as denominações, e que se reúnem em grupos informais nas casas ou em outros lugares, para leitura e estudo da Bíblia, oração e louvor e comunhão. Eu entendo a razão por que estas pessoas têm esta atitude, embora eu a considere radical e extremada – há crentes verdadeiros nas denominações e elas foram responsáveis pela tradução da Bíblia, formação de agências missionárias mundiais, criação de hospitais, escolas e orfanatos, etc. Mas “desigrejado” significa também aqueles que se dizem cristãos mas que não procuram comunhão alguma com outros cristãos, mesmo em grupos informais. É a estes que me referi. Não se pode ser cristão sem igreja. E por “igreja” eu não quero dizer igreja institucional ou denominacional, mas um ajuntamento de irmãos em Cristo para adorar a Deus, estudar sua Palavra, cantar seus louvores, celebrar o batismo e a Ceia, exercer a disciplina mútua e evangelizar. Não precisa ser uma denominação para isto. E nem precisa de templo ou CNPJ para isto.
5- As condições para o serviço cristão eficaz
"Tem sido frequentemente demonstrado que é apenas na medida em que as
pessoas forem completamente instruídas na Palavra de Deus que elas se tornarão
cristãos firmes e trabalhadores eficazes por Cristo. Há, assim, uma relação
definitiva entre a pregação doutrinária e o serviço cristão eficaz”, no
entanto, cada vez mais o que temos presenciado são cristãos superficiais,
desinteressados da mensagem da bíblia, e quase sempre e facilmente levados por
ventos de doutrinas falsas, portanto, o que pode-se fazer para resgatar valores
cristãos, ou incuti-los na atual geração? – pergunta de Ivete Paixão
Rev. Augustus Nicodemus: Boa parte deste problema é resultado de líderes fracos. Mas, tem muita gente procurando orientação e referencial nas mídias sociais, que é uma importante ferramenta para a divulgação da verdade da Palavra de Deus. Há várias maneiras de incutir valores cristãos na atual geração, como bom conteúdo nas mídias sociais, boas indicações de livros - o bom mesmo seria o surgimento de muitas novas igrejas comprometidas com a verdade bíblica e o discipulado de seus membros. Mas, acima de tudo, fazer estas coisas com atitude de amor e paciência.
6– A Igreja presbiteriana está tomando um rumo contrario de uma forma geral. Enquanto vemos uma crescente onda de pessoas se reformando, vemos um monte de igreja presbiteriana se afastando da reforma, e se “pentecostalisando”? - Pergunta de Eduardo Medeiros
Rev. Augustus Nicodemus: A pentecostalização das igrejas históricas, inclusive as presbiterianas, tem origem no movimento carismático da década de 60. Acontece porque estas igrejas históricas - ou pelo menos, uma boa parte delas - não conseguiram se adaptar e acompanhar as mudanças rápidas na sociedade em geral, na maneira como as pessoas se comunicam e nos temas que ocupam a mente do público, e continuaram dando respostas para perguntas que ninguém estava fazendo. Os movimentos pentecostais e neopentecostais são modernos, voltados para as necessidades das pessoas, como cura, trabalho, solução de problemas pessoais e por este motivo atraem seguidores de dentro das igrejas históricas, inclusive as presbiterianas. O que estamos vendo é o que tem sido chamado de pós-denominacionalismo, período em que as denominações tradicionais vão perdendo mais e mais o poder de segurar seus membros, os quais se organizam em tribos com caciques virtuais que se comunicam pelas mídias sociais. Por exemplo, a tribo dos reformados que seguem Piper, Washer, Sproul, etc. é muito grande dentro da denominação Assembléia de Deus. Da mesma forma, a tribo pentecostal dentro dos batistas, presbiterianos, etc., que seguem Malafaia e outros, também é grande.
7- Uma outra dúvida que eu tenho é: O assunto sobre batismo é essencial ou periférico ? Por exemplo, as diferenças entre batistas e presbiterianos em relação ao batismo, é algo fundamental ou periférico? Até onde isso pode atrapalhar a comunhão de irmãos dessas denominações? - Pergunta de - Eduardo Medeiros
Rev. Augustus Nicodemus: O batismo, como selo e símbolo da nossa aliança com Deus, como rito iniciatório no Cristianismo, é essencial. Ele foi ordenado pelo próprio Senhor Jesus Cristo na Grande Comissão (Mat 28:18-20). As diferenças relacionadas com a forma de batismo (aspersão, imersão, afusão) são periféricas e não deveriam nos separar.
8 - Rev.Nicodemus, é muito evidente a lepra da “Praticidade religiosa” em nossos dias na maioria ou generalizadamente em todas as igrejas, o imediatismo, a busca de um evangelho resolvedor de Problemas, o Evangelho “miojo”, e a impaciência pela lei da semeadura que nos é ensinado na Palavra de Deus, tem gerado crentes extremamente superficiais e inaptos a refletirem a vida cristã, como mudar isso Reverendo? - pergunta de Ivete Paixão
Rev. Augustus Nicodemus: O caminho bíblico para a educação, edificação, instrução dos crentes é o ministério dos pastores e mestres, conforme Paulo nos ensina em Efésios 4. Mestres que sejam fiéis à Palavra de Deus ensinarão e corrigirão os erros e desvios do rebanho, como a praticidade religiosa mencionada na pergunta. Mas o que temos hoje são muitos mestres segundo os seus próprios interesses, que promovem o erro motivados pela ganância. Se Deus não levantar pastores segundo o Seu coração, esta situação vai continuar e piorar.
9- Quanto às expressões, ou, manifestações pentecostais e neo-pentecostais em algumas IPBs? São ensinadas/aceitas nos seminários (no sentido de: há como filtrar isso nos seminários)? Como corrigir, uma vez que alguns conselhos (presbíteros e pastores) são adeptos de tal movimento? E tendo em vista que os Ministros Presbiterianos são sempre entrevistados anteriormente (pelo Conselho da Igreja) ao serem convidados para tal igreja, serem Pastores, isso para que suas convicções sejam conhecidas anteriormente! - Pergunta feita por Nando.
Rev. Augustus Nicodemus: A IPB tem tomado posição sobre temas
relacionados com o neopentecostalismo. Estas posições podem ser encontradas,
por exemplo, na "Carta Pastoral sobre o Espírito Santo” de 1998, onde a
IPB se posiciona sobre o batismo com o Espírito Santo, sobre línguas e profecia
e a contemporaneidade destes dons (veja aqui).
Há ainda outro posicionamento sobre a IURD de 2007, onde analisa suas práticas
e as considera como de uma seita (veja aqui).
O que acontece é que pastores, conselhos de igrejas, presbitérios e sínodos
simplesmente ignoram estes posicionamentos quando analisam candidatos ou julgam
denúncias de práticas estranhas à IPB. Pessoalmente, não acredito que haja
solução para isto. As denominações estão gradualmente perdendo a capacidade de
manter a coerência doutrinária de seus pastores, instituições teológicas e
igrejas.
10- Pergunte a ele se é possível uma igreja
pentecostal se denominar reformada? - Pergunta de Heuring Felix Motta
Rev. Augustus Nicodemus: Vai depender da definição de “pentecostal” e
“reformada”. Uma situação possível é de igrejas que acreditam na
contemporaneidade de dons como línguas, profecia e curas (sem que estas
manifestações se configurem em novas revelações) e ao mesmo tempo são reformadas
na soteriologia, isto é, aceitam os cinco pontos do calvinismo e os cinco
“solas” da Reforma. Todavia, um ponto central da Reforma protestante é “Sola
Scriptura”. Uma igreja que se considera reformada mas que está aberta para
novas revelações ou experiências, as quais acabam se tornando referencial de
doutrina e prática, não pode ser considerada reformada.
11– A ordem dos Pastores Batistas, acaba de
aprovar a ordenação de mulheres ao ministério pastoral. O que o Senhor
acha/pensa desta decisão? – pergunta de Raymundo Ribeiro
Rev. Augustus Nicodemus: Considero uma decisão biblicamente
equivocada, que é muito mais fruto do espírito da época do que de exegese e
interpretação bíblicas saudáveis. É mais uma organização eclesiástica
tradicional e histórica que cede às pressões da nossa cultura.
12 - Eu queria saber a opinião do senhor sobre a
junção (ou aceitação) que muitos fazem entre cristianismo e maçonaria. À luz
das Escrituras é permitido ser cristão e maçom ao mesmo tempo? Tô fazendo essa
pergunta por que há vários pastores e presbíteros maçons comandando igrejas por
aí, inclusive e principalmente igrejas Presbiterianas? Pergunta feita por – Cleison
Lima
Rev. Augustus Nicodemus: A IPB, depois de muitos anos de discussão,
posicionou-se contra a maçonaria, declarando a incompatibilidade entre a
maçonaria e a fé cristã. O histórico destes posicionamentos pode ser visto
aqui Eu
pessoalmente concordo com esta posição da IPB.
13 - Quanto ao chamado “mal do século”, a depressão. Pastores afirmam que as Escrituras são suficientes, de fato são, para resolver o problema. Há pastores preparados para lidar com esses casos? A psicologia é relevante ou não como auxilio para o pastor, ou seja, o pastor deveria fazer um curso de psicologia? - Pergunta do Fernando Junior.
Rev. Augustus Nicodemus: Pastores não precisam de um curso de psicologia para orientar e ajudar a grande maioria das pessoas que chegam em busca de ajuda para seus sofrimentos. Os casos que estão além de suas possibilidades e conhecimentos podem ser encaminhados a cristãos psicólogos, pois há situações em que a depressão tem origem em distúrbios e doenças que requerem tratamento médico.
A psicologia funciona como uma ferramenta útil de diagnóstico dos males da alma humana, mas ela está bastante limitada pelos pressupostos racionalistas e materialistas que hoje orientam as suas diversas linhas. Por não reconhecer o homem como um ser que foi criado à imagem de Deus e que se encontra afastado dele, num estado de rebelião e desobediência e inclinado para o mal, a psicologia não pode detectar a origem espiritual de muitos males, desvios, comportamentos e estados que afligem as pessoas. E consequentemente, se ela não pode dar um diagnóstico completo, que integre o elemento espiritual, também não poderá oferecer soluções adequadas e eficazes na cura destes males. Quanto à depressão, ela tem diversas causas, uma delas de natureza espiritual, que é a falta de confiança em Deus ou desobediência aos seus caminhos. Este tipo de depressão pode ser tratada mediante orientação bíblica. Mas existem casos em que outros tratamentos podem e devem ser empregados. É preciso discernimento em cada caso, para não darmos remédio para quem precisa de Bíblia e não darmos só Bíblia para quem também precisa de remédio.
14 - Sobre a banalização da fé; As igrejas históricas deveriam intervir de forma mais ostensiva, mais participativa e presente? Por exemplo: confrontar diretamente lideres e/ou denominações que têm contribuído largamente para o abandono da sã doutrina? E implantação de heresias? - Pergunta do Fernando Junior.
Rev. Augustus Nicodemus: Paulo orientou Tito sobre o confronto de falsos mestres desta forma: "Evita o homem faccioso, depois de admoestá- lo primeira e segunda vez, pois sabes que tal pessoa está pervertida, e vive pecando, e por si mesma está condenada” (Tt 3:10). A estratégia então é esta: advertir e exortar uma e duas vezes, e depois disto, entregar a Deus e passar a evitar a pessoa, pois não há mais nada a fazer.
15 - Sobre o lema: “ecclesia reformata et semper reformanda”? Acha que é preciso uma nova reforma na igreja contemporânea? Se sim, por onde começaria (visto que se ouve falar muito em revitalização da igreja)? - Pergunta do Fernando Junior.
Rev. Augustus Nicodemus: Sim, precisa. Por onde começar, não sei. Antes de Lutero afixar as 95 teses e dar início à Reforma protestante, sem ter planejado nada daquilo que veio a acontecer, vários concílios da Igreja Católica já haviam se reunido anos antes para discutir e analisar o estado espiritual e moral do cristianismo medieval. Imagino que eles deram muitas opiniões sobre o que precisava ser mudado. O que ninguém esperava era que Deus iria fazer esta reforma necessária mediante um monge agostiniano chamado Lutero que havia se convertido através da leitura e estudo da carta aos Romanos. Duvido que aqueles concílios tenham imaginado que a reforma deveria começar pela soteriologia, a doutrina da salvação. Da mesma forma, eu espero que Deus levante no tempo dele os meios eficazes para reformar a Sua Igreja no mundo.
16 - O Rev. reconhece que a IPB, hoje, apresenta
uma expressiva falta de identidade confessional, devido a pluralidade de
seguimentos doutrinários que tem brotado em seu seio, os quais, a tem afastado
dos ideais dos apóstolos, pais da igreja, pré reformadores, reformadores,
covenanters e puritanos, mostrando assim, uma infidelidade confessional, bem
como, a rejeição da história da igreja? Pergunta do Fabio Martins
Rev. Augustus Nicodemus: A pergunta tem um pressuposto equivocado. A
identidade da IPB é definida por sua fidelidade às Escrituras e os símbolos de
fé de Westminster (Confissão e catecismos Maior e Breve), e não pelos escritos
dos pais da igreja, dos pré-reformadores, covenanters e puritanos. Os pastores
presbiterianos fazem voto de fidelidade aos símbolos de Westminster e não aos
escritos destes outros grupos. Devemos lembrar que dentro da Reforma
protestante haviam diferentes linhas, mesmo entre os puritanos. Ainda assim,
encontraremos dentro da IPB pastores que se afastaram de seus votos e seguem
teologias estranhas àquela de Westminster. Eu não sei dizer se este desvio é
expressivo. A julgar pelas decisões do Supremo Concílio da IPB, eu diria que
ela continua, na sua maioria, fiel aos seus votos.
17 - Podemos dizer que um dos frutos da falta de
identidade confessional, se deve a desonestidade confessional, apresentada
pelos oficiais da IBP e também, porque não é exigida dos demais membros, uma
subscrição aos documentos confessionais e históricos que foram dados por Deus,
para nortear o conhecimento de Deus, que a igreja deve ter? – Pergunta do Fabio Martins.
Rev. Augustus Nicodemus: Há oficiais da IPB que conscientemente seguem
teologias estranhas ao presbiterianismo que um dia votaram seguir fielmente.
Estes podem ser acusados de desonestidade. Mas, em outros casos, há oficiais
que foram colocados em seus postos sem ter conhecimento algum da teologia
presbiteriana, como resultado de igrejas sem teologia e concílios que não se
preocupam com isto. Não me sinto à vontade para acusá-los de desonestidade
confessional. Acho também que os pastores neopuritanos dentro da IPB são
desonestos, pois a IPB não adota os Princípios de Liturgia de Westminster e
eles, mesmo assim, querem forçar a IPB a adotar o sistema de culto expresso ali
e práticas como salmodia exclusiva. Sobre exigir dos membros subscrição a
documentos históricos, considero um exagero. Eles vão aprender estes documentos
e a teologia reformada depois de serem membros da igreja, nas classes de Escola
Dominical e mediante dissimulado e as pregações. Querer que eles já sejam
reformados na teologia como condição para serem membros das igreja é legalismo
puro.
18. Como você vê essa aproximação entre
pentecostais e reformados? Pastor Geremias do Coutoda Igreja Assembleia de Deus.
Rev. Augustus Nicodemus: Na década de 60, o movimento carismático, que
era pentecostal em sua essência, entrou nas denominações reformadas e
históricas, dando frutos bons e ruins. Entre os bons menciono o despertamento
entre reformados e históricos para a obra do Espírito em nossos dias. Entre os
ruins, o divisionismo, a amargura e a cisão. Agora, vemos o movimento
contrário, a teologia reformada entrando no campo pentecostal. Aguardo bons
frutos, como um maior interesse dos pentecostais pelo estudo sério da Palavra,
pelas doutrinas da graça, pela pregação expositiva. Espero que os frutos ruins
não brotem, como novos reformados fanáticos e zelotes ou pentecostais que
abraçam da Reforma apenas aquilo que lhes agrada, esquecendo que a teologia
reformada é muito mais ampla do que os cinco pontos do calvinismo ou os cinco
solas (slogans) da Reforma.
19- Obrigado minha amiga pela gentileza do convite.
Pergunte ao Reverendo, se ele faz diferença entre pentecostais e neo
pentecostais. Pastor Robson Aguiar – Igreja Assembleia de Deus.
Rev. Augustus Nicodemus: Faço, sim. O pentecostalismo histórico clássico
nasceu da convicção de que Deus estava restaurando todos os ministérios, dons e
prodígios encontrados no Novo Testamento, à exceção do oficio de apóstolo.
Enfatizava o batismo com o Espírito Santo evidenciado pelas línguas e aceitava
revelações e profecias. O neopentecostalismo surge de dentro do pentecostalismo
com estas mesmas convicções, mas acrescentando a restauração do oficio de
apóstolo, adotando a estratégia do G-12 e do Modelo de Discipulado Apostólico,
modelos de igrejas independentes e lideradas por uma pessoa apenas e pregando a
teologia da prosperidade. A Igreja Presbiteriana do Brasil reconhece
denominações como a Assembléia de Deus como irmã, mas considera como seitas igrejas
neopentecostais que pregam a teologia da prosperidade.
20 . Rô, gostaria de no mínimo, três perguntas
sobre a relevância da igreja nos dias atuais. Igrejas em busca de relevância se
tornaram uma preocupação na mente de tanta gente que dá vontade de perguntar:
como elas sobreviveram até hoje, num mundo tão competitivo, sendo irrelevantes?
Numa
sociedade secularizada e massificada por valores contrários aos das igrejas,
como elas ainda existem, crescem e ainda preocupam tanta gente que se sente
incomodada com elas? Parece que igreja é o negócio mais irrelevante do mundo e
que alguns descobriram agora como torná-la relevantes, funcionais e
interessantes. Não creio que a questão por trás de tudo seja relevância ou sua
ausência. Há outras mais. Pretendo mostrar isto neste trabalho. E também
mostrar que esta preocupação não tem sentido. A questão se torna mais aguda
quando tentamos entender o que se quer dizer com isso. Porque relevância não é
contemporaneidade. É importância. Neste sentido, dizer que a mensagem da igreja
não é contemporânea, é verdade. Mas é importante. Porque importância não é
contemporaneidade, mas ter valor ainda hoje. Quem queira dizer que sua mensagem
não tem importância hoje não aborda mais a questão de forma ou de modelo, mas
nega a essência de sua pregação. Que relevância querem impor à igreja?
Relevância não é quantificável. Nos termos em que está sendo disposta é questão
de opinião. Por isso levanto a questão: o que é relevância e por que a igreja
deve ter o que chamam de relevância? - Reverendo Ricardo Rodrigues
Rev. Augustus Nicodemus: Quando eu digo que a igreja tem que ser relevante,
me refiro à sua forma e método de pregar a verdade do Evangelho, a qual é
sempre atual e inegociável, bem como a maneira pela qual ela, a igreja, aplica
estas verdades eternas à sua situação ou ambiente vivencial. Acho que Paulo
estava querendo ser relevante quando ele disse que se fazia como judeu entre os
judeus e se fazia de gentio entre os gentios (1Coríntios 9). Quando estava
entre os judeus, Paulo falava como judeu e se comportava como judeu (o que era
fácil, pois ele era um judeu) para ser ouvido. De que adianta você ter a
verdade mas não ter quem queira ouvi-la? De que adianta você ter a verdade mas
não saiba como mostrar de que maneira ela impacta as questões sobre as quais
todo mundo está falando? Relevância é anunciar o Evangelho eterno e imutável de
maneira que as pessoas ouçam e percebam como de fato este Evangelho é o poder
de Deus para salvar pecadores no século XXI. Todavia, a busca pela relevância
nunca deve nos levar a diminuir as exigências radicais do Evangelho.
21. Rev. Nicodemus o senhor foi a favor da
saída da IPB da associação mundial de igrejas reformadas. Luciano Betim (lucianobetim@hotmail.com)
Rev.
Augustus Nicodemus: Creio que se refere a World Association of Reformed
Churches (WARC). Sim, fui a favor. Na ocasião
da decisão, ficou claro pelo exame dos documentos apresentados no Supremo
Concílio da IPB que a WARC estava no caminho do liberalismo teológico e
apoiando a agenda associada com este liberalismo. “Como andarão dois juntos se
não estiverem de acordo”? A IPB preferiu associar-se à World Reformed
Fellowship (WRF), que é bem reformada e teologicamente firme, e que reúne
igrejas, denominações e instituições reformadas do mundo inteiro.
22. Boa noite Rô, a minha pergunta é se existe
esperança, ou possibilidade de acontecer uma nova reforma entre as igrejas? Sandra Regine Rodrigues
Rev. Augustus Nicodemus: Creio que Deus é soberano e todo poderoso. Ele pode
abençoar seu povo mais uma vez. Historicamente, contudo, não há mais aquela
convergência de fatores históricos que permitiram a Reforma do sec. XVI, quando
havia apenas uma igreja a ser reformada, que era a Católica. Hoje há centenas de
denominações protestantes, além da igreja católica. Portanto, se vai haver uma
reforma, ma parece que terá de ser diferente, quanto ao modo, daquela do séc.
XVI. Mas, é melhor deixar Deus cuidar disto. Cabe-nos orar e ensinar a Palavra,
o quanto pudermos.
23. Como o Reverendo vê a tentativa de
reavivar o anglicanismo reformado no Brasil,e como ele vê o movimento
neo-puritano? Marcelo Lemos
Rev. Augustus Nicodemus: Não estou a par deste movimento entre os anglicanos
no Brasil, mas saber disto me alegra. Anglicanos reformados como John Stott, J.
I. Packer, J. C. Riley e outros publicaram muito material bom. Seria bom ver
outros como eles em nossos dias. Sobre o movimento neopuritano, a IPB já tomou uma
posição em que considera as práticas neopuritanas como estranhas em seu meio.
Considerações finais:
Agradeço imensamente pela solicitude dispensada a nós, desta nobre intenção de propormos uma reflexão sobre a Igreja moderna e seus rumos, e sendo assim, de forma, muito Cristã e carinhosa o Reverendo Augustus Nicodemus Lopes, nos atendeu da melhor e mais solicita possível, agradeço a amada irmã Ivete Paixão, que de forma empenhada me auxiliou na busca pelas questões e participantes, e também, não posso deixar de agradecer imensamente a cada participante com suas duvidas, questões e diálogos propostos em forma de pergunta! desejo muito que todos possam ser edificados e que juntos possamos refletir estes apontamentos teológicos para a igreja atual moderna! Boa leitura a todos! Graça e paz da parte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Cabeça da Igreja!
A entrevista do Rev. Augustus Nicodemus Lopes, como já mencionado foi concedida a Rô Moreira, e pode ser conferida em seu sítio original clicando aqui!



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